Teratologia (cap. 3)



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Capítulo 3: Injustiça e Infidelidade (Teratologia)

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"... Ajuda... Me ajuda...!

... achou que eu fosse ajudá-lo...?

Sim, eu acredito... Acredito na morte, acredito na doença...

... eu acredito em injustiça e desumanidade e tortura e raiva e ódio...

... eu acredito em assassinato, eu acredito em dor,

eu acredito em crueldade e infidelidade...

... eu acredito em repugnância e fedor

e em cada coisa pútrida possível e em corrupção,

seu maldito filho da puta!! ...

... e você?"

Abertura do show do Guns N' Roses, 14 de Janeiro de 2001, no Rock In Rio III

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- Majestade, eu acredito que nós deveríamos tomar atitudes sérias a respeito. Afinal, não deixa de ser um atentado, por mais que nós já estejamos cônscios de sua existência. Portanto, Majestade...

- Não seja precipitado, meu caro vizir, conselheiro real... Deixa o rapaz terminar de contar tudo. Você está muito afobado, meu jovem. Devagar, devagar, me conte.

- Querem matá-lo, Imperador! Matá-lo! Nós temos uma fonte, uma informante, infiltrada num perigoso grupo de extermínio de origem japonesa. Até então, eles só tinham atuado fora do Japão, talvez por receio...

- Mas receio de quê? - perguntou o conselheiro - Grupos de extermínio não tendem a ser medrosos.

- Eles eram a antiga Juppongatana! O grupo liderado por Shishio Makoto!

- Ouh, Shishio... - o Imperador então deu de ombros - Já faz muito tempo e ele já está morto. Dizem que quando um exército perde seu comandante, ele se torna cego. Que eles venham!

- Não, Majestade, é bom que sejamos precavidos! Há quanto tempo sabe desta notícia, meu jovem?

- O acerto foi feito há uma semana atrás, mas só agora recebemos a mensagem! Eles já estão vindo para cá! Pelo que sabemos, amanhã estarão embarcando num trem em Hong Kong que os levará para o porto de Shanghai, e de lá diretamente para o Japão! Eles estão próximos, muito próximos! Próximos até demais! - o rapaz parecia prestes a arrancar os próprios cabelos, fazendo o Imperador se perguntar como alguém tão jovem poderia ser tão nervoso.

- Majestade, então porque não chamamos a Polícia de Operações Especiais para protegê-lo aqui, no Japão, e enquanto isso, combinamos com a China de atacá-los na ferroviária? Afinal, a nova Juppongatana é um grupo de criminosos internacionais, digamos assim.

O Imperador assentiu:

- É, me parece plausível. - apontou para um servo - Traga-me pincel, tinta e papel, agora! - o homem trouxe, o Imperador escreveu rapidamente uma carta e entregou novamente ao homem - Lacre-a com o Selo Imperial e faça com que chegue à China ainda hoje!!

- Soujirou... Sou-chan... Soujirou, está me ouvindo? - Ilka o sacudia delicadamente enquanto ele despertava de uma agradável soneca, apesar da carruagem onde eles viajavam sacolejar com uma freqüência não tão agradável.

- Que foi, Ilka?

- Eu... Não sei. Não tenho um bom pressentimento a respeito dessa missão.

- Mas por quê? - ele passou a mão pelos ombros dela, e alargou o sorriso - Está tudo muito bem planejado, e você sabe disso. Você e eu não temos nada o que temer.

Ela forçou um sorriso e disse:

- Sim, eu entendo... Mas ainda estou com esse sentimento ruim. Afinal, estamos nos metendo em coisa realmente séria. Política internacional, com os malditos americanos e os europeus no meio... Soujirou, não é todo dia que nos pedem para matar um imperador!

- Mas nós estamos preparados, acredite! Temos anos proveitosos de experiência. E daí que os ianques e os europeus querem a morte do Imperador? O lado deles é perfeitamente compreensível. O Japão está se desenvolvendo muito rápido, e isto ameaça o comércio colonial deles. Como tudo isso começou com a restauração do verdadeiro poder do Imperador, é provável que matando o ícone que motiva toda uma nação a se esforçar, este mesmo rendimento decline e o Japão acabe por se tornar uma "colônia" ou ainda um país que não fique no caminho deles. É o capitalismo, Ilka. Esqueça honra, esqueça os princípios, o que conta é o lucro.

Ilka olhava fixo para o chão, presa em pensamentos. Soujirou tornou a recostar no banco da carruagem, fechou os olhos. E então Ilka lhe perguntou:

- É vingança, não é? Shishio Makoto sempre quis ser o Imperador. Você está fazendo isso como para satisfazer o espírito dele.

Sem abrir os olhos, Soujirou respondeu:

- Digamos que eu esteja matando dois coelhos com uma cajadada só. É algo bastante lucrativo.

Ilka sorriu e puxou a cortina fechada da carruagem, deparando-se com a visão de uma próxima Hong Kong.

- Ilka?

- Sim?

- Eu acho que... - Soujirou abriu os olhos - ... acho que o espírito de Shishio está bastante satisfeito no Inferno!

Os dois caíram numa risada gostosa, até que Soujirou olhou para a janela:

- Puxa, aquela ali já é a cidade de Hong Kong?

- É, eu acredito que sim!

Soujirou abriu a porta da carruagem em movimento.

- Soujirou?! O que você está fazendo?

- Nosso ponto é aqui!

- Quê?!?

Soujirou agarrou Ilka pela cintura e saltou para fora da carruagem com movimentos graciosos, conseguindo ainda fechar a porta da carruagem ao sair.

- Vocês ouviram alguma coisa? - Mei-lin parecia apurar o ouvido para tentar ouvir alguma coisa do lado de fora da carruagem.

- Só a carruagem, minha cara! - Kamatari respondeu com um sorriso, ao qual Saiduchi concordou.

- Não precisa se preocupar, Mei-lin. - disse Chou - Pelo tempo de viagem, já estamos bem perto de Hong Kong, e além do mais, Soujirou e Ilka estão naquela carruagem da frente. Se acontecer alguma coisa, acontece primeiro com eles!

- Bem, isso é verdade. Mas este é um plano perigoso, todos nós sabemos disso. Não custa ser um pouco cauteloso. - assentiu Mei-lin.

- Eles estão chegando, capitão! Está vendo? Aquele comboio de três carruagens!

- É verdade. - o comandante do grupamento observou pelo binóculo - Já estão bem próximos. Preparem a emboscada! A Juppongatana é um grupo perigoso, se a China conseguir capturá-lo, será uma boa propaganda nossa! Esforcem-se ao máximo, homens! Vamos lá, aos seus lugares!!

- Pronto, a carruagem parou. Chegamos. - disse Mei-lin.

- Puxa, é a primeira vez que entramos legalmente em um lugar! Estou até surpresa com Soujirou!

- Não se afobe, Kamatari. Oficialmente, ainda não entramos. - recordou Saiduchi - Temos que passar pela alfândega, lembra?

- Documentos! Documentos, condutor!

- Aqui estão, seu guarda.

- Quem é o ricaço que está a frente desse comboio?

- Seu guarda, não sei nada sobre ele, vou lhe ser sincero. Só sei que está nessa carruagem aqui, a minha, logo a primeira. Ele apareceu solicitando nossos serviços e tive que chamar mais dois colegas para dar vazão.

- Carruagem alugada, não é?

- Isso mesmo. Ficamos aqui mesmo na alfândega, seu guarda.

- É, eu sei. Só abastecer e esperar por mais um freguês, sei como funciona. - o condutor concordou - Bem, vou verificar seu patrão.

- Esteja a vontade, seu guarda.

- Capitão, é agora! - disse agitado o soldado escondido - Pegamos a Juppongatana, capitão!

- Calma, homem, calma! Ainda não capturamos ninguém!

- Tá demorando, né? E olha que já chegamos em Hong Kong!

- É a alfândega, mano. Esses bastardos são lentos assim mesmo, prá te deixar agonizando. Mas você me parece tranqüila, não é, gostosa?

- Mais respeito comigo, Giorgio.

- Há! Fala sério! Pedindo respeito e me chamando de Giorgio! De noite você não me chama assim, garota! - disse Gio puxando Farrah para seu colo.

- Me larga, desgraçado! - disse Farrah, tentando se desvencilhar dele.

- Aí, não precisa se esquentar não, Farrah.... - disse Fred, num usual tom dopado - ... Tipo... Teu trouxa tá lá na carruagem da frente, quem sabe dando umas bimbadas na japonesinha amiga dele, né?

- Hennya! Vai ficar aí calado num canto e não vai me defender?

- Eu não tenho absolutamente nada a ver com isso.

- Soujirou! Mas o que diabos você fez? Nós não íamos...?

- Não, não íamos. Faz tempo que eu não uso um documento quente, e você sabe disso. Sou orgulhosamente procurado nos quatro cantos do mundo.

- Mas e os outros? Eles vão ser presos!

- Está na hora de eu testar a nova Juppongatana, Ilka. Nós vamos para uma missão bem diferente das que temos feito até então. Parafraseando um certo filósofo, "neste mundo, os fracos se tornam alimento para os fortes". Quem sobreviver a isso, vai seguir em frente. E além do mais... - Soujirou se levantou, tirou a grama presa na roupa e fez sinal para que Ilka o seguisse - ... temos um traidor entre nós.

- Um traidor? Mas como você sabe, então?

- Porque esta alfândega é uma emboscada. Eles têm seus informantes, e eu tenho os meus. É preciso fazer novos amigos para se arranjar numa missão dessas. Vamos passar por esta alfândega, sim, mas como criminosos, como sempre fizemos. Afinal, o trem sai em uma hora. Temos de ser rápidos.

O policial da alfândega se dirigiu para a porta da carruagem, coração disparado. Ele, soldado raso, tendo a honra de botar as algemas em um criminoso de renome internacional. Quem diria! Ainda dizem que "uma vez que você é pequeno, pensa pequeno e sempre será pequeno". Ele cresceria, e faria de tudo para que esta missão desse certo. O policial bateu à porta da carruagem. Não houve resposta. Bateu de novo. Nada. Decidiu abrir a porta e... Ele berrou com toda a força dos pulmões:

- Capitão!! Ele FUGIU!!!

O Capitão bateu com a mão na cabeça. "Idiota! Você acabou de dar o sinal para os outros!! Uma vez que você é pequeno, pensa pequeno e sempre será pequeno! Idiota!!"

- Capitão!! Ele FUGIU!!!

Chou, Kamatari, e Mei-Lin olharam uns para os outros em uma pequena fração de segundo, e arrebentaram as portas da carruagem com violência, fugindo com um pensamento em comum na cabeça: se o bastardo do Soujirou fugiu e largou a gente aqui, é hora de dar no pé. Saiduchi permaneceu levemente estático e abobalhado, até que ao perceber que os três estavam dando o fora, ele gritou:

- O quê vocês estão fazendo! Estão se incriminando!

- Capitão!! Ele FUGIU!!!

- Fugiu? Quem fugiu? Como?

- Não pensa, Fred, deixa que eu faço isso por nós dois. Vambora!

Gio meteu o pé com violência na porta da carruagem e saiu carregando o ainda cheio de perguntas Fred. Farrah manteve a compostura e ficou ali sentada, enquanto Hennya alçou vôo para longe dali.

- Ali! O voador, metam bala nele!!! Hoje ninguém escapa!

Saiduchi olhou aterrorizado pela janela a figura voadora de Hennya despencar como uma pedra, e atingir o chão com o barulho de ossos rachando. Para ele, este foi o sinal sórdido de que diplomacia naquele momento não iria funcionar muito. Meteu a cabeça para fora da carruagem, no intuito de fugir, mas no mesmo instante uma espada varou-lhe o crânio impiedosamente.

- Prendam quem puder! - o Capitão gritava na confusão crescente de soldados recém-saídos de suas "tocas" e que debandavam por todos os lados - Eu quero cada um deles, vivo, morto ou deformado!!

"Corre corre corre corre corre corre!!" Mei-Lin tentava forjar um plano em sua cabeça, mas nada vinha. Metade dela queria chorar pela triste sensação de ter acreditado em alguém e este alguém tê-la traído, e a outra metade pensava em como seria bom segurar as tripas de Soujirou na mão.

De repente, notou que estava sendo perseguida por três policiais, espada em riste, coração na garganta. Parou bruscamente, e girando como um redemoinho, passou por entre eles, arrancando cabeças. Olhou para o lado e viu uma caravana, que estava sendo inspecionada para poder entrar. Aproveitando a confusão de mulheres histéricas e sangue esguichando para todo lado no lotado portão de entrada para Hong Kong, Mei-Lin puxou o corpo sem cabeça de um dos policiais e falou para um dos homens da caravana, que ela imaginava "ter a típica cara de contrabandista", após anos lidando com eles:

- Um uniforme de policial, duas peças em prata para me botar dentro de Hong Kong.

- Pois não, madame!

O homem chamou um rapaz da caravana, o fez vestir a roupa do policial decapitado, e cobriu a roupa ensangüentada que Mei-Lin vestia e também sua espada com alguns mantos, e a fez entrar na única carruagem da caravana, em meio a dúzias de carroças e camelos. Sussurrou algumas palavras para o rapaz, que saiu gritando:

- Licença! Passagem para esta carruagem, esta senhora está prestes a dar a luz!!

O policial em um dos portões fez uma cara de desconfiado e estava prestes a recusar quando Mei-Lin decidiu entrar na dança:

- AAAAHH!!! Pelos deuses! - ela começou a arfar - Meu marido, funcionário público de Hong Kong, não vai suportar o fato de seu filho ter nascido fora dos portões da cidade!! - um novo grito de dor - Vai nascer!!

Os portões se abriram.

"Vamos lá, Kama-chan! Pense, pense, pense em como sair deste circo em chamas! Correr só não adianta! Correr só não adianta! Ah, claro!" Kamatari largou o seu amado kusarigama nas mãos de um mendigo próximo. "Arminha querida, me desculpa... Mas eu tive de fazer isto!" Ela olhou para trás e viu a cabeça do mesmo mendigo ser arremessada a alguns metros de distância. "Ou ele ou eu!"

- Merda! Malditos policiais de merda!! - um velho bêbado, vestido em seda e coberto por jóias gritava da sua carruagem - Só quero entrar na porra da cidade!! Custa?? Custa??? As minhas meninas estão me esperando ansiosas, seus bastardos!! E eu quero pegar minhas meninas!

"Yumi-chan... Uma vez na vida vou ter que concordar com você... Ser prostituta É o caminho mais fácil!"

Kamatari correu em direção ao sujeito, o beijou com força:

- Para quê esperar chegar na cidade para se divertir?

O homem olhou meio tonto para ela, e depois sorriu:

- Não faço a mínima de quem você seja, mas gosto de você! - e a empurrou para dentro da carruagem - Vamos nos divertir até essa zona acabar, menina bonita!!

- Como vamos fazer para fugir, Gio?? Estamos ferrados!

- Como eu não imaginei antes... Soujirou filho da puta!! Fazer o que todos estão fazendo: fugir! Correr! Tentar entrar nesta maldita cidade e arrancar o coração do Soujirou pela boca!

- Espera, espera. - Fred puxou o irmão pela camisa e o fez parar - Veja.... A piranhazinha continua sentada na boa na carruagem... Ela não vai... Vai.... - ele bambaleou nos pés - Vai....

- Droga, Fred... Agora é hora de acabar tua bateria, seu cretino?

Gio sentou o irmão no chão, na esperança de que todas aquelas pernas que corriam e os cercavam não os pisoteassem. Puxou um pequeno frasco do bolso dele e o aproximou do nariz de Fred, que despertou rapidamente pelo cheiro forte. Ele próprio abriu o frasco e inspirou com toda a força dos pulmões, para segundos depois estar bem mais ativo. Os dois irmãos se levantaram.

- Que desespero... Seu nariz está todo branco. - aos comentários de Gio, Fred sorriu e limpou o nariz - E você tem razão quanto a Farrah. Aí tem coisa. Ela tá toda calminha, olha só...

- Haha, agora ela já era, chegaram uns tiras! Mas... Eles estão conversando? E tirando ela de-li-ca-da-men-te da carruagem?

- Ah, sua vagabunda... Agora eu entendi o que Soujirou fez... Ele pode ter abusado de você por um bom tempo, mas não perdeu a cabeça!

- Como assim?

- Ela nos deletou, Fred. Uma informante. Soujirou fez isso para tentar descobrir qual de nós era o informante. E agora nós temos de provar que não somos traíras... Vamos tentar entrar em Hong Kong a qualquer custo!

- Ai, minhas costas......

Chou gemia de dor, mas não podia sair de onde estava agora. Ele tentava desesperadamente passar pela alfândega quando viu uma carruagem que gritava por passagem, onde a esposa grávida de um funcionário público prestes a dar à luz estava. Ele não perdeu a oportunidade e rolou para debaixo da carruagem, permanecendo grudado ali como um parasita até então.

- Parou?

Chou meteu a cabeça para fora, viu que estava num beco. "E isso lá é lugar de gente rica ter filho? De qualquer forma..." Ele deslizou silenciosamente para longe da carruagem e preferiu esquecer o assunto, indo rápido para a estação ferroviária de Hong Kong.

- Moça, as peças de prata! Fizemos um bom trabalho, não? - o contrabandista entrou na carruagem - E além disso... Poderíamos conversar um pouco, não é mesmo?

- Sim, fizeram um ótimo trabalho. - o homem sorriu afetuosamente ao ouvir estas palavras de Mei-lin - Mas eu não gosto de conversar.

Ela puxou a espada, e furou a garganta dele. Saiu da carruagem, com a espada ensangüentada na mão, e viu o rapaz que a havia conduzido até ali, vestido de policial.

- Não... não me mate, por favor....

- Fará tudo que eu quiser?

- Juro.

- Ótimo. Tire o cadáver podre do seu amiguinho da carruagem e vamos pegar um trem.

Próximo Capítulo



"Vamos, Ilka, o trem sai em uma hora, temos de ser rápidos

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