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Reino de Deus na Terra

 

 


Em seu livro, "Who Wrote the New Testament? The Making of the Christian Myth", o prof. Burton L. Mack afirma que qualquer esforço intelectual no sentido de descobrir o "Jesus Histórico" é uma tarefa inglória, senão impossível. Isso porque as "memórias" que dele restaram são dispersas, impregnadas de características mitológicas e resultantes de diversos movimentos que se formaram em torno de seu nome.

Assim, a única maneira de inferir que tipo de mestre ele foi, é estudar os ensinamentos que foram desenvolvidos e propagados por esses movimentos, tendo consciência de que tais ensinamentos não reproduzem, necessariamente, palavras e idéias ditas e sustentadas por Jesus, mas o entendimento que esses movimentos extraíram daquilo que se dizia serem dele originárias.
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Jesus - diz Mack - tinha alguma intelectualidade, porque os ensinamentos dos movimentos derivados dele são carregados de idéias e pontos de vista penetrantes. Mas ele não criou um programa social para os outros seguirem ou uma religião para que seus seguidores o venerassem como um Deus.
A rigor, sua pregação consistiu numa coleção de aforismos sentenciosos, que atingiram o coração das questões éticas.

Uma análise profunda desses aforismos revela a interveniência de vários temas, dos quais o principal deles é aquele relacionado ao "Reino de Deus".

Esse conceito, da maneira como foi usado, mostra alguma coisa de visão social nos ensinamentos de Jesus. Refere-se a uma sociedade ideal, imaginada como alternativa ao modo pelo qual o mundo estava vivendo sob o domínio de Roma.

É interessante notar que, de início, o Reino de Deus dos ensinamentos de Jesus não era uma projeção apocalíptica de um paraíso celeste ou de um desejo extra-mundo. Era uma proposta de criação de uma maneira melhor de viver. Essa proposta continha todos os ingredientes essenciais para atender as necessidades de sua época: crítica social, visão alternativa social, soberania divina e virtude pessoal.

Mas tudo isso foi mais sugerido do que explicitado. O gênio de Jesus consistiu em convidar as pessoas a refletirem sobre suas vidas e desenvolverem a centelha que ele havia aceso. E isto foi exatamente, o que aconteceu. As conversas sobre o Reino, baseadas nos ensinamentos de Jesus, atraíram cada vez mais pessoas.

É difícil precisar como esses grupos se formaram e como o movimento do Reino se espalhou de um lugar a outro. Tudo o que sabemos é que, quando os escritos sobre Jesus começaram a aparecer, conversas sobre o Reino resultaram na formação de diferentes formas de associação. E então nasceu uma nova religião.

Mack conclui que a estrada de Jesus até a religião Cristã, que finalmente emergiu no quarto século - com o mito do Filho de Deus solidamente colocado - foi um caminho longo e tortuoso que não reflete uma concepção imaculada, mas o produto de miríades de momentos de trabalho intelectual e negociação de acordos sociais.

 

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