Série (II) - O Dia Seguinte



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Kiamy dizia existir apenas um digno da presença de seu pai, Kenji, e assim ela o levou até os aposentos do Imperador de todo oriente.

_O que este servo deve fazer, para alegra-lo, senhor?_Kenji perguntou com lealdade.

_Traga-me o pássaro, e talvez eu viva.

Então o nobre guerreiro vagou por todo o Império, dias, e noites...E não encontrara qualquer sinal da ave que lhe traria a paz, o amor , para seu coração sofrido e sem ilusões.

Quando enfim parecia pronto para regressar de sua jornada sem vitórias, ele ouviu o cantar, e era mesmo magnífico, belo, esplendoroso...Sem pensar uma segunda vez, sacou sua espada, e cortou a galha da árvore onde alegremente o rouxinol assoviava para a floresta.

Satisfeito por ter cumprido sua missão, e sem medir as conseqüências do que poderia infringir aquela pequena criatura indefesa, Kenji entregou o rouxinol nas mãos do Imperador...

No entanto durante dias, e dias, e dias, e dias a ave se recusou a cantar...Porque se encontrava presa, enjaulada numa gaiola de ouro.

De um tudo logo foi feito, para que aquele rouxinol, voltasse a encantar o Imperador. Mas nada adiantou, era apenas outro golpe do destino.

Numa manhã então algo triste aconteceu, o Imperador veio a falecer no justo dia do casamento da princesa com o espadachim, que com sua conquista havia se tornado o homem favorito do rei.

Todos desesperados então quiseram achar um culpado para tamanha tragédia.

E quem seria? Os médicos incompetentes? Os inimigos do rei? O espadachim corajoso?

Não! A resposta estava na pequena ave. Que a mando do primeiro ministro deveria ser executada, e ter suas penas jogadas ao longe, aos quatro ventos para que todos vissem.

Kenji somente então percebeu o valor de seu crime, em nome de uma crença errada, e com sua espada defendeu com a própria vida a liberdade do delicado rouxinol prisioneiro; assim enfrentando a guarda imperial ele teve sua cabeça decepada. Mas ao menos seu sacrifício não seria em vão, fora o último pensamento antes da morte honrada. Porque logo mais adiante, no quarto onde deveria ser comemorada a noite nupcial, a bela princesa Kiamy sacava a ave de sua gaiola dourada, antes que o aposento fosse invadido...E mesmo entre flechas, e lanças o pássaro havia conseguido finalmente voar para longe...Para a segurança, onde na mesma árvore que um dia foi arrancada a galha de seu ninho, voltara a cantar.

Os olhos de Kaoru estavam subitamente mergulhados em lágrimas, e no instante em que ela se virou para fitar novamente Himura Kenshin, o misterioso pássaro que até então permanecia aconchegado entre seus dedos bateu asas e voou no céu azul, descrevendo alegres, e coloridas curvas.

_Volte aqui..._Ela pediu.

_Não, deixe-o. Deixe-o ir.

_Kenshin, _Kaoru murmurou passando um braço em volta do pescoço de Battousai, _jamais imaginei que poderia ouvir algo assim, de você...

_Seijuro me contou esta fábula inúmeras vezes. E também durante a guerra, antes de alguma missão perigosa, nós a ouvíamos em silêncio e reflexão...Para que extraíssemos a essência de seus ensinamentos, e caso fosse necessário, morrêssemos com honra pelo nosso ideal.

_Entendo.

Kaoru mal conseguia manter os olhos abertos.

_O rouxinol é um Rurouni...Um Rurouni, como eu... _Mas aquela última, última, fatal e reveladora sentença não chegou aos ouvidos de Kamya Kaoru, que envolvida num possante narcótico, passou a dormir profundamente em seus braços.

_Kaoru!!!!!Perdoe-me!!!_Ele a enlaçou fortemente num grito para o nada, aspirando por apenas mais um instante seu perfume...Antes que no minuto seguinte, resoluto e sem olhar para trás, descesse a montanha com sua esposa adormecida em seus braços.

Nalgum lugar, nalgum lugar distante dali, um triste cantar de pássaro foi ouvido. Teria sido o rouxinol? Não era mais importante, Kenshin seria incapaz de saber.

Quando finalmente Battousai conseguiu deixar o dojo, eram por volta das três e quarenta da tarde, e não tinha muito tempo afinal a locomotiva com destino á Yokohama, partiria em menos de vinte minutos.

Para sua sorte Sanosuke permanecia inerte agarrado ao saquê, Megumi fora atender um parto prematuro, Ayume e Suzumi dormiam na sala de treinamentos, e Yahiko estava ajudando Tsubame no Akabeko.

Seu único problema era mesmo.

_Kenshin!!!Aonde pensa que vai, hein? Pode enganar á todos, menos a mim, Misao Machimachi! Sei que está aprontando uma, porque por qual outra razão estaria com esta mochila nas costas, e saindo pela porta dos fundos? Está pensando em fugir, ou...?

_Oro?

Se Kaoru poderia ser considerada temperamental, entusiasta e efusiva...O que dizer de Misao? Bem, ele não conhecia qualquer palavra que pudesse defini-la. Como escapar de sua astúcia então?

_Mestre?

Himura suspirou, pois com um pequeno golpe com a ponta dos dedos, bem na base da nuca Seijuro Hiko acertou a saltitante garota "guaxinim" em cheio, fazendo-a cair desmaiada em seus braços fortes.

_Resolvido seu problema, Kenshin...Mas á propósito, as mulheres que o cercam são mesmo muito excêntricas.

Referência nítida a : Kaoru, Misao e Megumi.

_Ainda bem que chegou, de repente me senti numa enrascada, ela é realmente muito determinada.

_Fez o que mandei?

_Sim, aqui está a carta, e...E também desenterrei isto, uma pequena herança para meu filho, quando ele nascer.É todo o dinheiro que me resta, e consegui economizar durante todos esses anos.Mas, quando estava abrindo esta caixa de repente me ocorreu algo muito importante.

Seijuro não moveu um músculo, continuou á fitá-lo diretamente nos olhos como sempre fazia.

_E se Kaoru tiver uma menina?

_Será minha aluna da mesma forma, Kenshin.

_Agora percebo. Prometa que irá protege-la, que encontrará algum modo de faze-la esquecer-me de uma vez por todas!

Aquele pedido era doloroso, como doloroso fora deixa-la deitada no tatame com um leve beijo não correspondido de adeus, e cerrar as divisórias de madeira meio a penumbra vespertina, para sempre.

_Já lhe dei minha palavra Himura, agora vá, ou irá se atrasar para o encontro de Yokohama.

_Sayonara, sensei.

Ao dizer isto Kenshin jogou a pequena mochila improvisada nas costas, e pôs-se a correr contra o tempo, correr contra o inimigo desconhecido duma terra longínqua.

_Hei, senhora, um bilhete para Yokohama...Só de ida.

E ao terceiro apito da locomotiva, Kenshin entrou no trem sem nem ao menos ter tempo, de lançar um último olhar sobre a periferia de Tókio.

O porto de Yokohama era um importante entreposto comercial daquela época. Na verdade o único, que ligava o Japão com o restante da economia mundial moderna, centenas de navios de todos os tamanhos, estilos, e cargas se espremiam nas docas ultrapassadas e mal cheirosas, que compunham aquela baía.

Sorrateiro, e com os sentidos aguçados para o ataque, Himura identificara o armazém número nove. Era lá que devia se encontrar com Shinomori, e aguardar pela troca na carroça. Contudo, faltavam menos de dez minutos para o horário combinado, e nada do okashira.

_Pode ficar tranqüilo, Aoshi virá.

Saitou era um homem alto, belo e elegante. No entanto suas maneiras estóicas, e geladas, destruíam por completo a boa estampa de sua aparência exterior.

Um cinismo perene, ao invés de sentimentos naturais era muito mais que um simples traço característico, podia ser considerado o principal elemento de sua personalidade esquiva e escorregadia.

_Se os budistas tiverem razão, Saitou, prepare-se: na próxima vida voltará como uma serpente, ao invés de um Lobo.

_Seus comentários inúteis em nada me atingem, Battousai.

_Eu tenho um nome sabia? Himura, Kenshin Himura! E me orgulho bastante dele, é um nome limpo e puro, muito mais do que foi Battousai O Retalhador, ou Hitokiri Battousai!

_Se insiste? Himura.

Bem no meio da discussão então um ranger de madeira, seguido do relinchar cansado de um cavalo se vez ouvir, estava chegando a hora afinal.

_Ouça: Aoshi acaba de chegar.

E era verdade. Instintivamente, quase um impulso mecânico, Kenshin levou o polegar até o cabo da sakabatou. Não confiava naquelas pessoas, portanto qualquer precaução se tornava uma atitude vital.

Aoshi e Saitou, Saitou e Aoshi...Quem seria melhor? Quem seria pior? Difícil saber, portanto o mais adequado era mesmo se manter em guarda e alerta, sempre.

_Vamos. _Saitou apenas disse, uma série de situações e aventuras implícitas, naquela simples palavra despretenciosa.

_Estou aqui. _Kenshin consentiu.

Uma pesada corrente então foi trançada entre os tornozelos de Battousai, e seus pulsos atrelados a outro homem magro, aparentemente tísico, e com pelo menos vinte anos há mais que Himura.

Aoshi ia na boléia, com a corrente prendendo-lhe o pescoço, tal fosse um criminoso condenado a morte e á caminho da execução.

Antes fosse. Impossível não pensar, seria muito mais fácil, rápido, e limpo.

Então Kenshin a viu, era mesmo a pirata Shura quem conduzia a carroça, pelo menos Saitou fora honrado e não mentira para conseguir a atenção do espadachim. Um pequeno alívio, que permitia-no experimentar o mínimo de consolo.

Todavia mesmo que ferrenhamente tentasse se concentrar naquela missão, tudo parecia subitamente enevoado, e sem cessar por um instante sequer seus pensamentos se voltaram para casa, para o dojo, para seus amigos, para sua mulher.

Kaoru...

_Hei? Ô de casa? _Há pelo menos cinco minutos Sano e Yahiko se esguelavam na porta do dojo.

_Já disse Sano, vamos dar o fora daqui, Kenshin e Kaoru estão em lua de mel...Começo a ficar seriamente constrangido.

_Acontece Yahiko, que eu estou morrendo de fome...E quando saí hoje a tarde, não vi o Kenshin por aí, só a "jô chan" que parecia estar dormindo há um tempão. _Sagara comentou mal humorado para um impaciente Yahiko. _E de mais a mais, á essa hora o Akabeko já fechou, e estou com meu estômago pregado nas costas.

_Aaah!

_Sabe duma? Eu já, já dou um jeito nisso. _Usando da sua altura vantajosa, e do corpo elegante, Sanosuke tomou um impulso no ombro de Yahiko, e pulou por sobre a murada do dojo.

E tudo estava tão quieto, silencioso...Passava muito da meia noite, claro que isso contribuía para o cenário de tranqüilidade...No entanto os instintos atabalhoados de Sanosuke, faziam-no pressentir algo de errado.

_Hei, Kenshin? Kaoru, Misao? Tem alguém em casa?_Perguntou enquanto avançava pelo pátio amplo, e em seguida cruzava o vestíbulo principal.

Nada, ou quase nada.

Então como se despertasse de um sono de décadas, ou munida apenas de uma vela cruzasse um túnel profundamente escuro, Kaoru começou á despertar.

Os olhos azuis piscaram, e a primeira coisa que pôde identificar foi um corpo deitado ao seu lado, mas para sua tristeza era um corpo feminino e não o de Kenshin.

_Misao? _Sussurrou, e assim apoiando-se como podia, ela se levantou e completamente zonza passou a andar pela casa.

Tudo parecia tão estranho, psicodélico, distinto...E há apenas alguns passos dali um homem vigiava suas atitudes com atenção.

_É mais forte que imaginava, este sonífero devia agir por pelo menos doze horas.

_Sonífero? Não entendo...E a propósito, Seijuro San, é você?

_Himura pediu-me que ficasse aqui até que melhorasse.

_Kenshin? E onde ele está? Não o vejo em lugar algum...

_Verdade? _O ar irônico de Hiko Seijuro, denotava o sentido implícito de sua indagação.

_Kaoru?_Sanosuke insistiu, mas não obteve resposta. Uma onda de calafrios percorreu a espinha da jovem, e bela Shinandai.

_Onde está Kenshin? Vamos me diga, e o que aconteceu com Misao? Okina?

_Tente você mesma descobrir. _Seijuro se levantou, e naquele minuto mais do que nunca pareceu um gigante ao olhar de Kaoru, tão assustada e arredia. _Ele pediu que lhe entregasse isto. Leia, talvez esclareça todas suas dúvidas .

_Dê-me aqui.

Os olhos azuis, com grandes cílios então pousaram sobre um delicado papel vegetal, com letra bem talhada e escrita em nanquin...

"Kaoru Dono,

Hoje a tarde, quando este servo lhe contou sobre o rouxinol do Imperador, não se tratou apenas dum mero acaso. A narração era parte de um artifício, um plano, para que entendesse a verdadeira natureza de Battousai Himura.

Logo aos nos conhecermos, eu havia-na alertado para o fato de que era um andarilho, e que passaria apenas algum tempo em sua companhia...Pois bem, este período chegou ao fim, e sinceramente lamento que tenha de ser desta maneira. Jamais pretendi faze-la infeliz, todavia nosso casamento foi o último elo, o elo que quis deixar de uma vida do qual eu pudera ao menos vislumbrar, como seria se me tornasse pacífico e pleno.

No entanto, não posso negar, ao observar aquela ave pressenti que nada poderia mais me prender aos laços, que me faziam permanecer no dojo, junto dos amigos, junto de você...Ou estaria ferindo minha própria natureza, e mentindo pra mim mesmo, e acima de tudo sobre o que fui, ou sou.

Não peço que lamente por este servo, ou muito menos que o perdoe, todavia gostaria que o entendesse: sou um Rurouni...Rurouni Kenshin.



Seja feliz... Sayonara, Kaoru Dono.

Himura, Kenshin."

_Kenshin!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Porquê de dentro da carroça Battousai experimentou um breve momento de arrepio, e a nítida impressão de ter ouvido Kaoru chamar por seu nome? Certamente estava muito impressionado... Certamente era solidão, certamente era saudade...

Kaoru.

CONTINUA...

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"Qualquer semelhança terá sido mera coincidência"

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A RETALHADORA

ESTRELANDO

Himura Kenshin Gal. Yamagata Makimachi Misao
Kamya Kaoru Shinomori Aoshi Sagara Sanosuke
Hajime Saitou Seijuro Hiko Miojin Yahiko

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