Voltar
Capítulo 7: Desígnios do Destino (Teratologia)
--------------------------------------------------------------------------------
"Isso é tudo que eu sempre quis
Algo especial, algo sagrado - em seus olhos
Por apenas um momento
Estar audaz e nu a seu lado
Às vezes eu acho que você
Nunca irá me compreender
Talvez desta vez seja para sempre...
Diga que pode ser
Isso é tudo que você sempre quis
Algo especial, alguém sagrado - na sua vida
Por apenas um momento
Estar quente e nua a meu lado
Às vezes eu acho que você
Nunca irá me compreender
Mas algo me diz que juntos
Seríamos felizes
(Meu bem) Eu serei sua figura paternal
(Oh, meu bem) Coloque sua mão delicada na minha
(Eu adoraria) Serei seu pregador, professor
(Ser seu papai) Qualquer coisa que você tenha em mente
(Isso me faria) Serei sua figura paternal
(Muito feliz) Eu já estou farto de crimes
(Por favor, permita-me) Eu serei aquele que irá amar você
Até o fim dos tempos
Isso é tudo que eu queria, mas às vezes amor pode ser confundido com um crime
Isso é tudo que eu queria, simplesmente admirar o brilho dos olhos azuis do meu bem
Desta vez eu acho que minha amante me compreende
E se tivermos fé um no outro
Então poderemos ser fortes
Eu serei sua figura paternal
Coloque sua mão delicada na minha
Serei seu pregador, professor
Qualquer coisa que você tenha em mente
Serei sua figura paternal
Eu já estou farto de crimes
Eu serei aquele que irá amar você
Até o fim dos tempos
Se você for o deserto
Eu serei o mar
Se algum dia você sentir fome -
Que sinta fome de mim
Qualquer coisa que você pedir
É isso que eu serei
Então quando você se lembrar daqueles que mentiram
Que disseram que se importavam
Mas então riram enquanto você chorava
Linda querida
Não pense em mim
Porque tudo que eu sempre quis
Está nos seus olhos, meu bem, meu bem
E o amor não pode mentir, não
(Saúde-me com olhos de uma criança)
Meu amor está sempre me dizendo isto...
(Paraíso é um beijo e um sorriso)
Simplesmente espere, espere
Eu não vou te deixar ir, meu bem
Eu serei sua figura paternal
Coloque sua mão delicada na minha
Serei seu pregador, professor
Qualquer coisa que você tenha em mente
Serei sua figura paternal
Eu já estou farto de crimes
(Então eu vou te amar)
Até o fim dos tempos
Serei seu pai, serei seu pregador, serei seu papai
Serei aquele que vai te amar até o fim dos tempos"
George Michael - Father Figure (essa música caiu como uma luva! ^_^)
--------------------------------------------------------------------------------
A noite chegara havia uma, talvez duas horas. O céu cintilava com estrelas, a lua crescente tinha seus contornos bem-definidos. Do topo daquela colina, era possível ver toda a cidade de Tokyo com suas cintilantes luzes. A grama verde e a frondosa cerejeira que resistia, florida, às adversidades do tempo, eram as únicas testemunhas. O silêncio só era quebrado pelos dóceis ruídos infantis do menino, que estava aprendendo a falar, e se mantinha bastante inquieto.
- Mais de dez anos... Mais de dez anos se passaram, e ainda assim, não sei se tudo realmente passou...
Sua cabeça rodava com inúmeros pensamentos, tanto que parecia estar num plano paralelo à Terra, um devaneio sem rumo, até que percebeu que... o menino havia silenciado? Ele abriu os olhos, enrijeceu o corpo em preocupação, virou para o lado à procura dele, e o viu sentado, quieto, como se estivesse esperando algo. Ele não conseguiu evitar o riso:
- Espera que eu conte esta história para você, é isso?
Os olhos azuis do menino brilharam e ele bateu palmas, enquanto foi pego no colo.
- Não é uma história feliz. É sobre um homem que... Na verdade, ele era um garoto quando tudo começou. E como todo garoto, ele... Ele tinha seus objetivos.
- Havia guerra na época. Guerra civil. E não há nada mais extremo que uma guerra entre semelhantes. E ele pertencia a uma autêntica maçonaria, com um histórico extenso, repleto de honrarias. E fazia parte de suas pretensões acrescentar mais uma, a de ter ajudado seus aliados a vencerem, estando disposto até mesmo a incendiar a antiga Edo, atual Tokyo. Está vendo aquelas luzes distantes? Teriam sido convertidas em chamas se ele tivesse a oportunidade. Mas ele nunca teve. A batalha nunca chegou a acontecer, e no final, os inimigos dele venceram. Restauraram o poder ao Imperador. E ele nunca soube se teria sido capaz de mudar as coisas. Pior que perder é não ter a oportunidade de ganhar. Talvez, se a batalha tivesse acontecido, o resultado não mudasse, mas ainda assim, ele teria tentado e dado tudo o que ele tinha para tornar suas pretensões realidade.
- E hoje, filho... Hoje ele acredita ter esta chance nas mãos de novo. É certo que ele não incendiaria Tokyo desta vez - o tempo muda as pessoas e as circunstâncias da vida também - mas ele finalmente teria a oportunidade de derrotar os imperialistas. A questão é que, depois de tantos anos, ele se pergunta quais serão as conseqüências deste ato. Quem iria tomar o poder? Seria possível deter o atual rumo das coisas? E agora, ele possui coisas valiosas, e pela primeira vez na vida, ele tem medo de perdê-las...
Ele baixou os olhos e viu que seu filho dormia tranqüilo em seu colo; olhou novamente para o horizonte iluminado de Tokyo, e pensou consigo:
"Foi por isso que Saitou esteve lá em casa. Ele sabe do meu passado, sabe do que eu sempre quis, pelo que eu sempre lutei, e espera - será que espera? - que eu o ajude... Saitou queria que eu viesse a Tokyo, é verdade. Provavelmente já esperava que eu fosse contar a Himura a respeito. Hitokiri Himura Battousai, o marco dos imperialistas. Com certeza, irá defender o Imperador. Mas... e eu? Mudo de lado? Ou me mantenho neutro com relação a isto que - tenho certeza - é o próprio Saitou que está tramando?"
Aoshi acomodou o menino e se levantou, balançando levemente as folhas da cerejeira em que estava encostado. Repentinamente, ele parou, sentindo uma presença estranha no lugar. Virou, e viu que Saitou Hajime se aproximava, a passos tranqüilos. "Fale no demônio, que ele aparece!"
- Saitou. Se as coisas continuarem desse jeito, vou começar a supor que você está me perseguindo.
- Shinomori Aoshi, como vai? Fez boa viagem?
- Provavelmente não tão boa quanto a sua. Sendo Comandante da Polícia Especial, suponho que você tenha recursos e aparatos suficientes para fazer uma excelente viagem.
- Você ainda não conseguiu entender esse detalhe, não é mesmo?
- Não mesmo. Aquela conversa em Kyoto foi um gentil e indireto convite para que eu viesse a Tokyo e deixasse Kenshin informado do que está acontecendo - ou do que você quer que ele acredite que esteja acontecendo. E acredito que tendo cumprido com a minha "parte", você deva me dizer o que está tramando de verdade.
- Perspicaz, Aoshi-sama! No fundo, você parece continuar fiel aos seus antigos ideais. Defenderia o Shogum se ele ainda existisse?
- Saitou, você não estaria pretendendo se tornar o novo...?
- Shogum?? Ah, não, eu agradeço. Há outras formas mais imediatas de obter mais poder, e eu sei que você me entende. Esteve bem perto de alcançar cargos desse tipo, se não fosse a sua completa falta de ambição. Admira-me muito que, nos tempos de hoje, ainda exista gente com princípios liderando suas vidas...
Aoshi respondeu sarcasticamente:
- É, é realmente admirável! - ao que Saitou sorriu e disse:
- Não há maiores problemas em haver um Imperador, Shinomori. O problema é quando ele começa a atrapalhar os planos dos outros. Torna-se um fardo que deve ser eliminado, e de maneira ridícula, para que não venha a se tornar um mártir para uma massa que sofre com lavagens cerebrais...
Saitou repentinamente puxou sua espada, avançando como uma lebre sobre o ombro de Aoshi, onde a cabeça do menino repousava com tranqüilidade. Ele se esquivou velozmente, dando um leve salto e segurando a espada sob o seu sapato, em contato com o chão. "Fácil demais de se esquivar, e ele viu que eu não estou com minha espada, então..."
Aoshi então parou e percebeu que Asuku começou a se remexer, e a choramingar. Saitou então disse:
- Este foi só um exemplo prático. Você retesou seu corpo, logo o garoto sente. É preciso escolher, Shinomori Aoshi. Ou você se entrega de corpo e alma à luta... ou você protege sua família. É preciso escolher por quais dessas alternativas você vai morrer lutando.
Ele se virou e foi embora, enquanto o menino começou a se acalmar nos braços de um pensativo Aoshi.
- Ai, estou cansado.
Kenshin se recostou numa árvore, numa região mais isolada. Depois de tanto procurar por Tsubame, agora era Yahiko que lhe aprontava aquela, sumir daquele jeito e levando o par de espadas de Aoshi. Mas, pudera, que choque aquele. Pelo menos havia o consolo do sorriso no sono tranqüilo e angelical da menina: certamente, o resultado da conversa levaria a um final feliz.
"Ao menos alguém naquela casa vai ter um final feliz no fim das contas."
Ele começou a pensar em si mesmo, e no que o casamento com Kaoru havia lhe rendido. "Nada dura para sempre..." O amor e a harmonia que pareciam eternos no início, foram ruindo lentamente com o desgaste da vida cotidiana. Um romance erguido na adversidade, poderia ele suportar os dias de bonança? Kaoru estava a cada dia ainda mais mandona, mais cheia de ordens e broncas. Até mesmo ciúme - e por essa Kenshin jamais esperaria - havia surgido. Não era uma idéia estranha agora, visto que ele havia envelhecido um pouco desde a primeira vez em que se encontraram, e que finalmente havia perdido os traços que tanto lembravam uma menina, além de usar os cabelos curtos agora. Talvez fosse como a história de Okon e Omasu, da Aoiya, que eram apaixonadas por Hiko-sama! Talvez um homem só passe a ser admirado pelas mulheres quando passa da casa dos trinta... Um breve sorriso surgiu nos lábios do homem que tinha as feições metamorfoseadas pela amargura e a inércia.
"Antes fosse como era antigamente... Aquela coisa boba que Megumi infligia nela! Tão inocente, se irritava à toa com provocações que não passavam de brincadeira... Aliás, Megumi! Há quanto tempo não a vejo... Parece que foi ontem que ela e o Doutor Genzai bateram lá no dojo, contando que ela havia recebido um convite especial para ir até a Alemanha para refinar suas habilidades na Medicina... E agora, quem sabe quando ela irá voltar? Bem, no final, tudo acaba chegando na hora certa. Veja só, quem poderia supor que Sano chegaria justamente agora, depois de tantos anos andarilhando por aí como eu já fiz? O que também, acabou não dando em nada... Sano continua o mesmo, felizmente! Pesaria muito no meu coração perder um amigo com tanta alegria nata no coração. Um autêntico coração puro. Como poucos hoje em dia..."
Ergueu os olhos para o céu, mas não conseguiu distinguir o tempo. Tinha o espírito longe... Num passado há muito esquecido. "Tomoe... Há mais de 20 anos que eu não penso em você da maneira como acabou de surgir em minha mente agora." Ele riu consigo próprio. "Como se fosse representar alguma esperança, meu passado! Ou talvez... " Novamente, ele se deixou perder na teia de seus pensamentos por instantes prolongados, incomensuráveis pelos padrões da vida, conhecidos somente por aquele que os sente. E então abriu os olhos, como se uma nova resolução, vinda d'algum canto obscuro de sua força de vontade, houvesse se apoderado de forma bruta de seu ser, como se desde o princípio, a primeira lufada de ar tivesse sido aspirada visando um único objetivo, um único ideal. Uma brisa forte e repentina balançou seus cabelos, e logo se converteu em suave sopro de vento. "Talvez... "
Kenshin se ergueu, resoluto, austero. Então soltou uma gargalhada autêntica, vinda do fundo da alma, como se trancafiada ali por anos, desesperada por sair. Sacudiu a cabeça, se ajeitando ao vento que soprava, e caminhou.
- Vamos lá, Yahiko, não faça nenhuma besteira antes que eu te encontre.
Se alguém houvesse testemunhado a risada, terminaria seus dias tentando julgar se ela era de felicidade repentina, pela clarividência de algo que parecia óbvio, ou de alguma forma demoníaca de maldade que havia se apoderado daquele homem até ele começar a caminhar, com passos tranqüilos, porém firmes.
- Tem certeza do que está me falando?
- Te-tenho. Eu me lembro de ter desmaiado, e... Quando acordei, eu... - ele contava o que sabia, mas não conseguia tirar os olhos da "recompensa", aquela bolinha que dançava, sedutora, nas mãos do homem à sua frente - Eu o vi estuprando a garota, bem do meu lado. Era uma pequena clareira no meio da floresta, eu estava jogado em cima de um cavalo - que não era nosso -, e eles no chão. Meu... meu irmão é um maníaco. As coisas não podem continuar assim...
- Ele a matou?
- Não.
- Ela pode reconhecer vocês?
- N-não sei... Como não a matou, ela continua viva, então...
- Se ele não a matou, é óbvio que ela continua viva, Fred.
- É-é, tem razão!
- Sempre tenho!
Soujirou arremessou a bolinha, fruto trabalhado da papoula, em direção a Frederico, que se jogou no chão para tocar nela, cheirá-la, e então colocá-la no cachimbo apropriado. Ele fez uma breve reflexão sobre como as pessoas são capazes de entregar não só a própria alma ao diabo, mas também a dos outros - mesmo que representem sua única família nesse mundo -, para conseguir um pouco de ópio...
"Mas isso não é problema meu... O importante agora é o que aquele filho da puta do Giorgio fez! Não dava pra pagar por uma prostituta? Nããão, por que facilitar se eu posso acabar com todos os planos?! Aaah, mas ele vai pagar por isso, se vai!"
- Já chega, Frederico. Dê o fora daqui, anda, anda, vai embora!!
Soujirou arrebatou o cachimbo de suas mãos e o jogou pra fora da casa. Era mais uma numa favela, um bando de casas amontoadas, alguns prostíbulos, vendedores ambulantes, crianças sujas, mulheres grávidas, vagabundos e mendigos. Ou ao menos era isso que Fred via. Suas roupas e suas mãos estavam sujas de lama, e ele estava um pouco distante de onde havia saído, pois Soujirou o havia chutado e feito ele rolar um pouco. Ele finalmente desistiu de tentar entender e se jogou no chão, rompendo em um pranto autêntico.
As lágrimas eram aterradoras. Mas agora, já havia passado. Na verdade, havia passado tudo. Havia já alguns dias que ele rodava pelos arredores de - onde mesmo? - à busca do maldito, daquele que deveria ser morto a todo custo. Mas sem resultados!
"Puxa, mas que área pobre... Chega a dar pena! Mas também se vê muitos vadios... Quem sabe eu não enc...!!"
Yahiko estancou subitamente. À sua frente, um rapaz de cabelos vermelhos largado na sarjeta, chorando como uma criança. "Foi um ruivo que fez aquilo com Tsubame... E não existe muita gente assim no Japão. Nunca vi ninguém além do Kenshin." Ele então apurou os ouvidos e ouviu duas mulheres conversando atrás dele:
- Oh, veja, coitadinho... Por que será que chora desse jeito?
- Não faço idéia. Ele é meio estranho mesmo. Tem horas que eu poderia jurar que ele na verdade representa duas pessoas, não acha? Como se alguma coisa se apoderasse dele.
- É verdade. Mas também tem uma coisa... Já ouviu ele falando? Tem um sotaque fortíssimo, dizem que é italiano. E também dizem que os italianos são muito emotivos, não é?
- É, pode ser mesmo!
Ele sentiu o sangue ferver e não teve mais dúvidas: ele era o bastardo. Talvez chorasse por arrependimento, mas agora era tarde demais. Tarde demais para ele. Yahiko puxou uma das kodachi da comprida bainha em suas costas, e avançou em direção a ele, espada em riste. Toda a gente que circulava pela rua se afastou, assustada com um estranho munido de uma espada, o que não era permitido havia anos.
O único que parecia completamente alheio àquilo era Fred, que se consumia em dor por ter estado, desde o mais tenro início, solitário no mundo. O irmão jamais o compreenderia, e agora ele o assustava cada vez mais. Quando ele havia... Havia... Ferido sua mãe, ele pensou que seria a última vez... A primeira, a única, a última... Mas agora via que estava errado. Errado, e desde o princípio ele não fez questão alguma de entrar para a Jupponga...
- Em que mundo você está, seu bastardo filho da puta?!? Não pode me ouvir??
Yahiko segurava Fred pelo colarinho, e ele agora estava bastante assustado. Havia sido surpreendido por completo, aquele completo estranho estava furioso e tinha uma espada definitivamente completa nas mãos.
- Não consegue me ouvir? Então sinta isto!
Yahiko desceu a espada e a enterrou na coxa direita de Fred. Ele urrava de dor, e tentava comprimir o ferimento que atravessava sua perna com as mãos, mas Yahiko o sacudia. A única coisa que lhe passou pela cabeça foi um tanto sarcástica: "Ora, se já não me faltava uma perna machucada naquele embarque maluco do trem, agora eu tenho a outra perna com um furo no meio! Não poderia ser melhor..."
- Isso é só o início... Você vai sofrer muito mais!!
Soujirou agora caminhava em direção à porta, pois toda aquela barulheira estava muito enigmática mesmo. Primeiro, o silêncio, que num lugar daqueles era quase impossível, depois um urro de dor e um sujeito que berrava ofensas. Abriu a porta e deu de cara com a cena: Fred sangrava profusamente, e um rapaz muito familiar o agarrava pela gola, e berrava com ele. Subitamente, ele se lembrou:
- Yahiko! Meu Deus, é aquele garoto, que o Kenshin... Puxa, mas que mundo pequeno! Mas o que ele quer com...?
E a confusão continuava:
- Tivesse pensado antes de fazer aquilo com ela!! Você merece a morte, lenta e dolorosa! Seu bastardo!!
- Eu não fiz nada!! Aahh... Juro, juro por tudo que não fiz nada... Aaahh...
Tudo agora estava claro para Soujirou:
- A tal garota estuprada! Yahiko deve conhecê-la! Talvez até seja sua namorada, pelo jeito como ele está... Mas ele está confundindo a pessoa... apesar da descrição bater perfeitamente! Que coisa! - ele parou por alguns instante e refletiu - Eu... ajudo ou não ajudo? Não, não... "Deixe ser, deixe estar", isso vai se resolver por si só.
Yahiko foi arrastando Frederico, que tentava se equilibrar, mas não conseguia. Tinha uma perna em recuperação, que não agüentava o peso do corpo, e a outra dispensava comentários. O povo ia abrindo espaço, todos um tanto apavorados - até os homens pareciam temer a espada e o olhar selvagem do rapaz moreno. Fred então vislumbrou para onde estava indo, depois do que pareceu longos momentos de dor. O rio, sobre ele a ponte. Oh, ele iria afogá-lo... Então é aí que a história acaba. Sem final feliz, só ódio, tristeza e dor. Que ingenuidade a dele, pensar que com ele seria diferente. Simplesmente não seria. Yahiko continuava gritando com ele, amaldiçoando ele e todos os seus antepassados e possíveis descendentes, e fazendo o possível para que tudo aquilo se tornasse mais doloroso. Fred sentiu que ia desmaiar de tanta dor quando ouviu novos gritos:
- Yahiko!! Pára com isso! Pára, pára!!
Por um instante, tudo parou. Ele agradeceu a todas as possíveis divindades que vinham em sua mente, e então desmaiou.
Kenshin se aproximou correndo e então falou com Yahiko:
- Que isso? Yahiko, quem é esse homem? Por que você...?
- Mas não é óbvio? Não é óbvio, Kenshin? Este foi o infeliz que cometeu aquela atrocidade contra Tsubame!
- Você tem certeza? Vai que ele é inocente, Yahiko! Além do mais, o que deu em você para torturá-lo desse jeito? Você sempre foi justo e equilibrado. Não se deixe dominar pelo ódio...
Essas palavras tiveram o efeito de fazê-lo respirar fundo, e recobrar a sanidade. Soltou Fred - inconsciente - no chão, olhou para o rio e disse, num suspiro:
- Foi como se... Obrigado, Kenshin. Eu estava prestes a cometer algo que... Que me assolaria pro resto da vida.
- Está tudo bem, Yahiko. Vamos para casa. Aposto que todos lá no dojo estão malucos de preocupação. E... Vamos levá-lo também, e para a clínica do Dr. Genzai. Assim, poderemos conversar com ele, e ver se Tsubame o reconhece. Certo?
- Eu... Isso, isso, vamos lá.
Os dois levantaram Fred e o carregaram, a passos lentos, rumo ao dojo.
"Ahh... Kenshin não voltou até agora. Ah, meu Deus. Até mesmo Aoshi já voltou, mas Kenshin nada. Será que ele realmente foi à procura de Yahiko? Ou será que... Ai, ai, ai, será que ele foi ver alguém... Alguma... mulher?!? Não, não, tenho que tirar essas coisas da minha cabeça! Vou servir o chá para Misao e Aoshi e então... Aaaii!! Não chora, Yukizinha, minha linda! Ai, ai, ai!"
Kaoru ia correndo de um lado para o outro da casa, vendo se a água do chá já havia fervido, tentando acalmar sua filha, tudo sempre intercalado por uma passada na varanda e uma cuidadosa olhada no portão, para ver se Kenshin já havia chegado. Kenshin, Kenshin... E, aah, sim, claro, Yahiko também. Numa dessas, Kaoru saiu correndo de seu quarto - de tão tonta, havia entrado no cômodo errado - com um bule de água fervente, e se assustou quando abriu subitamente a porta e viu Aoshi-sama, que atravessava tranqüilamente o corredor, rumo à varanda. Nisso, ela tropeçou no biombo do quarto e caiu em cima dele, largando bule e tudo. Aoshi a segurou, mas o bule desceu voando na coxa dele:
- AAH!!
- Aaaai, não!! Me desculpa, Aoshi, ai, ai! Você tem que tirar a calça, senão vai queimar mais!!
- Não, não precisa, Kaoru, deixa que eu...!
- Não!!! Não, é culpa minha, deixa eu te ajudar!!
- Não, Kaoru, é melhor eu fazer isso sozinho...
Ela não deu tempo de resposta, o agarrou pela gola e o jogou no futon do quarto dela, se ajoelhou e arrancou de uma só vez a calça dele, fazendo-o pensar "Nossa, ela tem experiência nisso, hein?". Ao ver a larga mancha vermelha que parecia pulsar em calor, Kaoru desatou o faixa do obi que prendia seu kimono e a mergulhou na tigela de água do quarto (o que era bastante usual nessa época, uma tigela e um jarro para lavar o rosto de manhã), e ia começar a envolver a perna dele quando ouviu um grito estridente atrás dela. Ela se virou e viu Misao de pé na porta, mais pálida que uma folha de papel, ofegando por ar.
Misao estava na varanda com as crianças quando ouviu uns gritos, em especial por parte de Kaoru, vindos do corredor. Decidiu se levantar e ver o que era, até que se deparou com a cena. Aoshi sem calças deitado no futon de Kaoru, e ela com o kimono desatado - sem o obi - em cima dele. Ele só teve um pensamento: "Puta que pariu... Agora fudeu tudo." Kaoru se deu conta da situação em que havia colocado os dois - ou melhor, os três - e tentou se explicar:
- Misao, eu... Ele... A gente só...
Lágrimas brotaram dos olhos de Misao e ela saiu correndo pelo corredor. Aoshi pegou suas calças e foi se vestindo atrás dela, enquanto gritava:
- Misao! Espera aí! Eu posso explicar!
"Ai, tédio." Sano pensou enquanto bocejava, vigiando o sono da jovem Tsubame. "Pelo menos, ela está bem. Mas e o moleque? Acho que ele ainda não engoliu essa história toda. Também, pudera... Deve estar com um monte de coisas na cabeça, vingança, provavelmente... Que gritaria é essa?" Ele se aprumou e ia levantar para ver o que era quando viu que Tsubame havia acordado, e se espreguiçava delicadamente no futon.
- Oi, Tsubame. Tudo bem aí?
Ela meneou a cabeça afirmativamente, com um leve sorriso:
- Tudo bem, Sanosuke... Ouh, puxa, você fez a barba! Está mais parecido com os velhos tempos!
- Aah, é verdade! - ele sorriu, alisando o rosto - Não quero parecer nenhum velho! Mas diga, quer água ou alguma coisa assim? Veja, aí do seu lado tem uma bandeja com seu almoço. Já está um pouco atrasado, mas você estava dormindo tão bem que decidimos não te acordar. E eu vou lá fora resolver essa baixaria, está atrapalhando seu sono, não é? Liga não, essas meninas ficam tanto tempo longe que quando se encontram novamente, tudo se embola!
Ele riu, e Tsubame também. Então ela disse:
- Não, não precisa se preocupar, Sano! - ela sentou nos lençóis e aproximou a bandeja de comida - Eu estou bem. Chega de dormir e ficar na cama... Eu estou bem agora. Mas e Yahiko-chan? Não voltou até agora?
Sano sentiu a névoa de preocupação que se apoderou dos olhos de Tsubame, e tentou disfarçar:
- Nah, daqui a pouco ele chega aí. Aposto que Kenshin já o encontrou e eles estão almoçando no Akabeko agora... Depois de tudo isso, agüentar a comida intragável da Kaoru é dose! - os dois riram novamente - Não precisa se preocupar, esse seu almoço veio de lá do restaurante! Eu dei uma enrolada na Kaoru e consegui trazer comida de verdade pra você!
- Obrigada pela sua preocupação, Sanosuke... Aliás, tenho que agradecer a todos vocês. Agradecer muito mesmo.
- Não, não esquenta não, menina. - Sano se levantou e deu um tapinha no ombro dela - Eu vou lá fora botar ordem na casa, mas eu já volto. Qualquer coisa, só me chamar que eu venho correndo, tá?
- Eu acho que não precisa, não! - disse Tsubame quando ia dar uma mordida no bolinho de arroz - Vai lá, dá uma volta pela rua... Sei que você odeia ficar preso dentro de casa, e eu não quero ser nenhum estorvo pra ninguém. Além do mais, já disse. Estou bem!
- Tem certeza, menina? - ela balançou a cabeça - Bom, então tá. Mas eu não pretendo me demorar muito, e qualquer coisa, a casa também tá cheia de gente! Até mais, Tsubame!
Sanosuke saiu do quarto que dava direto para a varanda, e deixou a porta entreaberta. Na grama, Kenji, Yuki e Asuku se esgueiravam por um canto para tentar ver o que acontecia nos fundos da casa, e pularam ao serem surpreendidos por Sano:
- Eeeei, seus pivetes fuxiqueiros!! Que é isso, hein? Mas que coisa feia!! Bisbilhotando! Afinal, o que é que vocês tão vendo, hein? - Sano se aproximou e logo eram ele e as crianças escondidos numa quina da parede, tentando ver. O fato é que a atração era a briga entre Misao e Aoshi; ela gritava e chorava não só com ele, mas também com outra pessoa que não dava para ver, e ele tentava controlá-la, sem sucesso algum. Sano então afastou as crianças, dizendo:
- Não, isso aqui não é pra vocês verem, não... - e puxou Kenji pela gola, sussurrando - Relatório completo, moleque, vamos lá.
- Teve a gritaria toda, né? Aí Misao foi lá dentro, deu um berro, voltou chorando e foi pros fundos da casa. Depois veio Aoshi correndo atrás dela, se enfiando nas calças.
- Se enfiando nas calças? Tem certeza disso?
- Claro. Depois veio mamãe, com o kimono todo frouxo e o obi encharcado nas mãos. Aí tá nisso aí que você viu.
Sano começou a encaixar as pecinhas do quebra-cabeça. "Kaoru e o depressivo do Shinomori? Não, que isso... Mas pelo que o moleque tá falando! E realmente, ele tá todo desarrumado... E Misao está possessa, realmente descontrolada..." Seus pensamentos foram interrompidos quando ela deu um tapa na cara de Aoshi com toda a força, fazendo-o desviar o rosto. Foi como se tudo houvesse parado pelos longos momentos que ele continuou com o rosto virado para o lado, olhando para baixo, até que seu rosto se ergueu, com um olhar distante, frio e completamente demoníaco. "Caralho..." Sano estava tão assombrado quanto Misao, que conhecia Aoshi e recuou um pouco ao vislumbrar um olhar quase próximo ao do Shura em seu rosto.
"Eu vou dar o fora daqui antes que sobre pra mim! Em briga de casal é um perigo se meter!" Sano se virou e disse rapidamente para Kenji:
- Escuta, eu vou dar uma volta. Cumpra seu papel de homem da casa, e fique vigiando aqueles dois - apontou para Yuki e Asuku, que brincavam contentes e alheios a tudo que acontecia - e também a Tsubame-chan. Escutou? Ela tá lá dentro almoçando, não me decepcione, certo?
- Certo!! - disse o ruivinho bem empolgado com suas novas e importantes atribuições.
Sano caminhou e fechou o portão antes de ver Aoshi dizer de forma ríspida "Se você não acredita em mim, então é problema seu" para Misao e sair andando para o portão também.
Kenshin e Yahiko estavam saindo da clínica do Dr. Genzai, ainda carregando o ruivo inconsciente, agora com curativos enormes na coxa. Yahiko estava novamente ficando furioso, por ter que andar aquele trecho todo com aquele peso morto:
- Inferno! Esse sujeito parece até dopado! Não acorda de jeito nenhum! Aposto que faz isso só para que tenhamos que carregá-lo!
- Esquece isso, Yahiko, já estamos chegando em casa agora. Andamos a maior parte do caminho até então.
- Hmph... Ei! Kenshin, olha lá, é o Sano! Olha, ele tá saindo da recepção daquela pensão em que ele dormia quando morava aqui em Tokyo.
- É verdade! Sano! Sano! Eei, venha cá!
- Kenshin! Yahiko! - ele se aproximou correndo - Puxa, que bom ver vocês! Tudo bem, Yahiko? E... quem é esse cara?
- Ninguém, Sano, é um conhecido do Yahiko.
- Ahn. Bom, eu vou dar uma volta por aí antes de voltar para o dojo. Tsubame já está completamente recuperada, então...
- Ótimo! Então quer dizer que está tudo em paz lá em casa, não é mesmo?
- Ahnn... Sim, claro, né? Por que não estaria? - "Se você não considerar o fato que Kaoru parecia estar querendo arranjar mais um irmão para Kenji e Yuki com a ajuda de Shinomori..."
- Decidiu voltar pra pensão, Sano? - perguntou Yahiko - Já enjoou da comida da Kaoru?
- Coitada da Kaoru, vocês sempre usam a comida dela dela como pretexto... - Kenshin parecia meio contrariado, e Sano e Yahiko decidiram encarnar nele fazendo aquele "Ooooooh!" clássico, o que deixou levemente vermelho.
- Ai, que o amor é lindo! - ria-se Sanosuke - Não, eu não quero dar trabalho pra ninguém, por isso decidi ficar na pensão. O dojo já tá cheio demais. Bom, estou indo, pessoal! Estou muito feliz em vê-lo, Yahiko, até mais!
- Êêê, o Sano tá estranho... - disse Yahiko ao vê-lo se afastar com uma certa pressa, como se estivesse escondendo alguma coisa - Mas se está tudo bem com Tsubame, que será que houve?
- Não faço idéia. Vamos lá, Yahiko.
Batidas na porta. "Saco. Já falei milhares de vezes pro Soujirou não vir até aqui. Existem pessoas num hotel, o que ele quer, alertar meio mundo sobre o nosso plano?" Ele colocou o cigarro na boca, abriu a porta e se surpreendeu com o que viu:
- Shinomori Aoshi?
- Saitou. Não vai me convidar para entrar?
- Claro, claro, entre. Devo admitir que me surpreendeu a velocidade de sua decisão.
- Não cabe a você discutir isso... Mas vamos falar de negócios?
- Agora mesmo...
Saitou Hajime sorriu e fechou a porta.
O luar denunciava a madrugada e havia algumas horas que Sano estava entretido em jogar, mas não estava exatamente se divertindo. Já não conhecia mais ninguém naquele lugar, e ele havia se tornado um tanto "barra-pesada" desde a última vez em que esteve lá. Estava juntando seus pequenos lucros da noite (pelo menos isto!) para ir embora, quando começou uma certa confusão.
- Você aí, mulher! Está me roubando!! Sua ladra!
- Ora, estou roubando... Prove isto, seu gordo idiota! Que posso fazer se você inveja a minha beleza E a minha sorte? - ela saiu da mesa em que estava, gargalhando alto para todo o cassino, pura provocação com o gordo perdedor.
- Aposto que rouba! A sorte não é tão generosa assim! - entrou na briga o cupriê da mesa.
- Ah, é? Veremos então se o problema não é dessa mesa! Que tal esta aqui! - ela se aproximou da mesa de Sanosuke - Quem foi o último ganhador?
Todos os homens da mesa - talvez enfeitiçados pela beleza e pelo autoritarismo dela - apontaram unânimes para Sano: "Foi ele!!" Ele já estava quase dando o fora dali, antes que sobrasse pra ele, até que levantou o rosto e olhou para a tal mulher arruaceira.
Foi como se todo o mundo virasse um borrão, e ele se sentiu leve e autêntico, feliz e naturalmente feliz, satisfeito e contente: somente ele e a tal mulher. Não, não uma mulher qualquer. A mulher. A única. Em todos os lugares, todos os céus e todos os mares, a única. Somente voltou à Terra quando ela própria lhe falou, a voz baixa e doce, em um tom excentricamente almiscarado:
- E qual seria o nome deste ganhador?
Ilka não pôde explicar porque se sentiu daquele jeito: leve e autêntica, feliz e naturalmente feliz, satisfeita e contente. Suas trapaças não eram mais importantes, o gordo chato que fosse para o Inferno, o dinheiro - até o dinheiro - não era importante agora: ele somente bastava. O objetivo inicial era que soasse zombeteira com ele também, mas foi simplesmente impossível... Se sentiu até boba por estar perto dele. Boba por estar usando a bata aberta de um jeito não muito decente, boba por tentar usá-lo sem nenhum... carinho? afeto? Era tudo tão confuso...
- Sanosuke... Sagara Sanosuke.
- Já foram feitas as apresentações!! - o gordo estava vermelho e exaltado, afinal, só lhe sobravam as roupas do corpo de toda sua pequena fortuna do dia - Quero ver agora, sua vagabunda, ladra nojenta!!
- Ei, ei, ei! Sem ofensas! - Sano enfiou o dedo na cara do gordo - Você ainda não conseguiu provar que ela é uma ladra - se é que ela é uma -, então, trate de ter mais respeito!
O cupriê começou a jogar as cartas, e Ilka discretamente sussurrou para Sano, que estava agora a seu lado na mesa:
- Meio a meio.
Ele sorriu e então falou com o cupriê:
- Ande, vamos logo, não tenho o dia todo!
Ele olhou meio enfezado e começou a distribuir as cartas, para ele, para Ilka, e para Sano:
- Para mim, chega! - disse primeiro Ilka.
- Para mim, também. - Sano disse um pouco depois dela.
- Então a casa também se dá por satisfeita. Vamos conferir agora.
Nesse momento, Sano sentiu como se algo muito fino tivesse passado por seu braço. Decidiu ficar parado, como se não houvesse sentido nada.
- Vamos ver o seu, senhorita... 19! Ótima marca! Vitória é praticamente certa! - Ilka sorriu para o gordo que não tirava os olhos dela - Vamos ver agora o do sr. Sagara... - o cupriê olhou um pouco assustado - 21! 21!
Todo o cassino, que agora estava parado observando o resultado da querela, pasmou: valores tão altos assim, numa rodada só? Seria uma coincidência absurda! A única forma de Sano perder seria se a casa também tirasse 21... O cupriê olhou para a quantia de dinheiro em jogo - definitivamente, uma pequena fortuna; se perdesse aquela, o que era provável, estaria no olho da rua em uma hora pelo enorme prejuízo que teria trazido à casa, que não estava acostumada a jogadores ricos como aquele gordo - e finalmente levantou, um pouco trêmulo, as suas cartas. Uma vez levantadas, foi a vez de Sano falar:
- Ora, ora, vejam só! 10! Como eu tirei o valor máximo, e desbanquei a casa... - ele sorriu de orelha a orelha - Com licença!
Sanosuke tirou o casaco, abraçou as fichas e fez uma trouxa bem enrolada. Saiu assobiando, e acenando adeus. Por alguns momentos, todos pararam, contemplando a cena. O gordo estava tão pasmo por haver perdido o mesmo dinheiro duas vezes na mesma noite que nem soube esboçar reação. Já Ilka saiu da mesa completamente desolada, e começou a atirar fichas no gordo:
- Tá vendo!! Se não fosse pela sua teimosia, eu teria pego o dinheiro!! Seu gordo nojento!! - ao que foi expulsa a pontapés da casa por cupriês já temerosos por suas cabeças.
Assim que se viu completamente sozinha na rua deserta do cassino, ela se levantou e saiu correndo, espanando a poeira de sua roupa. Alguns passos à frente, avistou Sano andando apressado com um embrulho cuidadoso de papel às costas. "Rápido pra trocar por dinheiro, hein?"
- Eeei! Eeei, você!
Sanosuke fez que não era com ele, apesar de não haver viva-alma nas redondezas: "Vamos brincar um pouquinho."
- Sanosuke!! Sanosuke!!
Ela correu em direção a ele, colocou a mão em seu ombro, e o virou:
- Deu pra se fingir de surdo, é?
- Aah, era comigo? Nunca se sabe, existem tantos Sanosukes por aí...
- Não seja sonso. Ande, abra logo este embrulho e vamos dividir o dinheiro.
- Dividir o dinheiro? - ele se fez de perplexo - Ficou doida? Eu ganhei honestamente.
- Ganhou honestamente? O dez era seu! Agora vai me dizer que...
- Vou te dizer que não combinei nada de dividir dinheiro nenhum com ninguém. - ele começou a andar novamente, a passos bem rápidos. Ela o seguiu, quase correndo a seu lado.
- O QUÊ? Como assim, não combinei nada? Você aceitou dividir, caso eu te fizesse ganhar e tirasse o dinheiro das mãos do gordo!
- Você ouviu alguma palavra saindo da minha boca? Tenho certeza que não. Então, pronto. Não seja mercenária, ou vou começar a achar que o gordo estava certo.
Ela simplesmente parou, furiosa. "Opa, acho que exagerei demais nessa. Vou dizer que estava brincando e..." Sano sentiu que seu corpo todo foi prensado, de modo quase asfixiante, e se viu puxado para trás. Quando se deu conta, viu que estava enrolado em grossas correntes, e que Ilka estava ajoelhado em frente a sua cabeça. Ela sorriu, sacudiu o embrulho polpudo na cara dele, apertou sua bochecha e saiu andando, passos firmes e rápidos no sentido oposto ao que estavam andando antes, entre ruelas. Quando ela se afastou, as correntes libertaram Sanosuke e foram atrás dela, se enfiando em baixo da bata, como se obedecessem a algum chamado. Ele ficou meio zonzo por alguns segundos, e então se levantou e foi correndo atrás dela:
- Eeeeei! Volta aqui!! Volta aqui!!
"Vamos brincar um pouquinho." Ilka sorriu consigo mesma, enquanto deliberadamente andava ainda mais rápido.
Ele correu até alcançá-la e falou:
- Espera aí, eu ainda estou em desvantagem nessa história toda. Você ainda não me disse qual é o seu nome.
- Ilka.
- Ilka? Ilka, só Ilka?
- É, Ilka, só Ilka.
"Eu adoraria colocar um 'Sagara' pra acompanhar esse nome... eei, espera, o quê que eu tou pensando??" Sano sacudiu a cabeça, tentando colocar a cabeça no lugar. Casamento? Onde já se viu pensar em casar? Ainda mais com uma garota que ele havia conhecido meia hora atrás e que agora tentava ludibriá-lo. Aliás, garota... Sano olhou bem para ela e percebeu como ela deveria ser muito mais jovem do que ele imaginara. Afinal, já tinha alguma experiência de vida e sabia adivinhar bem a idade de alguém.
- Quantos anos você tem, Ilka? Aposto que não tem idade nem pra andar na rua sozinha.
Aquela pergunta a deixou visivelmente perturbada por alguns instantes, mas então ela recuperou a compostura e disse:
- É falta de educação perguntar a idade de uma senhorita.
- Ah, é? - ele acelerou seus passos e se colocou de frente a Ilka, forçando-a a parar - Mas tenho certeza que não é falta de educação perguntar a esta mesma senhorita para onde ela vai com o meu dinheiro.
- Seu dinheiro? Mas você acabou de me dizer que não fizemos acordo nenhum. - ela desviou para o lado, tentando seguir adiante, mas Sanosuke continuou no caminho.
- Háhá, claro que fizemos. Você nem ouse... - Ilka agarrou a camisa dele, puxou o rosto dele para baixo e o interrompeu com um beijo demorado. Ela então o largou subitamente, com um empurrão para o lado, e começou a andar para a frente de novo.
- Não, não, agora que você me provocou, não vai fugir.
Sano a segurou com força pelo braço, ao que Ilka acabou soltando o embrulho do dinheiro no chão, e a forçou contra uma parede cruamente emboçada, típica daquelas ruelas de zonas não muito bem nomeadas, e por fim, beijou-a com força. Ilka enlaçou as pernas na cintura dele, o que a deixou num nível um pouco mais alto, forçando Sanosuke a jogar a cabeça para trás.
Ela brincava com o cabelo dele, que deslizava como seda por entre seus dedos, até que começou a descer por sua nuca, alcançando seus ombros, suas costas, abrindo caminho rudemente pela sua camisa, que ela puxava para trás. Sano acompanhava seus movimentos "exploradores", escorregando sua mão por baixo do couro e das correntes entrelaçadas que a protegiam além da bata, procurando pela pele macia que acariciava seus dedos enquanto ele apertava a coxa de Ilka. Suas mãos subiam... Tudo parecia plenamente perfeito e harmonioso, sensações crescendo em ondas rítmicas, até que abruptamente Ilka o soltou e disse:
- Espere, espere!
- O que foi?
- Eu tenho que... - ela esfregou a cabeça como se houvesse acabado de lembrar de algo muito importante - Eu tenho que voltar pra... pra... pra casa.
- Pra casa?! - ele replicou, com ar de surpresa.
- É, apesar de tudo, eu tenho onde dormir. - Ilka devolveu com uma certa fúria.
- Eu não quis dizer isso. - Sano a soltou da parede, ao que ela soltou as pernas e desceu - A meia-noite já passou há algumas boas horas. Acredito que todos já estejam dormindo a essa hora. De que adianta você voltar agora?
Ela hesitou um pouco e pensou no que ela havia acabado de chamar de casa. Mais parecia com um covil de cobras, e o único em que ela confiava, Soujirou, tinha estado tão estranho e misterioso ultimamente, que até dele começou a se resguardar um pouco. E havia essa recomendação, de voltar antes da meia-noite. "Para não despertar suspeitas", ele havia justificado. Oras, a essa altura da noite...
- E então? Para você pensar tanto assim, acho que não tem ninguém lá que seja tão boa companhia como eu.
Ela sorriu. "Parece até que ele sabe..."
- Além do mais... É estranho pra mim dizer isto, eu nunca fui um cara romântico, mas...
- Percebe-se! - Ilka esbravejou e os dois riram.
- Bom, mas eu... Eu sinto agora como se todo o tempo que eu vivi sem te conhecer não passasse de um enorme desperdício. E eu não gostaria de desperdiçar nem mais um segundo.
- É.
- É o quê?
- Pra um romântico principiante, até que está bom.
Sanosuke sorriu e olhou para aqueles expressivos olhos castanhos à sua frente. Ele então se virou, caminhou alguns passos, virou novamente e lhe estendeu a mão, dizendo:
- Você vem, ou não vem?
Ilka admirou longamente aquele homem, agora com a camisa torta, desarrumada e meio descabelado - se é que era possível para Sano estar mais descabelado do que ele sempre fora -, os ombros largos e parte do seu corpo musculoso à mostra. Havia algo nele que a dizia que ele tinha algum motivo além de um certo volume nas calças para insistir tanto que ela fosse. Talvez Sagara Sanosuke fosse aquele alguém tão diferente do resto do mundo, sem segundas intenções. Se não fosse, por que ela se sentia tão diferente na presença dele? De um jeito que nunca havia sentido antes, uma leve taquicardia... Algo inexplicável. E também... Do que adiantava a pureza de corpo, se a de espírito ela já havia perdido?
"A vida é um risco."
Ela foi à frente, entregou-lhe a mão, e naquele simples gesto, entregou-se por completo. Sano a envolveu com seu braço, a beijou, e eles seguiram em frente abraçados.
A Lua já descia no horizonte, e os primeiros tênues sinais do Sol já lutavam para aparecer, quando...
- Espera, espera!
- Esperar o quê?!? O que foi desta vez?
- O dinheiro!!
Eles se encararam por alguns segundos, e então os dois dispararam numa corrida de volta.
Próximo Capítulo(lá em baixo!!!)
"Foi como se todo o mundo virasse um borrão, e ele se sentiu leve e autêntico, feliz e naturalmente feliz, satisfeito e contente..."
PS: Como seria essa história se ela se passasse nos dias de hoje:
"- Espera, espera!
- Porra, de novo? Já é a terceira vez!
- Você esqueceu isso!! - ela tirou (sabe-se lá de onde) uma enoooorme cartela de camisinhas, e fez um "V" de vitória.
- Ooops! Foi mal!"
=^-~= *pisca, pisca*
Voltar