O LOBO VERMELHO E O CAPUCHINHO MAU
 
Red Bottom sacudiu a cinza do charuto e alisou o longo cabelo vermelho apanhado num rabo-de-cavalo. Os óculos escuros não deixavam ver a luminosidade cintilante do olhar. Olhar esse que se perdia, enfastiado, pela verde espessura do bosque onde vivia. Bocejou, encostou-se ao tronco convidativo de uma árvore protegendo-se da chuva miudinha que começava a cair e dispôs-se mentalmente para uma tarde de sesta e tédio.
 
Foi então que a viu aparecer: uma figura esguia que se recortava com nitidez sobre o pano de fundo de pinheiros e ramagens. Sentiu o coração pulsar com mais rapidez e de imediato o cérebro se dedicou à tarefa de descobrir que método de aproximação utilizar. Talvez uma frase certeira, incisiva... "Boa tarde, menina, está perdida?" Não, credo, aquele "menina" já tão fora de moda... e quanto a perdida, realmente não tinha aspecto de o estar. Com efeito, os passos da dita eram desenvoltos. Que tal: "Procura alguma coisa?" Tampouco. Roçava mesmo a indelicadeza. Que tal esta: "Posso ajudá-la nalguma coisa?" mas era transparente de batida, convenhamos.
 
Agora que ela estava mais perto notava-lhe as feições regulares, bonitas até, emolduradas pelo capuz da sua gabardina vermelha. "Se não fosse cá por coisas, chamava-lhe o Capuchinho Vermelho!" pensou de si para si, e teve vontade de o dizer em voz alta. Quem sabe ela não acharia piada àquela forma de quebrar o gelo. Que ele mal podia esperar para estabelecer contacto. Estava tão farto da floresta, do cochichar das corujas e do palrar dos esquilos! Tudo aquilo o mergulhava numa espécie de sonambulismo, ele que sonhava com outras paragens, outras paisagens, outros amigos!
 
Se calhar era a Providência que ouvindo os seus apelos lhe mandava aquela criaturinha que decerto melhor que ninguém que ele conhecia saberia conduzi-lo no Grande Mundo que ele adivinhava para lá da floresta.
Estava a poucos metros de distância quando vislumbrou algo que até esse momento a ampla capa cobrira.
E nem teve tempo de fechar a boca de assombro quando o tiro partiu.
-Era mesmo o tom que eu queria - pensou ela , satisfeita, acocorando-se e afagando a pelagem sedosa e vermelha de Red Bottom.
Texto e ilustração originalmente publicados no fanzine electrónico Cyber Extractus
Texto de Ana Laureano
Desenhos de Álvaro
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