Koishii I



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Kenshin ergueu os olhos para o c�u estrelado e suspirou pesadamente. Estava exausto. Tinha lavado toda a roupa, brincado com as meninas, feito o almo�o, o jantar, esquentado �gua para o banho da kaoru... Outro suspiro escapou de seus l�bios. �s vezes sentia saudades da sua �poca de andarilho, da solid�o... Vez ou outra da ferocidade de outros tempos. Durante a �poca da restaura��o, apesar das batalhas e o constante alerta, ele se sentia seguro, sabia como agir. Usava sua espada com habilidade feroz de um assassino e se perdia na quietude de sua alma escura. Fazia tempo que n�o sentia aquela emo��o pulsante dentro de si. Era preciso lutar, controlar, esquecer... Ent�o fixou seus olhos violetas no brilho prateado das estrelas no tapete negro do c�u. Quantas vezes ele n�o havia olhado as mesmas estrelas para aliviar a escurid�o que parecia segui-lo constantemente no passado? Por que se lembrar disso agora? Jamais se sentia cansado demais com os servi�os dom�sticos que lhe eram quase uma terapia, enquanto se ocupava no trabalho de lavar roupa, cozinhar e cuidar daqueles pequenos trabalhos n�o se permitia lembrar, perdendo-se na febre de Battousai. O trabalho cansava seu corpo e adormecia o esp�rito insaci�vel do retalhador. Battousai morava dentro dele, vivo, pulsante e ao mesmo tempo aprisionado no mais denso e solit�rio recanto de sua alma. Ent�o por que lembrar dele naquela noite?

"Kenshin", a voz baixa de Kaoru as suas costas pareceu despert�-lo de um transe sombrio. Ele olhou-a por sobre o ombro e quando os olhos violetas encontraram o azul escuro dos olhos dela, um terno sorriso, daqueles que apenas Kenshin sabia dar, abrandava o rosto dele, afastando os pensamentos perturbadores. "O que voc� faz sentado aqui no escuro?".

"Estou s� olhando as estrelas", ele respondeu com candura, voltando a olhar para o c�u. Kaoru sentia uma tens�o no ar, apesar do sorriso dele, as palavras brandas, algo se escondia por tr�s dos olhos violetas. Impulsionada por for�as que ela desconhecia, Kaoru caminhou at� Kenshin e sentou-se ao lado dele, percebeu ent�o que a sakabatou dele estava posta sobre ao ch�o de madeira, levemente afastada dele. Aquilo a surpreendeu, pois Kenshin raramente mantinha sua espada longe, era como se ela fosse parte dele, ou a constante lembran�a de quem um dia ele foi. Ela cruzou os bra�os para lutar contra a vontade de abra��-lo e confort�-lo de algo que nem mesmo ela tinha consci�ncia ser real ou n�o. Eles tinham passado por muitas coisas juntos, suas almas pareciam ter se tocado de uma forma quase plena, capaz de lhe permitir sentir as emo��es que pulsavam dentro dele, compreender a melancolia nos olhos violetas apesar de sua pouca experi�ncia de vida. Era como se Kenshin tivesse se fundido a ela, fazendo parte dela. Por isso, ela sabia que ele pensava no passado, nas batalhas, em Tomoe.

"Est� pensando no passado?", ela perguntou num sussurro, incerta de quere ouvir sua resposta, pois muitas coisas ainda n�o tinham lhe sido reveladas, e ela desconfiava que ele jamais lhe contaria.

Kenshin curvou a cabe�a, a franja cobrindo-lhe os olhos, dando-lhe privacidade de seus sentimentos, enquanto o luar depositava tons prateados nos fios ruivos dos cabelos dele.

"Por que acha isso, Srta. Kaoru?".

"Por que insiste em me chamar de Srta. Kaoru?", ela reagiu brava. "Quer me colocar de lado, n�o �?", ele n�o respondeu e ela se calou por um momento, bem curto, pois logo disse, ainda mais brava: "Sei que sabe dos meus sentimentos, apesar de preferir ignor�-los, eu aceito isso, aceito tudo em voc�, porque eu o estimo muito, por isso, fico fula da vida quando voc� persiste em me colocar em um pedestal, pura, doce, boa sincera Kaoru! Droga kenshin, eu sou apenas um ser humano!".

"Nunca duvidei disso, Kaoru. Desculpe esse servo pela falta de tato. Vou melhorar", ele disse num tom distante, por�m, bondoso. Ela suspirou cansada de lutar contra o que n�o poderia mudar. Talvez fosse desejar demais que Kenshin a quisesse como esposa. N�o depois de Tomoe. O sofrimento que tinha envolvido a rela��o dele com Tomoe parecia ter causado danos irrepar�veis na alma de Kenshin. E sabia que toda vez que ele tocava a cicatriz dele ele lembrava de Tomoe e na dor que amar tinha lhe trazido. Kaoru n�o duvidava que kenshin sentia algo por ela, s� lamentava que talvez n�o fosse t�o forte para cicatrizar as feridas que ele insistia em manter abertas. Talvez fosse hora de desistir e seguir em frente. Ainda era jovem para construir sonhos, desejar... N�o, n�o era mais capaz de desejar algo al�m de ter Kenshin por inteiro, pois ele corria em seu sangue como um poderoso veneno que a consumia numa febre de anseios e desejos que talvez jamais viessem a se realizar. Aquilo lhe parecia t�o distante quanto o brilho das estrelas. Ela abaixou os olhos vencida pela tristeza de seus pr�prios pensamentos. Bastava para ela estar apenas juntos de Kenshin, mesmo que ele jamais viesse a toc�-la com ardor ou paix�o, ou mesmo se permitir am�-la sem temer as lembran�as do passado dele. Estar apenas com ele alimentava sua alma sedenta pelas emo��es que somente ele lhe proporcionava. Essas certezas feriam-lhe o cora��o e sentindo-se dolorosamente derrotada, Kaoru ergue-se.

"N�o precisa se preocupar com isso Kenshin, n�o importa como me chama", ela lentamente come�ou a se afastar. "A gente se v� amanh�", despediu-se Kaoru antes de abrir o Shoji e desliz�-lo suavemente atr�s de si ao fech�-lo, deixando Kenshin para fora do quarto dela, do futon dela e da tristeza que trouxe l�grimas aos olhos de Kaoru. Ela chorou sozinha naquela noite, como havia feito tantas outras enquanto via suas tolas tentativas de ter Kenshin serem vencidas pelo passado, por Battousai, por Tomoe...

Kenshin n�o ouviu o choro de Kaoru, mas ele sabia que ela chorava silenciosamente no interior do quarto dela. Assim como ele sabia que seu comportamento distante a feria imensamente. Ele sabia de muitas coisas e entre elas que o passado n�o poderia ser esquecido. Seus dedos tocaram a cicatriz em seu rosto. Ela n�o do�a mais, por�m, quando Kenshin fechava os olhos ele sentia a faca de Tomoe corta-lhe a carne, marcando-o para sempre enquanto a vida dela ia se perdendo por causa de quem ele foi, por causa de battousai, pelas mortes que ele causou, pela fome avassaladora que o consumia quando lutava, cortava, arrancava sangue da carne do inimigo e roubava-lhes a vida... Ele jamais tocaria Kaoru ou a traria para o inferno de sua exist�ncia. Ent�o por que n�o partia? Por que n�o a deixava para que ela pudesse voltar a desejar, a construir um amanh�? Um sorriso amargo lhe marcou os l�bios ao ouvir a resposta que ecoava em sua alma: Porque n�o tinha for�as para deix�-la. Precisava de Kaoru, porque a amava, como nunca tinha amado antes. Kaoru lhe despertava sentimentos nobres, uma tola felicidade de apenas estar ao lado dela. Era ego�sta demais para deix�-la, ele bem o sabia, mas nem tudo ele poderia controlar em seu intimo.

Kenshin apanhou sua sakabatou esquecida ao seu lado. Colocou-a em presa em sua cintura. Ainda n�o fora capaz de esquecer quem ele havia sido no passado. Ent�o, ele entrou no dojo, ciente de que havia muito ainda para lutar, controlar, esquecer...

Kaoru caminhava na cidade em companhia de Tae e Tsubame. Elas faziam compras num raro dia de folga de Tae e Tsubame no arkabeko. Era um dia agrad�vel e as tr�s olhavam as lojas e papeavam sem maiores preocupa��es. Kaoru apreciava esses momentos tranq�ilos, longe dos resmungos de Yahiko, a chatice de Sanosuke e os constantes desejos insatisfeitos por Kenshin. Por isso, vez ou outra, passava o dia inteiro fora aproveitando o m�ximo cada minuto na companhia das amigas.

"Estava louca para compra um quimono novo", disse Tae enquanto elas admiravam uma artes� costurar na entrada de uma loja de tecidos os pequenos detalhes bordados na seda num tom turquesa. "Mas estou precisando economizar", o tom dela era desanimado.

"Economizar pra qu� Tae?", perguntou Kaoru curiosa.

"Tae quer ter um bom dote", explicou Tsubame em sua inoc�ncia juvenil, mais interessada nos rolos de tecidos do que na conversa entre as duas outras mo�as.

"Dote? Pra qu�?", indagou Kaoru ainda confusa com o cenho franzido.

"Para um bom casamento. Sabe que n�o sou t�o jovem e os homens precisam de atrativos numa mulher", explicou Tae com seu costumeiro ar de ast�cia.

"Mas voc� ainda � jovem, e � bonita. Tenho certeza que logo conhecer� um bom homem e ter� muitos filhos e dias felizes", disse Kaoru com plena convic��o.

"Oh, claro", a outra n�o parecia t�o confiante como Kaoru quanto � veracidade daquelas palavras. "De qualquer jeito vou dar uma m�ozinha ao inevit�vel encontro com o bom homem que me tomar� como esposa", concluiu Tae com um sorriso animado. Kaoru limitou-se a sorrir, enquanto um importuno pensamento encheu sua mente, incerta, ela fitou a mulher mais velha.

"Tae, acha que... Acha que estou perdendo minha juventude e beleza?", seu tom n�o era mais que um sussurro.

"Um dia todas n�s as perderemos", ponderou a outra. "Mas n�o se preocupe, apesar dos pesares, voc� tem o Kenshin".

"Mas, �s vezes, eu penso que ele jamais me pedir� em casamento", ela suspirou melanc�lica.

"Isso � verdade", concordou a outra de pronto. Kaoru arregalou os olhos surpresa, afinal esperava palavras de conforto por parte de Tae! "Ele n�o se casar� com voc� porque est� na c�moda posi��o de t�-la sem qualquer um envolvimento mais s�rio".

"Tae, eu e o Kenshin... N�s nunca... Oh! N�o acha que a gente...", balbuciou Kaoru vermelha como um piment�o, enquanto evitava os olhos de Tsubame extremamente constrangida.

"N�o estou falando de sexo, Kaoru", disse Tae interrompendo-lhe as palavras confusas.

"Tae, olha a Tsubame", retrucou Kaoru quase hist�rica.

"Ela sabe o que � sexo. Eu tenho conversado com ela desde que Yahiko passou a ir com freq��ncia no restaurante, voc� me entende, n�o �?".

"Eu...", Kaoru estava em choque, pois jamais havia falado daqueles assuntos com ningu�m, uma vez que a m�e morreu quando ela ainda era muito menina, e jamais pensou nessas coisas, n�o tanto como fazia nos �ltimos anos depois que conheceu Kenshin, mas lutava contra tais pensamentos. Olhou Tsubame que parecia confort�vel com as palavras de Tae e sentiu-se ainda mais constrangida.

"Bem, voltando a voc� e kenshin, devo lhe dizer que ele nunca a pedir� em casamento enquanto estiver confortavelmente instalado em seu dojo, tendo comida, teto e sua devo��o. Talvez com o tempo voc� tamb�m ceda em outros aspectos".

"Est� dizendo?... Oh, isso n�o! Sou uma mo�a descente! N�o vou me permitir a essas coisas!".

"Quando se � jovem somos fortes para resistir, mas com o tempo essas coisas pouco importaram. Voc� ceder�, apaixonada e temerosa de perd�-lo, voc� far� tudo para mant�-lo com voc�, j� esquecida das tolices de mo�a que alimentou enquanto esperava Kenshin se decidir".

"Kenshin n�o � assim, Tae", protestou Kaoru com veem�ncia.

"Ele n�o � um mau rapaz, � bonito, apesar de delicado demais, por�m, bem sabemos de sua habilidade com a espada e de tudo que ele tem feito por muitos, mas n�o podemos negar a vida boa que ele leva em seu dojo, n�o � verdade?".

"Que sandice! Kenshin cozinha, lava e cuida da casa para mim, acho que eu e que estou no lucro por aqui".

"Ser�?", Tae sorriu maliciosa. "Voc� est� sozinha, n�o est�?", a pergunta de Tae pareceu apertar uma ferida aberta. Kaoru quis negar, por�m, n�o pode, pois ela estava realmente sozinha. Kenshin n�o era seu homem, mas tamb�m n�o deixava de ser seu companheiro. Era dif�cil de explicar ou entender tudo aquilo, quando ela mesma n�o entendia que diacho de relacionamento havia entre ela e Kenshin. Desanimada, Kaoru abaixou os olhos sem coragem de olhar Tae ou encarar que talvez fosse uma tolice acreditar no amor de Kenshin...

"Tae-san!", exclamou uma voz vinda da rua, a outra mo�a fitou algu�m entre os passantes e os pequenos olhos pareceram focalizar algo familiar, pois ela sorriu com alegria, acenando para atrair a aten��o de quem a chamava. N�o demorou e um rapaz alto, ombros largos, os cabelos negros que dan�avam na brisa fresca da esta��o, moldando o rosto forte e bonito, surgiu diante delas.

"Tojo!", a voz de Tae soou como um sino que anunciava boas novas, enquanto ela abra�ava o rapaz com entusiasmo, surpreendendo as amigas. "Quanto tempo! Pensei que estivesse na Inglaterra!", ela disse ap�s o abra�o, ainda com um largo sorriso.

"Estava, mas acabei meus estudos e decidi voltar. Estava com muitas saudades de todos por aqui".

"N�s tamb�m est�vamos com saudades. Ah, quero que conhe�a minhas amigas. Tojo � meu primo, essa � Tsubame", falou indicando a garota que se curvou educadamente, levemente corada, admirada da beleza e carisma do rapaz que deveria ter quase a mesma idade de Kaoru. Ele retribuiu o cumprimento. "E essa � Kaoru-Kamya. Voc� conheceu o pai dela, do dojo Kamya", os olhos azuis do rapaz fitaram Kaoru, eram calorosos e serenos, ela podia ver muito dele atrav�s dos olhos dele. Kaoru sorriu com cortesia, levemente encantada com o charme de Tojo.

"Mestre Kamya, sim eu o conheci. Ele me ensinou o uso da espada. Como vai seu pai?", ele indagou ap�s sa�da-la com um curvar polido.

"Ele faleceu h� alguns anos", ela disse suavemente.

"Ah, lamento. Ele era um grande mestre", Kaoru e o rapaz se fitaram num c�mplice sil�ncio de recorda��o do pai dela. Tae os observava com um sorriso estranho, os olhos apertados como se tramasse alguma coisa...

"Kaoru agora � mestre no estilo Kamya", disse Tae com anima��o. "Voc� ainda pratica, Tojo?".

"Regularmente".

"Ent�o poderia treinar com Kaoru, o que acha?", Kaoru piscou confusa, algo no jeito de Tae a deixou alarmada. Ela estava aprontando...

"Seria muito bom, se a srta. Kaoru n�o tiver obje��es", Kaoru o olhou e n�o p�de deixar de lhe sorrir com candura. Tojo era muito educado e gentil.

"Claro que n�o me importo. Se quiser aparecer para treinar muito me alegrar�".

"Isso!", exclamou Tae, fazendo um gesto de vit�ria coma a m�o, depois sorriu disfar�ando quando percebeu que Tsubame, Kaoru e Tojo a olhavam com curiosidade.

As tr�s mo�as e o jovem Tojo conversaram um pouco mais, depois ele se despediu e seguiu pelas ruas movimentadas, e elas continuaram seu passeio, parando para lancharem e orarem no templo. J� era bem tarde quando as elas se despediram e Kaoru seguiu para o dojo. Assim que ela chegou no dojo foi recebida pelo cheiro bom de comida que certamente Kenshin j� preparava. Ela sentiu o est�mago se contrair de fome e suspirou feliz por Kenshin estar ali, assim como Sano e Yahiko que estavam sentados na entrada, distra�dos ou cansados demais de vagabundear, pois Yahiko n�o havia treinado naquele dia e duvidava que ele tivesse ajudado Kenshin com os servi�os dom�sticos.

"Ol�, pessoal", saudou com cordialidade, sem querer arrumar briga com ningu�m.

"Puxa, Kaoru, voc� demorou", resmungou Yahiko com cara feia. "O Kenshin n�o deixou a gente comer at� voc� chegar".

"Ent�o, ter� que esperar um pouco mais, pois vou esquentar �gua para o meu banho".

"Eu j� fiz isso, Kaoru", disse Kenshin aparecendo. Ele sorria com do�ura e ela se viu retribuindo, mole pelas deliciosas emo��es que Kenshin enchia seu corpo, mente e alma.

"Obrigada Kenshin. N�o precisava ter se dado ao trabalho...".

"N�o foi trabalho nenhum, pensei no quanto estaria cansada depois de um dia caminhando, e tamb�m estou procurando me redimir da minha indelicadeza de algumas noites atr�s", comentou lembrando-se da conversa deles sobre as estrelas. Kaoru ficou tolamente feliz por ele estar de certa forma arrependido de ter sido frio e distante com ela. Talvez n�o fosse tolice esperar por Kenshin...

"Mesmo assim obrigada. N�o vou me demorar", completou afastando-se. A banho quente estava maravilhoso e Kaoru demorou um pouco mais que o habitual, mergulhada no furo, envolvidas no calor da �gua e pelo aroma suave das rosas que tinha colocado na �gua, recordando-se de um conselho de Megumi, a fim de se tornar mais atraente para os homens, em especial para Kenshin, Kaoru perdeu-se em lembran�as do jeito doce de Kenshin ao receb�-la naquela noite. Demorou ainda mais em escolher um quimono que real�asse seus olhos azuis, prender os cabelos com o len�o azul que Kenshin havia lhe dado de presente. Quando voltou para junto dos demais, percebeu pela cara e resmungos de Yahiko e Sano que havia demorado bem mais do que esperava, por�m, o sorriso que Kenshin lhe deu ao v�-la compensou todos os resmungos e chatea��o de Sano e Yahiko.

"Fiz bolinho de batata que voc� gosta, Kaoru", falou Kenshin de um jeito mais terno.

"Ah, obrigada", ela agradeceu com um leve rubor ao deslumbrar nos olhos violetas um qu� mais doce e somente para ela.

"Oh, droga. Agora voc�s dois v�o ficar com essa conversa melada!", resmungou Yahiko. "Que nojo!".

"Yahiko!", Kaoru gemeu entre dentes furiosa pelo garoto quebrar um momento t�o rom�ntico.

"O que foi agora? Eu estou falando besteira? N�o mesmo...".

"Cala a boca", pediu Sanosuke com a boca cheia de comida. "Come, deixe os dois, voc� ainda � muito garoto para entender essas coisas".

"Eu n�o sou garoto!", ele gritou furioso, enfrentando Sano.

"Ah, � assim!", disse Sano tamb�m enfrentando Yahiko, logo os dois estavam embolados numa briga. Kaoru suspirou desanimada, enquanto Kenshin tentava por fim a contenta. Quando por fim eles se separaram, Kaoru j� tinha comido alguns bolinhos e sua fome tinha sido saciada. Kenshin j� tinha esquecido de sua apar�ncia e aroma de primavera, ele parecia cansado, pois n�o demorou ele ir dormir. Na quietude de seu quarto, deitada em seu futon, Kaoru pensava em Kenshin e na conversa dela com Tae. Estaria realmente fadada a envelhecer ao lado de Kenshin sem realmente t�-lo, cedendo-lhe tudo por medo dele partir? Ela sabia que para que Kenshin ficasse ela faria qualquer coisa, mesmo tendo juventude e esperan�a de um dia ele pedi-la em casamento. Ela o amava e isso parecia que jamais mudaria. Ent�o, ela pediu que algo acontecesse, que ele se motivasse a quer�-la... Ah, Kenshin... Suspirou Kaoru perdida em devaneios rom�nticos.

Kenshin lavava a roupa nos fundos do dojo enquanto Ayame e Suzame brincavam ao redor da tina. Um terno sorriso desfilava nos l�bios dele, embalado pelo riso cristalino das meninas. Nunca se permitia pensar em algo mais do que tinha, por�m, ao olhar as meninas correndo atr�s das bolhas de sab�o, ele imaginava seus pr�prios filhos correndo ao redor dele e Kaoru. Crian�as valentes como a m�e, de imensos olhos azuis e quem sabe cabelos ruivos como o dele? A id�ia o agradava tanto quanto a de estar com Kaoru na intimidade do quarto, fazendo muitas crian�as...

"Hei, Kenshin", chamou Sano aparecendo no port�o dos fundos. Ele mastigava um peda�o de mato e tinha um olhar curioso. "Quem � o cara com a Jo-Chan?".

"Cara?", Kenshin franziu o cenho, Kaoru estava treinando com Yahiko pelo que ele sabia... Kenshin colocou-se em alerta.

"�, eles est�o conversando l� na frente", Sano olhou Kenshin com os olhos levemente semicerrado, como se pensasse algo. "N�o gostei do jeito dele...".

"Ent�o vamos ver o tal visitante", falou Kenshin num tom frio. As duas meninas pararam de correr atr�s das bolhas de sab�o e olharam os dois homens.

"Aonde voc�s v�o?", perguntaram num �nico som.

"Vamos s� ver quem est� conversando com a Kaoru l� na frente", respondeu Kenshin com um sorriso doce para as meninas.

"Ah, deve ser o Tojo", esclareceu de pronto Ayame. "Ele � primo da Tae, esteve aqui ontem enquanto voc�s estavam na cidade".

"Primo da Tae?", indagou Sano surpreso. "Mas o que ele quer com a Kaoru?".

"Treinar. Ele aprendeu o uso da espada com o pai da Kaoru", explicou a menina.

"Ele � bonito!", exclamou Suzame com alegria. "Kaoru disse que ele era", completou como se isso fosse prova suficiente da beleza do rapaz.

"Disse �?", Kenshin repetiu com uma estranha e incomoda sensa��o. "Seria bom dar uma olhada no tal primo da Srta. Tae", ele disse sem qualquer emo��o. Sano viu um brilho perigoso nos olhos violetas do amigo. Kenshin caminhou resoluto para frente do dojo, por�m, estacou ao ver Kaoru rindo com o tal Tojo. Ela parecia solta, despreocupada, alegre, bonita... O rapaz era quase da mesma idade dela, alto, forte, sorriso f�cil e nos olhos azuis haviam o brilho descontra�do da juventude, sem mortes, viol�ncia ou passado sombrio. Um homem bom para amar Kaoru, faz�-la feliz, ter os filhos que ela merecia... Pensar nela com o outro lhe trouxe uma dor alucinante e o desejo feroz de acabar com a vida daquele que causava tamanha beleza em sua Koishii. Sua, pois Kaoru lhe pertencia em alma, e isso n�o mudaria, ou mudaria? Sano que vinha logo atr�s de Kenshin quase trombou nas costas dele.

"Oh, Kenshin, acorda cara!", exclamou Sano impaciente. O tom alto de sua voz atraiu os olhos de Kaoru e do rapaz.

"Ah, Kenshin e Sano, venham conhecer um amigo", convidou Kaoru com naturalidade.

"Amigo, hein? Acho que Jo-Chan se impressiona demais com um rostinho bonito", comentou Sano entre dentes. Kenshin tocou sua bochecha com a cicatriz. Bonito...

"Tojo � primo da Tae e esteve na Inglaterra", comentou Kaoru levemente corada depois das sauda��es de praxes. Estaria feliz? Encantada? Aqueles pensamentos come�avam a sufocar Kenshin. Era estranho, outros homens tinham admirado a beleza de Kaoru e at� mesmo um pintor a tinha enaltecido como musa dele e Kenshin nunca sentiu o menor incomodo, por�m, havia algo naquele rapaz que o incomodava imensamente... "Hei gente, quanta timidez!", disse Kaoru ainda sorrindo. Ayame e Suzame surgiram correndo e sem convite foram para o colo de Tojo, que as recebeu com alegria em seus bra�os, rindo e brincando com as meninas.

"Ol�, como v�o? Est�o muito bonitas hoje", ele disse com brandura.

"Voc� tamb�m", elas responderam em coro. Ele riu divertido.

"N�o veio treinar hoje?", perguntou Ayame ao notar as roupas ocidentais que ele vestia.

"N�o, vim convidar Kaoru para ver a queima de fogos no lago, vou levar a Tae e Tsubame. Voc�s querem ir tamb�m?".

"Ah, � muito tarde. Temos sono".

"Ah, que pena", ele brincou com os cabelos delas num afago amigo. "Voc�s querem ir tamb�m? Yahiko tamb�m ir� com Tsubame", disse o rapaz com cortesia.

"To fora", disse sano de pronto. "Vou jogar com os rapazes e tomar uns saqu�s".

"Desculpe, mas tenho assuntos a resolver", declinou Kenshin sem o costumeiro sorriso. Kaoru o fitou com surpresa, os ombros dele estavam eretos, o olhar quase t�o frio e distante quanto quando ele empunhava sua espada. Havia algo incomodando Kenshin. Kaoru ficou s�ria.

"Vai a algum lugar em especial?", o tom dela era levemente ansioso.

"N�o, o delegado me pediu um favor, nada demais", ele ainda n�o sorria como costumava fazer para tranq�iliz�-la. Parecia quase feroz. Kaoru quis se aproximar mas pela primeira vez desde que conheceu Kenshin, ela sentiu um certo receio.

"Kenshin...", ela disse num murm�rio aflito. Um ar tenso os envolveu e Tojo pressentiu no olhar do ruivo um perigo letal. N�o ficou com medo, apenas preocupado com Kaoru, pois a mo�a parecia tomada por uma grande ansiedade. Ele a olhou com candura, sorrindo-lhe.

"Est� tudo bem, Kaoru?", indagou gentilmente.

"Sim, claro", ela lhe sorriu num esfor�o evidente. "Tenho que treinar com Yahiko um pouco mais... Eu...".

"Ent�o posso passar mais tarde para busc�-la para irmos ver a queima de fogos?".

"Sim, obrigada pelo convite", agradeceu Kaoru aliviada por ele ter entendido sua situa��o. Tojo curvou-se educadamente para ela, depois para os demais. "Foi um prazer conhece-los. At� mais", ap�s lan�ar um outro olhar para Kaoru, sorrindo-lhe confiante, Tojo se afastou.

"Bem, acho que hoje n�o rola um jantar por aqui. Vou nessa", disse Sano prevendo algo turbulento entre Kenshin e Kaoru. O rapaz colocou as m�os nos bolsos da cal�a e displicentemente partiu. Kaoru se aproximou de kenshin, apertava as m�os nervosamente.

"Est� tudo bem?", ela perguntou num fio de voz. Ele assentiu com um leve movimento de cabe�a. "Eu esperava que voc� me convidasse para ver os fogos", ela murmurou com os olhos azuis esperan�osos. "Voc� ia me convidar, n�o ia?", insistiu ap�s o longo silencio dele.

"N�o, n�o ia. Desculpe, mas n�o pensei em convid�-la, pois tinha me comprometido com o delegado para cuidar de uns assuntos".

"Assuntos? Voc� n�o vai partir, n�o �?".

"N�o, n�o ainda".

"O que quer dizer com ainda?", o tom dela era alarmado, os olhos azuis escuros foram tomados por emo��es dolorosas, enquanto aguardava quase desesperada pela resposta dele.

"Sou um andarilho, talvez um dia eu deseje partir", ele disse com o peito apertado por ver tristeza no rosto dela, parecia ser a �nica emo��o que ele lhe trazia nos �ltimos tempos. Teve vontade correr at� ela, abra��-la e lhe dizer que jamais partiria, por�m, permaneceu no mesmo lugar, s�rio, letal, retalhando os sentimentos dela numa f�ria quase assassina.

"Partir...", ela falou numa mon�tona repeti��o.

"Preciso terminar de lavar a roupa, e voc� precisa se arrumar para queima de fogos...", disse Kenshin dando-lhe as costas.

"Voc� n�o se importa que eu v�?", ela indagou numa �ltima tentativa de vencer a imensa barreira que surgiu de repente entre eles.

"N�o, acho que se divertir� bastante", ele falou enquanto dava passos curtos, afastando-se em dire��o aos fundos do dojo. Kaoru quis ir atr�s dele, por�m, as meninas seguraram cada uma de um lado da manga de sua roupa, impedindo-a de avan�ar.

"Kaoru, estamos com fome", disse Suzame indiferente a tensa conversa entre o casal. Kaoru sorriu-lhe, os olhos atentos a Kenshin que lentamente sumia de seu campo de vis�o.

"Ainda tenho um peda�o de melancia, acho que voc�s gostariam disso".

"Sim, queremos melancia!".

Depois de alimentar as meninas, Kaoru procurou por Kenshin no fundo do dojo, mas apenas Yahiko estava l�, Kenshin j� havia sa�do para seu compromisso. Desolada, Kaoru come�ou a se arrumar. Esquentou a �gua pra seu banho, depois ela banhou-se nas �guas t�pidas, sem realmente aproveitar o calor. Saiu do banho e vestiu um quimono amarelo, prendendo os cabelos com um len�o da mesma cor. Ajeitava o la�o pela mil�sima vez, perdida na tristeza que enchia seu peito, sentindo-se sufocar por sentimentos dolorosos. As palavras de Kenshin ainda soavam em sua mente como sinos de algo f�nebre, machucando-a... Talvez um dia. Kaoru fechou os olhos por um momento. Faria qualquer coisa para que Kenshin ficasse. Voc� ceder�, apaixonada e temerosa de perd�-lo, voc� far� tudo para mant�-lo com voc�... Ela abriu os olhos fitando o nada. Kaoru se sentia desesperada por apenas imaginar Kenshin partindo...

Kenshin caminhava na escurid�o da noite com todos os sentidos em alerta. Tinha passado horas cuidando de um tolo pol�tico, esperando por uma luta que aliviasse sua raiva, capaz de faz�-lo esquecer por um momento a imagem de Kaoru t�o bonita e feliz junto de Tojo, por�m, a noite transcorreu tranq�ila e Battousai se agitava dentro dele, perturbado por imagens de Kaoru iluminada pelo luar, sorrindo, brilhantes com o brilho dos fogos... Em companhia de um rapaz e n�o dele. Seus olhos ent�o se tornaram levemente �mbares, inflamados por sentimentos desconhecidos por ele. Durante sua vida como retalhador muitas emo��es afloravam dentro dele, mas nenhuma t�o destrutiva quanto o ci�me dardejante que assolava sua alma. Sem que percebesse seus passos o guiaram at� o rio, onde os vaga-lumes dan�avam solit�rios na quietude da noite. Ele parou lembrando-se de Kaoru ali parada, envolta pelo brilho cintilante dos vaga-lumes. Lembrou da dor que havia lhe causado ao lhe dizer adeus, enquanto seu pr�prio cora��o se quebrava ao ver as l�grimas de sua Koishii. Foi ali que ele a abra�ou pela primeira vez admitindo a si mesmo seu amor por Kaoru. Naquele mesmo lugar ele conheceu a mais simples felicidade de ter a pessoa amada apertada junto de si, lutando para permanecer firme em sua decis�o de partir para enfrentar Shishio, deixando Battousai emergir do recanto mais escuro de sua alma. Ele surgiu, mas n�o o dominou, n�o ainda, por�m, um dia talvez ele o vencesse e Kenshin temia por esse dia, pois temia que Kaoru n�o o amasse se olhasse Battousai nos olhos. E se a perdesse, certamente se afundaria ainda mais na solid�o de seu viver... Kenshin de repente despertou de seus devaneios, algo havia atra�do sua aten��o. Atento ao menor ru�do ou movimento, sua m�o tocou o cabo de sua sakabatou, os olhos violetas ganharam o tom dourado, violento, pronto para o ataque...

Continua...

Por: Pr�mulla

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