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Os Judeus,
os Cristãos e
o Pantera
Alvaro
Rodrigues |
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Se é verdade que, a partir de uma determinada época, os judeus se
tornaram alvo de discriminação e perseguições por parte dos
cristãos, não é menos verdade que, no início, essa relação
algoz-vítima se apresentava invertida.
Desde suas primitivas manifestações, quando ainda se mantinha
umbilicalmente ligado à cultura, tradições e religiosidade judaicas,
o Cristianismo foi tratado com intolerância e repressão por parte
das autoridades judias, de que as mortes de Estêvão e Thiago servem
como exemplos.
Quando leio que, sem Paulo de Tarso, o Cristianismo haveria de se
ter tornado mais uma das várias "seitas" do Judaísmo, vigentes no
século I, reluto em aceitar tal possibilidade. Penso que ele teria
sido, simplesmente, reabsorvido pela "religião de Moisés", ou seja,
teria desaparecido, quase sem deixar vestígio de ter um dia
existido.
Ou seja, em seu ambiente de origem (a Palestina), o Cristianismo não
teria futuro, assim como o Budismo não conseguiu frutificar em sua
terra natal, a Índia.
A abertura para o mundo helênico (ou, para os "gentios"), que Paulo
e outros promoveram, se garantiu, de um lado, a sobrevivência da
nova fé, por outro motivou um longo e desgastante confronto - uma
autêntica "disputa de mercado" - com o judaísmo da Diáspora.
Isso porque, nos primeiros séculos DC, esse judaísmo do Exílio, em
sua versão farisaica, estava empenhado em conquistar novos espaços,
com o propósito de se tornar universalista. Distantes da Palestina
e, por conseguinte, da rígida ortodoxia saducéia, eles haviam aberto
uma porta lateral, pela qual se tornava possível o ingresso de
helênicos, de quem se exigia apenas que acreditassem em deus (o deus
da Torah, evidentemente), respeitassem o Shabbat, e observassem
certas prescrições morais (Mandamentos Noaquíticos),
dispensando-se-lhes as demais obrigações tradicionais, sobretudo a
que suscitava maior repulsa entre os "gentios": a circuncisão.
Vê-se, pois, que as propostas de Paulo não eram assim tão
"revolucionárias".
Paralela a essa investida missionária, eruditos judeus esforçavam-se
por estabelecer pontos de conexão entre a fé hebraica e a filosofia
grega, com vistas a conquistar adeptos nos extratos mais elevados (e
cultos) da sociedade helenística. Alexandria tornou-se o eixo desse
esforço proselitista.
Mas essa abertura para o mundo, tinha uma limitação que faria com
que o Judaismo perdesse, para seu concorrente cristão, a disputa
pelos "corações e mentes" do mundo greco-romano: os admitidos
através daquela "porta lateral", os "filo-judeus", não podiam
aspirar ser aceitos em igualdade de condições com os judeus
"autênticos", até porque a própria barreira étnica servia de sério
obstáculo. Eles seriam sempre membros de uma categoria inferior, no
seio do universo judaico.
Em contrapartida, o Cristianismo lhes oferecia acesso pleno,
independente de nacionalidade e status social (apesar das tentativas
de Thiago e seus adeptos, de impor restrições ao ingresso dos
gentios).
Os primeiros tempos dessa "disputa de mercado" foram amplamente
favoráveis aos judeus (o termo "judeu" é aqui usado excluindo os
judeus-cristãos). Desde a época de Júlio César, eles haviam
granjeado a simpatia e uma acentuada benevolência por parte do poder
romano, que se traduzia, inclusive, na forma de concessões especiais
de natureza civil e religiosa. Já os cristãos, por força de sua
identificação inicial com extratos inferiores da sociedade,
começaram sendo mal vistos e mal compreendidos pelos romanos, que os
acusavam de serem "inimigos do gênero humano".
No momento em que a concorrência judaico-cristã se tornou aguda, os
judeus não relutaram em se valer de suas ligações com o poder
imperial romano, para prejudicar os seguidores do Cristo.
Há suspeitas de ter havido "dedo judeu" na escolha dos cristãos como
bodes-espiatórios do incêndio que devastou a cidade de Roma, durante
o reinado de Nero. Um desses "dedos" teria sido o de Popéa, esposa
do imperador, que anos antes se convertera ao "filo-judaísmo".
Esse cenário começou a mudar após as grandes revoltas judaicas de
66-70 e 132-135, na Palestina (e na Diáspora, no tempo de Trajano).
O enfraquecimento do "prestígio" judeu junto ao governo romano,
abriu espaço para que o Cristianismo iniciasse sua longa e sofrida
caminhada rumo à conquista do Poder Imperial.
Quando a balança afinal se inverteu, os cristãos haveriam de
demonstrar que, em matéria de sectarismo e intolerância, eram dignos
herdeiros do Judaísmo.
A inimizade que se desenvolveu entre cristãos e judeus, ficou
marcada na literatura de ambos os lados.
Não é à toa que, nos Evangelhos, os fariseus são execrados por
Jesus, bem mais do que os Saduceus, apesar de serem estes que
constituíam a elite social da Judéia, controlavam o Sinedrim e
colaboravam com a opressão romana
Por seu turno, na literatura judaica, a figura de Jesus e as crenças
dos cristãos recebem um tratamento especialmente desabonador,
inclusive com o acolhimento de uma história nitidamente difamatória
acerca das origens do crucificado.
Segundo essa história maldosa, Jesus seria filho de um grosseiro
legionário romano, alcunhado "Panthera" e de uma prostituta hebréia,
chamada Maria. Celso a utilizou para ridicularizar os cristãos, em
seu libelo "Discurso Verdadeiro".
A lenda teve tanta aceitação, que um cristão ortodoxo do século IV,
Epifânio, sentiu necessidade de justificá-la, alegando que o pai de
José era conhecido como Jacó Pantera, razão pela qual o nome "fazia
parte da família".
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Mas a história do Pantera não se perdeu no tempo. Em obra recém
lançada no Brasil, o pesquisador James Tabor, autor de "A dinastia
de Jesus" , relata ter visitado, na Alemanha, a tumba de um tal
Tibério Júlio Abdes Pantera, legionário romano que teria servido na
Palestina, no século I.
Sugerindo que esse Pantera poderia ter sido o verdadeiro pai de
Jesus, Tabor usa a imaginação para construir uma hipótese: a de
Maria, muito jovem e muito inexperiente, ter sido seduzida e
engravidada pelo dito soldado, quando já estava prometida em
casamento a José. Apiedado da menina, que poderia ser penalizada
pela severíssima lei judaica, José decidiu, então, honrar o
compromisso de casamento e assumir como seu o filho de Maria.
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