
Maquete do que teria sido o
Templo de Jerusalém, construído por Herodes
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Nos tempos antigos, havia vários santuários do judaísmo espalhados
pelo país e a prática religiosa estava muito mais próxima da vida
cotidiana do povo. Mas, no século 7 a.C., uma reforma violenta,
realizada de cima para baixo, modificou profundamente o formato do
culto judaico. Ela ocorreu durante o reinado de Josias, que se
estendeu de 640 a 609 a.C.
Sob o pretexto de depurar a religião das influências pagãs, herdadas
dos povos vizinhos, Josias destruiu os antigos santuários, queimou
seus objetos sagrados, massacrou seus sacerdotes e centralizou o
culto em Jerusalém.
Por trás de seu furor reformista, havia um inconfessável objetivo
político: centralizar o culto e obrigar o povo a acorrer a Jerusalém
nas datas estabelecidas era uma forma de unificar o país em torno da
casa real de Judá. A centralização do culto fortaleceu a casta
sacerdotal e enriqueceu seus integrantes mais ilustres.
A cobrança pelos sacrifícios
Com a desagregação da monarquia, esse alto clero assumiu o controle
da vida nacional. As bases econômicas de seu poder eram os
sacrifícios diários de animais (bois, carneiros, pombos) e a
cobrança de impostos realizados no Templo. Os animais a serem
sacrificados passavam por um rigoroso controle de qualidade, baseado
nas regras de pureza estabelecidas no livro do Levítico. Essa
"peneira fina" barrava os animais trazidos pelos fiéis, que, em seu
lugar, deviam comprar outros, vendidos nos pátios do Templo.
Coincidentemente, esses animais aptos eram criados pelas próprias
famílias sacerdotais ou por grandes proprietários com elas
relacionados.
Os preços flutuavam de acordo com a demanda. E disparavam na época
das festas religiosas. Um pombo, o animal mais barato, chegava a
custar então cem vezes o seu preço normal, sendo comercializado por
um denário (quantia equivalente ao salário pago por um dia de
trabalho).
Estudos recentes dão uma idéia da importância econômica dessas
transações. Eles informam que, numa única data da vida de Jesus, por
ocasião da Páscoa, foram imolados no Templo nada menos do que 250
mil cordeiros!
O comércio religioso
Os altos sacerdotes não lucravam apenas com a venda dos animais.
Tiravam proveito também da conversão do dinheiro utilizado no
pagamento. Pois as moedas correntes não podiam entrar no Templo. O
motivo alegado era que se tratava de dinheiro impuro. Mas a
verdadeira causa estava na corrosão de seu valor real devido à
inflação. Tanto é que as moedas comuns deviam ser trocadas pela
tetradracma tíria, cunhada na cidade de Tiro, na Fenícia, atual
Líbano.
Em matéria de pureza ritual, dificilmente poderia ser encontrado
algo menos adequado do que esse dinheiro estrangeiro, que trazia,
numa das faces, a imagem do deus pagão Melkart, protetor dos
tirenses, e, na outra, a águia de Júpiter, principal divindade dos
romanos. A diferença é que a tetradracma tíria era uma moeda forte,
que não sofreu qualquer desvalorização num período de 300 anos. Pela
troca do dinheiro, os cambistas, aliados dos sacerdotes, cobravam um
ágio de 8%.
Além dos sacrifícios de animais e do câmbio, a casta sacerdotal
locupletava-se ainda com a cobrança do dízimo. Todo judeu do sexo
masculino, com mais de 20 anos, era obrigado a pagar. E o Templo
possuía o cadastro de cerca de um milhão de contribuintes, dentro e
fora da Judéia. Não admira que judeus puritanos, como os essênios,
abominassem o sistema econômico-político-religioso estruturado em
torno do Templo.
Muitos deles eram ex-sacerdotes, que haviam renunciado à sua
proveitosa condição por razões de consciência. Quando Jesus virou as
mesas dos cambistas e expulsou os vendedores de animais do Templo,
ele se chocou de frente contra essa máquina poderosa. A resposta não
se fez esperar. Dias depois, o Sinédrio (o senado de Israel) o
condenou à morte.
A condenação
Controlado pelas duas famílias sacerdotais mais poderosas de Israel,
as de Anás e Caifás, o Sinédrio era o braço político do sistema de
poder estruturado em torno do Templo de Jerusalém. Não por acaso,
esse órgão se reunia nas dependências do Templo, na Sala da Pedra
Talhada. A ele cabiam todas as decisões de natureza legal ou ritual.
E sua autoridade se estendia às populações judaicas que viviam fora
da Palestina. Era composto por 70 membros, escolhidos entre os
homens mais ilustres da comunidade (saduceus, doutores da lei,
fariseus) e presidido pelo sumo sacerdote em exercício. Foi essa
instituição, de certo modo semelhante ao senado romano, que condenou
Jesus.
A ameaça Jesus
O Sinédrio não se respaldava numa longa tradição, pois sua
existência remontava apenas ao século 2 a.C. e encerrou-se em 66
d.C.. Também não desfrutava de sólida legitimidade política aos
olhos da população, devido a sua política de colaboração com os
romanos. Por isso, seus chefes se sentiram altamente ameaçados com
qualquer liderança que emergisse do povo e reunisse em torno de si
uma certa qualidade de adeptos. Alegavam que tais líderes poderiam
motivar desordens que atrairiam a feroz represália romana mas, na
verdade, consideravam tais homens uma potencial ameaça à manutenção
de seu poder e privilégios.
Uma dessas ameaças foi Jesus.
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