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Pôr-do-sol
Havia um quê de estranho no ar. Um cheiro diferente. Um som muito leve que a inundava em pensamentos...
"Pare com isso... Logo anoitece e você ainda não chegou em casa! Amanhã o Dr. Genkai vai fazer uma cirurgia delicada e...".
-Oi raposa! Está doente?
"Ah... tudo que eu precisava agora. E eu só queria curtir um pouco a paisagem!"
-O que faz por essas bandas, Sano?
-Caminhando oras! E você? Por que andava dois passos pra frente e um pra trás?
-Porque ao contrário de pessoas insensíveis como você, eu estava prestando atenção no pôr-do-sol de hoje... está diferente...
Ela ouve uma leve risada do lutador de rua, que se deixa ficar parado ao seu lado, os olhos presos no sol descendo ao lado do riacho.
-Pensei que doutores não se importavam com as belezas do mundo dos reles mortais.
Sanosuke continua a fitar o horizonte, suas mãos escondidas nos bolsos, o corpo duro e rígido ao lado dela. Megumi repara na expressão calma, quase triste dele.
Não é sempre que se vê sentimentos na face de um crista de galo.
-Eu também pensava. - disse ela, num leve murmúrio. - Mas como disse, hoje realmente existe algo de diferente...
E dizendo isso, continuou a caminhar, sua face queimando todo e qualquer sentido mais que soubesse explicar.
...
-Sano? Que faz aqui a essa hora?
-Kenshin?
Sano se volta para o amigo, parado junto à estrada perto do riacho. Anoitecera e ele mal percebera que ficara ali parado, petrificado, talvez por horas, sem se mexer, sem levantar os olhos do lugar onde ela estivera.
-Eu estou voltando para o Dojo, não quer me acompanhar?
Sano acena que sim com a cabeça, ainda tonto. Por que ficara ali parado? Que tipo de pensamentos foram aqueles, quer dizer, por que ficara imaginando razões para as palavras daquela raposa atrev...
-É tão ruim assim, Sano?
-Hein? - Sano desperta pela segunda vez.
-Definitivamente foi alguma coisa que mexeu com você.
-O que quer dizer? Você não está insinuando que eu me sinto atraído por aquela... - Sano já segura Kenshin pela gola do kimono.
-Oro???
Até que percebe que o pobre andarilho não faz idéia do que ele está falando. Ele solta o amigo, se deixando cair sobre as pernas. Kenshin também se senta ao seu lado, aguardando silencioso que Sano resolvesse se abrir.
-Desculpe, Kenshin. - ele começa. - Eu não sou bom com essas coisas... De repente eu já não sei mais o que estou fazendo.
-Não se sinta mal com isso.
-Ela me deixa tão louco às vezes! Que eu queria poder dar um soco no céu e rachar tudo! Mas aí... aí de repente ela se vira e me mostra que o céu é bonito demais para ser tocado, entende?
Sano se estira o chão, os olhos presos nas estrelas que se largam no céu. Mas do que estava falando? Sabia que era dela, mas... Afinal, em que momento ele havia se deixado vencer assim?
Quando foi que percebera que amava Megumi?
-E esse céu já sabe? - diz Kenshin, após longa pausa.
-Como pode saber, Kenshin? Nem eu sabia... eu acho...
-Então você ainda não disse nada a senhorita Megumi?? - exclama Kenshin, com a cara mais natural do mundo, e como se o mundo todo já soubesse o segredo do coração de Sano.
-O QUÊ???
-Oro?
...
A manhã chegou devagar e cinzenta. Kaoru mal deixara seu futton quando ouviu batidas na porta do Dojo.
-Eu vou, Kaoru-dono...
-Não, Kenshin, já estou de pé. Termine o café.
-Hai.
Kaoru arrasta os pés sonolentos até a porta, a abrindo.
-Megumi? O que houve?
A dona do Dojo Kamiya segura a mão da amiga, a fazendo se sentar nas escadas. Parecia aflita, as mãos trêmulas e inquietas, os olhos fixos e abertos, como se não dormisse há dias.
Kenshin já ia dar seu "Ohayo!" sagrado mas preferiu se manter afastado, a ver os olhos de preocupação de Kaoru.
-Vamos, Megumi, diga alguma coisa!
-O Dr. Genkai está me esperando para uma cirurgia e...
-Megumi... por favor...
-Gomem ne! - ela se levanta, ainda trêmula, e corre Dojo afora.
Kaoru olha Kenshin, que saíra com o barulho dos passos corridos da jovem médica. Atrás de Kaoru, um outro vulto chama a atenção do espadachim: Sano acabava de se levantar, olhando a sua volta, sem entender nada do que acontecia.
A jovem decide correr atrás de Megumi, a alcançando já meia rua depois do Dojo.
-Megumi-san?
-Desculpe, Kaoru-dono... Eu não deveria ter ido a seu dojo tão cedo... e ainda sair correndo. Por favor me desculpe.
-Está tudo bem, Megumi. Apenas me conte o que te aflige! Sou sua amiga, fico preocupada!
-Você... achei que me odiasse.
-Ah, só quando você resolve dar uma de introm... Megumi?
Kaoru se deixa abraçar pela amiga, ouvindo os soluços que ela derrama sobre seu kimono azul.
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-Quem era, Kenshin?
Sanosuke se espreguiça todo na mesa do café, enchendo a boca com os bolos de arroz.
-Megumi.
Mas cospe todos.
-O que houve?? Alguém atacou ela??- diz ele, já estalando os dedos das mãos.
-Calma, Sano. Ela apareceu aqui nervosa, ia conversar com Kaoru mas acabou saindo correndo... Kaoru-dono já foi atrás dela para tentar esclarecer... agora temos que aguardar.
-Ela me viu, não foi? Viu que eu estava aqui, e não quis falar seus problemas perto de mim.
-Que isso, Sano!
-É sim, Kenshin. Acho que ela sabe... todo mundo sabe não é?
Kenshin solta um riso, quase enfurecendo o amigo, se este não estivesse tão preocupado com sua amada. O ruivo olha para a porta com um sorriso nos lábios, se dirigindo a Sano:
-Acredita nisso? É verdade que todo mundo conhece meus sentimentos Kaoru, inclusive meus inimigos... mas ela mesma não pode ver isso...
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-Quando soube?
-O quê?
-Que ama
va Kenshin? - pergunta Megumi, segurando forte o lenço que Kaoru lhe dera para enxugar suas lágrimas. Seus passos agora mais lentos e delicados, não pareciam admirar a paisagem na beira do riacho.
-Bem...
- inicia Kaoru, embaraçada. - Acho que sempre soube, mas era difícil admitir. Ao contrário que possam pensar, não foram as lutas, suas andanças que me fizeram perceber. Eu notei como o ar ficava diferente sem ele por perto. Os sons, os cheiros, todas as coisas ao meu redor eram só... estranhas... sem sentido... O jeito como ele caminha, como sorri, como me olha... como se eu não pudesse ser eu mesma sem ter aquele Kenshin para brigar, gritar, xingar... - ela ri - e esperar... É tão forte quanto eu ser mulher. Eu sempre vou estar aqui para quando o Kenshin voltar.
Kaoru não consegue olhar para a amiga. "Então era esse seu problema? O amor por Kenshin? Mas... ai, Megumi! Como devo ter ferido seus sentimentos com a declaração que deixei escapar, há tanto tempo presa em meu peito..."
Mas os pensamentos da jovem foram cortados pelo breve riso de Megumi. Um riso seco e irônico.
-Então é isso. Obrigada, Kaoru-dono.
-Isso?
-É... é tão forte quanto eu ser mulher. Eu amo Sanosuke.
...
-E então Kaoru??
Os dois olhavam quase sedentos por uma explicação. Afinal, Megumi era sempre tão centrada, tão dona de seus atos, uma atitude daquela era realmente de se estranhar.
-Coisas de mulher. - ela se limita a dizer, com um sorriso sarcástico nos lábios.
-Ah, melhor assim... - diz Kenshin, voltando aos seus afazeres.
-Como assim MELHOR?? - grita Sano, chacoalhando sem parar o pescoço de Kaoru. - Vocês mulheres pensam o quê? Coisas de mulher! Pois saiba que Sanosuke Sagara não aceita...
-Oro???
POF!!!! Kaoru acerta um soco na cara de Sano, que voa longe.
-Sano! - Megumi adentra o dojo, a tempo de ver o lutador quebrar mais alguns galhos da árvore do quintal.
-Você se machucou?
-Humphs! Não... ai... - geme ele, estendendo o braço. Uma farpa de madeira basicamente grande havia entrado sob sua pele.
-Kenshin! Venha me ajudar a limpar o chão do dojo! - grita Kaoru, recebendo um sorriso de Kenshin e deixando a sós os outros dois, debaixo da árvore do quintal.
Megumi engole seco, mas resolve se aproximar.
-Já estava arrumando briga com a Kaoru, crista de galo?
-Ela é que... ai!... é uma chata e não sabe responder uma simples pergunta.
"Uma pergunta... sobre os sentimentos dela?"
-Só sabe dizer... aaaaaaiii!!... é coisa de mulher! - diz ele, agora olhando nos olhos de Megumi - Mas o que é que você tem que é coisa de mulher, raposa??
Megumi sente suas mãos tremerem. "O jeito como se move, como me olha... como se eu não pudesse ser eu mesma sem..."
-Pronto. Você vai sobreviver. - diz ela, jogando fora a farpa.
Ela vira o rosto para algum lugar, tentando encontrar palavras que pudessem responder a ele... dizer a ele...
Mas como ia dizer que cada gesto dele era um mundo infindo de sensações para ela? Que ali, tão perto, e tão distante de seus pensamentos, tudo que ela queria era fugir, correr, se esconder em qualquer lugar que fosse como seus braços, mas ela sabia que nada nem ninguém no mundo teria o mesmo calor...
-Não tinha que estar com Dr. Genkai?
-Ele me mandou descansar hoje. Então vim para o Dojo devolver o lenço de Kaoru que... que eu deixei molhar...
Era nítido o tom triste dela. E quanto mais falava, mais seu peito apertava e sua voz sumia, numa certeza bruta de que ele sabe, que ele enxerga seu coração se moendo dentro de si mesmo.
-Eu não consigo imaginar nada no mundo que seja capaz te fazer chorar... nem te deixar dormir... e te fazer respirar com esse ar apressado nos lábios...
-Sano...?
"Você sabe... você vê em cada gesto meu, em cada palavra..."
-E eu nem sequer sei como trazer aquele riso idiota de volta.
Sano abaixa a cabeça, desviando o olhar para algum ponto qualquer. Estava pronto para ouvir seu amor por Kenshin, sua falta de esperanças, ou até mesmo sua desconfiança e antipatia por ele.
Mas não olharia para aqueles olhos de novo.
-Olha para mim, Sano.
Ele obedece, receoso, encontrando um sorriso triste nos lábios de Megumi, que acaricia seu rosto, até seus dedos tocarem sua boca, formando nela um sorriso também.
Como um instinto, Sano segura a cintura da médica, a trazendo para perto de si e de seus lábios, que a beijam com uma mistura de pressa, medo e desejo. Megumi corresponde o beijo, suas mãos segurando a face do lutador.
Megumi se afasta lenta, seus dedos ainda roçando o queixo do jovem amado. Ela o olha, com um jeito infantil e doce, como se acabasse de entregar seu melhor brinquedo ao amigo.
-Você sempre soube, não soube? - pergunta Sano, cerrando os olhos, deixando sua cabeça recostar a dela.
-O mundo todo sabia... mas eu não podia dizer...
-Você?
-Eu... você sabe.
-Eu só sei que amo você.
Megumi levanta a cabeça, fitando Sano. O mundo todo sabia, quando o ar ficava diferente, os cheiros e sons, os passos na beira do riacho, as palavras mais lentas... tudo dizia. Tudo sabia.
-Então fique sabendo só mais uma coisa... - ela diz, se aninhando em seus braços, pousando a cabeça em seu peito.
-Megumi...
-Você é
um completo idiota, um baka.
-Sou?
-É sim... mas é por isso preciso de você pra poder brigar, xingar... e amar, nas horas vagas...
O sol mal aparecia naquele diz cinzento. Mas aquele pôr-do-sol tinha um quê de estranho, de diferente, de especial.
Agnes Cendres
23.05.2003 00:003
obs.: eu fiz essa fic num dia meio triste^^, então não leve em consideração o pessimismo dos personagens! Sempre achei injusto esse casal ter tão poucas fics! Bom então ta aki!!!
Vocabulário
-->> "bláblá" - pensamentos
-->> ... - um tempo depois
-->> <> - uma cena que ocorre ao mesmo tempo
-->>Oro - o típico "quê?" do Kenshin
-->>Hai - sim
-->>Ohayo - bom dia
-->>Gomem ne - desculpas
-->>Baka - idiota
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