• Os Poemas

  • Soneto de Amor Total

  • Fumo

  • Fortaleza

  • Te Amo

  • Amigo Velho

  • O Mundo é Grande

  • Traduzir-se

  • Canção na Plenitude

  • Vida Ateliê

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    Os Poemas

     Os poemas são pássaros que chegam

    não se sabe de onde e pousam

    no livro que lês.

    Quando fechas o livro, eles alçam vôo

    como de um alçapão.

    Eles não têm pouso

    nem porto

    alimentam-se um instante em cada par de mãos

    e partem.

    E olhas, então, essas tuas mãos vazias,

    no maravilhado espanto de saberes

    que o alimento deles já estava em ti...

    Mário Quintana

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    Soneto de Amor Total

    Amo-te tanto, meu amor...não cante

    O humano coração com mais verdade...

    Amo-te como amigo e como amante

    Nunca, sempre diversa realidade.

    Amo-te afim, de um calmo amor prestante,

    E te amo além, presente na saudade.

    Amo-te, enfim, com grande liberdade

    Dentro da eternidade e a cada instante.

    Amo-te como um bicho, simplesmente.

    De um amor sem mistério e sem virtude

    Com um desejo maciço e permanente.

    E de amar assim muito amiúde

    É que um dia em teu corpo de repente

    Hei de morrer de amar mais do que pude.

    Vinicius de Moraes

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    Fumo

     Longe de ti são ermos os caminhos,

    Longe de ti não há luar nem rosas,

    Longe de ti há noites silenciosas,

    Há dias sem calor, beirais sem ninhos!

    Meus olhos são dois velhos pobrezinhos

    Perdidos pelas noites invernosas...

    Abertos, sonham mãos cariciosas,

    Tuas mãos doces, plenas de carinhos!

    Os dias são Outonos: choram... choram...

    Há crisântemos roxos que descoram...

    Há murmúrios dolentes de segredos...

    Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!

    E ele é, ó meu Amor, pelos espaços,

    Fumo leve que foge entre os meus dedos!...

    Florbela Espanca
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    Fortaleza

    Filha do Sol! Filha do rei! Princesa!

    é de estrelas teu mágico diadema!

    Não tens o sangue azul,  mas, com certeza,

    descendes de uma deusa, que é Iracema.

     

    E vem da tua olímpica realeza

    o radioso esplendor e a graça extrema

    que te fazem, querida Fortaleza,

    tão bela e musical como um poema!

     

    Teu verde mar, como um jardim, florindo

    em velas brancas no horizonte infindo...

    E o coqueiral que ostenta, ao Sol, a palma...

     

    São teus feitiços de que sou cativo...

    É a tua alma, cidade! E nela eu vivo,

    como tu vives dentro da minha alma!

    Filgueiras Lima

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    Te amo

     

    Não te amo como se fosses rosa de sal,

    topázio ou flecha de cravos que propagam o fogo:

    te amo como se amam certas coisas obscuras,

    secretamente, entre a sombra e a alma.

     

    Te amo como a planta que nao floresce

    e leva dentro de si oculta, a luz daquelas flores,

    e a graça a teu amor vive escuro em meu corpo

    o apertado aroma que ascendeu da terra.

     

    Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,

    te amo diretamene sem problemas nem orgulho:

    assim te amo porque não sei amar de outra maneira,

     

    Senão assim deste modo em que não sou nem és,

    tão perto que tua mão sobre meu peito é minha,

    tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho

    Pablo Neruda

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    Amigo Velho
     Pode haver nada mais confortável neste mundo

    do que um amigo velho?

    Não tem surpresa conosco,

    mas também não espera de nós

    o que não podemos dar.

    Não se escandaliza com o que fazemos,

    não se irrita, ou, se se irrita, é moderadamente...

    Não precisa a gente lhe explicar nada,

    o mecanismo de novos interesses

    e até mesmo de novos amores,

    porque o velho amigo

    conhece todos os nossos mecanismos.

    Mas, além dessa capacidade

    de compreensão quase infinita,

    se o amigo velho nos é

    acima de tudo precioso

    é porque preciosos também

    somos nós para ele.

    Rachel de Queiroz

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    O Mundo é Grande

     

    O mundo é grande e cabe

    nesta janela sobre o mar.

    O mar é grande e cabe

    na cama e no colchão de amar.

    O amor é grande e cabe

    no breve espaço de beijar.

    Carlos Drummond de Andrade

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    Traduzir-se

     Uma parte de mim

    é todo mundo:

    outra parte é ninguém:

    fundo sem fundo.

    Uma parte de mim

    é multidão:

    outra parte estranheza

    e solidão.

    Uma parte de mim

    pesa, pondera:

    outra parte

    delira.

     

    Uma parte de mim

    almoça e janta:

    outra parte

    se espanta.

    Uma parte de mim

    é permanente:

    outra parte

    se sabe de repente.

     

    Uma parte de mim

    é só vertigem:

    outra parte,

    linguagem.

     

    Traduzir uma parte

    na outra parte

    _ que é uma questão

    de vida ou morte _

    será arte?

    Ferreira Gullar

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    Canção na Plenitude

      Não tenho mais os olhos de menina

    nem corpo adolescente, e a pele

    translúcida há muito se manchou.

    Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura

    abrandada pelos anos e o peso dos fardos

    bons ou ruins.

    (Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)

    O que te posso dar é mais que tudo

    o que perdi: dou-te os meus ganhos.

    A maturidade que consegue rir

    quando em outros tempos choraria,

    busca te agradar

    quando antigamente quereria

    apenas ser amada.

     

    Posso dar-te muito mais do que beleza

    e juventude agora: esses dourados anos

    me ensinaram a amar melhor, com mais paciência

    e não menos ardor, a entender-te

    se precisas, a aguardar-te quando vais,

    a dar-te regaço de amante e colo de amiga,

    e sobretudo força - que vem do aprendizado.

    Isso posso te dar: um mar antigo e confiável

    cujas marés - mesmo se fogem - retornam,

    cujas correntes ocultas não levam destroços

    mas o sonho interminável das sereias.

    Lia Luft

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    Vida Ateliê

    Pouca gente se dá conta

    mas estamos preparando

    sem pensar e aos poucos

    sem saber e sempre

    a nossa máscara da velhice.

    Estamos durante a vida

    desde meninos

    esculpindo talhe a talhe

    a forma da escultura

    na qual teremos resultado.

    Estamos preparando a mostra,

    a vernissage do nosso rosto definitivo.

    Seremos, no desfecho

    a cara com as linhas da coroa

    e vice versa,

    nosso avesso lá estará,

    no hidrográfico bordado dos rios do riso

    e dos rios do sofrimento.

    Estamos, em nosso caderno de rosto,

    grafitando nosso mapa.

    Nossos espasmos e anemias

    nossos impulsos e paralisias estarão lá,

    toda postura do corpo

    toda vivência curva da coluna

    todo pescoço engessado

    todo medo

    todo peito empinado

    toda pélvica e espalhada felicidade

    estará na síntese desse rosto.

    Estamos preparando a face

    que testemunhará o que fizemos de nossas vidas

    e com ela dormiremos na eternidade.

    Estamos, durante a vida, germinando

    o último espelho.

    Sem percebermos

    Temos pincéis, tintas, milhares de cores, misturas e matizes

    na palheta, amores, goivas, solventes, dores, telas, formões

    aquarelas e lápis nas mãos.

    Tecelões do cotidiano, estamos urdindo a trama

    estamos tramando o nosso rosto final.

    Quem sabe não se revele um traço confinando a boca

    à um ataúde do "contrariado", aquela boca em "U" invertido

    para baixo, com os cantos caídos

    boca de quem não protestou em verbo

    e cuja ebulição zangada e silenciosa

    passou para todos apenas como mimo

    ou mero descontentamento.

    Estamos durante o enredo

    desenhando a testa com preocupações, ocupações

    ócios, diversões ou horas de aconchego.

    Esculpindo estamos o rosto

    que será a nossa cara dos capítulos finais

    essa cara- identidade, cujo rascunho valeu

    e cujo ensaio valerá

    representará no eternidade do brilho do olhar

    nossa capacidade de estréia,

    nossa habilidade em diluir rancores,

    em transformar dissabores em aprendizado.

    Tempestades e bonanças, ilustram bem a empreitada.

    Lágrimas só de dor e desgosto vincam com facilidade o rosto,

    aquele cujo sujeito, dono do corpo

    eleja o sacrifício às gargalhadas da alegria vindas do coração.

    Essas remoçam, coram as bochechas

    com um rouge natural,

    fazem boas marcas em torno da boca

    e ainda reforçam o tal brilho do olhar

    já o amor, é ótimo pirógrafo, ( que palavra oportuna e linda!),

    marca nele sulcos de toda sorte.

    Noites e dias de um tempo bem passado

    também contam na construção do retrato,

    mas cuidado: fotogênica e triste

    a amargura produz vincos fundos

    tatuando –se fácil na estampa de quem não soube

    chorar de alegria, nos olhos de quem não soube perdoar,

    no nariz de quem não sentiu o cheiro do amor

    nos lençóis, nos temperos, na boca de quem nunca pode dizer bom dia.

    (Quero para mim, uma simpatia generosa

    pregada no rosto de minha velhice,

    quero olhos vivos de novidades

    que sorriam sempre,

    quero rugas de bons e repetidos gestos

    de contemplação ,indignação,

    revolução e contentamento.

    Quero no meu rosto o bom retrato falado

    de cada vão momento:

    na cama com amor

    na mesa com os filhos

    no bar com os amigos

    na noite sobre o travesseiro de macela

    nas festas com os cúmplices de caminho

    nas decisões sensatas de trabalho ... .

    tudo isso o rosto fotografa

    e eu quero nele essas fotografias.)

    Seremos nosso porta - retrato

    e já estamos portando essa tela.

    Nela estará certamente uma verdade anterior

    a superestimação dos bisturis periféricos da vaidade

    que nada podem contra o que se viveu,

    o como se viveu.

    Pois o que projeta define e esculpe a face

    é o que nos cabe diariamente:

    a gestão dos nossos acontecimentos,

    a quantidade de natureza que se experimentou, as doses de buzinas urbanas

    os saldos de bancos, sonhos e mugidos atingidos na longa jornada.

    Isso é o que importará,

    os acontecimentinhos diários,

    a quantidade de arroz soltinho que se fez durante a lida

    o tempero de alho do feijão amoroso

    o gozo junto com o companheiro

    tudo vai pra conta da cara da velhice

    tudo vai pra lá.

    Nosso rosto de velhos

    é o nosso ultimo boletim na escola da vida,

    e a expressão que tiver afinal

    será nossa obra de arte

    nossa prova dos nove

    nossa prova real

    Com mais porção disso ou daquilo,

    de atenção ou descaso

    será com esse espelho final

    de vitória ou arraso

    que desfilaremos

    sob a ilustre iluminação do ocaso.

    Elisa Lucinda

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