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Capítulo 4: Uma Questão de Perdas (Teratologia)
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"Os fracos somente estão ali para justificar os fortes"
Marilyn Manson - Beautiful People
"Carregado como um trem de carga
Voando como um avião
Com a sensação de um cérebro espacial
Mais uma vez esta noite
Bem, sou um convencido da costa oeste,
Com uma mãe ruim
Carrego uma valise de couro de cobra
Debaixo do braço
Dizem que sou uma máquina ruim que bebe gasolina
E benzinho, você pode ligar meu motor
Tenho uma chance sobrando
Nas minhas nove vidas de gato
Tenho um sorriso mais que malicioso
Tenho um coquetel molotov com o pavio acabando
E eu fumo meu cigarro com estilo
E estou te dizendo, querida,
Você pode faturar meu dinheiro hoje à noite.
Acorde tarde, querida, enfie suas roupas
Leve seu cartão de crédito direto para a loja de bebidas
É um pra você, e dois pra mim esta noite
Porque estarei carregado como um trem de carga
Voando como um avião
Com a sensação de um cérebro espacial
Mais uma vez esta noite
Estou no trem noturno, traseiro pra cima
Estou no trem noturno, encha minha xícara
Estou no trem noturno, pronto para destruir e queimar
Eu nunca aprendo!
Estou no trem noturno, amo essa sensação
Estou no trem noturno, e nunca é o bastante
Estou no trem noturno, pronto para destruir e queimar
Guiando o trem noturno, ah, eu acho
Acho que nunca vou aprender
No trem noturno, me leva pra casa
Ah, estou no trem noturno
Guiando o trem noturno
Para nunca mais voltar"
Guns N' Roses - Nightrain
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O murmúrio da estação... Tantos caminhos diferentes que se cruzavam num lugar que cheirava à evolução: o recém-adquirido poder da máquina, o aroma de carvão, a fumaça que se erguia. Símbolo pleno da revolução que dominava o mundo, pleno século XIX.
O rapaz que tocava no chão e agradecia as moedas, as malas que se esbarravam, as crianças que tropeçavam. Mei-Lin olhava para o chão que pisava. Fazia um tempo que não voltava para casa, o que a fez se perguntar se valia a pena seguir Soujirou em uma nova empreitada, em um novo caminho, em uma nova aventura...
"Mas que diabos eu estou pensando? Nunca fui muito de sentimentalismo barato..."
O trem se aproximava. Mei-Lin agradeceu ao rapaz que a havia trazido até ali e o mandou embora, antes que ele convulsionasse antes de tanto tremer, e foi andando.
A locomotiva parou e alguns passageiros desceram, enquanto outros permaneciam no trem para seguir rumo a Shanghai. Era óbvio que para entrar essa era a hora, esse entra-e-sai que confunde a todos. Mei-Lin visualizou uma janela aberta onde um garotinho olhava distraído para seu brinquedo de madeira. Ela pulou e entrou como um gato pela janela, assustando o garoto, que olhou para ela e disse:
- Moça, você tem que falar com o moço da entrada antes de entrar no trem!
- Qualé, garoto, você é muito pequeno pra ser tão careta! - ele pegou um pirulito em cima do banco e enfiou na boca do menino - Vai se divertir, vai!
- Documentos, por favor?
- Ahnn... Só um instante... Puxa... Espera aí, eu tinha certeza que tinha guardado neste bolso... Ah... Droga... Não aqui, não... - Chou puxava sua camisa por todos os cantos até que disse - Ahá! Achei!
O vigilante aproximou os olhos:
- Achou? Cadê?
- Tá aqui, ó! - Chou socou o vigilante no meio da cara, rachando os óculos - Prá deixar de ser babaca... - ele arrastou o corpo até um canto, e começou a vestir as roupas dele, para não levantar maiores suspeitas e entrar com tranqüilidade no trem.
- Senhor, chegamos.
Nenhuma resposta vinha de dentro da carruagem, apenas alguns risinhos e outros gemidos.
- Hã... Senhor, chegamos, senhor, está me ouvindo? - o condutor batia na porta.
- Já?!? Ouh, puxa.... Tenho de ir, querido... Até mais! - Kamatari abriu a porta, e saiu ajustando seu kimono.
- Puxa... - o ricaço saiu bambaleando - Não quer ficar, Kama-chan? Sou um comerciante rico, intermediário da rota da seda... Posso lhe dar tudo o que quiser! - ele disse, colocando um polpudo maço de dinheiro dentro de seu obi.
Ela apertou as bochechas do homem:
- Eu realmente tenho de ir. Eu adoraria ficar, mas... Quem sabe um dia eu volte! Eu lhe procurarei, com toda a certeza!
- Oh, sim, volte... Eu nunca conheci uma menina como você! Vou sentir falta! - ele disse acenando.
- É, eu tenho certeza de que nunca conheceu uma menina como eu... Até mais!
Kamatari seguiu caminhando pela estação, procurando o trem que a levaria para Shanghai. Perguntava-se se mais alguém havia conseguido chegar até ali, afinal, havia visto Saiduchi e Hennya morrer com uma facilidade que beirava o absurdo. Passou por sua cabeça se uma simples alma habilidosa era suficiente contra um exército munido de espadas. Kamatari então lembrou-se de Himura Kenshin: "Sim, é suficiente."
Ela finalmente achou seu trem e ficou surpresa por não achar nenhum vigilante pedindo documentos. Então, ela olhou para um lado e viu um sujeito que se contorcia para entrar num uniforme.
- Não vou abusar da sorte, né?
Kamatari entrou no trem.
- Quer um biscoito da sorte, Ilka? Estão deliciosos!
- Não, obrigada. Tenho medo de receber um com a mensagem "Em algumas horas, sua cabeça vai estar separada do seu corpo".
Soujirou riu:
- Que bobagem, Ilka! Nunca vão nos descobrir!
- Pudera! Eu entendo se esconder no bagageiro... ou ainda trocar da vagão na hora da fiscalização... ou ainda ter documentos falsos... ou roubar documentos... Mas eu não entendo viajar em cima de um trem!
- Eu subornei meio mundo para conseguirmos chegar até a estação, e me certifiquei de que ninguém nos viu subir.
- Tem alguém se aproximando, silêncio.
Ambos ficaram quietos e conseguiram ouvir apenas alguns trechos da conversa, como "(...) seu passaporte, além do visa e de outros documentos (...)" , "(...) problema de segurança (...) estão mortos (...)", "(...) conseguimos evitar (...) até Shanghai (...)", "(...) são tontos (...) Imperador e da companhia do ouro (...)", e uma fechada brusca da porta.
- Soujirou... Isso não é conversa boa...
Ilka enterrou o rosto nas mãos e se lembrou do incêndio que, quando ela era pequena, havia tirado para sempre da vida dela aqueles que ela amava, e sentiu como se estivesse num trem rumo ao Inferno, e sem bilhete de volta. Levantou os olhos e viu que Soujirou aparentava nem ter se importado, apesar de ter certeza de que, como ela, ele também supunha a identidade da pessoa que havia entrado naquele vagão exclusivo. Soujirou mastigava, voraz como sempre ao se tratar de doces, o último biscoito da caixinha.
- Ei, ouve só a minha mensagem: "Você é um em um milhão, uma estrela em ascensão". Bonita, não é mesmo?
Ilka estendeu sua mão, até que esta segurasse firme a de Soujirou.
- Você sabe que todas as minhas esperanças estão no fato de que eu acredito nisto, não sabe?
O trem embaixo deles começou a tremer, prestes a deixar a estação.
- Srta. Farrah, aqui estão seu passaporte, além do visa e de outros documentos necessários. Coisa de praxe.
- Claro, claro. Não há nenhum problema de segurança, certo? Eles ou estão mortos ou não conseguiram passar pela alfândega, não é?
- Certamente. - assentiu o Comandante da fracassada ação de captura da Juppongatana - Afinal, não foi um fracasso completo. Conseguimos evitar que eles chegassem até Shanghai. Tenho somente uma pergunta... Eles sabem que a Srta. é a grande delatora?
Farrah riu:
- Duvido. São tontos demais para isso! E além do mais, em breve estarei no Japão, desfrutando da companhia do Imperador e da companhia do ouro também. E não há nada mais seguro que isso!
- Espero que sim. - o homem fechou a porta do vagão do trem que era reservado somente a ela - Adeus!
Farrah acenou da janela do trem, que agora apitava e movia-se lentamente.
- O trem tá saindo! Quê que a gente faz agora?
- Segue ele até dar prá entrar! - berrou Gio, que puxava o irmão pelas mãos.
Eles entraram disfarçados de mendigos na cidade, após muito custo, e haviam acabado de chegar na estação. Seguindo o trem, que ainda não havia conseguido alcançar velocidade total, Gio conseguiu saltar e segurar numa das ligações entre os vagões.
- Corre, Fred! Segura a minha mão!
- Eu não consigo! Tá muito rápido!
- O frasco, Fred! O frasco!
Enquanto corria, ele usou seu último fôlego para inalar com toda a força o que havia sobrado do milagroso pó branco. Tomou outro impulso, e conseguiu agarrar a mão do irmão, apesar de sofrer um profundo corte na perna, causado pela porta do vagão. Gio conseguiu puxar o irmão para junto de si antes que o vigilante do vagão abrisse a porta para ver o que estava acontecendo.
- Tá-doendo-tá-doendo-tá-doendo-tá-doendo-tá-doendo-tá-doendo....
- Cala essa boca e fica quieto, que eu dou um jeito nisso. O guardinha ali já tá muito ligado.
- Vou pegar outro frasco então... Preciso suportar a dor...
Gio deu um tapa na mão do irmão que buscava a bolsa repleta de frascos etiquetados, numerados e com os mais diversos conteúdos.
- Pirou, seu desgraçado? Você já me falou que cada frasco tem a dosa máxima diária que você pode suportar!
- Mas o composto é outro... Alivia a dor...
- Foda-se! Não me interessa! Já estou farto das suas crises de overdose! Já me basta você não conseguir fazer absolutamente nada sem seus frascos! Estamos aterrados em problemas até o pescoço, não me arranje mais um!
- Mas tá doendo...
- Agüenta e não me apurrinha, tá ouvindo?
Meia hora de viagem transcorrida. Ilka dormia encostada numa beirada, no canto extremo do vagão. Soujirou estava sentado, perto da porta. Decidiu que este era o momento certo: Ilka não veria nada - bem, talvez ela acordasse, mas não a tempo de fazer nada - e com certeza, nossa passageira solitária já devia estar bem segura de si. Sim, agora é a hora.
Soujirou habilidosamente pulou na porta, agarrando-se a ela, e a abrindo com cuidado. Saltou para dentro do vagão, o que surpreendeu por completo Farrah, que estava deitada no último banco. Antes que ela pudesse gritar, Soujirou puxou a bainha de sua espada e com ela, quebrou seu maxilar, impedindo-a de gritar. Farrah gemia de dor, enquanto Soujirou a agarrava pelo pescoço e a puxava para a porta do vagão, agora aberta.
- Eu sei muito bem que você é uma galinha histérica. E eu não quero acordar Ilka, ela está num sono tão tranqüilo que até me surpreende... Ela está realmente apreensiva, e parte disso é sua culpa. Aliás, tudo que está acontecendo hoje é sua culpa. Todas as mortes, todos os feridos. Mas eu também sei muito bem que culpa não é o tipo de coisa que perturba uma vagabunda como você.
Soujirou agora empurrava Farrah pela porta, enquanto ela se debatia desesperadamente para que suas pernas não caíssem debaixo dos trilhos.
- Oh, suas pernas? Sim, elas sempre foram muito bonitas... Foram... num passado agora remoto.
Soujirou chutou Farrah e pôs a cabeça para fora para apreciar a cena: Farrah tinha metade do corpo agora sendo esmagado pelo vagão em alta velocidade, e era arrastado pelos braços por Soujirou, que não a largava.
- Este é último vagão! Não vai lhe machucar muito se eu lhe soltar agora! Além do mais, eu sempre apreciei sua companhia.
Farrah chorava e urrava de dor, e tentava se desvencilhar dos braços de Soujirou, até que não agüentou mais e desmaiou. Soujirou então a largou, e viu o vagão inteiro passar por cima das pernas dela, as rodas circulando embebidas em sangue, que respingou na roupa dele. Ele saltou silenciosamente de volta para a parte superior, e começou a limpar sua roupa, de costas para Ilka.
- Sou-chan...?!
- Ilka! Você acordou?
- Eu senti um solavanco estranho... Que terá sido?
- Deve ter sido um problema nos trilhos. As linhas ferroviárias da China não são muito boas.
- É... Deve ter sido...
Ilka abaixou a cabeça de novo e voltou a dormir, enquanto um sorridente Soujirou limpava manchas de sangue.
Uma luxuosa mesa de conferência, empregados e uma recepção impecável. "Sim, é o que sempre esperei de um convite vindo do Imperador", ele disse para si mesmo, enquanto tomava o lugar reservado para si. Algumas ofertas gentis, "chá, água, sakê?", outras recusas gentis, alguns minutos transcorridos, alguns cigarros acesos e o anúncio:
- Sua Majestade, o Imperador.
Ele se ergueu, e viu entrar o Imperador, acompanhado de seu conselheiro, o Vizir Real. Um gesto do Imperador e todos se sentaram, inclusive ele e seu conselheiro. O Vizir tomou a palavra:
- Majestade, este é o Comandante da Polícia Secreta, Sr. Fujita Goro.
Saitou Hajime fez menção de levantar novamente ao ouvir o nome que havia adotado anos atrás, para evitar a possível perseguição por ter sido um capitão da Shinsengumi, na agora quase esquecida Guerra Civil que havia assolado o Japão há anos atrás, mas o Imperador dispensou o ato com um gesto.
- Não é necessário isto, Sr. Fujita. Procure entender, estamos enfrentando contratempos que podem se transformar em problemas e eu, pessoalmente, gostaria de evitá-los. Por isso, pretendo que esta seja uma ação estritamente silenciosa e confidencial, já que envolve minha pessoa e uma possível humilhação com relação a outros países.
- Certo, Majestade. Mas que problema é esse? - Saitou procurou analisar a figura do Imperador e viu que ele ocultava (ou ao menos tentava ocultar) um medo crescente.
- Novamente, eu poderia ter escolhido o Exército, ou a Marinha para resolver isto... Até mesmo a Polícia Convencional. Mas sei também que o senhor já tem experiência neste ramo... O meu problema, não, o nosso problema é a Juppongatana. Parece que este grupo se reorganizou e está retornando ao Japão para... Assassinar-me.
- A Juppongatana? - Saitou mostrou-se surpreso - Mas Shishio Makoto está morto, e ele era a grande figura que controlava a Juppon.
- Certamente, mas parece que seu ajudante mais próximo, um tal de... - aproximou um papel que estava na mão do Vizir aos seus olhos - Seta Soujirou, sim, esse mesmo, ele teria reorganizado tudo sob seu comando.
- Hmmm, compreendo. Mas ele mandou alguma espécie de ameaça, em seu nome?
- Não. Descobrimos de tudo porque possuíamos uma informante infiltrada neste grupo de extermínio. Eles chegariam até o porto de Shanghai e a partir dali, viriam de barco até o Japão.
- Por que não pedir a colaboração da China, então?
- Na verdade, nós pedimos. Estava no roteiro deles uma passagem pela estação ferroviária de Hong Kong, na qual foi feita uma emboscada pelos chineses. Mas Seta Soujirou e mais... - nova consulta - Ilka não foram encontrados, e os outros teriam sido detidos. Porém, nossa informante foi encontrada nos trilhos, a quinze quilômetros aproximadamente da estação, com um maxilar quebrado e as duas pernas esmagadas pelo trem.
- Puxa. Ela sobreviveu? Podemos interrogá-la...
- Surpreendentemente, sim, sobreviveu ao acidente. Suas pernas foram amputadas. Mas quando ela acordou e descobriu o que havia acontecido, ela esperou as enfermeiras saírem e se suicidou.
- A partir disto, supõe-se que tentaram não assassiná-la, mas fazê-la sofrer. Provavelmente Seta Soujirou foi este alguém.
- Sim, especialmente porque ela era uma espécie de... dama de companhia para ele.
- Bonita, obviamente, e não suportou a idéia de ser aleijada. Sim, só lhe restava o suicídio.
- Em resumo, eles escaparam ao cerco, não faço idéia de quantos deles, e estão vindo para cá. E a partir de agora, é função sua eliminar sem qualquer piedade todos eles. Aqui está uma lista com a relação de nomes que constituem o grupo completo da Juppongatana. Farrah era nossa informante, e os outros morreram na emboscada em Hong Kong, são os nomes riscados.
Saitou pegou a lista.
Seta Soujirou
(?) Ilka
Sawagejou Chou
Honjou Kamatari
Kariwa Hennya
(?) Saiduchi
Farrah Al-ya-Fayah
Frederico Ricelli
Giorgio Ricelli
(?) Mei-Lin
- Compreendeu tudo?
- Sim, senhor.
Shinomori Aoshi se ergueu ao som de batidas na porta. Pensou consigo mesmo como deveria haver alguma espécie de conexão telepática que atrai visitas justamente quando você está pensando em sair. Caminhou pelo corredor, desceu as escadas, novamente as batidas: "Impaciente. Não vou correr por sua causa...". Tocou a porta e visualizou uma sombra familiar que a porta deixava transparecer ao sol de meio-dia, mas estava descrente de que era que ele imaginava:
- Saitou Hajime?
- Shinomori, há quanto tempo, não é mesmo?
Saitou encarou Aoshi, que foi para o lado e fez um gesto para que ele entrasse, sem desviar os olhos por um só instante. Seu visitante quebrou o contato e entrou, dirigindo-se para a sala de visitas. Novo sinal de Aoshi para que ele se sentasse, o que foi obedecido, e logo em seguida ele próprio se sentou:
- Sim, realmente faz muito tempo, o que me faz perguntar o motivo de sua repentina visita.
- Ora - Saitou acendeu um cigarro -, apenas uma visita cortês, e digamos... De caráter informativo.
- Estou ouvindo.
- Bem, você como Okashira da Oniwabanshuu deve estar sempre bem-informado, consideravelmente a par de tudo que acontece em Kyoto... Talvez não só em Kyoto, quem sabe no Japão inteiro.
Aoshi manteve-se calado.
- Por isso, acreditei que você ficaria satisfeito - quem sabe até contente! - se eu viesse até aqui lhe contar que a Juppongatana está de volta.
- A Juppongatana? Mas depois de tanto tempo, e da morte de Shishio? Parece bastante improvável.
- Sim, mas o que vou lhe contar é bem plausível... e real.
- Quem será a nossa visita, Asuku? Hã? Quem será? - Misao balançava o garoto em seu colo, que em resposta sacudia a cabeça e ria - Não sabe? Mas como não sabe? - ela o deitou no ar, de modo a deixá-lo de cabeça para baixo e provocando ainda mais risos - Pois é, mas papai sabe, afinal, ele abriu a porta. Ou pelo menos espero que ele tenha aberto!
Ela foi descendo as escadas tranqüilamente, até ouvir uma voz já conhecida, que a fez estancar na escada:
- Saitou? Saitou Hajime? Mas o quê...
Misao se abaixou na escada, e foi se aproximando, tentando ouvir a conversa sem se fazer notar.
- ... E eu acabei de conversar com o Imperador, ele está realmente disposto a detê-los de qualquer maneira.
- Hu-hum. Matar o Imperador. Está bem claro agora, Soujirou parece disposto a terminar o que Shishio não conseguiu. A única coisa que ainda permanece obscura para mim é o porquê de você ter vindo aqui contar isso tudo.
- Planejo um único e poderoso ataque contra eles, por isso, precisaremos de toda a ajuda possível.
- Saitou, como Okashira, minha área de atuação se limita a Kyoto, e já é o suficiente. Detê-los é responsabilidade completamente sua, e eu não estou disposto a me envolver nisso.
- Justamente por ser Okashira, Shinomori, - ele lançou um olhar dardejante sobre Aoshi - você precisa se preocupar com a integridade física de sua esposa e de seu filho, que ainda é um bebê, não é mesmo?
Misao tremeu de ódio ao ouvir estas palavras de Saitou. "Aquele bastardo metido! Está nos ameaçando, é isso? Ora, se você é incapaz de resolver seus problemas por si próprio, seu cretino..." Ela sentiu um desejo incontrolável de ir até lá e esbofeteá-lo até que ele saísse completamente vermelho, mas se controlou na escada e abraçou Asuku em seu colo. "Eu sou uma pessoa madura, não é? Não, não vou fazer isso. Tudo vai se resolver e eu vou ficar aqui na minha."
Após um breve momento de silêncio, Aoshi se levantou e disse:
- Eu não recebo ninguém em minha casa para ouvir quaisquer tipos de ofensa, chantagem ou ainda ameaça. E eu também prezo e muito bem pela integridade de Misao e de meu filho. Portanto, eu estou educadamente convidando-o para retirar-se, Saitou. Agora.
"Nestas horas, eu vejo como Okina tem razão... Aoshi pode ser absolutamente adorável comigo e com Asuku, mas ele consegue ser absolutamente gélido com os outros..." Misao continuava pensando consigo mesma.
Saitou Hajime se ergueu, deu uma baforada e disse:
- Sim, eu vou. Já fiz tudo o que tinha de fazer aqui. - Aoshi-sama abriu a porta e Saitou saiu - Até mais ver, Shinomori. E acredite, será em pouco tempo.
Ao ver seu marido observando estático um biombo translúcido, Misao decidiu finalmente levantar da escada e quebrar o silêncio:
- Ele não tinha nenhum motivo para vir até aqui, não é mesmo? Então por que a ameaça?
Ele virou levemente a cabeça e respondeu:
- Eu não sei. Realmente não sei. Mas algo está muito errado, muito mesmo, e eu não consigo entender o quê. Saitou Hajime é um dos homens mais orgulhosos que já conheci. Ele jamais viria pedir ajuda para mim ou para qualquer um, por pior situação em que ele estivesse. No entanto, ele assumiu abertamente estar pedindo ajuda...
- Então o quê vamos fazer? - Misao colocou Asuku em uma grande fronha que estava no canto da sala.
- Eu vou até a Aoiya. - ele foi até um outro cômodo buscar seu paletó e o sobretudo - Preciso confirmar toda essa história da Juppongatana e conversar umas coisinhas com Okina.
- Hu-hum... - Misao balançou a cabeça - Então, já que você vai até a Aoiya... - ela abriu um largo sorriso - ...Pede para Omasu fazer bolinhos? Eu adoro os bolinhos dela, acho que nunca vou me adaptar sem eles!
Aoshi virou-se completamente sério e um instante depois, sorriu também:
- E você, Asuku, também quer alguma coisa? - ele beijou Misao, abriu a porta - Eu já estou indo. Volto já.
O garoto sorriu e acenou contente para o pai, que fechava a porta.
† Nota "cultural":
Okay, achei que esse pedacinho poderia se fazer necessário com relação ao gêmeos Fred e Gio... Melhor compreensão, né? ^_~ Este texto foi retirado do Almanaque Abril 1995, e também feito com um pouquinho de experiência popular! ^___^
--- Os medicamentos de uso mais difundido pertencem a três grupos principais: os antibióticos (que agem sobre as bactérias), os antiinflamatórios, e os psicotrópicos, que são medicamentos que agem sobre o psiquismo. Os psicotrópicos estão divididos em quatro categorias: tranqüilizantes, antidepressivos, soníferos e neurolépticos (produzem estado de indiferença psicomotora - ou seja, o sujeito vegeta - e suprimem surtos psicóticos). Todos têm propriedades diferentes e podem causar dependência.
--- Drogas ilegais: acho que todos sabem, mas... ^_^ São produtos que alteram o funcionamento das atividades cerebrais e motoras e causam dependência, e seu consumo excessivo, ou overdose, pode levar à morte.
--- Maconha: É a droga ilegal mais consumida no mundo. Conhecida também como marijuana e obtida de folhas e flores secas da planta Cannabis sativa. Das extremidades desta planta é obtido o haxixe, também consumido na forma de cigarro. A substância psicoativa da maconha e do haxixe é o delta-9-tetrahidrocannabinol (THC). Seus efeitos são euforia, aceleração dos batimentos cardíacos, secura da boca (o tradicional "cuspa três vezes no chão") e olhos avermelhados. Entre as reações adversas estão a ansiedade aguda e o pânico. As conseqüências do uso constante são a redução da memória, distúrbios hormonais, dificuldade de concentração, perda da motivação, dificuldade no aprendizado e esterilidade temporária (ouch! >.<;;;). Tipos mais potentes de maconha, como o skank (hoje em dia, devido ao consumo cada vez maior desta droga, o skank é bastante difícil de ser encontrado, porque ele é um composto realmente puro e concentrado, por isso, quando achado ele é realmente caro... ^_^), têm teor de até 33% de THC, enquanto os habituais possuem cerca de 8%.
--- Cocaína: Vendida ilegalmente na forma cristalizada, como um pó branco. É amarga e não tem cheiro. É obtida a partir do tratamento, em laboratório, das folhas da Erytroxylum coca. Aspirada, tem efeito estimulante e provoca sensação de clareza mental. Representa risco cardíaco, e passado o efeito, provoca depressão. O uso pode causar quadro paranóico (a chamada desconfiança patológica. Acho que a minha só falta ser patológica mesmo! ^_^), emagrecimento, falta de apetite e lesões na mucosa nasal. Acho que todos também já viram a famosa foto que saiu num jornal britânico de uma mulher que de tanto cheirar cocaína praticamente perdeu o nariz, sobrando só dois buracos deformados, como se ela fosse leprosa (opa! eu fiz um trabalho sobre isso na escola, não se diz mais lepra, se diz hanseníase! ^_^;;;). Claro que este é um caso extremo, mas as pessoas são extremas também...
--- Crack: Derivado químico da pasta de cocaína. É oferecido na forma de pequenas pedras. Fumado ou inalado, tem absorção imediata pelos vasos sangüíneos, deixando a pessoa eufórica e com a sensação de onipotência. É uma das drogas que mais depressa estimulam o cérebro e causam dependência. As conseqüências são alucinações, problemas respiratórios e de pressão arterial.
--- Ópio: Látex obtido por incisão dos bulbos da papoula (espécie: Papoula somniferum) e conhecido pelos sumérios há 5 mil anos; a única droga que teve a honra de ser motivo declarado de uma guerra! ^_^ Para quem não sabe, foi a Guerra do Ópio, entre China e Inglaterra, no século XIX (o mesmo em que se passa Rurouni Kenshin - final do século XIX -, e para os que leram o mangá, foi até apresentado por Nobuhiro Watsuki na história em que surgem como personagens Megumi, Kanryuu e a Oniwabanshuu. Um amigo do cassino que Sano freqüentava morreu por overdose de ópio, que era refinado por Megumi e traficado por Kanryuu). Aquecido e inalado, provoca euforia, seguida de sono repleto de alucinações ou sonhos estranhos.
--- Morfina: O primeiro derivado do ópio produzido em laboratório (1803). Usada como analgésico, provoca profunda dependência, tanto que é absolutamente incrível o número de médicos viciados em morfina. Por isso, a morfina é usada em pacientes ou em estado muito grave ou então em doses muito pequenas. Tão polêmica que já foi até subtema de um livro de Sidney Sheldon (este livro é ótimo, se não me engano é o "Manhã, Tarde, Noite")!
--- Heroína: Também criada em laboratório, na busca de substituto seguro para a morfina. Em 1898, o laboratório Bayer, na Alemanha, anuncia ter encontrado a diacetilmorfina, três vezes mais potente que a morfina, o que pela potência, leva o laboratório a dar o nome de heroína à nova substância. Hoje está provado que a heroína vicia ainda mais que a morfina. Geralmente injetada, a droga modera as emoções e provoca a sensação temporária de bem-estar. A falta de heroína leva a diarréias, vômitos fortes e ao risco de morte por desidratação.
--- Cola de Sapateiro & Lança-Perfume: Possuem substâncias tidas como drogas inalantes. O toluene é o ingrediente ativo na cola. Tem efeito similar ao do álcool: euforia, perda da coordenação motora, e no extremo, vômitos ou até o coma. Descoberto no século XIII e usado como anestésico, o éter, principal ingrediente do lança-perfume, passa a ter uso recreativo por volta de 1700, na Inglaterra. A substância deprime o sistema nervoso e pode provocar gastrite e enfarte.
Próximo Capítulo(o resto lá em baixo)

"Pede para Omasu fazer bolinhos?"
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