A
história de Maria nos evangelhos apócrifos, textos das origens do
cristianismo que não fizeram parte da Bíblia, nos traz novidades sobre
a vida dessa personagem tão cara e polêmica entre os cristãos. Os
principais textos e evangelhos apócrifos que falam sobre Maria são: O
nascimento de Maria: Proto-evangelho de Tiago; O nascimento de Maria:
Papiro Bodmer; Evangelho do Pseudo-Mateus; História de José, o
carpinteiro; Evangelho armenio da infância; Evangelho dos Hebreus;
Livro da infância do Salvador; Pistis Sophia; Aparição à Maria:
Fragmentos de textos coptas; Lamentação de Maria: Evangelho de
Gamaliel; Maria fala aos apóstolos: Evangelho de Bartolomeu; Trânsito
de Maria do Pseudo-Militão de Sardes; Livro do descanso; O evangelho
secreto da Virgem Maria.
A
leitura desses escritos apócrifos sobre Maria, a mãe de Jesus, é uma
viagem fascinante. Quem começa não quer parar.
Muitas curiosidades são sanadas ou deixadas em aberto diante das possíveis
"fantasias" relatadas. Muitas tradições religiosas em relação
à Maria, guardadas na memória popular e em dogmas de fé, têm suas
origens nos apócrifos, assim como: a palma e o véu de nossa Senhora;
as roupas que ela confeccionou para usar no dia de sua morte; sua assunção
ao céu; a consagração à Maria e de Maria; os títulos que Maria
recebeu na ladainha dedicada a ela; os nomes de seu pai e de sua mãe; a
visita que ela e Jesus receberam dos magos; o parto em uma manjedoura,
etc. A nossa devoção mariana é mais apócrifa que canônica.
A
virgindade de Maria é defendida pela quase totalidade dos apócrifos.
Segundo essa tradição, ela era virgem antes, durante e depois do
parto. Uma opinião apócrifa, para demonstrar sua total à idéia da
concepção virginal de Maria, chega a dizer que Maria concebeu pela
orelha. No entanto, havia também vozes discordantes, como a da
comunidade do Evangelho de Filipe que defendia o relacionamento marital
entre José e Maria, sendo que também o seu parto teria sido normal.
Ao falar da virgindade de Maria, a comunidade dos apócrifos tem intenção
mais apologética que histórica. A pureza de Maria é demonstrada pela
sua vida consagrada no templo de Jerusalém. Ela está sempre em contato
com o sagrado. Quando Jesus nasce, a virgindade de Maria é mantida. A
parteira Salomé ousou testar a sua virgindade colocando o seu dedo na
"natureza de Maria" e suas mãos pegaram fogo. Assim, o teste
corporal feito por Salomé comprovou a virgindade de Maria. Mais tarde,
quando a gravidez de Maria é denunciada aos sacerdotes, esses confirmam
a sua virgindade com outro teste comum entre os judeus, o da água
amarga (Nm 5,11-31). Maria não foi culpada de adultério pelos
sacerdotes. José tinha certeza que não teve nenhum relacionamento
sexual com ela, portanto, ela continuava virgem.
Quanto
aos outros filhos de José (4 homens e 2 mulheres), os apócrifos dizem
que eles eram do primeiro casamento. Logo, Maria não teve outros
filhos, permaneceu virgem até a morte. Os irmãos de Jesus eram irmãos
de criação. Nem é preciso recorrer à interpretação de Jerônimo (séc.IV
E.C.) que entendeu o substantivo irmão dos evangelhos canônicos como
primos, parentes. Além disso, José já tinha 93 anos, quando se casou
com Maria, uma jovem entre 14 e 15 anos.
Nos
diálogos que Maria tem com os apóstolos, anjos e Jesus, sempre vem
ressaltado a sua condição de virgem. As virgens são suas amigas no
templo. Um grupo delas é designado para o seu cuidado na casa de José.
Após a morte de Maria, são outras virgens, iguais a ela, que preparam
o seu corpo e seguem o cortejo. João, aquele que recebeu o encargo de
cuidar dela, levou a palma da virgindade de Maria, porque também se
manteve virgem. Por isso se oferece a palma à Maria nas coroações de
Nossa Senhora. Esses e tantos outros elementos nos mostram como as
comunidades discutiram a questão da virgindade de Maria, bem como
reafirmam as informações sobre esse tema conservadas nos evangelhos de
canônicos, oficiais. Por outro lado, defender a virgindade era também
sinal que o corpo não tinha valor. Esse desprezo pelo corpo e seus
prazeres não teve um desfecho feliz na história da humanidade cristã.
Os primeiros cristãos receberam influência do pensamento dualista que
pregava a separação entre alma e corpo, trevas e luz, vida e morte,
Deus e mundo. Assim, tudo o que se dizia pertencer ao mundo era
desprezado, pois o mundo era considerado uma armadilha dos poderes do
mal. Deus está longe do mundo e não tem muita influência sobre a vida
espiritual das pessoas. A cada ser humano restava o desafio e tornar-se
um espiritual de verdade, abstendo-se da vida sexual ou cair na desgraça
total, nos prazeres do corpo. Pensava-se que a alma, tendo sua morada no
céu, caiu no corpo. Um dia ela teria que retornar ai céu. Na viagem de
volta, encontraria o demônio, na figura de um cão e pronto para tomá-la.
A alma, então, tinha de ser sábia para enfrentá-los. A sua única
arma seria a pureza virginal que lhe garantiria a natureza divina. Os
evangelhos apócrifos do Trânsito e Descanso Maria revelam que Maria
teve medo de encontrar com satanás, quando saísse do seu corpo, por
isso, ela pediu a proteção dos apóstolos na custodia do seu corpo.
As
atitudes de Maria relatadas pelos apócrifos mostram a sua liderança
entre os primeiros cristãos, sobretudo os apóstolos. Ela tinha poder
de convocá-los para uma assembléia. Ela era a Senhora dos apóstolos.
Nos apócrifos não é Maria Madalena que vai ao túmulo de Jesus, mas
Maria, o que parece mais lógico. E nesse encontro, Jesus a encarregou
de anunciar aos apóstolos a sua ressurreição. No templo, Maria
despertava a admiração dos homens sacerdotes. Quiseram arrumar um
casamento para ela com um filho de um sacerdote, ma ela mesma rejeitou a
proposta. Maria é chamada nos apócrifos de a "Força",
"Mãe das luzes". Ela era discípula e apóstola de seu filho.
Teve o poder de conversar com o ressuscitado. É bem verdade que Pedro
aparece em vários episódios da vida de Maria. Ele é quase sempre
chamado de bispo e pai da comunidade. A defesa do primado de Pedro nos
apócrifos sobre Maria é compreensível na medida em que o lemos no
contexto da disputa de liderança entre os primeiros cristãos. Maria
era uma dessas fortes lideranças.
Maria
Madalena também foi outra personagem feminina de grande poder entre os
discípulos. No entanto, ambas Marias foram subestimadas nos evangelhos
canônicos. Maria não foi somente a intercessora, como quiseram os canônicos,
mas discípula e apóstola de seu filho, Jesus, a quem ela amou com amor
de mãe e sofreu sem perder a fé. Como toda mãe, Maria chorou diante
de seu filho morto na cruz. Maria é uma mulher judia, piedosa e sempre
preocupada com os afazeres domésticos. As mulheres não tinham o
direito de estudar a Torá (Leis/Conduta/Caminho), mas a Maria dos apócrifos
desafiou esse costume. Como liderança nata, ela estudou a Torá.
A
presença de Maria nos evangelhos apócrifos nos ensina que o masculino
e feminino devem ser integrados dentro de cada um de nós. João e Maria
viveram muito próximos. O evangelho secreto da Virgem Maria é uma obra
literária belíssima que coloca Maria narrando a sua história para João,
seu discípulo predileto. Os apóstolos a chamavam de mãe, porque ela
era exemplo de mulher integrada.
Maria
seguiu os costumes judaicos. Ela casou-se com José, conforme previa a
Lei (Torá), que ela tanto observava e estudava. Seguiu o marido até
Belém. Seus pais eram descendentes de Davi, também o seria seu filho,
Jesus. O seu nascimento foi impedido pela esterilidade da mãe, mas a bênção
de Deus possibilitou o seu nascimento. Somente uma boa judia podia
receber essas bênçãos de Deus. Além dos costumes judaicos, a história
dos pais de Maria, Joaquim e Ana, se parece com a dos casais do Primeiro
Testamento: Elcana e Ana, Abraão e Sara, os quais geraram,
respectivamente, a Samuel e Isaac. Assim, a história de Israel pode
continuar de modo fecundo e eficaz. O nascimento de Maria é importante
para a história de Israel, assim como foi o de Jesus.
A
história de Maria nos apócrifos é permeada de simbolismos, tais como:
a) Pomba, símbolo da Torá (Pentateuco), saiu da vara de José
confirmando que ele devia aceitá-la em sua casa. No templo, Maria viveu
como uma pomba, isto é, de forma pura. Jesus, no dia do seu batismo no
Jordão, recebeu sobre sua cabeça a visita de uma pomba. Jesus, a nova
Torá é confirmada pela Torá-pomba . É também, a pomba o sinal do
Espírito Santo de Deus.
b) Palma, também sinal da Torá e da pureza, lhe é dada por Jesus, a
Torá personificada, no monte das Oliveiras.
c) Véu do templo, símbolo da pureza, só podia ser confeccionado por
mulheres virgens. Maria, mesmo sendo a esposa de José, continuou
virgem, por isso, podia ser convidada pelos sacerdotes a confeccionar o
véu do templo. Segundo os evangelhos canônicos, o véu do templo se
rasgou. Isso é sinal de que aquele que é puro como o véu foi violado
pela injustiça humana.
d) Templo: lugar onde vivem os puros. Maria viveu no templo, porque era
pura por excelência. E ser educada no templo é ocupar um lugar central
na história da salvação.
e)
A vara de José que floriu mostra a ligação desse com a história de
Israel. A vara de Aarão também floresceu e ele foi escolhido por Deus
(Nm 17,16-23).
f)
Trombeta, usada para convocar os anciãos para decidir quem ficar com
Maria, era um instrumento usado para convocar o povo de Israel, diante
de um problema nacional.
g)
Anjo, sempre presente na vida de Maria, simboliza Deus mesmo que vem ao
seu encontro. Os judeus por colocarem Deus tão distante e fora do
alcance da vida, criaram a categoria anjo para falar de Deus mesmo. O
anjo é Deus, mesmo que tenha um nome próprio.
h)
Luz que envolveu Maria e Jesus na gruta e o corpo de Maria, no dia de
sua morte e assunção, é sinal de Deus que manifestou no Sinai.
i)
Fogo que atingiu as mãos de Salomé é sinal da presença divina (Ex
3,1-6). A ação incrédula de Salomé, ao tocar a "natureza de
Maria", foi necessária para confirmar teologicamente o fato de
Jesus ser a luz para todos os povos. Salomé, ao receber nas próprias mãos
a luz de Deus, Jesus, e foi curada.
j)
Esterilidade: sinal de castigo e da não bênção de Deus. Apesar da
virgindade, Maria não era estéril, o que fundamento a teologia dos
primeiros cristãos, isto é, em Maria a promessa de Deus se realizou,
porque havia entre eles alguém preparado para essa tarefa.
l)
A morte de Maria anunciada para daqui a três dias quer mostrar que,
assim como Jesus, que depois de três dias ressuscitaria, Maria também
seria visitada por Deus na pessoa de seu próprio filho, Jesus. Os
textos apócrifos dizem, no entanto, que Maria foi assunta ao céu
somente no quarto dia.
m)
As nuvens, nas quais os apóstolos são transportados até à casa de
Maria, representa a presença de Deus, que mora além das nuvens.
Toda
a história da assunção de Maria está nos apócrifos. Os escritos
sobre Maria foram respostas aos questionamentos sobre a sua vida. Eles são
a expressão da fé na virgindade, assunção, santidade e liderança de
Maria entre os primeiros cristãos. Não só esses escritos "não
autorizados" sobre Maria ajudaram a difundir a fé nela como mãe
de Deus, mas a arte e a liturgia.
Em
1950, a Igreja católica proclamou o dogma da Assunção de Maria,
confirmando simplesmente um ensinamento tradicional. A assunção de
Maria só foi possível porque ela era virgem. A presença dos apóstolos
no momento em que Cristo vem buscá-la no sepulcro demonstra a
legitimidade da assunção. Paulo estava entre eles. Ele não poderia
conhecer os mistérios que se passavam com ela, pois era apenas um
iniciado na vida cristã. Os apóstolos não concordam com as opiniões
de Paulo, mas Jesus aparece e acolhe Paulo, o que significa que bastava
um coração puro como o de Paulo e de Maria para poder atingir a salvação.
As
religiões têm suas grandes mulheres. No cristianismo e no imaginário
coletivo, Maria permanecerá sempre como modelo de mãe intercessora,
mas não estaria na hora de acrescentar a esse dado de fé a liderança
apostólica e missionária de Maria que os apócrifos nos legaram?
Ademais, nos apócrifos,
Maria não deixou de ser mulher para ser a mãe de Jesus. Vale a pena ler
os apócrifos sobre Maria