Série (II) - O Dia Seguinte



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_Aaaaaaaaah!!! Não me levem, não me levem por favor, eu...Eu sou a única coisa que lhes resta! Vejam! _O homem magro apontou para três crianças famintas, das quais a mais velha era nitidamente cega.

_Usuki!!!

Os gritos de desespero podiam ser ouvidos no meio da noite, enquanto quatro patrulheiros de cada lado da rua, vasculhavam com uma lista um a um os nomes selecionados para o embarque.

Uma carroça cheia de lavradores já se encontrava ao fim da alameda, mas ali daquela vila, esperava-se que pelo menos três carregamentos partissem abarrotados para Yokohama, e completasse o balanço quantitativo da força de trabalho, necessária para a contratação nas fazendas havaianas.

_Kira, cuide bem das crianças, sim?...Papai confiaria em você!

_Usuki!!!

Com um violento golpe contra os lábios, simetricamente estudado pelo homem de uniforme azul escuro, a jovem cega caiu ao chão perdendo os sentidos...Enquanto Usuki deixava atrás de si um rastro de lágrimas, e dor...

Rurouni Kenshin

O Dia Seguinte

_Kenshin? _Kaoru perguntou sonolenta.

_Aqui. _Ele respondeu num suspiro, enquanto com o braço esquerdo apoiado embaixo da nuca, simplesmente fitava a lanterna de papel presa ao teto, que delicadamente balançava com a brisa noturna.

_Eu, eu estava sonhando, sonhando que tudo não tinha passado de outra mera ilusão, e que na verdade você havia ido embora...Pra sempre. _Ela remexeu no peito dele ainda despida, apenas enrolada nos lençóis.

_Relaxe, durma, precisa descansar. Ainda é tarde, faltam pelo menos três horas para o amanhecer.

_Perdi o sono, não quero fechar meus olhos e ter sonhos ruins novamente, prefiro ficar assim, conversando se não se importa.

_Está bem.

_Por-porquê parece tão evasivo, distante?

_Sou assim mesmo.Sei que talvez não tenha percebido de maneira mais acentuada, esta nuance sombria que sempre trago comigo, porque de fato não havíamos compartilhado uma maior intimidade...E eu, eu tentei disfarçar o quanto pude, acredite. Mas lamento Kaoru Dono, este servo é arredio demais, mesmo nos momentos em que está mais satisfeito, como agora...

Disse isso se levantando, sem nem ao menos se preocupar em enrolar o corpo, permitindo que o reflexo da lua, que penetrava pela divisória aumentasse a esguia silhueta despida pelo teto. Um braço estava apoiado contra a parede, enquanto o rosto inexpressivo permanecia coberto pela franja ruiva longa. Mas o seu olhar era atento, completamente fixo na sakabatou, sua sakabatou estranhamente solitária, e esquecida num canto qualquer de seu quarto.

Aquela espada era como um prolongamento de si mesmo, um órgão vital, que não podia ser substituído sem causar maiores danos. No entanto, parecia tão adequada ali, longe dele naquele instante, que Battousai rezou para que tal segundo fosse perpetuado por toda eternidade.

_Kenshin, eu, eu preciso saber...Está arrependido?

_De maneira alguma. _Respondeu direto sem ainda se virar, mas já vestindo o gi._ Quis estar com você desde o primeiro dia em que a vi.De início me condenei severamente, sou bem mais velho que você Kaoru...E meu passado, meu passado me fazia acreditar que apesar de meus sentimentos serem sinceros , e profundos; merecesse coisa muito melhor do que este servo, para dividir uma vida conjugal.

Então não há com que se preocupar, estou sendo honesto.

_Por acaso o decepcionei?

Neste momento Himura se permitiu um vago sorriso, um muito doce sorriso, que lhe era tão particular. _Você me fez o homem mais pleno deste mundo. Juro.

Kaoru fez menção de se levantar da cama, mas Kenshin se aproximou fazendo-a recuar, levando-a delicadamente a repousar a cabeça sobre o travesseiro de rolo. _Então me diga qual a razão de estar assim, tão estranho?...

_Você é na intimidade bem mais bonita do que imaginei... _Desconversou, tomando a mão esquerda com o anel de pedra azul no dedo, exatamente igual ao que um dia ele encontrara dentro do peixe, e que fora pivô da possível maior decepção de sua esposa até então. _Fique tranqüila, é apenas bobagem.

_Kenshin... _Ela suplicou.

_Shhh...Agora se cubra, está frio, e não quero que apanhe um resfriado, sim?...Talvez fosse melhor se vestir. _Ele insinuou com um ar estranhamente paternal, diferente do que há menos de duas horas a fizera desvanecer, e novamente renascer.

_Não vem deitar?

_Daqui a pouco, lembrei que não tranquei direito as janelas do dojo...E não vai querer, que o salão de treinamentos amanheça cheio de gatos da rua, não é?

_Tem razão, _ela bocejou, e virando-se para o lado onde ainda persistia a marca do corpo de Himura, voltou a dormir.

Quisera isso ser mesmo verdade, Kaoru Dono. Battousai pensou enquanto se afastava do quarto.

Em menos de meia hora, Kenshin já se encontrava junto aos portões da mansão utilizada pelo ministro Yamagata.

_Quem é você, estranho? Identifique-se, por favor!_Um guarda grotesco, e de elevadíssima estatura bradou, com uma voz que mais se assemelhava á um rugido de leão.

_Himura, Kenshin Himura...E preciso ver o ministro imediatamente.

_Por acaso não sabe contar? Faz idéia de que horas são? Volte amanhã cedo, como todos os outros mortos de fome que formam fila aqui na frente.

_É de suma importância que o veja agora, trata-se de um assunto de vida ou morte.

_Ora seu...

Logo se via que aquele subalterno desavisado certamente tratava-se de um novato, afinal Yamagata, o grato e fiel Yamagata estava sempre disponível para as audiências com Kenshin.

_Senhor, não compreende que está me deixando numa situação delicada? Não quero usar de violência, deixe esse servo passar, sim?...

_Violência, haaha, não me faça rir.

_É melhor se afastar, eu estou avisando.

_Quem pensa que é, seu fracote? Eu me chamo Sanamura Shoji, discípulo do grande Sensei Sanamura Izyu de Osaka, mestre do estilo kami ryu sen, e eu vou te matar! Aaaah! _Com habilidade a afiada espada japonesa foi sacada da bainha, numa posição de ataque lateral, que certamente deveria desprender grande velocidade dado impulso que era tomado no chão.

Ele é mesmo rápido, e qualquer contra-ataque que eu faça na direção oposta na tentativa de neutraliza-lo, será percebido; pois certamente este golpe impede que movimentos horizontais sejam projetados...Então...

_Você não me deixa escolha, golpe ryutsui sen, estilo hiten mitsurugi!!!

Com um salto praticamente imperceptível a olhos humanos, Kenshin Himura, o Battousai saltou por cima do guarda militar, tomando impulso contra a parede de pedra talhada. Numa acrobacia tão perfeita que não mais de três fragmentos de argamassa se desprenderam da murada. Com um giro em volta do próprio corpo, que fez com que suas roupas fluídas e preparadas para luta, servissem como asas improvisadas, seus cabelos arrepiaram-se no ar, então Himura derrubou o gigante no chão, tal um Davi contra um desavisado e descrente Golias.

_O que diabos está acontecendo por aqui? _Um homem elegante de meia idade gritou visivelmente irritado, enquanto num único esforço, abriu o par de venezianas italianas duma vez.

_Desculpe pelo barulho, senhor. Não queria causar qualquer tipo de incomodo, apenas gostaria de trocar uma ou duas palavras, se não se importa.

_Himura? Já devia ter imaginado. _Ele sorriu enquanto apagava as luzes dos próprios aposentos, e em pessoa fora receptar o espadachim no portão.

Com uma única gota de suor a escorrer pela face, Kenshin se prontificou a reerguer o homem de uniforme atordoado no chão. _Lamento, apenas precisava esclarecer algumas coisas com o ministro Yamagata. Não queria ter causado tamanho transtorno.

_Eu estou vivo, estou vivo! O que foi que me acertou?

Kenshin relanceou um olhar subitamente pacífico. _Minha espada não mata as pessoas, senhor, serve apenas para defesa.

_É verdade, Kenshin optou por abandonar a antiga alcunha de Battousai O Retalhador, e levar uma vida calma. Fosse no passado, Sanamura Shoji, certamente você estaria morto a esta hora.

Agora entre Himura, preciso mesmo falar com você.

_Obrigado.

Houvesse ele optado em aliar-se ao governo, por certo estaria morando naquele momento, numa das inúmeras mansões em estilo ocidental, que nos últimos cinco anos vinham-se multiplicando a passos largos em toda Kyoto, Edo, Shimabara, e Osaka.

Mas decepcionado com os rumos que o Estado, que ele mesmo ás custas de muito sangue e mortes ajudara a fundar, preferira se reservar num mundo onde ainda as pessoas acreditavam em solidariedade. Sem dinheiro na maioria das vezes e dependendo da bondade alheia, ainda assim ele era feliz, ou pelo menos tentava ser. Se tivesse se corrompido e aceitado um posto militar, ou mesmo de influência política teria resvalado numa mentira ainda maior, do que a da causa, que há mais de quinze anos se dedicara com fervor.

Todavia, por mais que tentasse se afastar dos guizos, ganchos, tentáculos, laços que o prendiam como uma teia ao seu passado sangrento, era como se isto fosse realmente impossível de ser alcançado.

Talvez Jin-e tivesse razão, talvez suas mãos jamais abandonassem a espada, e aquele Karma fosse o pagamento pelo sofrimento desmedido que infringira contra dezenas, centenas, milhares de pessoas durante os conflitos no final da Era Tokugawa.

_Gostaria de ter ido ao seu casamento esta noite, Battousai, mas pensei melhor...E achei que não seria apropriado, dadas as exigências das circunstâncias atuais. Mesmo assim: aceite minhas felicitações e prosperidade.

_Este servo agradece em nome da sra. Himura, senhor.

Educadamente como sempre, ele respondeu num sutil menear de cabeça. Kenshin era um mistério, apesar de ser um homem com origens extremamente humildes, trazia dentro de si uma elegância, uma polidez que somente os mais elevados samurais do shogunato durante a Era áurea eram capazes de deter. Muitas vezes sua sutileza chegava a ser constrangedora, talvez ele fosse menos ameaçador e perigoso, se transparecesse atitudes rudes e grotescas típicas de um lutador sanguinário...Ao invés de sua doçura tantálica, e fascinante.

Esta era a pura e simples análise de Yamagata. Yamagata que realmente o admirava.

_Sente-se. _O ministro apontou uma cadeira violeta de espaldar alto, enquanto acendia um candelabro de louça.

_Gostaria de saber senhor, porque somente ontem tomei conhecimento sobre o que estaria acontecendo em Hokkaido, e mais: a razão pelo qual o mensageiro de tamanho problema fora o Aoshi Sama , okashira do Oniwabanshu, ao invés do senhor ou o chefe da polícia?

_Como já lhe disse, não gostaria de lhe causar inconveniências na véspera de seu casamento. Pelo que lembro Kenshin, jamais levei qualquer notícia agradável ao dojo de sua esposa. Seria no mínimo estarrecedor para ela, há de concordar, se também fosse importuna-los nesta noite.

Pode não parecer Himura, mas o admiro, admiro, e respeito. Ou seja, basicamente este é o motivo deu ter declinado em ser o legítimo portador dos fatos; o que me leva a responder a sua primeira pergunta...O sr. Shinomori presenciou o embarque ilegal dos escravos, com destino ao Havaí, juntamente ao espião Okina. Estavam de posse de informações confidenciais, que apenas o idoso de Ayoia era capaz de transcodificar.

_Najima Watsuki? Ela, ela conhecia Okina?

_Sim, parece que tiveram algum tipo de relacionamento afetivo no passado.

_Agora começo a entender.

_A situação é mesmo delicada, neste momento em que o Japão começa a se abrir para o ocidente, não posso simplesmente enviar uma milícia de investigação oficial, e deter o tráfico humano sem provas concretas. Isto abalaria nossa delicada estrutura diplomática, enquanto despertaria ira nas nações poderosas da Europa, e América.Sei que talvez seja um assunto um tanto complexo pra você entender, mas não é uma coisa que eu poderia demandar abertamente, compreende?

_Não é importante para este servo o entendimento. Ele apenas se interessa em saber como, e onde, deverá usar sua espada.

_Simplório como sempre. _Uma voz emergiu da escuridão, não antes de um fiapo de fumaça enevoar a moderna biblioteca recheada de títulos da literatura universal, mapas, e artefatos artísticos. _Parabéns Battousai, ou devo dizer sr. Himura?

_Saitou?

Kenshin olhou por sobre o ombro, mesmo depois das tréguas forçadas que haviam sido obrigados a aceitar, para Battousai ele sempre seria o Lobo de Mibu o terceiro capitão da ShinsenGumi, e suas tiradas sujas e cínicas jamais seriam meramente aceitas sem amargor.

_Senhor, o que ele faz aqui?

_Pensei que Shinomori havia-no alertado, que a missão será levada adiante por três homens: Hajime Saitou, Shinomori Aoshi e você Himura.

_Sim, ele, ele havia me avisado. No entanto, não esperava encontra-lo assim tão cedo.

_Tive que antecipar meus planos, não vai ser fácil Battousai, vou leva-lo e ao Aoshi como se fossem prisioneiros, e para tanto fui obrigado a mexer meus pauzinhos e entrar naquele navio como um oficial do governo...

_Percebo agora. _Kenshin virou-se novamente para o ministro. _Senhor, tenho mais uma pergunta.

_Pode falar.

_Porque não chamar Sagara Sanosuke? Ele é um forte lutador, que aperfeiçoou bastante sua técnica no futai no kiwami durante a guerra de Edo, seria de bastante ajuda eu garanto.

_Ahou, aquele esquentadinho?

_Saitou tem razão, Himura, preciso de discrição para este caso em particular. E ainda que Sagara seja um grande lutador com punhos, sutileza não é seu forte, e para desbaratar a rede suja que está por trás disso tudo, sou obrigado a optar por selecionar os três melhores homens do Japão, que certamente sabe quem são.

_O plano é o seguinte, você e Aoshi chegarão ao porto de Yokohama por volta das nove horas, e os colocarei dentro de um carroção. Farão troca com dois outros homens, que já estão avisados de toda a nossa estratégia.

Uma vez dentro do navio não deverão trocar informações, ou qualquer tipo de comunicação suspeita , terão outra pessoa para fazerem isso por vocês quando necessário.

_Não se preocupe, Kenshin. É uma pessoa amiga. _Yamagata fizera questão de frisar.

_E eu conheço?

_Certamente, é a antiga pirata Shura. Ela se prontificou em nos ajudar, em troca de que déssemos a ela um navio oficial para comandar. Será a responsável em me alertar, caso qualquer coisa venha a dar errado.

_E quanto a minha sakabatou? Poderão desconfiar, não será estranho?

_Ela ficará guardada num lugar de fácil acesso, que pedirei a Shura para avisar em caso de luta. Quando chegar ao Havaí, será enterrada neste cemitério. _Saitou apontou para um "x" marcado atrás de uma cova com simbologia cristã, muito bem especificado num mapa de couro, com ideogramas japoneses escritos em preto.

Lá também estará a wakizashi de Shinomori, que eu mesmo ficarei encarregado de esconder.

_Somente Hajime Saitou terá direito ao uso de armas, dada a posição que ele ocupa na polícia.

_Temo que Aoshi não aceite tais condições.

_Engano seu Battousai, foi ele mesmo quem planejou tudo isso.

Kenshin amargou um olhar sinistro para Saitou, que apenas dardejou um sorriso ladino, extremamente crítico, e sensual.

_Senhor, _Kenshin se adiantou levantando-se da cadeira com o dedo sobre a bainha, _ este servo pede agora licença para se retirar, o assunto que o trouxe até aqui parece enfim encerrado.

_Pode ir, e mais uma vez lamento por tudo...Mas não podia pedir algo tão crucial á mais ninguém, Himura.

_Está bem.

Kenshin já havia dado as costas, e colocado o pé direito para fora da imensa e elegante biblioteca, quando Saitou lançou seu último dardo ácido. _Espero que tenha se divertido muito nesta noite, Battousai, e que ao menos tenha sido capaz de deixar boas lembranças para sua esposa...Afinal a pobrezinha está fadada, a dentre em breve se tornar uma belíssima, e jovem viúva.

Saitou, ele pensou, e com um mínimo girar de pescoço por sobre a omoplata direita sussurrou: _Hajime Saitou, eu juro, caso escape vivo desta nós teremos nosso duelo...E da próxima vez será uma luta de morte, sem qualquer tipo de interrupção! É a minha palavra.

_Estou esperando esta revanche há 13 anos, Battousai.

_Sayonara.

Sobre a ponte que ligava a tranqüila periferia de Tókio, ao centro nervoso e comercial da cidade, os primeiros raios de sol de uma alvorada lilás, reluziam sobre a gi de Kenshin, enquanto a manhã despontava bonita e gelada. Com um sutil resquício de brisa noturna, que amante do dia, relutava em abandonar o seu sopro.

Ele também queria assim ser um amante, e nos braços de sua adorada descansar, e em matizes delicadas se desfazer até seu último suspiro na velhice.

Primeiro Tomoe, e agora Kaoru Dono...

Como era poético ver o nascer do Sol de frente, enorme, viril, imponente a abandonar a lua cálida, doce, misteriosa, e gentil.

Exatamente como sua Kamya Kaoru, e ele ? O sol enfunado numa bandeira branca.

Seus olhos podiam enfim identificar o dojo, e naquele instante Kenshin apenas ansiava ser um homem normal e ter lágrimas para chorar. Todavia esta dádiva tão singela e natural, havia sido expurgada de sua existência na mais tenra infância. E o espadachim andarilho, apenas experimentava a amargura de seu peso na alma, e córneas, mas jamais permitiria que escorressem por seu belo rosto gentil.

Então quando cruzou o jardim florido, repleto de restos, restos de comida, restos de enfeites, restos de flores, restos de anseios, restos de desejos, restos de amizades, restos de esperanças, restos de seu amor, amor único e intenso, restos, restos e restos...Battousai sentiu como o prenuncio ao que viria, e tudo fora tão rápido, efêmero como um abraço de adeus e pirilampos encantados.

_Kaoru? _Ele chamou enquanto puxava a porta de correr.

Não faça isso comigo, não me faça deseja-la, não me faça tê-la...Não me faça abandonar minha honra, e aqui neste quarto ficar para sempre...

Fora uma súplica sincera, porque por Deus, ela ainda se encontrava do mesmo modo que havia-na deixado três horas atrás. Como se os minutos houvessem sido congelados, e Kaoru apenas existisse ali para recebe-lo.

_Kenshin, é você? _Ela respondeu para alívio total e completo do espadachim, para sossego absoluto de sua palavra, ou teria sido capaz de largar tudo...Contar-lhe tudo, e quem sabe fugirem, e se refugiarem na Coréia?

_Vim trazer-lhe o desjejum matinal, veja. _Sorriu gentil daquele modo quando fecha os olhos, e levemente franze as bochechas, _trouxe bolinhos doce, chá, e tofú.

_Ai, estou mesmo com fome. _Ela aceitou alegre, enquanto gentil e até mesmo tímido Kenshin virou-se para o lado oposto, permitindo que sua esposa então se vestisse mais á vontade. Atitude esta que para qualquer outro homem que acabara de se casar, pareceria dispensável, mas que para ele sempre solícito, dócil e de costumes pudicos, seria decididamente vital._Porque demorou? Já é manhã alta.

_Quando voltei para o quarto, estava tão tranqüila, profundamente adormecida que preferi não incomodá-la. Resolvi então pescar, mas o rio não colaborou muito. Perdi a noção do tempo, só isso.

_Verdade?

_Verdade. Á propósito tive uma idéia genial, sabia?

_E o que seria? _Kaoru perguntou de boca cheia, e ele ficou feliz ao vê-la tão natural.

_Quero que coloque seu kimono azul florido, e vamos fazer um pic-nic hoje á tarde. Vou preparar um chá que certa vez aprendi em Edo, prometo, será um momento inesquecível. _O meu adeus definitivo, fora impossível não pensar.

_Então acho que vou levar Ayume e Suzumi.

_Não. _A negativa soara estranhamente ríspida. _Este dia é nosso, somente nosso.

_Claro. Vou arrumar nossas coisas.

Saltitante, e terrivelmente elétrica Kaoru se afastou do quarto, enquanto num suspiro prolongado Kenshin se pôs a arrumar a bagunça de lençóis, tatames, e velas.

_Ai, ai, ai minhas costas!

_Quieto Kenshin, deixe-me dar uma olhada nisto aqui, sim?...Ah, não venho nestas montanhas desde criança, quanta saudade?Eu e meu pai costumávamos passar dias inteiros, bem ali debaixo daquela árvore. _Kaoru apontou eufórica, enquanto com o cabelo a esvoaçar com sua constante fita azul, correu sorridente para a idosa cerejeira, onde em ideogramas antigos ela pôde identificar o próprio nome talhado á lâmina de espada. _Oh, os musgos não taparam meu nome ainda :Kamya Kaoru. _Repetiu com prazer._Podemos escrever os nossos hoje também, não é? Kenshin e Kaoru para sempre!

_Isto é, se eu conseguir chegar vivo até aí... _Battousai resmungou esbaforido, enquanto tentava sugar um pouco mais de ar para os pulmões. _Pôxa Kaoru Dono, este servo acredita que se fazia desnecessário trazer tanta coisa para um mero pic-nic. _Mais dois passos e ele chegou a cerejeira, logo em seguida estendendo-se no chão com merecido prazer. _Ufa, como a grama é verde. Realmente um lugar muito bonito.

_Ai, não lembro de me sentir tão feliz assim há muito, muito tempo. _Ela se entregou a um braço delicado, que Himura recebeu prontamente.

_Tá, tá, tá...Agora vamos comer, estou morto de fome.

_Mas ainda nem praticamos Kenjutsu!Estive pensando em aprender algumas técnicas do hiten com você, e adaptá-las ao estilo Kashin, o que acha? _Bem ele não teve tempo de responder. _Certo que você é relutante em passar qualquer tipo de ensinamento adiante, mas de tanto observa-lo, creio que já andei aprendendo alguns golpes veja...

Kia, doryu sen...ryutsui sen, ryutsui sen zan. E aí me diga, como saí?

Ela era realmente muito talentosa, para o Shinai é claro, e as técnicas Kashin.

_Um desastre... _Ele explodiu numa risada gostosa.

_Como pode dizer isto, eu, eu fiz o máximo de mim, e além do mais não estou vestida para, para...

_Kaoru, não vamos brigar, sim? Mas... _De repente Kenshin se sentiu leve ao ponto até de brincar... _Se Sensei Hiko a visse nas posições do hiten morreria de um ataque cardíaco!Ainda bem que não quis me mostrar o kuzuryu sen...E a amakakeu ryu no hiramake!

_Ora seu!

_Oro!

E por uns cinco minutos seguidos eles correram em círculos em volta da cerejeira talhada.

_Está certo, está certo você venceu Kenshin...Por enquanto.

_Kaoru.

Precisava dizer mais?

O peixe estava bom, os doces estavam bons, os bolinhos de arroz deliciosos e o dia não podia estar mais bonito. Todavia, conforme os instantes iam passando, a euforia primordial de Kenshin naquele lugar mágico também ia se esvaindo, como pequenas cascatas de areia num deserto, meio a tempestade premente.

E o Himura polissilábico de horas atrás, aos poucos cedia espaço para um Kenshin monossilábico, e quem sabe totalmente silencioso em poucos minutos?

Kaoru estava deitada em seu colo, apenas ouvindo a respiração, e estranhamente ela também havia se abandonado á reclusão do momento...Como que instintivamente soubesse que algo estava errado, mas que era melhor não comentar, porque talvez a simples menção ao fato o pudesse aproximar ainda mais.

_Kenshin...

_Shh, espere...Ouça, _era uma doce ordem com aquela voz de comando melodiosa, gentil, e ainda assim terrivelmente atraente, _um rouxinol. Estranho, eles raramente cantam nesta época do ano.

_É verdade, e oh, Kenshin ele está vindo até nós.

_Os supersticiosos diriam que se trata de um bom agouro. _Ao término da frase sussurrada, que ele piamente ansiava que trouxesse ao menos uma gota de verdade, o pequeno pássaro pousou numa das mãos de Kaoru.

_Que emoção, é tão delicado, tão frágil...Mas ao mesmo tempo parece extremamente digno.

_Exatamente como você. _Pausa e sorriso cálido. _Por acaso conhece a lenda, do rouxinol do Imperador?

_Ouvi-na uma vez quando pequena, todavia não me lembro inteiramente dos fatos.

_Quer que eu te conte, enquanto lhe sirvo um pouco de chá? _A simples menção daquela realidade, de repente fez com que um trago amargo se alojasse na garganta do espadachim, _O que eu disse ter aprendido em Edo, quando rapaz?

_Adoraria. _Kaoru permanecia fascinada a fitar o pássaro canoro.

_Então está bem. _Ele disse se levantando e caminhando até a cesta, onde numa pequena jarra de louça trazia um preparado, um fino preparado de ervas exóticas, saquê, e um misterioso pó, que delicadamente ele tirara de dentro da larga manga esquerda sem que ela percebesse. Passou portanto a mexer ritualisticamente , como uma cerimônia do chá inversa executada pelas gueixas, e que quando jovem nos bordéis onde geralmente ocorriam os encontros Ishin Shishi , ele pôde inúmeras vezes observar com nítida atenção.

_Você é tão prendado, tem maneiras finas...

_Tome, beba...Vai sentir um pouco de sono, mas irá gostar, enquanto isso eu lhe conto a lenda, que tal?

_Maravilhoso, acorde-me se estiver sonhando, sim?

_Tudo bem. _Ele riu, e começou: "Era uma vez há muito, muito tempo, bem antes da era Tokugawa...Quando o Japão vivia em paz, e ficara conhecido com uma terra lendária, onde a população isolada do mundo vivia feliz com suas antigas tradições.

_Nossa que bonito, e, e este chá é realmente bom.

Existiu naquela época, um Imperador...Um homem poderoso que dominava a Coréia, Okinawa, e também um pedaço da China.

E ainda, que todos em seu reino estivessem satisfeitos...Este potente monarca permanecia extremamente evasivo e solitário. Era um velhinho muito doente, e que misteriosamente, mesmo que os médicos da corte tentassem em vão aplica-lo todos tipos de medicamentos conhecidos e preparados, nada disso surtia qualquer sinal de melhora em sua saúde delicada..

Todavia o povo o amava muito, e de maneira alguma aceitava a possibilidade duma morte eminente.

Havia ainda neste reino um espadachim, um espadachim plebeu, que ansiava acima de tudo a mão da bela princesa, filha do Imperador. O nome dele era Kenji Katshuki.

_Kenji? _Ela repetiu. Aquele nome aos ouvidos de Kaoru soara inesperadamente familiar, tão doce, tão semelhante ao de Kenshin...Porque seria?

Um dia , numa manhã tão bonita como a de hoje...Um misterioso pássaro se alojou junto á janela do Imperador, e seu cantar era tão mágico, tão suave, que o Imperador subitamente levantou-se da cama e se pôs a dançar.

E assim secretamente ele dançou durante toda a primavera e o verão.

Todavia com a inevitável chegada do inverno, o bondoso monarca caiu repentinamente de cama, e mais uma vez os médicos não sabiam o que fazer com ele; então num dos poucos momentos de lucidez ele disse: minha filha,consiga o guerreiro mais corajoso de todo o Império, e traga-o até a mim.

Continua...

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