Retrato Falante





N�o h� quem n�o se espante, quando
mostro o retrato desta sala,
que o dia inteiro est� mirando,
e � meia-noite em ponto fala.

Cada um tem sua raridade:
selo, flor, dente de elefante.
Uns t�m at� felicidade!
Eu tenho o retrato falante.

Minha vida foi sempre cheia
de visitas inesperadas,
a quem eu me conservo alheia,
mas com as horas desperdi�adas.

Chegam, descrevem aventuras,
sonhos, m�goas, absurdas cenas.
Coisas de hoje, antigas, futuras...
(A maioria mente, apenas.)

E eu, fatigada e distra�da,
digo sim, digo n�o - diversas
respostas de gente perdida
no labirinto das conversas.

Ou�o, esque�o, livro-me - trato
de recompor o meu deserto.
Mas, � meia-noite, o retrato
tem um discurso pronto e certo.

Vejo ent�o por que estranho mundo
andei, ferida e indiferente,
pois tudo fica no sem-fundo
dos seus olhos de eternamente.

Repete palavras esquivas
sublinha, pergunta, responde,
e apresenta, claras e vivas,
as inten��es que o mundo esconde.

Na outra noite me disse: "A morte
leva a gente. Mas os retratos
s�o de natureza mais forte,
al�m de serem mais exatos.

Quem tiver tentado destru�-los,
por mais que os reduza a peda�os,
encontra os seus olhos tranq�ilos
mesmo rotos, sobre os seus passos.

Depois que estejas morta, um dia,
tu, que �s s� desprezo e ternura,
saber�s que ainda te vigia
meu olhar, nesta sala escura.

Em cada meia-noite em ponto,
direi o que viste e o que ouviste.
Que eu - mais que tu - conhe�o e aponto
quem e o que te deixou t�o triste."

Cec�lia Meireles



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