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Capítulo 1: Omikoshi, A Casinha de Deus (Teratologia)
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Provérbio Oriental:
"Se o seu inimigo é superior a você,
por que lutar?
Se o seu inimigo é inferior a você,
por que lutar?
Se o seu inimigo é igual a você,
então vocês dois se entendem e não deve haver luta."
Agradecimentos ao amigo que escreveu isto no meu livro de História. ^_^
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- Uma bela moça, você é. E deve ser inteligente também. Está fazendo intercâmbio, não é?
- Sim, estou. Desculpe meu francês, ainda é muito ruim... - ela simulou um surto de tristeza e nojo, o que arrancou risos do rapaz que conversava com ela.
- Bobagem, mon cher! É até brilhante! Você é obviamente asiática, de onde exatamente?
- Do Japão.
- Ah, um país que começa se firmar como potência, graças à guerra civil e à intervenção do Imperador...
- Sim, é verdade. Mas gostaria que esta guerra não tivesse sido necessária... - ela comentou com tristeza.
- Às vezes, são precisas! Mas isto não é um assunto para mulheres! Vocês não precisam ver sangue, nem lutas!
- Sangue? - ela fez uma expressão de nojo - Acho que desmaio se vir sangue... - ele riu.
Continuaram conversando no café parisiense por mais algum tempo, a estudante e o rapaz desconhecido e bem-vestido que se aproximou dela com uma desculpa idiota. Depois, estavam os dois rumando para a casa dele, ele pensando como era fácil arranjar garotas putas para passar a noite, e ela imaginando como ele era um completo idiota sem cérebro. Ela fingiu um espanto descrente quando os dois pararam à porta de uma enorme mansão:
- Esta é sua casa? - ela o fitou com olhos brilhantes - É linda! Acho que nunca vi uma tão grande!
- Sim, minha família sempre foi grande amiga da realeza... Mas sempre foi esperta o suficiente para manter-se rica, comerciante e burguesa. Assim, quando os Bourbon caíram na Revolução Francesa, nós nos mantivemos de pé, altivos e triunfantes.
Ela o abraçou:
- Não duvido nada! Você mesmo já passa tudo isso... Ah, Jean... Você é tão adorável.
- Assim como você, linda... - eles se beijaram.
Ela interrompeu delicadamente o beijo e pôs a mão no bolso, tirando um pequeno souvenir japonês.
- O que é isso?
- Isso é uma Omikoshi, ou Casinha de Deus. É um presente para você! Ela traz sorte e alegria a quem a ganha.
- Muito obrigado... - ele sorriu lascivo - Também tenho algo para lhe dar, vamos lá pra cima.
Ele estava meditando sobre todas as coisas que aconteceram em sua vida desde que Shishio Makoto morreu. "Como as coisas podem mudar em tão pouco tempo!", ele pensava consigo mesmo. Atravessava estes últimos seis adoráveis anos com tranqüilidade... Claro que alguns poderiam considerá-la relativa, é claro, mas considerando que sua vida era uma autêntica turbulência - que assumidamente, ele acabou gostando -, este ano de 1884 estava sendo "saudável". Despertou de seu breve devaneio quando ouviu batidas à porta, e logo em seguida, uma mulher em roupas de estudante entrou, com um sorriso evidente no rosto. Ele disse, sorrindo também:
- Olá! Correu tudo bem?
Ela riu com gosto:
- Perfeitamente bem! Imagine, o burguês idiota crente que tinha arranjado uma vagabunda estrangeira para passar a noite... Deixei tudo correr com tranqüilidade, fomos para o quarto dele, até que... Ele tirou minha saia e quase enfartou! - mais risos - Então, eu peguei a wakizashi que tinha escondido nas minhas costas e disse, "Lembra quando eu comentei que desmaiava se visse sangue?", aí ele balançou a cabeça todo trêmulo, ah, que idiota! Então, eu respondi, "Isso também era mentira.", e apunhalei o sujeito umas dez vezes!
- "Isso também era mentira"? - ele alargou o sorriso - Kamatari, nem todo mundo tem o mesmo senso de humor que você tem com a idéia de não ser uma menina... Aliás, deixou o souvenir com ele?
- Claro, Soujirou! Aliás, essa idéia do Chou de botar a culpa nessa autêntica estudante japonesa foi brilhante! Como ele sabia que ela estudava justamente no mesmo ponto de intercâmbio que eu - um sorriso cínico - e que vendia souvenirs japonesas?
- Aí, eu não sei... Mas Chou freqüentemente tem boas idéias, e você sabe disso.
- É verdade, ele sempre arranja boas desculpas! Lembra quando foi até aquele restaurante onde estava Himura Kenshin e seus amiguinhos, todos saltitantes e felizes, crentes que conseguiram acabar com a gente, e inventou uma dúzia de histórias de que agora todos trabalhávamos para o Governo? Foi um ato extremamente ardiloso dele! Convencê-los de que nos haviam convertidos, de que agora, nós éramos servos tontos de um Governo cego e estúpido, e conseqüentemente, servos deles... Ingenuidade, pobre ingenuidade!
- Sim, eu me lembro, ele realmente caíram direitinho... - Soujirou pensou consigo mesmo como a própria Kamatari também já fora enganada por Chou, quando ele inventou uma história em que Shishio queria que ela continuasse o legado dele, para impedir que ela se matasse. Ele próprio contava com a inventividade de Chou para poder seguir com a nova Juppongatana que ele havia criado e agora liderava, um grupo seleto de criminosos que cometia assassinatos à um bom preço - Mas você sabe que alguns dos fatos que ele contou não foram mentira, como o suicídio de Houji, a prisão de Anji, Fuji estar ajudando a "colonizar" terras, Iwanbou ter sumido - apesar daquele idiota não ter nenhuma utilidade - e o fato de Saiduchi trabalhar como diplomata para o Governo japonês...
- É verdade. Mas a questão é que Saiduchi está do nosso lado! Ele sempre consegue passaportes e vistos com facilidade para que sempre consigamos ir para onde queremos! Como por exemplo, para vir à França matar esse pivete ridículo que queria se iniciar no contrabando local... Nos chamaram, nós matamos o garoto e todos saem felizes! E essa foi uma missão tremendamente fácil! Aposto que a essa hora, a estúpida polícia francesa está prendendo a inocente estudante vendedora de omikoshis. É a vida, não?
- Sem dúvida. Reúna os outros, nós já recebemos uma nova missão.
- Kenjiiiii!!! Come tudo, garoto! Se eu vir você jogando comida fora mais uma vez, você vai ver só!
O garoto ruivinho olhou com nojo para a comida feita por sua mãe, que berrava do outro lado da casa. É óbvio que apesar dos ataques histéricos dela, ele a amava muito, mas ainda assim não conseguia *suportar* a comida que ela fazia. E tinha sérias suspeitas de que seu pai também não, porque ele freqüentemente se oferecia para fazer a comida.
- Oi, Kenji. Comendo essa gororoba nojenta de novo?
Um rapaz alto, de cabelos negros espetados, e músculos recém-desenvolvidos num corpo sujo e suado de treinos, entrou no aposento fazendo uma cara de nojo, e provocando risos no menino de sete anos. Ele então convidou:
- Por que não vem almoçar comigo no Akabeko? Peço prá Tsubame-chan preparar algo especial prá gente!
- Você sabe que não dá, Yahiko... Mamãe quer que eu coma em casa, e... - olhou para uma figura que entrava - Oi, pai!
- Oi! - Himura Kenshin respondeu com o sorriso habitual ao seu adorável pimpolho - Já almoçando? Mas eu falei que fazia a comida...
- Ah, não, eu já fiz! - Kaoru apareceu com uma travessa cheia de comida, e a pequena Yuki no colo - Vocês dois estavam tão concentrados no treino, que eu aposto que devem estar famintos! Que progressos fizeram hoje?
- Yahiko dominou o Kuzu Ryu Sen com perfeição... - Kenshin já estava ficando desanimado, apesar de estar incrivelmente satisfeito com os bons resultados que Yahiko, que agora deveria tornar-se mais um brilhante sucessor da Hiten Mitsurugi Ryuu, estava alcançando com seus ensinamentos.
- Ahn.... É.... Olha, Kaoru, eu prometi a Tsubame que ia almoçar com ela hoje, sabe? Ela vai ficar triste se eu não for, você entende!
- Bobagem! Você almoça com sua namorada todo dia, Yahiko! - disse Kaoru enquanto Kenshin brincava com sua filha Yuki - Está na hora de variar um pouco, ela já deve estar enjoada da sua cara... - ela arrumou rapidamente toda a louça na mesa, para o desespero geral - Vamos comer!
Ela andava com todo o cuidado e o maior silêncio possível, saltitando na ponta dos pés. Tinha no coração a certeza de que Aoshi nunca a percebia quando ela fazia isso, ficar espionando-o quando ele estava trabalhando no escritório da Aoiya, mas ela também sabia que ele tinha habilidades ninja e sempre percebia quando alguém se aproximava, então Misao simplesmente contava com a possibilidade da conivência (o que aliás, era a hipótese que ela mais gostava e a mais provável).
Naquela adorável e refrescante manhã, ela estava paralisada em frente à uma fresta aberta na porta, no cômodo onde Aoshi estava, até ouvir um choro histérico e repentino vindo do outro quarto, o que a matou de susto e a fez cair de cara no chão, quase arrastando o biombo inteiro com ela. Teve a não tão ligeira sensação de que Aoshi ria do que ela acabara de fazer, e inventou uma desculpa idiota:
- Ahhn... Eu ainda não me acostumei a usar kimono, por isso eu caí! Só por isso!
- Eu não acredito que você não tenha aprendido a vestir um kimono até agora... - Aoshi respondeu rindo.
- Hmph!! Só caí porque você não levanta um dedo prá olhar o nosso filho! - e fechou a porta do biombo com violência. Ela continuou andando para o final do corredor, de onde vinha o choro do bebê, olhou para trás para se certificar de que Aoshi não estava olhando, e sorriu de orelha a orelha. Por que era tão gostoso brigar com ele? Ela abriu delicadamente a porta do outro quarto:
- Que foi, meu querido?
São tantas as recordações...
"Uma inteira fortaleza cai, sucumbe às chamas. Na memória, vem a imagem de um dia chuvoso, de cadáveres ao chão, e de um sorriso forjado para um homem que receberia sua completa devoção durante muitos anos, aliás, até a queda desta fortaleza. Em pensar, em pensar que um só homem pôde fazer isto, e que este mesmo homem o levaria a andarilhar sem rumo, sem meios e sem destino, até encontrar alguém que novamente modificasse seu ponto de vista, um alguém que lhe contou toda sua história quando o viu novamente dividido entre as sagradas entidades do Bem, do Mal, e da Humanidade, que mescla bondade e crueldade num só ser vil, caprichoso e vaidoso, que luta para ser alguém melhor quando na verdade só afunda em um poço de piche... Ilka lhe contou:
- Uma menina! Uma criança órfã eu era, e me lembro que o lugar onde vivíamos com o Pai queimou. Ardeu, se desfez nas chamas... Havia uma menina grande, não consigo mais me lembrar de seu nome, mas eu gostava dela, isso me lembro, ela me levou para fora da casa, onde tudo queimava. Tentou pegar os outros garotos, mas foi agarrada por alguns homens, levada para o fogo... Todos eles queimaram, sobrou eu. Eu era tão pequenina! Fiquei por perto, não sabia o que fazer, e vi o Pai chegar. Ele estava desesperado, e foi pego por outros dois homens também... Nunca mais eu o veria.
- Mais tarde, o homem que me acolheu me explicou que eu provavelmente fora mais uma vítima do Haibutsu Kishaku, um antigo movimento no início da Era Meiji que formou uma forte opressão contra os budistas, queimando templos, altares e quaisquer símbolos da presença do Budismo, numa tentativa de reduzir a influência dele, separando ambos Budismo e Shintoísmo. Este homem era líder de uma Yakuza (ps: nome freqüentemente dado à uma gangue de criminosos), e a princípio pretendia me criar para que eu fosse uma prostituta particular, mas viu que eu tinha talento para o roubo em geral, e foi mais respeitoso comigo, o que não aliviava o fato de que ele era um bastardo filho da puta. Comecei a agir mais ousadamente, desenvolvi uma técnica que conciliava habilidades físicas que eu possuía e o uso de correntes de diferentes formas e tamanhos.
- Me tornei procurada pela polícia. No meu ramo, considero isso honrado (risos)... Até que meu querido "padrinho" foi pego, e souberam que eu roubava sob a jurisdição dele. Ele me delatou, fui presa. Um dos oficiais na prisão pareceu condoer-se da minha situação, minha história. Conseguiu - não me pergunte como - me tirar dali, me levou para uma pensão, onde eu pela primeira vez trabalhei honestamente. Continuei assim por alguns meses, acho que os mais tranqüilos que já vivi, e recebia visitas esporádicas dele. Até que um dia, ele me contou o porquê dele ter me tirado da prisão. Ele era um dos homens que queimou a casa do meu Pai, que realmente era um monge budista, que tomava conta de mim e de mais quatro crianças. O que eu fiz? Matei o desgraçado, é claro.
- Não há piedade de verdade neste mundo. Quando alguém faz algo de bom para você, está tentando se redimir de erros que fez... Apenas se redimir.
'Redimir de erros que fez'. Esta frase parecia tão sincera quando aplicada à si mesmo... Quando um homem pareceu disposto a ajudá-lo, apesar dele já o ter prejudicado de tantas maneiras! Claro, um autêntico demônio ele havia sido no passado, e não era novidade que ele se arrependia amargamente desses anos. Hitokiri Himura Battousai, ele pareceu entendê-lo... Tornou-se um andarilho por causa dele. Mas passaram tantos anos... Tantos anos sem respostas, sem luz no caminho...
Anos que o levaram a dizer foda-se.
Anos que o levaram a reconstruir a Juppongatana, desta vez sob seu comando.
Anos que o levaram a concluir mais uma vez que neste mundo cruel e injusto, os fracos tornam-se alimento para os fortes, para que somente eles sobrevivam.
E ele, Seta Soujirou, sobreviveria."
Próximo Capítulo
"Bobagem! Você almoça com sua namorada todo dia, Yahiko!"

(Kenshin, Yuki e Kaoru - figura adaptada de um doujinshin)
[isto aqui, é coisa minha, mas na verdade, o(a) autor(a) do fic está errado ou criou, pois o Kenshin e a Kaoru não tem segundo filho. O da foto é simplesmente o próprio Kenji, o único filho deles ainda criança]
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