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Resistência das árvores do cerrado ao fogo: papel da casca como isolante térmico. Damião Maciel Guedes: Este trabalho tem como objetivo determinar os efeitos do fogo sobre a vegetação lenhosa do Cerrado. A resistência e a susceptibilidade dessa vegetação foram definidas em função da espessura da casca de determinadas espécies, uma vez que este é um dos fatores mais importantes e mais variável na determinação da sua capacidade de resistência térmica, tanto a nível da comunidade quanto para cada espécie individualmente. Inicialmente determinou-se, através de modelagem matemática, a temperatura máxima a que chega o câmbio durante uma queimada. Assumindo que a temperatura de 60 ºC causa morte do câmbio, foi possível verificar abaixo de que espessura da casca o fogo pode danificar esse tecido. Com base nos dados de percentual de indivíduos da comunidade e de cada espécie em particular, que teriam o câmbio danificado após a passagem do fogo. Experimentos de campo foram realizados para simulação do fogo em 56 indivíduos pertencentes a 19 espécies, aplicando-se uma fonte térmica (promovida por resistência elétrica) de 100, 200, 300 e 400 ºC na superfície da casca até que o câmbio alcançasse a temperatura de 60 ºC. Com esses dados pôde-se relacionar a taxa de aumento de temperatura do câmbio com a espessura da casca. Essa correlação permitiu que se elaborasse um modelo matemático sensível ao tempo de duração e à temperatura máxima alcançada pela queimada, à temperatura inicial do câmbio e à espessura da casca. Foi realizada também uma análise preliminar da variação sazonal do teor de água das cascas. Por fim, foram medidas as temperaturas do câmbio e da superfície das cascas de seis espécies lenhosas, durante as queimadas controladas realizadas na RECOR/IBGE, no ano de 1992. Os resultados referentes aos teores de água e às taxas de aumento de temperatura indicam que há uma variedade de tipos de casca nas espécies do Cerrado, o que faz com que haja uma variação na resistência termofísica das cascas. Isto nos permite afirmar que o fogo atua no Cerrado de forma diferenciada para cada espécie, selecionando as mais resistentes. O modelo indica que, para incêndios de cerca de 380 ºC e 0,7 min de duração (situação próxima a que ocorre no cerrado), o câmbio das árvores cuja casca apresenta menos de 6 mm de espessura alcança a temperatura letal de 60 ºC e é danificado. Quanto às espécies que seriam mais ou menos afetadas pelos incêndios, de acordo com o percentual de indivíduos com cada classe de espessura de casca, pode-se destacar que Symplocos lanceolata, Vochysia thyrsoidea, Caryocar brasiliense, Guapira noxia e Dalbergia miscolobium, seriam menos afetadas em incêndios no Cerrado denso, por apresentar menor número de indivíduos com câmbio danificado. Por outro lado, Qualea multiflora e Guapira graciliflora seriam as espécies com maior número de indivíduos danificados, podendo até ser mortas em casos de incêndios muito densos. Comparando-se os resultados deste trabalho (que são referentes à resistência termofísica das cascas) com outros onde se definem as espécies como resistentes ou sensíveis ao fogo de acordo com a sua ocorrência ou não em áreas queimadas, observa-se que não há concordância. Isto nos indica que outros fatores têm importância na determinação da ocorrência ou não de espécies em áreas queimadas. Esses fatores referem-se às características do ambiente, como a produção, distribuição de umidade do combustível, bem como a características intrínsecas das espécies, como o potencial de recolonizar áreas queimadas ou a capacidade de evitar o fogo. Por fim, podemos concluir que apenas os incêndios que apresentam altas temperaturas podem causar danos significativos às espécies lenhosas do Cerrado e que fogos controlados, de baixa intensidade, podem ser utilizados para fins de manejo, sem causar redução no número de árvores, desde que o regime de queima envolva períodos que permitam o recrutamento de novos indivíduos.