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Diário de Bordo |
| Fernando
Muratori |
Primeiro dia no João Martins
Após termos saído de casa quase à noite
e dormirmos em Presidente Dutra (11/07/2003) em um hotel que nem tinha sabonete,
chegamos em Colinas hoje de manhã. Encontramos com meus tios e meus primos e
viemos para cá. Não foi uma surpresa, eu diria, que no fim do mundo (João
Martins) não houvesse energia elétrica, banheiro, cama, fogão à gás, água
na torneira, etc... Confesso que não sabia se sentava no chão ou na cadeira,
pois não sabia qual era o mais sujo. Pensei em ligar para algum amigo para
contar a história, mas me lembrei: não tem telefone, nem sinal de celular.
Pelo menos trouxemos bastante comida e água (eu não estou disposto a caçar nem
a pegar água no rio).
Fomos vacinar as ovelhas, depois apanhar o
estrume. Foi quando descobri que meus exercícios diários de levantamento de
guitarra são insuficientes. No primeiro saco eu joguei a toalha, enquanto os
homens tiravam onda com a minha cara.
Enquanto isso, meu pai botou no som do
carro um forró para animar os caboclos.
Mais tarde almoçamos e fomos tirar um
cochilo embalados pela doce melodia dos chocalhos das ovelhas, com vocal das
próprias.
É, começa a vacinação! Uma
complicação
terrível. Minha função foi anotar o gado vacinado. Mas o vaqueiro não dizia
coisa com coisa, dava as informações de um boi, que eu pensava que era outro,
uma merda! E como começamos tarde, tivemos que continuar no dia seguinte. Meu
pai, além de tudo, regulou a pistola para 5ml, achando que tinha regulado para
2, ou seja, a vacina acabou. Mais o mais bonito disso tudo foi a dança dos
vaqueiros com o gado.Vaqueiros pra cá, boi pra lá, levantando pé de bosta pra
todo lado. E eu entrava na dança: espirrando muito!
À noite ficamos conversando à luz de um
lampião, enquanto meu pai batucava um pandeiro (detalhe: ele não consegue
cantar e batucar ao mesmo tempo). Agora vamos dormir.
Segundo dia no João Martins
Após uma noite pessimamente dormida,
devido ao descostume da rede e à falta de sono (fomos dormir muito cedo), me
acordaram para o café da manhã, estava um friozinho interessante. Este mesmo
frio fez meu tio Ivaldo quase não conseguir tomar banho no rio, diga-se de
passagem, que crueldade!
A vacinação continuou sem nenhuma
novidade, a não ser que ficou mais lenta ainda, pois o brete (determinado espaço do curral onde se prende o gado prestes a ser vacinado) arrebentou,
então tivemos que ir laçando as cabeças uma por uma para vacinar. A tia
Angelita foi embora por volta das 11h, mais tarde voltou, pois havia um coqueiro
caído no meio da estrada e chamou dois homens para remove-lo. Almoçamos uma
carne mau passada cheia de gordura com um arroz todo grudado.
Depois do almoço, nada de interessante.
Bem, amanhã eu vou embora.
Terceiro dia no Joao Martins
Tanto encheram A paciência da minha mãe
por ela ter comprado muita comida e água. No fim das contas não sobrou quase
nada. O povo daqui voa em cima das coisas que agente trouxe, pois eles nunca
tem oportunidade de experimentar.
Durante esses dias pensei no seguinte
fato: estes moradores daqui viveram toda a vida aqui. O máximo de civilização
que conhecem é a pequena cidade próxima, onde todos se conhecem e gastam o
tempo ocioso falando da vida dos outros, que por sinal também estão falando da
vida dos outros, e assim por diante. Portanto, não saberiam viver em outro
lugar, e devem achar aqui o melhor lugar do mundo, ao contrário de mim. Tudo é
adaptação, e eu não me adaptaria nunca. Por isso dou
graças a Deus que estou indo embora!
Falou, João Martins!
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