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Deus e o Diabo
Angela Lara
Amanheceu...depois da chuva e nenhum vinho. Fui acometida por
marcas de noites e guerras delirantemente sem nexo. Estou vazia e
também cansada das manhãs. Amanhece todos os dias.
Quero escrever o que resta, rasgando a seda pura que não cobre um
décimo sequer de minha razão. Latentemente sobrevivo, às custas do
que não me custeia.
-Escuta! Não vejo as ditas pautas e o que me oculta é a pressão de
panela, é a larva, é o fato de ter um Diabo instalado nas
artérias, que se inquieta, se questiona e de tanta fome, morre de
inanição, diante do banquete servido só pra ele e eu???
-Sente! - sei também que Deus me habita e se manifesta quando
acredito na tal felicidade, quando me humanizo e me entrego,
principalmente quando amo. Deus, não me permite às interrogações,
por isto não me abandona.
Só que esta puta realidade, nos deixa próximos da loucura.
Sexo perto da divindade?
Que luxúria!
Pecado???
Já memorizei as parábolas infinitas do esquecimento e quanto mais
eu penso, acaba doendo minha falta de estrutura e para não abalar
e sondar o meu eu imperfeito: não faço perguntas, as respostas vão
me parecer mentirosas. Meus ouvidos foram gastos pela erosão,
foram guilhotinados. Nada de Grave !!!
Beiradas de mesas, não suportam meus cotovelos. A comida foi posta
na latrina, por condutores naturais e eu pergunto: Não existo? -
Verei depois ...
E o Diabo grita de um lado:
-Sua puta!
E Deus grita do outro:
-Minha filha!
Aiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
Meu pai ... minha mãe e eu, três pessoas absolutamente distintas
uma da outra. Sou meu pai, nas decisões e minha mãe, eu a tenho no
útero dos filhos que não deixei nascer... nunca nenhum "filho-da-puta"
perguntou se doeu, e eu grito que do gozo à morte, "meus amores",
há um pequeno espaço saliente, assim como uma lepra, uma ferida
nojenta e o que disfarça o cheiro, é o perfume barato, a maquiagem
ou o sêmem de um homem que me cobre em alguma manhã.
Viajo nas permutações obscuras de meu dia a dia. Eu sei que dói,
mas é preciso escrever, dormir e ainda não arrumei a casa. Quero
viver deliberadamente, mas preciso ser feliz, desesperadamente,
antes que eu morra pelo simples prazer de querer...
Só me confesso às linhas...nelas eu sangro. É preciso ser feliz,
mesmo que agora só uma parte de mim, sobreviva, mesmo que depois
eu não tenha a lama como salvação, mas hoje, especialmente hoje,
eu preciso.
Sei que estou em tormento, mais do que uma cópia, é o arremesso de
uma escala indefinida de emoção e pesares diferentes.
Não queiram me entender, do que eu preciso são de alternativas,
uma medida que me tire das ruínas. Estou abruptamente cansada,
fatigada de tanto escarlate e azul. A manhã nasceu azul e toda a
minha essência se proliferou por espaços pequenos e até bons. Tive
vontade de chorar uma lágrima minha, vontade de sorrir um riso
meu, não este que sorrio pra levantar o astral da população, mas
um que me faça sentir de fato feliz, assim como um gozo, um facho
de luz.
Não pensem que estou delirando. A galera não entenderia. A defesa
me esconde. Que Bom!!!
Não espero absolutamente nada de quem me faz companhia e se me
perguntarem do que eu preciso, direi: - quem sabe a eternidade ou
então uma aventura. No fundo, eu permaneço calada.
Ai, desculpa! Estou manchando o papel.
O pior, são estas coisas de falta, que consomem a gente.
Estou triste e até quero ficar... quero morrer de tanta tristeza e
por não acreditar nesta inútil realidade, me reproduzo em uma,
duas mil fantasias, daí eu sou desgraçadamente feliz.
E o Diabo grita de um lado:
-Abre as pernas...
E Deus suaviza:
-Te entrega ...
Ai...
Não estou molhada suficientemente para a penetração e nem livre o
bastante para a entrega, então que me fode é a consciência.
Acabo vomitando minha alquimia na asa de um pássaro que se
descuida e derruba a minha essência, transformando-a em gotas de
orvalho. Já me sinto um pouco maior. Já não sou uma favelada com
boca e olhos de inocência. Já não me sinto envergonhada de ter
acordado em quartos que eu não conhecia. Eu não pedi que me
deixassem sozinha e também não queria ter molhado o peito cabeludo
de um certo cara que me fez contente. Antes de me sentir completa
e debilmente mutilada, eu não calei a minha loucura e muito menos
menti sobre o meu desejo.
A humanidade está triste e também tenta se defender da exposição
demasiada de sentimento. Sentimento? Ou medo da solidão?
Sentimento ou uma simples trepada?
A humanidade põe concreto sobre a ferida. Estamos sozinhos, apesar
da super população. Somos todos carentes e cada vez há menos
gente, por não viverem de acordo com suas loucuras.
Hoje eu não vou fazer as malas, por que ainda é inverno e eu não
sei dormir sozinha. Prometo que vou acordar e também não vou
cobrar nada de quem não consegue sacar minha fantasia. Prometo que
não vou te atrapalhar com mandingas e nem vou escrever cartas, te
revelando segredos.
Hoje eu vou levar minha psicose pro fundo do quintal e vou plantar
sementes de ilusão no neonazismo de minha paixão improdutiva. Sou
nada, mas eu quero ser nada. Supostamente me flagro por
inspirações dementes.
Não me surpreendem os espinhos, não me congela a distância.
Quero ficar sozinha hoje. Amanhã é outro dia, só vou saber quando
anoitecer.
Quero o mar, preciso do mar para renovar minha porção de menina, é
que estou desgastada de tanta cachaça e alegria, preciso de um
hímem para sentir a dor de uma curra. Quero ser currada virgem pra
ver qual a diferença da entrega que eu tive.
Bem, mas a vida não me sugou por inteiro, meus amigos. Os seres
tão maravilhosamente humanos, não calaram a minha boca. Já quero
bem mais do que antes; os meus sonhos deixaram de ser alegorias.
Aprendi a conviver com minha paixão. Tenho um Diabo que me alucina
e um Deus que me humaniza. Tenho um Diabo que me põe de quatro e
um Deus meu, que me eleva e eu, já não me sinto sozinha. Só
isso...
1988 |
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