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Capítulo 8: O Começo do Fim (Teratologia)
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"Vire sua cabeça e veja os campos de chamas
Ele segue adiante
De um local distante
Ele está a caminho
Ele trará a decadência
(Não siga este caminho
Porque as coisas, elas vão dar errado
O fim está se aproximando a cada dia que passa)
Em sombras cinzentas
Estamos condenados a encarar a noite
A luz está fora de alcance
Já que alcançamos o ponto em que não há volta
Rezamos para a luz das estrelas, esperamos pela Lua
O céu está vazio
Sozinhos no desconhecido
Não estamos chegando a lugar nenhum
(...)
Nós vivemos uma mentira
Sobre a lua moribunda
Faces pálidas gargalham a nossa destruição
Viciam-se nesta delícia
Está saindo do controle
A cortina final irá cair
Ouça minha voz
Não há escolha
Não há saída
Você vai descobrir"
Blind Guardian - And Then There Was Silence
"Sade, diz-me, o que é isso que tu procuras?
A justiça do erro?
A virtude do vício?
Sade, diz-me, porque o Evangelho do mal?
Qual a tua religião? Onde estão teus seguidores?
Se tu és contra Deus, tu és contra os homens.
Sade, tu és diabólico ou divino?"
Enigma - Sadeness Part 1
"É o conjunto de velas, e não o vento,
que nos diz o caminho a seguir"
Ella Wheeler Wilcox, "Ventos do Destino"
Da Carta Tempos de Mudança - Magic: The Gathering
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- Hmmmmmmmm...
Mãos apertavam seus braços, e não pareciam dispostas a soltar. Respirou fundo, como se sentindo o ar do ambiente ao seu redor. A sensação era um pouco inexplicável, um misto de confusão, atordoamento, dor e uma certa tranqüilidade. Aliás, esta tranqüilidade era algo que não pairava em sua vida havia algum tempo... Um bom motivo para ponderar se valia a pena mudar de posição, talvez todo aquele equilíbrio fosse perdido! Decidiu, por fim, ficar do mesmo jeito. Olhos cerrados, entregue às decisões da vida... ou de outrem.
Mas parece que isso não lhe seria permitido. O corpo quente, quase fervente, montado em cima do seu parecia querer algo mais. O aperto tornou-se mais forte - incômodo agora - e se converteu num sacolejo:
- Pára, pára... Hmmm... Me deixa, droga... Tava bom dormindo...
- Ah, é? Mas acredite, vai ficar ainda melhor quando você acordar!
- Hmm?
A voz ríspida e furiosa acordou Fred de súbito dos seus devaneios, para tomar consciência da situação em que estava:
- Ai, não. - Fred tentou se desvencilhar do rapaz que o encarava por cima, desviando-se para o lado.
- Nem pensa em fugir, desgraçado! - Yahiko agarrou o ruivo pelo pescoço e pareceu querer esganá-lo - Agora nós vamos resolver o nosso probleminha de uma vez por todas!
- Não fui eu! Eu juro pela minha vida que não fui eu! Foi o meu irmão gêmeo! Não eu, foi ele! Eu juro...!
- Háháhá! Até parece que eu vou acreditar nessa! "Meu irmão gêmeo", mas que baboseira! E nem precisava jurar pela sua vida... Ela já está quase selada na morte!
Ele se levantou e arrastou Fred, encostando-o na parede. Na verdade, ele e Kenshin haviam acabado de chegar da rua, mas Yahiko quis logo despertar "a Bela Adormecida". Ele nem sequer sabia dos mais recentes acontecimentos do dojo, e que agora Misao estava trancada junto com seu filho no quarto de hóspedes, fazendo as malas enquanto se debulhava em lágrimas, apesar dos insistentes chamados e batidas na porta de Kaoru do lado de fora. A única coisa em sua mente era chamar Tsubame e perguntar a ela se o reconhecia. Se a resposta fosse afirmativa, estaria selada a sentença de morte do ruivo.
- Tsubame! Tsubame, venha cá, por favor! - a voz dele se tornou mais doce ao caminhar um pouco e gritar porta afora.
Fred não conseguia pensar em outra coisa senão drogar-se. Apesar do fim que parecia cada vez mais iminente, a última coisa que ele pretendia era estar lúcido. Encontrou num dos bolsos um cigarro, riscou um fósforo e deu uma tragada profunda. Ele recostou a cabeça na parede e estava perfeitamente tranqüilo... em paz. Morrer ou não já não fazia a menor diferença. Estava em pleno equilíbrio consigo mesmo.
- Yahiko! - ela veio pelo corredor ao ouvir sua voz - Você já voltou? Por que me cham...!!
Ela estancou na porta, ao ver quem Yahiko segurava pelo colarinho.
- Ai, meu...
- Tsubame. - Yahiko o largou no chão, e se aproximou dela carinhosamente - Foi ele, Tsubame? Você o reconhece?
Ela hesitou um pouco ao olhar para o rapaz estatelado no chão. Sim, era ele. Os olhos... Os cabelos ruivos, as mesmas feições... Era ele.
Fred se desesperou. Era óbvio que ela o reconheceria, afinal, Giorgio era seu irmão gêmeo. Mas ele era completamente inocente, e no final, pagaria por um erro que não era seu. O rapaz moreno parecia tomado e domado pela fúria assim que olhava para ele, e a comprida bainha bem segura numa das suas mãos certamente não guardava flores ou bombons. Não havia saída, desta vez, certamente não. Não havia mais nada a fazer... senão chorar.
Ele enfiou a cabeça no tatami, e as lágrimas escorreram com facilidade. A tranqüilidade antes reinante agora parecia tão distante que só fez com que ele se desesperasse ainda mais. O pânico o dominava, a ansiedade de encontrar-se com a morte era desesperadora, e parecia lhe infligir dores lancinantes. Ele soluçava, e tinha a respiração entrecortada.
Yahiko sabia o que o silêncio de Tsubame significava. Agora não havia mais motivo para hesitação, culpa ou arrependimento, ele era, de fato, o culpado. A primeira vida que ele tiraria merecia a morte mais que ninguém. Merecia, e como não? Um estuprador barato, e tão covarde que chorava histericamente ao ver a Morte bater à porta. Ele desembainhou apenas uma das kodachi, as duas não seriam necessárias. O homem a seus pés não ofereceria resistência, estava definitivamente esperando a morte, entregue a ela. Ele ergueu a espada. O fim... O fim se aproximava...
- Não! Não, Yahiko, pára! - Tsubame correu e se colocou à frente de Fred.
- Tsubame! O que deu em você? Está doida? Saia da frente! Ele vai ter o que merece!
- Não foi ele, Yahiko-chan... Não foi...
- Mas como, não foi?
- Esse choro... Eu reconheço esse choro. Eu reconheço...
Yahiko tinha os olhos arregalados quando Tsubame terminou de contar a história daquela noite chuvosa. Então, realmente não havia sido ele... E ele que esteve a metros de realizar a maior injustiça de sua vida. Yahiko sentou-se abruptamente no chão, sem conseguir distinguir com perfeição o que sentia. Tsubame foi até ele, o abraçou carinhosamente, de modo que a cabeça dele recostasse em seus ombros, e ambos ficaram ali, observando em silêncio mútuo Fred chorar histericamente. De repente, ele se ergueu, e se ajoelhou aos pés de Yahiko, implorando por sua vida:
- Não! Não me mate! Eu sei o que você quer! Eu vou contar tudo! Vou aliviar esse peso de minhas costas! Vou contar tudo!
O casal se entreolhou abismado, ao ver aquele ruivo que parecia não ter ouvido absolutamente nada do que eles haviam discutido, que sua vida já estava poupada. Tsubame tentou começar a explicar, mas Frederico continuou:
- Soujirou que se foda! Juppongatana que vá para o Inferno! Tudo tem dado errado desde que nos metemos nessa missão maluca! Eu quero ir embora! Quero que tudo seja como antes!! - então seu tom de voz tornou-se choroso, e falou num tom baixo - Se eu contar tudo, você me deixa ir, não deixa? Pra longe daqui... Pra longe do Japão... Não deixa?
Tsubame se aconchegou em Yahiko e disse baixinho:
- Ele está delirando? Ele está bem?
- Ele sempre me pareceu perturbado, mas... - extremamente alarmado ao ouvir os nomes "Soujirou" e "Juppongatana", decidiu entrar na dança e disse a Fred - Sim, claro... Conte tudo o que você sabe... Seja um bom garoto, e eu deixo você ir...
Fred quase voltou a chorar novamente, de alívio, e agarrou as pernas de Yahiko:
- Aaah! Obrigado! Obrigado! Obrigado! Vou contar... Mas não sei tanta coisa assim... Mas sei o principal! No Ano Novo, o Imperador vai morrer!
Tsubame e Yahiko mais uma vez entreolharam-se, desta vez, completamente chocados. Yahiko aproximou-se mais de Fred e disse:
- Continue.
- Himura!! Finalmente você voltou! - Misao chutou a porta do quarto em que estava e foi correndo em direção a ele, sendo seguida por Kaoru, que corria desesperada atrás dela.
- Kenshiin! Não acredite em nada do que ela disser, Kenshin! Ela não sabe, ela não...!!
Kenshin ficou um tanto atônito ao ver as duas, que pareciam um tanto alteradas, correndo como doidas em sua direção, mas Misao chegou primeiro, o agarrou pela gola e o jogou num quarto próximo, fechando a porta.
- Srta. Kaoru! - Kenshin desviou o olhar da porta e o voltou para Misao - Por que fazer isso com Kaoru, deixe-a entrar, o que foi que houve?
- Espera aí, Himura. Antes você vai me ouvir, depois você ouve o que ela tem a dizer.
Kaoru suspirou fundo e se recostou na porta ao ouvir estas palavras de Misao. Seu corpo deslizou até alcançar o chão, como se as pernas não mais reagissem. "O que o tempo faz conosco, afinal?" O murmurinho que vinha do cômodo embalava seus devaneios... Como ela havia mudado, como Misao estava dando muita importância a um fato ridículo... Ela tinha seu coração em frangalhos: lá dentro, algo alertava sobre o perigo que estava por vir. "Mas que perigo?" Kaoru sacudiu a cabeça, afastando pensamentos ruins, como se tentando fugir daquele pavor constante, do dia em que Kenshin pegaria sua sakabatou e diria adeus. Adeus... Quando o adeus seria definitivo?
A porta se abriu subitamente, lançando Kaoru ao chão com um gemido. Ela ergueu os olhos e viu Misao passar sobre ela sem o menor sobressalto, como se ela fosse apenas um capacho inútil enfeitando a porta. Em seguida, ela girou a cabeça, seus olhos nitidamente procurando por Kenshin - estes hesitaram visivelmente ao encontrarem seu alvo. Kenshin estava de pé bem em sua frente, e estendia sua mão para que ela se erguesse. Ela sentiu seus olhos umedecerem ao saborear o fato de que Kenshin não havia se preocupado com o que Misao havia contado, de que tudo estava bem, normal, tranqüilo... Mas os olhos dele... Não, estes não eram os mesmos. Seus olhos sempre foram muito transparentes - não escondiam seus sentimentos extremos. E desta vez, não era diferente. Era como se um sutil traço sombrio de negro maculasse a doçura violeta daqueles olhos. Kaoru se manteve calada ao notar este detalhe enquanto, ofegante e prestes a debulhar-se em lágrimas, esperava pela sentença que seu marido proclamaria:
- Kaoru, eu... Eu tenho que sair agora. Mais tarde, eu volto. Até mais.
Ele fez um aceno de cabeça e saiu. Kaoru novamente recostou-se no umbral da porta, tentando decifrar o que aquelas palavras aparentemente sem emoção queriam dizer.
A rua estava movimentada, agitada. O sol estava a pino, e parecia sorrir para aqueles que caminhavam nas ruas, estivessem trabalhando, vadiando, se divertindo ou fazendo compras. Sano simplesmente caminhava, mas se sentia imensamente feliz. Suspirava com um tonto, e se surpreendia rindo do nada. Nunca havia se sentido dessa forma antes, mas pela primeira vez, estava extremamente satisfeito pelo fato de ser um pateta. Havia passado uma noite esplêndida ao lado de uma mulher surpreendente, e agora esperava ansiosamente pelo dia em que se veriam novamente... O dia em que se veriam novamente...
- Ai, ai... Mundinho tedioso.
- É verdade. Mas falta pouco para o Ano Novo agora. Finalmente vamos entrar em ação de novo, Kamatari. Não precisa se preocupar.
- Eu sei, Chou... Mas olhe, o senhor Shishio nunca tinha nos deixado sem ter o que fazer.
- Isso também é verdade.
Chou e Kamatari vadiavam pelo centro da cidade, se esquivando da enorme turba que passava de um lado para o outro, ocupada em seus medíocres afazeres diários. Conversavam tranqüilamente, observavam a paisagem e as lojas, até que seus olhares cobiçosos voltaram-se para uma casa de câmbio. Um olhar mais cuidadoso - e experiente - revelou que esta casa era realmente abastada, uma das mais importantes de Tokyo, e o melhor: estava transportando exatamente naquele momento uma excelente quantidade de yenes. Vários policiais ajudavam e fiscalizavam os carregadores, sacos repletos de dinheiro saindo da casa, carregando uma carruagem de transporte que rangia com o peso.
Eles se entreolharam, e Chou disse:
- Isso não é do nosso feitio, Kama-chan...
- Eu sei. Mas olha só pra isso... Poucos policiais, todos patéticos... É uma chance única... Só por diversão... Vamos?
Kamatari lançou um sorriso maroto para Chou, e ele o devolveu:
- É isso aí. Vamos!
Os dois foram a passos largos em direção a casa, desembainharam suas armas e gritaram:
- Assalto! Isto é um assalto! Acalmem-se, entreguem o dinheiro, e ninguém morre!
Os policiais alarmaram-se, desembainharam suas espadas e avançaram sobre os dois. Kamatari gargalhou e disse, "Ninguém morre! Até parece!", e iniciou a luta. Dois policiais mais afobados voaram sobre ela, ao que ela girou graciosamente sua kusarigama e, enquanto partiu um ao meio com a foice, esmagou o crânio do outro com a bola. Os outros policiais ficaram estáticos por alguns segundos, ao ver os fluidos e o sangue que escorriam do que um dia fora a cabeça de um colega, e os órgãos e vísceras do outro colega que deslizavam na calçada, como se pertencessem a algum animal qualquer. Óbvio que o suposto assalto não era pelo dinheiro. Era pelo prazer da visão do sangue.
Despertos do estado de suspensão, mais policiais avançaram repetidamente, contra Chou e Kamatari. Mais mortes, alguns membros decepados, e gritos por toda a parte. O caos havia se instalado numa das ruas principais do centro de Tokyo, o que parecia contradizer levemente a idéia de "discrição" com que a missão deveria transcorrer. A população corria de um lado para o outro, um pandemônio de gritos histéricos.
- Onde você esteve? Onde?!?
- Soujirou! - Ilka chegou saltitante e o abraçou - Oh, Soujirou! Estive longe daqui, mas tão perto... Foi a noite mais maravilhosa de minha vida! Nunca imaginei que pudesse ser assim, que houvesse algo assim no mundo...
- Ilka! Acalme-se! Do que você está falando? Aqui, sente-se.
Soujirou e Ilka estavam num dos cômodos daquela casa nojenta que servia de Q.G. para a nova Juppongatana. Ilka se jogou numa almofada velha e puída como se ela fosse a mais deliciosa e ampla das camas, e suspirou. Soujirou sentou-se, um tanto alarmado por aquele comportamento bizarro de Ilka, que parecia tonta, despreocupada e completamente distraída, além do fato de sua chegada ao amanhecer, sem a menor satisfação a ninguém.
- Ilka? Ilka, o que exatamente aconteceu ontem?
- Aaaah, Sou-chan... Acho que estou apaixonada!
Ele perdeu todo o sorriso e a compostura com essa declaração. Apaixonada??
Ilka ria da reação de Soujirou, seu riso crescia, crescia... Ela apertou as bochechas de Soujirou e disse:
- É, eu estou apaixonada... Ele é lindo, Soujirou. É alto, forte, com lindos cabelos escuros... É perfeito, Sou-chan, perfeito, perfeito, perfeito...
- Claro, claro... - Soujirou estava de cabeça baixa, como se estivesse absorvendo as informações.
- Bom... Vou dar uma volta... Está um dia tão lindo hoje, né? Até mais, Soujirou! Até mais!
- Vá...
Ilka abriu e fechou a porta atrás de si e ganhou as ruas. Havia um suave ritmo que embalava seus passos, na mais poderosa das canções: o amor. E ele parecia simplesmente levá-la adiante, rumando apenas ao seu destino - e isto estava totalmente fora de seu controle.
Um bilhete. Um bilhete em seu quarto, com a assinatura de Shinomori Aoshi. Conseguiu rir um pouco ao imaginar aquilo como um bilhetinho de amor! Escondidinho no seu quarto, em cima do seu lado da cama... Mas como era atencioso o Aoshi-chan... "Hehehehe, coitado, estou difamando o Okashira sem motivo", pensou Kenshin consigo mesmo. Mas a coisa era séria. Sem tempo para brincadeiras, caminhava. Aoshi-sama havia deixado um bilhete em sua cama, o havia visto quando Misao o arrastou para dentro do quarto. "Preciso resolver duas confusões contigo. Encontre-me em...", o bilhete sucinto e eficaz dizia. Tinha certeza que uma delas era essa zona que Kaoru havia aprontado. Era óbvio que não havia acontecido nada. "Era, não era? Credo, que isso, claro que era." Isso inclusive o lembrava de que havia tratado Kaoru um pouco mal. Mas era bom, bom pra ela dar valor... Achar que realmente se sentia traído, furioso. Era, era bom. Orgulho é um mal necessário. Mas Misao parecia desesperada por causa disso. Era até compreensível... Demorou tanto tempo pra conquistar o Okashira, e num belo dia, ele poderia estar traindo sua confiança com uma grande amiga. É, virou mesmo a cabeça da menina-mulher. Menina-mulher... Incrível, mas não conseguia ver Misao como mulher! Mesmo com suas roupinhas singelas mostrando aquelas coxas maravil... "Kenshin, seu pervertido! Eu sou um cara casado, eu sou um cara casado..." Kenshin repreendeu-se, batendo na cabeça, atraindo olhares das pessoas ao seu redor. Mas como ia pensando, como Aoshi poderia ter casado com ela? Tá, tá, é óbvio, os dois se amam, e o Aoshi não é nenhuma florzinha... "Se bem que garante, né? Hehehehe... Com aquela demora toda... Bem coisa de viado isso..." Mas já era mais que o bastante pra se casarem. Mas Misao era uma menina! Aoshi era um puto dum papa-anjo!! Pedófilo nojento! Se bem que... também era bem mais velho que Kaoru. Mas Kaoru tinha cara de mulher, poxa. Não, não, não é que Misao tenha cara de homem... Claro que não. E talvez o pervertido nem fosse o Aoshi. Fosse a Misao. Ééééé, sempre pareceu uma piranhazinha mesmo. Se Aoshi fosse estruprável, coitado, já não estava nem mais aqui pra contar história... E ainda...
- Oro! É aqui.
"Enfim, resolver uma coisa séria! Ando pensando muita besteira! Vou terminar meus dias como um velho safado com cara de mulher, olha isso... Vamos pensar em coisa séria, Kenshin, coisa séria!"
Kenshin encostou-se no beco. Aquele era um bairro de prostitutas, talvez era isso que causava esses pensamentos mordazes. "Aoshi definitivamente é um pervertido. Isso lá é lugar de marcar encontro? Hmmmmm, marcar encontro... Soou mal essa! Hehehehehe!"
- Himura?
- Oro!
Aoshi chegara no beco e encontrara Kenshin dando um risinho atrevido, encostado na parede. Um bairro de prostitutas, ele deveria estar todo serelepe. Talvez não conseguisse muita diversão ultimamente. Também, com aquela cara de mulher. Muito surpreendia que Kaoru tivesse casado com um cara afeminado que nem ele. Provavelmente, depois de um tempo de casados, ela virava toda a noite pro lado dizendo que estava com dor de cabeça. Melhor dormir que terminar montada por uma lady ruiva. Colocando Kenshin e Kaoru de hakama um do lado outro, e afirmando que um deles é homem, você jura que o homem é a Kaoru! Talvez aquela confusão toda da água quente realmente fosse um pretexto pra ver um cara maravilhoso e másculo como ele nu. Ééééé, Kaoru sempre pareceu uma piranhazinha mesmo. "E venhamos e convenhamos, um homem como eu não é todo dia que se acha."
Kenshin rapidamente se recompôs e começou:
- Aoshi. Bom...
- Himura, eu o chamei aqui pelo seguinte. Acho que você já sabe que eu saí do dojo, não é?
- Sim, a tal confusão com Misao... huh... e com Kaoru...
- Pois é. Primeiro eu gostaria que você soubesse que foi tudo um mal-entendido, que Misao está levando muito a sério, e...
"Imagina se eu ia me dar ao trabalho de dar em cima da Kaoru! Se você não faz o que tinha que fazer, seu frouxo..."
- Não, não, eu entendo... Eu imaginei que fosse isso. Um mal-entendido. Afinal, nos conhecemos há tanto tempo, não é?
"E a Kaoru também sabe reconhecer o que é homem bom! Se você se enjoou da menininha e tá afim de mulher de verdade, aproveita as prostitutas aí! Minha mulher não ia dar mole prum cara que nem tu."
- Fico feliz que todos vejamos isso da mesma forma. Mas há um problema... muito sério... a ser resolvido.
- Sim?
- Falei com Saitou.
- Falou? E o que houve?
- Himura, há... há muita coisa que você precisa saber. Há muitas pessoas em risco... mais uma vez. E agora não envolve somente lunáticos, ao que parece. É difícil dizer. Mas uma coisa é certa: precisamos proteger o Imperador. Afinal, ele representa tudo que a Era Meiji conquistou. Tudo o que o Japão é hoje em dia.
Kenshin aquiesceu.
- Há muitos detalhes que você precisa saber. Por enquanto, basta Saitou saber que estou do lado dele. É um bom disfarce, pelo menos por enquanto. Duvido que perdure muito, mas é o bastante por enquanto. Encontre forças, Himura. Elas serão necessárias.
Ele suspirou. Lutar, lutar mais uma vez. Talvez fosse seu destino. Mais uma vez... Todo o senso de humor que o dominava antes parecia distante. Havia um peso inegável em seu coração... Como se dessa vez, diferentemente das outras, as coisas não fossem acabar bem. Mas não cabia a ele julgar. Cabia a ele apenas agir. Como sempre fora, desde os tempos de Hitokiri Battousai. Pensamentos nada valem... mas atos.... atos podem mudar uma vida. Mudar o mundo. Sabia disso. Era por isso que desembainhava sua espada ao invés de questionar. E dessa vez, como em todas as outras... Himura Kenshin agiria.
Soujirou ouviu a porta abrir-se e fechar-se às suas costas. Parecia não acreditar... Como Ilka poderia estar apaixonada por alguém? Como ela poderia estar agindo daquele jeito? E um turbilhão de pensamentos se formou em sua mente quando ele percebeu que não estava preocupado com o sucesso da missão, com o destino da Juppon... Estava preocupado consigo mesmo. Como Ilka poderia amar... alguém que não fosse ele? Soujirou acabara de se conscientizar dos sentimentos que possuía por Ilka. E exatamente agora, estava morto de ciúmes. Como se ele precisasse perdê-la para saber que a amava, ele sentia um aperto indescritível no coração.
- Eu... a amo... E... não posso perdê-la!
Subitamente, todos seus atos pareceram claros. Porque ele sempre a havia protegido, sempre a havia escutado, porque havia feito dela seu braço-direito. Porque não sentia um mínimo de emoção quando transava com Farrah, porque nunca havia realmente amado ou se importado com outra mulher. Ele sempre a amara, mas só admitia isso para si mesmo agora que ela desejava outro homem... Agora que ela desejava outro...
Soujirou ergueu-se da almofada em um estalo. Iria atrás de Ilka. Descobriria que homem era este. E o mataria.
- Cheeefe! Soujirou!!! Aconteceu uma catástrofe! - Gio entrou estrondosamente no cômodo, suado e muito afobado - Fred! Meu irmão! Ele foi pego! Capturado!! Tenho certeza de que ele vai ser torturado até a morte!!! Temos que fazer alguma coisa!!
Naquele exato momento, Soujirou ainda ponderava sobre o que faria com o homem que ousara tomar Ilka dele. Ele acordou de sua imersão interior, ao som dos gritos desesperados de Giorgio. Ele lançou tamanho olhar de desprezo a ele, como se sua fervorosa causa fosse o mais medíocre dos problemas agora, que enfureceu Gio a ponto dele fazer o que jamais deveria ter feito.
Gio agarrou Soujirou pela gola do seu kimono e o empurrou contra a parede, gritando e cuspindo ao mesmo tempo com ele:
- Seu filho da puta!!! Meu irmão tá na merda e você não faz nada?!? NADA?!? - ele batia suas costas contra a parede, cada vez com mais fúria - Faça alguma coisa!! Convoque a Juppon!! Vamos resgatá-lo!!
Quando Gio parou para respirar e esperar alguma reação do homem à parede, Soujirou disse:
- Solte-me. Agora.
Ele lentamente o soltou e se afastou, lentamente tomando consciência do que havia feito. Era óbvio que Soujirou o havia deixado fazer aquilo, afinal, ele era muito mais forte do que ele, mesmo que não aparentasse. Soujirou se recompôs, ajeitou sua roupa, e de um súbito golpe, sacou sua espada, num movimento extremamente semelhante ao battoujutsu de Kenshin. Gio apenas teve tempo de fechar os olhos, mas foi obrigado a abri-los quando obteve a triste constatação de que não havia morrido. A dor era violenta demais para ser a morte.
Para um observador externo, a única coisa observada foi o brilhar prateado e reluzente da espada de Soujirou descrevendo uma parábola no ar. Mas alguns segundos depois, o corpo de Gio poderia ser comparado a uma vela atingida por um exímio espadachim em um treinamento. A parte de cima separa-se da de baixo, e desliza para o chão. Gio atingiu o chão, sem apoio algum agora que suas pernas haviam sido cortadas um pouco acima da altura do joelho. O sangue fluía livremente das pernas (ou do que restara delas) de Gio, já que veias importantíssimas passam pelas pernas. Soujirou se aproximou do rosto de Gio, que olhava para o teto e parecia soluçar, entrecortando sua respiração com um choro desesperado e com a dúvida de ainda existir ou não. Era uma expressão um tanto atordoada. Mas sua visão não causava nenhum choque ou dor em Soujirou. Bastava saber que ele sangraria até morrer. Ele então disse em voz alta:
- Sabe, Gio... Meu amigo... Essa confusão toda já começa a estragar nossos planos de discrição... Essa sujeira aqui, por si só, já é uma coisa chata de se limpar. Mas sabe... Quem se importa? Eu estava errado quando segui Shishio. Eu estava errado quando acreditei em Kenshin. E mais uma vez errei quando acreditei que a nova Juppongatana seria meu destino. Mas a vida é feita de erros e acertos. E posso dizer que esta etapa aqui da minha vida acabou. E finalmente sei que etapa seguir. Sim, eu sei. E eu vou atrás dela exatamente agora.
Significado do Título:
Teratologia = Estudo das Monstruosidades
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