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Se eu vos disser que sou uma boneca, vocês
pensam logo que eu sou bonita. "É uma boneca",
não é isso que as pessoas costumam dizer? Preparem-se
para uma surpresa: não sou bonita. Mesmo nada bonita. E ainda
não fui capaz de descobrir por que razão... Terá
havido algum erro na linha de produção? Será
que faço parte de um projecto que afinal não vingou?
Não faço ideia. Mas tenho a certeza absoluta de que
sou única.
Quando estava na fábrica, esperando para ser enviada sabia
lá para onde, olhava para as minhas irmãs, todas elas
de longos cabelos loiros, de grandes olhos verdes, e julgava que
era também assim. Confesso que foi um choque quando descobri
que o meu cabelo era loiro, sim, mas não era macio, era rebelde
e sem vida, e na verdade os meus olhos eram verdes, mas tão
míopes que era obrigada a escondê-los atrás
de grossas lentes... a minha pele, ao invés de saudavelmente
fresca, estava coberta de borbulhas. Se a isto acrescentarem que
os meus dentes mais pareciam os de um castor, bem... não
é uma imagem muito lisonjeira, pois não?
Era difícil viver com aquela realidade, principalmente na
actual sociedade em que a aparência parece ter um papel tão
importante e é quase obrigatório para qualquer mulher
ter um aspecto saudável, belo, com uma bonita pele, o cabelo
bem arranjado e dando a impressão de ter passado as últimas
cinco horas a fazer ginástica!
Ali estava eu pois na loja, sentindo-me deslocada e todos os dias
esperando que alguma menina apontasse para mim e dissesse: "Mamã,
quero aquela..."
Coisa que, infelizmente, não aconteceu. Eu era optimista
por natureza mas à medida que o tempo passava tornava-me
cada vez mais triste e sem esperança. Ninguém me compraria!
Para que é que alguém quereria uma boneca feia? Dei
voltas e voltas ao assunto na minha cabeça e concluí
que a única solução era tornar-me bonita, não
importava qual fosse o preço a pagar!
Depois de uns quantos telefonemas, tive que admitir a verdade: o
preço a pagar importava! Se eu queria fazer uma operação
plástica ao nariz, um tratamento à pele num instituto
de beleza e ficar com o cabelo brilhante e suave como a seda era
melhor que pensasse em poupar bastante. Não fazia ideia de
quanto dinheiro era necessário só para manter uma
aparência decente... admito que foi uma enorme desilusão,
mas consegui ultrapassá-la de uma forma inesperada: a fim
de encher o tempo dediquei-me à leitura e depressa descobri
que, em vez de mero passatempo, isso se estava a transformar numa
verdadeira paixão. Em pouco tempo consegui ler todos os livros
que havias na loja. E suspirava por mais. De forma que me tornei
membro da Biblioteca local e pude ler tanto quanto queria: Kafka,
Beauvoir, Sartre, Valtari, Remarque, Hemingway, Gorki, Tolstoi,
Dostoievski, Kerouac... passava a maior parte do dia a dormir para
poder estar em paz e silêncio enquanto trabalhava durante
a noite, visto que eu já não me limitava a ler, estava
a tirar um curso por correspondência. Queria ser economista.
Já não me importava se alguém me iria comprar
ou não. De facto, os meus planos seriam alterados se alguém
pensasse em adquirir-me, agora que estava quase a completar os meus
estudos...
Parece que a vida é feita de surpresas: fui inesperadamente
comprada por uma jovem mulher que sem dúvida queria outra
coisa mas pensou que eu talvez servisse. Comprou-me a fim de que
a sua filha me oferecesse de presente a uma amiguinha. Fui embrulhada
em papel colorido e levada para um lugar que não me pareceu
muito longe da loja. Não pude ver nada, evidentemente, apenas
ouvi o motor de um carro e, depois de dias de uma total escuridão
fui subitamente rodeada de luz, risos e pessoas. Principalmente
crianças.
Era uma bela festa com imensas coisas boas para comer, pratos de
papel engraçados, chapéus de papel, refrigerantes,
cachorros quentes, sanduíches cortadas em triângulo,
bombons e um enorme bolo de aniversário com duas rosas de
massapão e uma inscrição doce que dizia: "Parabéns!"
Uma rapariguinha de cabelo escuro e intensos olhos azuis agarrava-me
com força. Era ela portanto a minha dona. Óptimo.
Gostei dela no mesmo instante em que a vi. Pensei que nos tornaríamos
boas amigas. Pela parte que me cabia, eu estava disposta a dar o
meu melhor. Tudo estava a decorrer bem até que um dos convidados,
uma loura magrinha, disse: "Mas que espécie de boneca
é essa? É feia, feia, feia!"
Todas as outras crianças romperam de imediato num coro acusatório:
"Fei-a! Fei-a! Fei-a!"
-Consegues imaginar coisa mais horrível?
Onde será que ela a arranjou, num caixote do lixo?
-Bem, tenho que admitir que tem um certo charme...
-Charme?! Que é que queres dizer com isso, "charme"?
É algum novo sinónimo de feio?
-Disparates! O que é a beleza, afinal de contas? É
acima de tudo uma questão de moda, trata-se de dizer: "olha,
isto está na moda, isto é bonito"
-Deve estar a brincar!
-Não, não estou!- ouvi o homem replicar. Ele era o
pai da rapariguinha do aniversário. Esta conversa aconteceu
alguns dias depois da festa. Eu já estava acostumada à
linda casa que era agora o meu lar e percorria-a à vontade
durante a noite. Deduzi que o homem (que era um artista plástico)
tinha de ganhar bom dinheiro na sua profissão para poder
ter uma casa como aquela. Tomou de novo a palavra e eu ouvi-o com
atenção:
-Se amanhã eu afirmasse : "Olhem, isto é Belo",
todos acreditariam!
-Bem, eu não!
-Espera e verás - disse o artista, aspirando o fumo do seu
charuto - Espera e verás...
No dia seguinte acordaram-me bastante cedo. Alguém
me pôs um vestido de veludo preto, sapatos pontiagudos cor
de prata e uma rapariga atraente fez-me um penteado extravagante.
Sentaram-me numa cadeira de madeira que mais parecia um trono, luzes
fortes atingiram-me no rosto e encandearam-me, o calor do estúdio
quase me fez desmaiar.
Uma semana mais tarde eu estava na capa das mais importantes revistas
de moda do mundo. O telefone não parava de tocar convidando-me
para comparecer em programas de televisão, desfiles de moda,
entrevistas na rádio... pouco depois fui considerada a boneca
do ano. Passaram-se alguns meses e fui eleita a boneca da década.
Estilistas mundialmente famosos imploravam o privilégio de
desenhar roupas para mim. Empresas de cosméticos ofereciam-me
pequenas fortunas para que eu publicitasse os seus produtos.
Eu anunciava perfumes franceses, roupas desportivas, carros, sabonetes,
cremes... Cada vez que eu saía havia fotógrafos desejosos
das minhas fotografias e pessoas desejosas do meu autógrafo.
Havia até rumores de uma possível história
de amor entre mim e um belo e famoso actor de Hollywood...
Quanto a mim... bem, depois de um certo esforço consegui
terminar o curso. Quando hoje em dia me vejo ao espelho, faço-o
sem sentimentos desagradáveis. Vejo as lentes grossas (nunca
me adaptei verdadeiramente às lentes de contacto), a pele
cheia de imperfeições, o cabelo seco e, apesar da
opinião do mundo inteiro, continuo a ver-me como uma boneca
feia. Mas há duas grandes diferenças em relação
à forma como eu me via antes: aprendi a aceitar-me tal como
sou. E, graças aos meus estudos, consegui investir o dinheiro
da melhor forma.
A menininha que ainda é a minha dona casou o ano passado
e, no dia em que ela tiver uma filha, eu não terei ciúmes
visto que, muito provavelmente eu tornar-me-ei na sua melhor amiga,
na qual ela pode confiar e contar os seus mais íntimos segredos.
E também assumirei com muito prazer o papel de baby sitter
quando ela quiser sair com o marido.
Por tudo isto assumo que sou uma boneca feliz.
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