Série (I) - Uma Nova Bainha



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Tokio, 13 de maio de 1880

Era noite, e fosse em qualquer outra ocasião ele poderia distinguir um a um os sons que compunham o cenário exótico, embora extremamente familiar daquela lagoa enluarada.

Há apenas um ano viera até ali fazer o comunicado de uma decisão, decisão do qual na época, não dispusera de qualquer chance de escolha.

Relembrando os momentos de desespero, era impossível não reviver as sensações únicas, que experimentara. De fato, fora uma das poucas circunstâncias, em que se sentira realmente abalado, sem autoconfiança, simplesmente com medo.

De modo algum havia sido fácil percorrer os quinze passos, que o separavam da silhueta curva e singela, que silenciosa entre os coaxares dos sapos na lagoa ,e o brilho esverdeado dos pirilampos, o aguardava como um valete fiel que zela pelo bem estar de seu amo, e dizer: _estou pronto para morrer, ou matar se necessário for, Kaoru Dono.

E o resultado de tudo aquilo? A abertura de seu coração amargurado, ferido, sofrido, frio, calculista e que depois de tudo voltara a florescer como uma sakura; fenda do qual jamais poderia voltar a remendar; um obrigado que permaneceria a martelar em sua alma, até o último de seus dias, como uma réstia de esperança nos momentos de fraqueza. Sim, abrira o coração, e tamanho gesto fora o suficiente para que durante a batalha mais difícil, e árdua que já enfrentara, houvesse algo com o que se agarrar e perseverar na busca pela vida.

Naquele instante, sentado observando o mesmo rodopiar dos vagalumes, numa noite sem estrelas podia se sentir pela primeira vez como um homem de sorte.

Sorte? Talvez. Percorrera como um rouni sem eira nem beira os confins de uma terra arrasada durante dez anos, até descobrir que na face de uma mulher, encontrara enfim a personificação da inocência e honra, que existia tímida a aguardar por sua consagração.

Mas ali, naquele exato minuto sob a luz da lua, o reflexo da própria imagem no lago, e as lembranças que não apenas persistiam em sua mente, mas que traziam a marca fatal em sua própria face:Kenshin Himura, o ex-Hitokiri, o Battousai, se perguntava o que teria realmente a oferecer á senhorita Kaoru?

Sua espada, sua força, pequenos afazeres, ou apenas o amor? Parecia tão pouco, para alguém que lhe dera tudo, a própria vontade de viver. Vontade esta, que com o sangue de Tomoe, ele vira esvair e perder o sentido dentre seu espírito cansado.

A respiração estava ofegante, e tensa, quando portanto com a ponta dos dedos tocara o profundo, e íntimo corte em formato de cruz na face esquerda. Eram raras ás vezes que permitia executar tamanho gesto, preferia não pensar, mas aquele 13 de maio era sem dúvida uma ocasião muito especial. Um momento de comunhão total, talvez por isso mesmo a data escolhida por ela: Kamya Kaoru.

Imersão que fora bruscamente interrompida por um tropeção, e o imediato reflexo de homem treinado para luta, ao sacar o polegar sobre a bainha da espada.

Apenas uma sombra que se aproximava aos borbotões. Para sossego e alívio: _Sano, é você?

_Quem mais, meu caro?

Melhor assim, pensou, não estava com ânimos para batalha.

_Como me achou? Não disse para a Kaoru aonde iria, apenas que gostaria de dar uma volta.

Sano tirou uma espinha de peixe do bolso e passou a mordiscar, enquanto com o cotovelo esquerdo deixou-se apoiar na grande cerejeira, que estendia suas raízes profundas quase até a margem.

_Conhecendo você, como conheço, parceiro...Garanto, não foi muito difícil.

_Eu gosto daqui, um lugar muito bonito, e que em pouco tempo passou a ter um significado todo especial para mim.

_Vim avisar que a Misao, e todo o pessoal da gang Oni, acabaram de chegar de Edo. Enfrentaram alguns contratempos durante a viagem, mas já estão aí, procuraram por você

_O Dojo deve estar uma loucura. _ A idéia de Kaoru atormentada com tanta gente o fez abrir um pequeno sorriso.

_É verdade, Kaoru atacou o Yahiko com um chinelo de madeira...Mas bem, isso não foi o fato mais intrigante da noite.

_Oro?

_Sabe quem veio e perguntou por você? _Os olhos de Sano brilhavam de um modo estranho, quase sarcástico.

_Não faço idéia.

_Aoshi Shinomori. A Misao fez questão de arrasta-lo até aqui. E eu poderia dizer que o sujeito parece mudado, tinha minhas dúvidas quanto a isso, mas parece que realmente deu um jeito nele durante a guerra contra o Jupon Gattana, Kenshin.

_Fiz minha parte, o resto deve ter ficado por conta mesmo da Misao Chan.

Com um safanão, Sanozuki empurrou Himura contra o chão, e pela primeira vez numa noite sem estrelas, ele pode vislumbrar as primeiras dentro de sua própria cabeça! Afinal fora arremessado com toda a violência, _que o próprio Sano desconhecia dispor nos momentos de brincadeira_,indo bater com a nuca no chão, bruscamente.

_Caramba, você vai ficar aí mesmo sentado, olhando pros vagalumes, bem na noite de sua despedida de solteiro? Saiba que eu tive de invadir o Akabeko, enquanto a Tae vinha para cá só para bebermos esta última garrafa de saquê, antes de se amarrar para sempre! Ora Kenshin ,vamos...Ainda me deve uma luta!

_E...A Kaoru?

_A partir de amanhã, quando ela se tornar a senhora Himura de uma vez por todas , _pausa_, por mais que isso me pareça estranho você se explica com ela, mas por hoje...Festa!

_É?

_E por falar nisso, me bateu uma baita fome.

_Tenho aqui dois bolinhos de arroz.

_Ah, por agora vai ser o suficiente...

_Yahikooooooooooooooooooooo!!!

Mais uma manhã começava no Dojo Kamya, contudo uma manhã diferente de todas as outras.

_Corre Yahiko! _Sano brincou, enquanto empurrava o portão, tempo suficiente para se desviar de um pequeno e mimoso jarro de porcelana, que fora prontamente recebido por um menos avisado Kenshin.

_Oro, o que raios está acontecendo por aqui?

_Kenshin!! _Ela não sabia o que fazer, além de correr para junto do homem atordoado, que se apoiava num alto Sanozuki. _Ai, que maluca que eu sou!

_Ainda bem que admite.

_Fique quieto, Sano.

_Coitadinho,_ela inutilmente afagava a têmpora ferida de Himura, parecendo súbita perder o interesse pelo seu verdadeiro alvo: Yahiko Miojin.

_Se continuar desse jeito, Kaoru, Kenshin não vai precisar enfrentar mais ninguém. Apenas o desjejum matinal já será uma verdadeira batalha.

_Ora seu!!!

_Hei, querem parar por favor? _Com um sorriso encantador, Kenshin virou-se para uma desconfiada Kaoru. _E aí, vai me dizer enfim o que aconteceu?

_Bem, pra você pode não parecer importante, mas meu Kimono novo, que eu ia usar hoje à noite!!! Aaahhh!!! O Yahiko deixou cair no anil, e ele de branco ficou azulzinho!E, e, a Misao o trouxe de Edo novinho para mim, queria vesti-lo pra você...

Uma situação aparentemente banal, e que de repente ganhou uma nova dimensão, pois com uma delicadeza além do habitual de um homem que sabe que está prestes á dividir a maior das intimidades, com uma mulher receptiva para isso, ele simplesmente segurou o queixo de sua noiva e disse: _Sabe que não me importo com estas coisas, Kaoru Dono.

_Mas...

_Contudo se realmente significa tanto pra você, vou dar um jeito nisso, sim? Agora acalme e sugiro, que aproveite o dia, sei que temos muito á fazer.

_E por falar em dia cheio...Não passou a noite em casa, o que andou aprontando hein, senhor Himura?

_Ororoo! Ham, o Sano insistiu numa luta, mas acabou que não deu certo, porque ficamos conversando a noite toda, e bebemos um pouco além da conta. _Sorriso. _A-acho melhor eu ir andando, preciso tomar um banho,e...E mais tarde nos encontramos, não é mesmo?

_Espere!O Aoshi está aqui.

_Eu sei. _Kenshin respondeu frio, sem se virar.

_De qualquer forma, penso que é melhor conversarem, ele veio de Edo somente para isso.

Aoshi? Desde o último confronto no esconderijo de Makoto Shishio, parece que nossos destinos ficaram encarrilhados á seguirem um mesmo rumo, contudo ainda que eu tenha compartilhado junto a ele os conflitos em Shimabara...E ter presenciado o sofrimento mudo, com relação ao ataque de Shogu Amakuza contra Misao Chan; por que sinto que este homem permanece para mim um mistério constante? E o que pretende ele vindo até aqui, durante a cerimônia de meu casamento? Se houver algo implícito, uma batalha á travar em breve, temo que Kaoru não consiga resistir a uma separação repentina...Céus, o que fazer então neste caso?

_Kenshin?

_Ahm, o que foi? _Ele certamente se perdera em devaneios por mais tempo que pudera imaginar.

_Vai ficar aí parado?

_Te-tem razão, vou até a cidade e ver o que posso fazer pelo seu kimono novo, senhorita Kaoru.

Fora vez dos pensamentos da jovem Shinandai: ai, se ele soubesse como eu odeio, quando me trata assim feito uma estranha!_Está bem, está bem!Mas ande logo com isso, sim?

_Pode deixar, senhorita Kaoru. _Com um menear de cabeça por sobre o ombro, que fez escorrer a longa e basta cabeleira, Kenshin se virou para Sano com simplicidade. _ Espere por mim, volto num instante...

Inflando o peito Kaoru se afastou dos dois homens que a ladeavam, enquanto aos borbotões, seguia para a varanda do dojo puxando Yahiko pela orelha. _Ai, ai, ui, ai, ai...

_Isto é para você aprender, seu...Seu...Moleque!

O som de gravetos rompendo sob as sapatilhas negras, num gingado quase malandro de ser, seguido pelo tilintar suave de chinelas de palha era a canção, que rompia a pequena aléia de árvores que margeavam o dojo, e o separavam dos bairros da periferia de Edo.

_Você não me engana, parceiro. Este silêncio todo, não é por causa do enforcamento de logo mais.

_Enforcamento, sério? Onde? Na cidade?De quem?

_Ora, ora, caramba, o seu!

_Ah, desculpe. Estou meio aéreo, não percebi seu sarcasmo.

_É disso mesmo que estou falando senhor explorador da lua. Ontem a noite estava meio esquisito, melancólico, até aí eu entendo...Porque aturar a Kaoru pro resto da vida, certamente não será fácil. Mas parecia que no fundo você guardava uma certa felicidade, quase uma ânsia cega.

_É verdade, eu a amo muito...

_Então o quê? O que mais o está deixando assim? Tem a ver com o Aoshi, não é mesmo?

Silêncio absoluto, e um olhar de soslaio. O mesmo olhar estranho, que relanceava ao sacar da sakabatou segundos antes do contra-ataque.

_Haha, sabia. Não adianta esconder nada do velho Sano!

_Hei...Aguarde um momento, _Kenshin pediu, levando de imediato o polegar por sobre o cabo talhado da sakabatou, _ouviu isto?

_Isto o quê? _Sagara repetiu, enquanto inutilmente tentava com seus parcos instintos de lutador de aluguel, acompanhar os sentidos hábeis do ex-hitokiri.

_Isto!

_Vai passando Najima Watsuki, lê presente, passado e futuro...Vai passando Najima Watsuki...

_Ah, deixe pra lá Kenshin, é só uma velha rezadeira.

_Ela está vindo para cá, veja!

_É verdade.

_No final da Era Tokugawa, pouco antes do Bakumatsu, muitas guerreiras idosas, que dominavam secretamente a arte da espada usavam este tipo de disfarce, para distraírem e assassinarem os Ishin Shishi...Fora um estrategema muito eficaz na época, até que finalmente foram capturadas por Satsuma, e executadas em massa.

_Então?...

_É melhor mantermos a guarda, e ficarmos atentos, qualquer movimento suspeito e..._ O brilho da sakabatou, a pitoresca espada com lâmina ao contrário, reluziu com os raios de sol contra as copas das árvores altas.

_Entendi a mensagem, parceiro.

E tal a fluidez de um fantasma ela surgiu, uma senhora de aparentemente setenta e poucos anos, mas com um olhar estranhamente juvenil.Suas rugas e marcas contrastavam com o corpo roliço, e o sorriso cativante embora muito astuto. Vestida em trapos, e com um grande saco atrelado a uma armação de bambu ela arregaçou os dentes.

_Sabia que mais cedo ou mais tarde iria encontrá-lo, Shinta...

Mas como? Kenshin ficou estático, perplexo, nenhum músculo de seu corpo parecia exercer qualquer pressão, que não apenas as batidas descompassadas do coração atordoado.

Este nome...Eu, eu não o ouço há mais de, de vinte anos!

_Hehe, peraí, parece que está havendo algum engano, minha senhora.Com certeza, deve estar confundindo meu amigo Kenshin, com alguma outra pessoa. _Sano retrucou aparentemente confiante.

_Fique quieto Sanozuki...

_Ahm? A coisa tá mesmo feia hein?Pra me chamar assim!

_Sim, em que posso ajudá-la? _Kenshin se ofereceu num fio de voz, baixando a guarda, enquanto relutava em segurar lágrimas, que pareciam perversas amargarem em suas pálpebras. Estava sendo um dia longo.

_Para começar devia afastar o Sagara. Isto é somente entre nós três, Himura. _Então como o último traço daquela pintura grotesca, chegara Aoshi, o dono de seus pensamentos desde a noite anterior quando ficara sabendo da chegada no dojo.

_Ah, que é que é isso meu irmão? Está pensando que eu..._Pobre, Sanozuki, pobre e desajeitado Sanozuki Sagara, nem ao menos chegara ao fim da sentença, pois com um leve soprar de um estranho pó amarronzado que a velha bruxa trazia na manga, ele passou a dormir como um bebezinho que acabara de mamar.

_Estou pronto, o que querem comigo? Presumo que saibam, que hoje se trata de um dia importante para mim.

_Sim. Seu casamento. _Shinomori fora lacônico ao fitá-lo diretamente nos olhos.

_Exato.

_Esta senhora Kenshin, foi a responsável por traze-lo ao mundo.Conheceu bem seus pais, seus verdadeiros pais.

A emoção era incontrolável, que presente infernal era aquele afinal? O que estaria acontecendo na realidade?

_Não compreendo. Isso, isso faz tempo demais...Quase trinta anos!

_Ela é a única remanescente de sua vila natal, que foi destruída, como sabe.

_Os que não morreram de cólera, certamente pereceram com a guerra. _Completou. _E então? Ainda não me disse porque veio. Obviamente foi uma longa viagem até aqui,_pausa, _para ambos.

_Antes de qualquer coisa, meu filho, gostaria de compartilhar com você essa cuia de chá...Por favor não negue, e pode beber sem culpa, não está envenenada eu garanto.

_Pode confiar. _Aoshi assentiu, ele mesmo se servindo um pouco do estranho elixir que a senhora trazia na saca presa ao bambu.

_Ai, delicioso. _Kenshin admitiu.

_Fascinante. _Aoshi concordou.

_Pronto, agora os dois dêem-me as cuias, _estendendo os dedos gordinhos e nodosos, a misteriosa Najima pôs-se a examinar as improvisadas xícaras de cabaça. _Primeiro você senhor Shinomori, não tem muito tempo, e sabe disso. E nada tem a ver com lutas ou batalhas, sua saúde ficou precária, por causa do uso demasiado de ópio. Mas antes de fenecer irá cumprir o acordo que fizemos em Edo; apenas me penalizo pela mocinha...A que criou e ama em silêncio. _A mulher estranha suspirou prolongada, como a recobrar forças e energia, há muito gastas.

Kenshin parecia suspenso em outra realidade, bem semelhante ao COMA temporário que sofrera, ao receptar com violência o impacto da pólvora que Makoto Shishio usara contra ele.

_Mas vamos ao que interessa, _ela continuou, _também como previ não trago boas novas. Terá um filho em breve, senhor Himura, e ao contrário do que pensa ele será motivo de muitas lágrimas...Lágrimas de uma mulher em especial: a sua! Pobre alma, não gostaria de estar na pele desta jovem...Amará a dois homens, dois únicos homens: pai e filho, e nenhum dos dois lhe trará qualquer coisa além da completa, e total infelicidade.

_Pare!Pare com isso, já! É uma ordem!_Kenshin perdera o senso do equilíbrio e investira contra a mulher idosa, sendo apenas impelido pelo braço forte de Aoshi. _Que espécie de brincadeira de mau gosto é esta? E acorde agora meu amigo, antes que eu...

_Não tenho medo de espadas, senhor Himura, e isso o deixa sem autoconfiança não é? Pois bem, aproveite sua noite de núpcias...Agrade sua esposa, porque amanhã ao anoitecer deverá tomar um barco, um navio que irá partir para longe.

_Como é? _Um gosto amargo de fel, sangue, subia e descia pela garganta de Battousai.

_Alguns homens estão sendo recrutados em Hokkaido, mas por algum motivo estão viajando diversos quilômetros, e embarcando no porto de Yokohama num navio com destino á uma longínqua ilha, Kenshin...Havaí, e nós: eu, você e Saitou Hajime fomos selecionados pelo ministro Yamagata em pessoa para investigarmos o caso. Ele não confia em mais ninguém em todo o Japão, e sabe que sem sua ajuda, a missão poderá muito bem fracassar. _Era mais que uma confissão, tratava-se de um atestado de humildade e honradez, Aoshi Shinomori que durante dez anos desejara ser o mais forte...Pedia ajuda.

_Entendo, sabia que não teria vindo de Edo somente para me dar ás felicitações de bodas. Mas...E quanto a ela?Najima!

_O neto dela Nobuhiro, veja, enviou esta carta...Ele fez parte da primeira leva dos imigrantes, que pensavam estarem sendo contratados para trabalharem como lavradores assalariados, nesta ilha dominada pelos americanos; mas que na verdade haviam sido negociados por alguns nobres Meiji, como escravos; impedidos de voltarem para o Japão, sob pena de serem assassinados pelos seus novos senhores.

_É um absurdo! E como não ficamos sabemos de nada a mais tempo?

_Estávamos muito ocupados lutando contra Shishio, e logo em seguida contra Sayou e Shogu Amakuza.

_Tem razão.

_Sem dúvida é um caso muito sério, Himura, e pelo que fiquei sabendo os homens não apenas estão sendo convocados.Muitos são seqüestrados no meio da noite, e atirados nos porões dos navios. E antes que uma nova onda de conflitos se espalhe por todo país, precisamos deter estes crimes, e impedir novas migrações irregulares para o Havaí!

_Sem dúvida isto irá tomar muito tempo, temo por Kaoru, não queria decepciona-la mais uma vez. Havia-na prometido que não mais me meteria em encrencas, mas...Realmente trata-se de um problema bastante sério. Receio não poder recusar...

_Lamento muito Shinta.Sua vida não foi nada feliz, mas..._Ela disse com um leve sorriso, e quando se aproximou ao ouvido de Himura, Najima completou num sussurro. _Esta não será como a outra, é mais corajosa, mais jovem, menos inteligente é verdade...Entretanto seu amor também é muito maior, e mais puro. Não será uma nova bainha, fique tranquilo. E tome isto, é um Kimono igual ao que ela perdeu esta manhã, diga que encontrou na cidade, e não comente nada...Pelo menos não nesta noite. _Ao dizer isto, a misteriosa rezadeira que estranhamente parecia conhecer todos os mistérios de Kenshin Himura afastou-se de vez numa imensa nuvem branca, mas não antes de entre tosses e nomes feios que não devem de maneira alguma ser repetidos, trazer Sagara de volta ao mundo dos vivos.

Aoshi: _Lembre-se Himura, amanhã, ás nove horas no porto de Yokohama. Não se atrase.

A resposta fora o silêncio, e no minuto seguinte, como que também houvesse sido envolvido pela fantástica aura mística, Aoshi desapareceu.

_Meu irmão, eu tive um pesadelo pra lá de estranho. _Sano resmungou coçando a cabeça, enquanto se apoiava em Kenshin, até se pôr de pé novamente.

_Eu também, eu também. Agora vamos, está escurecendo, Kaoru espera por mim.

_E o Kimono da "jô-chan"?

_Esquece, dou um jeito.

_Eu hein?

E sem entender muito, Kenshin e Sanozuki retornaram ao dojo Kamya.

_Ah, você está linda.

_Verdade?

_Eu posso jurar, e fico tão feliz por você minha amiga, queria ter sua sorte.

_Não fique assim, Tae. Sei que gosta do Sano, não perca as esperanças. Eu mesma precisei aguardar três anos, três anos, até que Kenshin se decidisse afinal.

_É, mas o Sanozuki de mim só quer mesmo que eu pendure suas contas no restaurante.

_Quem sabe se, se perdoasse ás dívidas dele?

_Meu pai me mataria.

Risos femininos.

_Uau Kaoru, é mesmo você? _Misao perguntou surpresa, com um leve assobio moleque.

_Sim, sou eu porquê? Por acaso pareço ter passado por alguma mutação? Talvez eu, eu tenha me transformado numa borboleta? _A jovem malcriada resmungou cruzando os braços sobre o peito.

_Desculpe, eu só quis dizer que está parecendo uma gueixa de algum figurão.

_Oh...É tão difícil ser bonita! _Kaoru retrucou se observando num pequeno espelho de cobre, presente de Lester, o holandês. E foi através do reflexo posterior a sua própria imagem, que ela pôde identificar Megumi, que também se aproximava portando uma mimosa caixinha com afrescos.

_Trouxe isso pra você, Kaoru.

_Jura? E o que é?

_Carmim, você passa bem assim _demonstrou enquanto retocava a própria maquiagem, _nos lábios e fica irresistível para um homem.

_Deixe-me experimentar. _O gosto, o cheiro era mesmo bom. _Nossa, é tão diferente.

_Foi um presente de minha mãe quando fiz catorze anos.

_Obrigada. _Kaoru agradeceu enquanto descia da banqueta, espalhando o cetim branco, caro e reluzente pelo chão. Jamais tivera a oportunidade de usar algo semelhante, e Kenshin fora mesmo providencial ao remover as manchas azuladas, porque assim o brocado com mimosas pétalas de cerejeira em baixo relevo se revelavam na sua totalidade.

_Kaoru, durante muito tempo fui invejosa, e não espero que me entenda afinal de contas. Confundi meus sentimentos pelo Himura, gratidão por ter salvado minha vida, com amor. Sei que tentei roubá-lo de você inúmeras vezes, fui malévola e até cheguei a pensar que realmente ele começava a experimentar algum tipo de atração por mim. Mas tudo isso não passou de tolice. Foi por esse motivo, que pedi que levasse o antídoto para ele durante a guerra de Edo.

Kenshin precisava de você, sua inocência, coragem, doçura e até mesmo de suas maluquices. Não ansiava por uma mulher experiente, vivida. Era sua virgindade, e meiguice que o encantava, algo que ele acreditava perdido num mundo arruinado...E peço desculpas tardiamente, mas não posso esperar que me perdoe.

_Oh, Megumi, enfim você entendeu! _A senhora do dojo se atirou aos braços da rival, e ambas choraram por alguns instantes; surgia ali algum elo de amizade afinal?

_Agora, _risos e uma pausa, enquanto a médica alisava o costume azul e vinho novo, _Misao, Tsubame, por favor me deixem á sós com Tae e Kaoru.

_Ora, porquê? _Misao parecia indignada, afinal fora ela que trouxera o Kimono novo...E não aquelazinha.

_Porque preciso ter uma conversinha com Kaoru, de mulher para mulher.

_Mas eu já estou crescida, e em breve também pretendo me casar com o Aoshi!

_É, só que enquanto isso não acontece, e ele não percebe que está se transformando numa jovem bem bonita, é melhor que você, e a Tsu saiam. _Falou em definitivo, praticamente empurrando as duas adolescentes curiosas e afoitas de dentro do quarto perfumado com incensos indianos, e decorado com delicadas lanternas coloridas, além de flores silvestres e um imaculado lençol branco sobre o tatame desenrolado. _Agora Kaoru, vou bancar a irmã mais velha.

_Coragem. _Tae disse num sorriso tímido.

_Você sabe o que vai acontecer hoje á noite, Kaoru?

_Sim, eu...Faço idéia...

_Mesmo?

Ela hesitou e balançou negativamente a cabeça, era mentira.

_Já imaginava, _Megumi admitiu dando três passos em direção á mocinha estabanada, _ bem vai ser mais difícil que eu havia pensado...

Então ela cochichou, e cochichou e cochichou no ouvido de Kamya Kaoru, que com seus imensos olhos azulados, parecia tão estática quanto uma estátua budista dos templos montanhosos.

Continua...

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