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Qualquer que tenha sido o conteúdo primitivo da mensagem cristã -
que no grego patrístico era chamada de "kérygma" (pregação) -, é bom
não esquecermos que o "Evangelho" era um anúncio e, ao mesmo tempo,
um alerta: noticiava que o Salvador tinha vindo à Terra e alertava
que, em breve, ele retornaria, para implantar seu reino de justiça (Parusia).
Que todos, pois, se acautelassem e, como advertira o Batista, se
arrependessem de seus pecados, antes que fosse tarde demais. Sentido
análogo tinha o “Evangelho Eterno” do Apocalipse (14,6), que tanta
influência iria exercer na Idade Média, no movimento místico-social
do abade Joaquim de Flora.
Mas quando o tempo passou e a Parusia não aconteceu, foi preciso
mudar o sentido do “anúncio”, para ajustá-lo à realidade que se
impunha. Isso determinou, em grande parte, as modificações que
ocorreram, tanto no conteúdo quanto na interpretação da "kérygma".
Mesmo que possam ter sido escritos em fins do século I, os
Evangelhos chegaram até nós em traduções manuscritas bastante
tardias, ainda que abundantes (170 compilações em escrita uncial e
cerca de 260 em escrita cursiva). As cópias mais antigos remontam
aos séculos IV e V, bastante distantes, portanto, da redação
primitiva. Determinar o que possa ter sido alterado, em relação aos
textos originais, torna-se, pois, um exercício ingrato, quase de
adivinhação.
Que eles foram alterados não resta a menor dúvida e isso era
comentado ainda naqueles tempos. Celso, em fins do século II,
escreve que os cristãos “não tinham o menor escrúpulo em alterar
seus livros, para refutar as objeções de seus adversários”.
Essas alterações podiam se apresentar na forma de acréscimos
tardios, como aconteceu com o Evangelho de Marcos, acrescido de 12
versículos, para contemplar a Ressurreição de Jesus e sua subida aos
céus. (O responsável por essa adição pode ter sido um tal Aristão,
que viera de Jerusalém para a Ásia Menor, em meados do século II, e
foi chamado de “discípulo do Senhor”, por Pápia de Hierápolis).
À medida em que se aproxima a época dos grandes Concílios (séculos
IV e V), encontramos uma maior uniformidade na transcrição dos
textos evangélicos, em parte devido à afirmação do conceito da
“inspiração divina” (derivado do Judaísmo), o que fez com que eles
passassem a ser encarados como obras realmente sagradas,
constituindo um grave pecado alterá-las. Mas esse processo foi
lento, somente se consolidando nos tempos do imperador Teodósio, que
tornou o Cristianismo a religião oficial do Império Romano,
completando a aderência da Igreja ao Estado, iniciada por
Constantino.
Nos estudos sobre o “Jesus Histórico”, o exame de qualquer um de
seus temas há que considerar essas mutações das fontes escritas,
cuja dinâmica se concentra, principalmente, nos séculos II e III. Há
que considerar também as transformações que, àquela época, se
estavam processando nas bases sociais sobre as quais o Cristianismo
se afirmou e se desenvolveu.
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