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Efeitos da queima
sobre a vegetação lenhosa do cerrado - Alba Evangelista Ramos
O presente estudo aborda o efeito do fogo sobre a vegetação lenhosa do
cerrado. Através da comparação de áreas de cerrado com diferentes
densidades arbóreas e regimes de queima pretendeu-se testar as
seguintes hipóteses: a) o fogo afeta a estrutura da vegetação de
cerrado reduzindo o porte e densidade e aumentando a tortuosidade,
esgalhamento e entouceiramento da vegetação lenhosa; b) a capacidade
de resistência e recuperação das plantas lenhosas do cerrado ao fogo
é proporcional ao seu tamanho (altura e circunferência) e c) o impacto
do fogo na vegetação é proporcional ao intervalo entre as queimadas.
Foram estudadas seis áreas de cerrado em Brasília - DF, três das
quais de cerrado sensu stricto, sendo a primeira, protegida contra
queimadas há 15 anos e a segunda, queimada após 13 anos de proteção
contra o fogo, ambas situadas na Reserva Ecológica do IBGE (RECOR), e a
terceira, com regime de queima bienal situada na Estação Ecológica do
Jardim Botânico de Brasília (JBB). As outras áreas estudadas foram
dois cerrados densos, um protegido contra o fogo há 15 anos situado na
RECOR, e outro, situada no JBB, com regime de queima bienal e a última
área foi um cerradão situado no JBB, que não queima há 15 anos.
Foram coletados dados de altura, circunferência, comprimento do caule e
contados os galhos primários até a altura de 2 m e o dano/resposta à
queima de cada caule de arbusto e árvore, e também a cobertura arbórea.
Os dados de árvores foram coletados em oito parcelas de 100 m2 cada
totalizando 800 m2 em cada uma das seis áreas de estudo, e de arbustos
em parcelas de 10 m2 , localizadas dentro das parcelas de 100 m2
totalizando 80 m2 por área. A partir desses dados foram calculadas as
seguintes variáveis por indivíduos: altura máxima (AM) viva, AM
morta, circunferência máxima (CM) viva, CM morta, Área Basal (AB)
viva, AB morta, volume cilíndrico (VC) vivo, VC morto, número de
caules vivos, número de caules mortos, % AB destruída, % de caules
destruídos, índices de entouceiramento, esgalhamento e tortuosidade.
Foi feita uma análise de componentes principais (ACP) das variáveis
dendrométricas e de dano/resposta à queima. Não foi feita análise a
nível de espécie. Os resultados mostram que as áreas protegidas
contra queimadas apresentaram densidade arbórea, área basal viva e
cobertura arbórea aproximadamente o dobro das similares queimadas
bienalmente. A área basal viva média por indivíduos arbóreos para o
cerrado denso com queima bienal foi maior e estatisticamente diferente
que o similar protegido, ocorrendo o inverso com os arbustos. Isto
demonstra que está havendo maior recrutamento de árvores nas áreas
protegidas de maneira a formar uma comunidade arbórea no cerrado denso
protegido composta de grande número de árvores finas. Foram
constatados quatro padrões de dano/resposta de vegetação à queima:
morte do indivíduo, morte aérea, dano epigeu parcial e murcha e
desfolha da copa. As plantas mortas encontradas nas áreas queimadas além
de ocorrerem na mesma freqüência que em áreas protegidas de fogo
distribuíram-se principalmente nas classes maiores de altura e
circunferência, sugerindo que a mortalidade devida ao fogo no cerrado
é um fenômeno raro ou é manifestado apenas a longo prazo.
Possivelmente, as plantas mortas encontradas já estavam mortas antes do
fogo. Não foi investigada a morte de plântulas e jovens com altura
inferior a 50 cm. A morte aérea, isto é, destruição completa das
estruturas epigéias pelo fogo foi o dano prevalente (entre 88 e 96%)
entre os arbustos. Dentre árvores, a maior taxa de morte aérea (35%)
ocorreu na área que queimou após 13 anos de proteção contra o fogo.
A distribuição de freqüência de indivíduos por classe de tamanho,
mostrou que ocorreu morte aérea entre 87 e 97% das plantas com altura
maior que 128 cm e entre 79 e 97% das plantas com circunferência menor
que 9 cm. As áreas queimadas bienalmente apresentaram para arbustos
aproximadamente o dobro do número de caules por indivíduo do que as áreas
similares protegidas contra o fogo, dando altos valores de índice de
entouceiramento. Dentre as árvores, o aumento foi discreto no regime de
queima bienal, porém para a situação de mudança de regime (queima após
13 anos de proteção) permaneceu a tendência de entouceirar após o
impacto de uma queima muito intensa, o número de caules vivos por indivíduo
dobrou e plantas que tiveram morte aérea não recuperaram a altura e
circunferência através da rebrota um ano após a queima. O dano epigeu
parcial foi mínimo dentre os arbustos (entre 2 e 11%) porém prevaleceu
entre árvores (entre 38 e 61%). A distribuição de freqüência de
plantas parcialmente danificadas por classe de tamanho (altura e
circunferência) nas áreas queimadas mostrou uma concentração de
indivíduos nas classes intermediárias. Verificou-se que para os
arbustos o número médio de ramos laterais por metro ao longo do caule
(esgalhamento) é significantemente maior nas áreas queimadas do que
nas áreas não queimadas. Não se registrou diferença significativa
entre as médias dos índices de tortuosidade. A taxa de indivíduos que
apresentaram apenas a desfolha da copa foi mínima (entre 0 e 2,6%)
entre arbustos e variou de 11,3 a 39, 0% entre árvores, sendo que a
mais alta foi registrada para o cerrado denso queimado bienalmente. A
ACP das áreas queimadas mostrou que as três primeiras componentes
principais (CP) explicaram cerca de 80% da variância total para as árvores
e 70% para arbustos. A ACP mostrou tanto para árvores como para
arbustos que quanto maior o tamanho morto maior o número de rebrotas de
maneira que um dos efeitos da destruição da parte aérea das plantas
lenhosas é a indução do entouceiramento. A ACP para a área queimada
após 13 anos sem queimar evidenciou tal fato devido ao deslocamento do
entouceiramento da 3a CP para a 2a CP. Os dados obtidos para plantas
lenhosas estabelecidas mostram que a morte causada pelo fogo a curto
prazo não é significativa. A morte da parte aérea é o dano
prevalente entre as plantas lenhosas pequenas e as conseqüências desse
dano na estrutura da vegetação são diminuição do recrutamento arbóreo,
diminuição da densidade, estratificação do componente lenhoso e
entouceiramento. O dano estrutural parcial prevaleceu dentre as árvores
e seu efeito na estrutura da vegetação é a redução do porte das árvores
e aumento da tortuosidade e esgalhamento. Mesmo que tenham tamanho mínimo
para tolerar/resistir à queima, as plantas ainda sofrem murcha e
desfolha da copa pela ação do fogo. Em relação a manejo da vegetação
do cerrado com fogo, os dados do presente trabalho não aconselham a
supressão total da queima por longos períodos, para evitar acúmulo de
combustível e portanto queimas eventuais de grandes proporções.
Contudo deve-se considerar o objetivo de destinação de cada área de
maneira a definir a freqüência e época de queima para favorecer o
estrato arbóreo ou herbáceo-arbustivo.
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