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Capítulo 2: Misterioso Cavaleiro (Teratologia)
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"Será que há tanto amor assim dentro de mim?"
The Cult - Painted On My Heart
"Oh, houve uma época em que eu tinha uma consciência.
Mas parece que me esqueci onde eu a coloquei."
Frase da carta Lapso de Memória - Magic: The Gathering
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- Recebemos mais uma missão, acredito que Kamatari já tenha dito isso quando os chamou aqui...
- A recompensa é alta, chefe? - interrompeu Mei-Lin, uma chinesinha no canto da sala.
- Claro que é, sua burra. - retrucou Ilka, ao lado de Soujirou - Não trabalhamos por ninharia.
Mei-Lin franziu o rosto em ódio na hora, o que foi igualmente retribuído em doses de desprezo por Ilka. Soujirou sabia que elas se odiavam desde o momento em que se conheceram - aquela típica química absurda que repele cães e gatos, gatos e ratos - mas não estava disposto a deixar ir embora o talento precioso com a espada que Mei-Lin possuía, e muito menos dizer adeus àquela que havia se tornado seu braço direito, a ladra Ilka. Portanto, tratava de tentar equilibrar a balança como dava, usando um único artifício capaz de unir ambas: o dinheiro.
A espadachim chinesa lutava em torneios ilegais, e sua habilidade freqüentemente lhe reservava altos prêmios. Quando Soujirou visitou um desses antros de luta - o motivo da visita era, óbvio, mais um assassinato encomendado - e presenciou o talento de Mei-Lin, procurou fazê-la mudar de profissão, com a promessa de ganhar muito dinheiro simplesmente arrancando umas cabeças aqui, outras acolá. Uma pequena amostra foi suficiente para convencê-la. Quanto à Ilka, apesar de saber que dinheiro a atraía, Soujirou acreditava mais no fato de que ela tinha simplesmente uma natureza cleptomaníaca, e que era o ato de roubar e não o fruto disso que a dava prazer. De qualquer modo... Ilka, apesar de mais complicada, ainda era um possível joguete nas mãos manipuladoras que Soujirou conquistara ao longo dos anos, graças ao sorriso freqüente e ao jeito doce de falar.
- Se as duas aí vão continuar com essas caras e bocas, eu sugiro que ambas sejam expulsas para que possamos discutir nosso novo emprego! - disse Saiduchi, esfregando os bigodinhos.
- Concordo. - assentiu Hennya, que mais parecia um morcego dependurado no teto - Se não conseguem conviver juntas, como podem ambas serem parte de nossa nova Juppongatana? Aliás, não só as duas...
- Se isto foi uma indireta aos novos membros, procure melhorar seu humor sutil, se isso for possível, claro! - respondeu irritada Farrah, sentada num sofá próximo.
- Calem a boca, vocês todos. - impôs-se Chou - Saiduchi, essa definitivamente não é a atitude de um diplomata! Continue assim e seu disfarce cai por terra. Farrah, faça o favor de ser mais educada! - ela se ajeitou no sofá, puxando as várias camadas que compunham sua saia e tampando as pernas, que estavam completamente nuas até então - Ótimo, melhorou bastante!
A idéia da nova Juppongatana agradava a Chou em especial porque ele mantinha um posição de destaque em comparação à anterior. Ainda estava claro em sua memória o dia em que Soujirou e a desconhecida Ilka vieram procurá-lo. Chou se tornara um bem-sucedido contrabandista em áreas que abrangiam Coréia, China e Japão, usando em especial transporte marítimo e fluvial, e para isso contava com Hennya, que passou a trabalhar com ele, e que era capaz de verificar (a longa distância e em posição favorável) se alguma guarda costeira estava de olho neles. Soujirou lhe propôs a criação de um novo grupo, desta vez sob a liderança dele, e sem planos lunáticos de dominação do Japão. O que mais agradou a Chou, claro, foi o último termo: Shishio lhe causou muitos problemas, e poucos lucros. Soujirou lhe prometia exatamente o contrário.
Algum tempo depois, quando visitava a Arábia estudando a possibilidade de "novos mercados" (já que desde o princípio Soujirou apoiava o contrabando, por considerar extremamente útil a fácil aquisição de quaisquer coisas imagináveis), Chou conheceu Farrah, uma belíssima e esperta prostituta. Tudo correu tranqüilamente (Farrah queria dinheiro e Chou a queria) até que ela, por acidente, conheceu Soujirou e a idéia da Juppongatana, o que foi suficiente para que ela quisesse fazer parte do grupo e começasse a jogar todo seu charme em cima de Soujirou. Ele a aceitou, tanto como amante quanto como membro da Juppon, e ela servia como isca para atrair "peixes mortos para a rede". Claro que isso não a impediu de continuar andando com Chou (e ele desconfiava de que ela já havia passado pelas mãos dos gêmeos Fred e Gio), o que o fazia pensar se Soujirou havia se tornado tão inocente.
- Deixa Soujirou falar qual o trampo... Vocês estão muito nervosinhos! - Fred assumiu um tom sarcástico - Posso dar um jeito nisso se vocês quiserem, é claro! Conheço muitos remédios bons...
O ruivo Frederico explodiu numa gargalhada. Ele particularmente se considerava superior em relação a todos os outros (menos seu irmão gêmeo Giorgio, é claro), e apenas "aceitava" não ser o líder porque não era um sujeito ambicioso. Fred, como era chamado, era um autêntico drogado que sabe com o que está lidando. Ele tinha uma habilidade incrível para reconhecer e administrar doses perfeitas de veneno, tranqüilizantes, soníferos, etc. A única coisa que o tornava realmente perigoso é que a cada dia, seu temperamento mudava. Calminho, furioso, adorável ou estúpido, Fred era uma autêntica caixinha de surpresas que só podia ser controlada por seu irmão Giorgio, apelidado Gio. Como o cérebro de Fred era muito entorpecido para reações inteligentes, Gio era o cabeça da dupla. Brilhante inventor, projetava os melhores arquétipos que Soujirou já havia visto e era capaz de reproduzir qualquer coisa que visse, fosse um balão de ar ou uma caixinha de música. Ele também era o responsável pelo plano que os fez fugir e nunca mais voltar para sua terra natal, o Reino de Piemonte-Sardenha, cujo Rei Emanuel havia recentemente coordenado (juntamente com o popular Garibaldi e seus Mil Camisas Vermelhas) a ação que iria unificar a Itália e subjugá-la sob seu comando.
Frederico e Giorgio Ricelli eram os únicos herdeiros de uma enorme fortuna acumulada por Mario Ricelli, amigo próximo da realeza. Magali, mãe dos gêmeos, era consideravelmente mais nova que Mario e já representava seu terceiro casamento, e o único que lhe havia rendido filhos. Enquanto os gêmeos cresciam, o pai adoecia devido à velhice e a mãe tornava-se cada dia mais linda, e mais cercada de amantes. Fred e Gio nunca realmente se importaram com isso até o dia em que ela decidiu tornar um de seus filhos seu amante. Magali aproveitou enquanto Gio dormia e o amarrou na cama, e fez o que queria. Ele passou a odiar a mãe com cada célula do seu corpo, mas nunca fez nada contra ela porque sabia que o ingênuo do pai a amava, em especial por ter lhe dado dois filhos homens, saudáveis, bonitos e inteligentes. Não muito tempo depois, Mario Ricelli falecia, deixando uma fortuna nas mãos da mulher (já que os meninos ainda não haviam atingido a maioridade) e também a casa livre para suas orgias. Era hora de se vingar. No jantar no salão principal, Gio fingiu acariciar a mãe e enterrou-lhe uma adaga no pescoço, deixando Fred completamente estupefato e fazendo com que ele se trancasse em seu quarto por horas. Algum espírito tórrido apoderou-se dele, e o fez copular em cima da mesa com o corpo frio de Magali. Por mais estranho que parecesse, ele gostou. E tomou gosto pela coisa.
Apenas Kamatari sabia deste lado afável do passado dos gêmeos. Foi Kamatari quem conheceu os gêmeos e os apresentou a Soujirou, tudo porque ela estava terrivelmente apaixonada pelos dois - o que Soujirou achava tanto bom quanto ruim: bom porque assim ela esquecia Shishio e ruim porque ela poderia começar a tratar os gêmeos como tratava Shishio - e queria ser correspondida. Apesar de ter sido Gio quem fez tudo, esse episódio foi gradativamente arruinando o saúde de Fred, que teve sua primeira crise de overdose nesta noite. Era um segredo eterno entre os dois, o fato de que Frederico poderia morrer muito jovem.
- Cala a boca, Fred, ninguém pediu a tua opinião! Deixa o Soujirou falar! - disse Ilka.
- Quem você pensa que é para ficar dando ordens para ele? Você não tem essa autoridade, garotinha! - se intrometeu Kamatari.
- Háhá!! Isso aí, Kamatari! Ela precisa aprender uma lição! - apoiou Mei-Lin.
- Não se intrometa, Mei-Lin, não precisamos de mais uma perua discutindo!
- Apoiado, Chou. - disse Saiduchi - Já tem muita pena voando por aqui!
- Quê?! - Ilka já estava com a mão em suas correntes - Soujirou, você não vai dizer nada!?!
- Nós vamos matar o Imperador do Japão.
Todo o grupo se calou e virou a atenção para Soujirou, que alargou seu sorriso.
Apesar do peso em suas mãos, ele foi o mais silencioso possível ao se aproximar de seu alvo. Lá estava ela, uma linda garota de avental, que lavava louça nos fundos de um restaurante chamado Akabeko. Ele foi se aproximando bem lentamente, e deixou a caixa num canto... O mais silencioso possível e... Lascou um beijo na bochecha dela!
- Oi, Tsubaaame!!
- AAAAAAAAAAAAAHHH!!! - no susto, ela atirou uma tigela para o alto, que Yahiko conseguiu agarrar no ar antes que ela se espatifasse no chão - Yahiko!! Que susto!!
Ele deu aquele típico sorriso de "é, foi mal, mas eu sou culpado mesmo". Ela levantou, e sorriu:
- Sei que eu me assusto à toa, Yahiko-chan, mas...
Yahiko fez uma cara feia e ela colocou as mãos na boca.
- Tá, tudo bem, mas saiba que eu só deixo você me chamar assim.
Ele sorriu e ela pegou as mãos dele, abriu um sorriso lindo... Seus rostos foram se aproximando, chegando perto demais para os padrões da rígida sociedade japonesa - mas quem se importava com isso agora? Cada vez mais perto, até que...
- TSUBAAAAME!!! - os dois literalmente pularam juntos, e Tae apareceu - Háhá! Tão os dois de namorico aí atrás e ninguém trabalha! Yahiko, você ainda tem muitas caixas para descarregar! Tsubame, olha a pilha de louça, menina!! - os dois abaixaram a cabeça - Por que estão parados? Anda! Anda! Quando terminarem, venham para dentro, temos muitos clientes!
Os dois voltaram rapidamente a seus afazeres, e Tae foi para dentro, servir aos clientes. O Akabeko estava muito movimentado, e ela ficava feliz por ter a ajuda contínua dos dois numa época atarefada. Passou pela cozinha, encheu as mãos com travessas e foi despejando elas sobre as mesas:
- Sr. Fujioka, bom apetite! ... Tudo bem, senhora? ... Que bebê lindo! ... - Tae parou quando ia servir o pedido de um homem todo encapuzado, usando uma grande capa cinza, que a impedia de ver o rosto dele - Hã... Boa tarde, senhor... - o homem meneou a cabeça, cumprimentando-a em resposta. Assim que ela colocou a travessa na mesa dele, ele começou a comer como se nada batesse no estômago há dias - Bom apetite.
Tae continuou servindo os clientes e anotando pedidos, Tsubame entrou para ajudá-la e Yahiko se lavava lá fora, após ter descarregado todo o estoque da semana. Tae então voltou para a área da mesa do homem encapuzado, e... a mesa dele estava vazia!
- Oh, não! - ela correu para fora.
- O que foi, Tae-san? - perguntou Yahiko.
- Um homem saiu sem pagar a conta! - ela levantou os olhos e viu o mesmo homem encapuzado montado num cavalo, se preparando para ir embora - É ele!!!
Yahiko não pensou duas vezes, começou a correr atrás do sujeito:
- Pego ele prá você, Tae-san!!
- Não, Yahiko! Ele pode ser perigoso!!
Yahiko pegou velocidade e se pôs ao lado do cavalo, puxando as rédeas da mão do homem para que ele não pudesse ir embora. Ia começar seu discurso de "não servimos fiado" quando, olhando para o homem, subitamente parou. De longe, Tae e Tsubame viam tudo:
- Ele parou! Está olhando para a cara do sujeito! Espera, ele... O sujeito desceu!
- Que bom, Tae-san! Será que o homem ficou com medo do Yahiko-chan, e decidiu pagar a conta?
- Não, acho que... Eles estão se abraçando, Tsubame!!
- É uma nova técnica de abordagem??
- O homem vai tirar o capuz! Quem será que... - ambas Tae e Tsubame ficaram estáticas, até que Tae repentinamente abriu um sorriso e foi na direção do homem, que também veio na dela - Sano!!! Sagara Sanosuke!
Os dois se abraçaram:
- E aí, Tae-san?! Senti falta da sua comida!
Próximo Capítulo(figura e resto lá em baixo)

"O homem vai tirar o capuz! Quem será que..."
(figura adaptada de um doujinshin)
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