088
Recuperação pós-fogo do estrato rasteiro de um campo sujo de cerrado. Cláudia Maria Mello Rosa: O trabalho foi realizado na Reserva Ecológica do IBGE, no Distrito Federal, com objetivo de mensurar a recuperação após uma queima acidental, dos grupos vegetais (até o nível de espécie) de um campo sujo de cerrado protegido contra o fogo há pelo menos 13 anos. Estudou-se o estrato rasteiro considerando-se as plantas herbáceas (ervas perenes), semiarbustos e arbustos de caule fino recorrentes (cuja parte aérea morre a cada ano até o chão, mesmo sem fogo e ressurge) e plantas lenhosas persistentes com circunferência inferior a 6,0 cm medida à 10 cm do solo. (Plantas lenhosas acima deste tamanho são consideradas como pertencentes à camada lenhosa e não entraram nas amostragens). Um quadrado de um hectare de vegetação homogênea foi dividido em nove partes iguais, onde quantificaram-se, por um período de um ano, a média de biomassa seca aérea (g/m2) e cobertura (cm2/cm2) de cada espécie. Para obter esta medida, mensuraram-se nove quadrados de 1 m2 cada, distribuídos sistematicamente no hectare. As coletas foram mensais durante o primeiro semestre e bimestrais durante o segundo. Realizou-se também um levantamento florístico da área através da coleta do material botânico florido ao longo do ano. Identificaram-se 197 espécies de 113 gêneros, pertencentes a 49 famílias, o que indicou uma riqueza florística próxima a de outra área semelhante onde as queimadas são mais freqüentes. As espécies que apresentaram maiores índices de valor de importância ao longo do ano foram Tristachya leiostachya, Echinolaena inflexa, Mimosa radula, Campomanesia sessiliflora, Leptocoryphium lanatum e Axonopus marginatus. Quatro padrões de variação temporal de biomassa aérea e cobertura foram observados para as espécies: 1) aumento imediato após o fogo, com pico no começo da estação chuvosa (set. - out. - nov.) e depois desaparecimento; 2) pico no meio da estação chuvosa (dez. - jan.); 3) pico entre a segunda metade da estação chuvosa e o começo da estação seca (fev. - abr. - jun.); 4) pico no final da estação seca (set.). Através do ajustamento de um modelo de curva logística aos valores empíricos das espécies (até o valor máximo), verificou-se que aquelas que alcançaram os maiores valores de biomassa aérea (valor de K na curva) obtiveram taxas de crescimento (valor de r na curva) relativamente baixas. Analisou-se também o comportamento de grupos maiores como famílias e formas de crescimento (ervas não-graminóides, lenhosos e semilenhosos recorrentes, lenhosos resistentes e graminóides). A família Gramineae apresentou maior quantidade de biomassa aérea, seguida das Leguminosae e Myrtaceae. Considerando os grupos de graminóides e não-graminóides, observou-se que este último apresentou maiores valores percentuais de biomassa aérea e cobertura durante um período de nove meses após o fogo, sendo ultrapassado no final do período chuvoso pelos graminóides. A correlação biomassa aérea (eixo y) vs. cobertura (eixo x) ao longo do ano apresentou, para a maioria das espécies, um melhor ajustamento a um modelo linear. Para os grandes grupos apresentou melhor ajustamento ao modelo potencial com exceção das gramíneas e lenhosas persistentes que apresentaram uma relação linear. O máximo de cobertura total (todas as espécies juntas) foi alcançado em junho/1987 com um valor de 65% e o aumento de biomassa total acompanhou o aumento de precipitação do ano de estudo, alcançando um máximo de 424 g/m2 em abril. Este valor foi superior ao alcançado em áreas semelhantes, também no primeiro ano após uma queimada, o que corrobora a idéia de que a vegetação apresentou ativa regeneração pós-fogo decorridos treze anos de proteção contra queimadas.