Martin Luther King

Martin Luther King foi um dos maiores oradores políticos do século 20. Seu estilo adaptou a linguagem das igrejas negras do sul dos Estados Unidos - com suas peculiares canções e diálogos entre pastor e fiéis - ao discurso de luta pela igualdade racial, mobilizando multidões na década de 60 .

 

Martin Luther King foi um dos maiores oradores políticos do século 20. Seu estilo adaptou a linguagem das igrejas negras do sul dos Estados Unidos - com suas peculiares canções e diálogos entre pastor e fiéis - ao discurso de luta pela igualdade racial, mobilizando multidões na década de 60 .

A máxima expressão do talento de Martin Luther King Jr em lidar com as palavras e as multidões foi o discurso proferido em 28 de agosto de 1963, no final da Marcha sobre Washington, organizada por ele e que arrastou um milhão de pessoas pelas ruas da Capital norte-americana em apoio à Lei dos Direitos Civis, encaminhada por John Kennedy ao parlamento. Defensor da política de não-violência - criada na Índia por Mahatma Ghandi e que ganhou o mundo a partir de 1920 - Luther King provocou a ira e enfrentou a reação dos racistas nas cidades do sul dos EUA.

Contrariando todas proibições, ele liderava passeatas de protesto à segregação racial - que, legalmente, separava brancos e negros em ônibus e locais públicos -, vigorosamente reprimidas pela polícia com jatos de mangueira anti-incêndio, cães, golpes de cassetete, bombas e prisões. Tudo para expôr o absurdo moral da questão racial diante da opinião pública. Numa dessas manifestações, em Birmingham, Alabama, dia 28 de março de 63, exatamente cinco meses antes de proferir seu discurso mais famoso, Luther King foi preso novamente, acusado de promover a desordem pública. Na cadeia, ele escreveu a Carta de uma prisão em Birmingham, dirigida aos pastores brancos daquele estado, na qual dizia:

"Meus amigos, eu devo dizer a vocês que nós não tivemos nenhuma conquista nos direitos civis sem o exercício de uma pressão legal, não violenta e determinada. (...) Nós sabemos, por dolorosa experiência, que a liberdade nunca é concedida voluntariamente pelo opressor: ela deve ser reclamada pelos oprimidos. (...) Por muitos anos eu tenho ouvido a palavra 'esperem'. Ela soa aos ouvidos de um negro com uma cortante familiaridade. Este 'esperem' sempre significou 'nunca'".

Em seus pronunciamentos, Luther King reiterava que o momento era chegado. Que não havia mais qualquer justificativa para o "esperem". Ele perguntava ao público "o que vocês querem?" e a resposta vinha em uníssono: "Liberdade". Então King replicava: "Eu quero ouvir de novo. Não ouvi bem. O que vocês querem?". "Liberdade", devolvia a audiência, ainda mais alto. "Para quando vocês querem a liberdade?", insistia o líder, levando a massa à catarse: "Liberdade agora! Liberdade agora! Liberdade agora!".

No encerramento da Marcha sobre Washington, em frente a um Memorial Lincoln apinhado, ele pronunciou seu famoso discurso "Eu tenho um sonho":

"Ainda que enfrentemos as dificuldades de hoje e de amanhã, eu tenho um sonho. Eu ainda tenho um sonho.

"Eu tenho um sonho no qual vejo que um dia esta nação se levantará e cumprirá o seu princípio mais importante. Nós acreditamos que estas verdades são auto-evidentes - que os homens são criados iguais pelo seu Criador.

"Eu tenho um sonho. Um sonho de que em algum dia, nas colinas vermelhas da Geórgia, os filhos dos escravos e os filhos dos donos de escravos estarão sentados na mesa em que todos são irmãos. Eu tenho um sonho de que mesmo o estado de Mississipi, um estado intumescido com o calor da injustiça, será transformado num oásis de liberdade.

 

"Eu tenho um sonho de que um dia cada vale será exaltado, cada colina e montanha será rebaixada, os lugares ásperos serão tornados suaves, os lugares de maldade serão tornados honestos. E a Glória do Senhor se revelará. E toda a carne a verá ao mesmo tempo. Esta é a nossa esperança. É com esta fé que retorno ao Sul. Com esta fé, estamos dispostos a trabalhar juntos, a rezar juntos, a lutar juntos, a ir para a cadeia juntos, e a nos levantarmos juntos em defesa da liberdade, sabendo que seremos livres algum dia.

"Este será o dia em que os filhos de Deus cantarão juntos: 'Meu país, doce terra de liberdade, para ti eu canto'. Terra onde meus pais morreram, terra do orgulho dos peregrinos, de qualquer lado da montanha, que toque o sino da liberdade. Se a América quiser ser uma grande nação, então isto terá que se tornar verdadeiro. Que toque então o sino da liberdade.

"Quando permitirmos que toque o sino da liberdade, quando deixarmos que toque em qualquer cidadezinha de qualquer estado estaremos preparados para nos erguer neste dia. E todos os filhos de Deus - brancos ou negros, judeus ou gentios, protestantes ou católicos - daremos as mãos para cantar uma antiga canção negra religiosa: `Enfim livres. Enfim livres. Graças ao Senhor todo-poderoso. Estamos livres, enfim'."

No fim do discurso, a multidão hipnotizada pede: "Sonha mais. Continua sonhando". E, antes da dispersão, se põe a cantar: "Nós vamos vencer ('we shall overcome'). Nós vamos vencer. Nós vamos vencer algum dia. No fundo do meu coração eu acredito que nós vamos vencer um dia".

Difícil reproduzir o mesmo impacto da palavra falada no texto escrito, ainda mais quando traduzido. A força autenticamente comovedora desse discurso foi extraordinária, tornando sua mensagem um signo de união pela liberdade. No dia 4 de abril de 1968, em Memphis, Tennessee, Martin Luther King Jr, então com 39 anos, teve sua voz calada à bala pelo extremista James Earl Ray - condenado a 99 anos de prisão pelo crime -, mas seu exemplo e sua lição pavimentaram o solo político à conquista dos direitos civis para os cidadãos negros norte-americanos.

   Autor: Francisco Ferraz.

 Fonte: Sítio Política para políticos (www.politicaparapoliticos.com.br)

 

 

 

 

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