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O Recrucificado

Alvaro Rodrigues
 

 


Cena do filme
"Paixão de Cristo"

 


Há pessoas que, ao passarem por esta vida, deixam uma marca indelével.
Jesus foi uma delas.
Sua vida, suas atitudes e a mensagem que pregou incomodaram muitos de seu tempo.
E continuam incomodando, passados mais de dois milênios.

Os incomodados de seu tempo foram os membros da elite teocrática judaica que, liderados pelos Sacerdotes e encastelados no Sanedrin (Sinédrio), mantinham uma cumplicidade subserviente para com o dominador romano, e temiam tudo quanto pudesse ameaçar a manutenção do status quo vigente, do qual eram beneficiários (alias, um comportamento típico de toda elite social, em qualquer tempo e em qualquer lugar).
 
Ainda que possamos (e devamos) guardar uma certa reserva para com a descrição evangélica, quando alude a "multidões" que ouviam e seguiam Jesus, parece que a agitação que ele causou foi suficiente para atrair a atenção e os receios dessa elite, tornando-a sua inimiga.

Por outro lado, a política aplicada pelos romanos na gestão de sua província judaica - em permanente estado de ebulição política - consistia em sufocar no nascedouro (geralmente com extrema brutalidade) qualquer movimento popular que se formasse em torno de um líder ou de um "messias" (surgiram vários, naquele tempo), no pressuposto de que esses movimentos, ainda quando de natureza religiosa, acabariam conduzindo, mais cedo ou mais tarde, à contestação do domínio estrangeiro.

A combinação desses dois componentes fornece a chave para se entender o cenário no qual Jesus viveu e onde acabou sendo sacrificado.

Os Evangelhos nos dizem que aqueles que o julgaram e o condenaram à morte, assacaram contra ele as mais infundadas acusações (às quais Jesus respondeu com o silêncio), com o evidente propósito de difamar sua conduta e denegrir sua imagem, diante do povo.

Mas ainda que tenham conseguido matá-lo, não conseguiram impedir a sobrevivência da obra que ele edificou em um espaço de tempo incrivelmente curto. Quanto aos seus algozes, se a posteridade preservou nomes como os de Caifás e Pilatos (candidatos naturais ao esquecimento), isso se deve, exclusivamente, à "carona" que ele tomaram na celebridade de sua vítima.

Jesus é venerado por mais de 2 bilhões de pessoas no mundo (dados do ano 2000); e se incluirmos aqueles que, embora sem venerá-lo, respeitam e admiram sua figura, esse número se torna bem mais agigantado. Mesmo quando o despimos da roupagem divina, ou semi-divina, com que os cristãos o cobriram, e o reduzimos à dimensão humana, ainda assim sua figura é maiúscula e, sob muitos aspectos, sublime, como o é a de outros homens especiais - ou "avatares", como são chamados em alguns meios místicos - como Sidharta Gautama, o Buda, e de tantos quanto, de passagem por esta vida, semearam uma obra inesquecível.

Iniciadas no século XVIII e intensificadas a partir do século XIX, as pesquisas científicas que buscam resgatar o "Jesus histórico", nem sempre são bem acolhidas. Ao contrário, elas costumam provocar o repúdio (e, por vezes, a ira) dos cristãos "fundamentalistas", para os quais o verdadeiro Jesus é o que está apresentado na Bíblia, cuja autenticidade não deve ser contestada, ainda que os Evangelhos se contradigam em muitos pontos.

Mas elas também não satisfazem aqueles que vivem à cata de alguma "descoberta" fantástica relacionada a Jesus, quase todos movidos pelo propósito de também "tomar uma carona" na notoriedade do crucificado.

Sobre Jesus, já se disse (e se escreveu) de tudo. Desde que era esposo ou amante de Madalena, guerrilheiro zelota que lutava para se tornar rei de Israel, taumaturgo itinerante que aprendera práticas mágicas na Índia, e até filho de uma prostituta com um grosseiro legionário romano, sendo que o elo comum entre essas "teorias" consiste na contestação da imagem tradicional do personagem e sua substituição por outra, preferentemente chocante.

É possível que a contínua e cumulativa pesquisa científica em torno do Jesus-histórico, descubra evidências que contrariem a tradição (aliás, isso já vem acontecendo), mas é pouco provável que ela venha a suscitar descobertas "fantásticas", que revolucionem a imagem que hoje temos do "homem de Nazareth", até porque a pesquisa histórica raramente conduz a esse tipo de resultado.

Dolosamente ou não,  produtores e propagadores de teses heterodoxas sobre Jesus se deixam guiar por motivações estranhas à da ciência histórica e, estimulados por um mercado editorial ávido por "novidades escandalosas", não relutam em engrossar a lista de seus detratores, que remonta ao século I.

Incomodados, como seus algozes de outrora, por tudo quanto ele passou a significar, seus algozes pósteros, não podendo matá-lo fisicamente, têm buscado assassinar a imagem que sua vida, suas atitudes e seus ensinamentos edificaram, substituindo-a por outra qualquer que, quase sempre, trai o indisfarçável propósito de denegri-la.

E nesse processo, Jesus acaba sendo crucificado, outra vez.
 

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