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Os Evangelhos relatam que, na tentativa desesperada de salvar Jesus,
em quem não via nenhuma culpa, Pilatos valeu-se de um costume
judaico, vigente durante a Pessach (páscoa), de libertar um
prisioneiro condenado à morte, oferecendo ao povo a escolha entre
Jesus e Barrabás.
Em João, Barrabás é identificado como um "salteador"; em Marcos e
Lucas, ele foi condenado por ter matado alguém durante uma
"sedição", e em Mateus, diz-se apenas que ele era "um preso bem
conhecido".
O problema é que em nenhuma literatura hebraica, inclusive no Talmud,
é possível encontrar qualquer menção à prática de libertar um
prisioneiro durante a Pessach. Não se conhece nenhum caso de alguém
que tenha sido beneficiado por essa suposta tradição. Tudo leva a
crer, portanto, que ela não existia. Também não há qualquer fonte
que nos diga que os romanos libertassem prisioneiros condenados, em
respeito à tradição religiosa dos judeus ou de qualquer outro povo
integrante do Império. E note-se que possuímos abundante literatura
sobre o Direito Romano e seu "código processual". Esse Direito era
rígido: uma vez decretada a condenação do prisioneiro, somente o
Imperador detinha o poder de anulá-la ou comutar a sentença. No caso
de Jesus, nem lhe cabia "apelar para César" (como Paulo de Tarso o
fez), porque ele não era cidadão romano.
Resumindo, nem na prática judicial romana, nem na hebraica, há
qualquer referência à libertação de prisioneiros durante a Pessach
ou qualquer outra data religiosa. Considere-se, também, que enquanto
Jesus (variante mais "moderna" do antigo nome Josué) era um nome
comum em sua época, não se tem referência a nenhum outro Barrabás (possivelment
"bar" + "abba" = filho do pai) em toda a longa história de
Israel.Por conseguinte, o Barrabás dos Evangelhos é, muito
provavelmente, um personagem fictício, cuja função nos relatos da
"Paixão" é acentuar a responsabilidade (culpa) do povo judeu na
morte de Jesus.
Mas admitamos, por um momento, que essa prática existisse e que
Barrabás foi beneficiado por ela.Em todos os relatos da execução de
Jesus, menciona-se que ele foi crucificado entre dois outros
condenados, descritos sumariamente como "ladrões". A incoerência
começa com o fato de que os romanos não costumavam matar meros
ladrões. Pelos menos, não rapidamente. A prática usual era torná-los
escravos das minas ou galés de navios (onde a vida do prisioneiro
tendia a ser curta). Além disso, se os dois "ladrões" eram também
condenados à morte, como Barrabás, porque Pilatos não os incluiu,
quando ofereceu ao povo a possibilidade de libertar um condenado? Se
a prática existia, todos os sentenciados à morte haveriam de poder
ser beneficiados por ela.
Por que apenas Barrabás?
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