TÍTULO:

A DIFERENÇA DE ESCUTA MUSICAL ENTRE INDIVÍDUOS: UMA INVESTIGAÇÃO SOBRE A FORMAÇÃO DA ESCUTA NO INÍCIO DA APRENDIZAGEM MUSICAL

AUTOR:

ALDO DE OLIVEIRA CARDOSO
IA-UNESP-SÃO PAULO


AGÊNCIA DE FOMENTO:

FAPESP


ORIENTADOR (a):

MARISA FONTERRADA

A diferença de escuta musical entre indivíduos: uma investigação sobre a formação da escuta no início da aprendizagem musical.


CARDOSO, Aldo de Oliveira*

Resumo

Neste trabalho pretendo verificar no contexto bibliográfico ressaltando dois autores: Moray, N.
“Listening and attention” e Moles, A. “Information theory and esthetic perception” e
restringindo à alguns aspectos da semiótica e da fenomenologia, o que diz respeito às
diferentes possibilidades de interpretação por diferentes indivíduos sobre um mesmo objeto,
neste caso, os eventos musicais a que estarão sujeitos. Em seguida comparar tais teorias com o
processo evolutivo da percepção musical pela observação de um grupo fixo de alunos iniciantes
em música, buscando confirmar a hipótese de que a escuta musical está imersa num processo
dinâmico que envolve diferentes fatores. Os resultados das análises e observações ficaram bem
próximos do esperado, pois no processo de aprendizagem perceptiva não houve um padrão
regular e linear no que diz respeito a formação da habilidade perceptiva. E com o aumento na
habilidade perceptiva os indivíduos começaram a transitar entre a percepção estética, onde
frui-se a obra com um todo sem pretensões analíticas, e a percepção de análise, onde a atenção
volta-se para verificar a estrutura do objeto sonoro.


Palavras-chave: escuta, atenção, aprendizagem, percepção e percepção-estética.

Na formação da escuta musical estão envolvidos tanto fatores individuais quanto sociais. No
contexto social há aspectos bastante amplos como o meio em que o indivíduo está inserido, sua
condição sócio-cultural, a influência da mídia, que abrange o indivíduo em sua situação
coletiva dentro da sociedade e contribui para a formação do repertório individual. Outros,
também envolvidos, são os fatores individuais como a atenção do ouvinte, sua intenção de
escuta e seu estado emocional ante a escuta. Há também o nível de habilidade perceptiva que
cada indivíduo possui, que se evidencia na capacidade de entender os aspectos melódicos, a
harmonia, o ritmo, a forma e outros fatores, inerentes ou não à própria música. Tais habilidades
começam a se tornar consistentes no início da aprendizagem musical e, diante de tais
conhecimentos perceptivos, um outro horizonte de escuta se abre para o indivíduo: uma escuta
pensante e analítica sobre os parâmetros que constróem a música.
Como a escuta é dinâmica e depende de muitos fatores, é impossível encontrar um padrão que
sirva para todos os indivíduos; assim, a hipótese que pretendi buscar é a da diversidade da
capacidade auditiva de diferentes indivíduos frente a obra musical. A essência deste trabalho,
portanto, é verificar de que modo a percepção torna-se mais aguçada a partir da instalação de
hábitos de escuta (musicalização) e reconhecer que em cada aluno ela se apresentará
diferentemente. Tal verificação consiste em apresentar desde os elementos mais básicos
constituintes da música, quanto outros, mais elaborados, que foram selecionados
posteriormente, de acordo com o andamento da pesquisa e da capacidade de escuta revelada
pelos alunos da E.E.
O material utilizado veio das próprias ações que já estavam sendo realizadas no
projeto: Música na escola – a sensibilidade artística a serviço da qualidade de vida”, processo
FAPESP nº 99/09318-4; processo integrado ao Programa FAPESP de Melhoria do Ensino
Público, como nos exemplos: “Música e sociedade”, “Música e meio ambiente”, além de
outros, específicos, escolhidos para resolver determinadas questões que casualmente poderiam
surgir no decorrer da pesquisa, sendo que a ênfase na utilização desses materiais, é o próprio
processo de aperfeiçoamento da escuta.
Pretendeu-se submeter os alunos a uma intensa exposição musical, ao mesmo tempo ampliando
seu universo cultural, e observando de que modo se delineia e transforma sua capacidade de
escuta musical.

O método foi baseado em:

Consulta bibliográfica;
Observação da capacidade de escuta dos alunos, compreendida como habilidade perceptiva;
Observação da capacidade de escuta dos alunos, compreendida como habilidade perceptiva;
a) Análise dos resultados das observações e comparação com a hipótese descrita sobre a
b) escuta musical. As observações das transformações na escuta dos alunos, mesmo neste estudo em
andamento, já apontam índices de como a formação da escuta foi diversificada entre os
componentes do grupo estudado. Aqui descrevo, pela grande quantidade de questões, apenas
alguns resultados que são suficientemente relevantes para o presente trabalho.

Análises

Sobre a forma nas análises

A forma de questionamento foi direcionada a evitar a emissão de opiniões estéticas sobre
os objetos musicais apresentados aos alunos, pelo fato de que tais opiniões diminuiriam as
chances de se obter uma análise estatística segura. Por este motivo as questões e trechos
musicais usados foram formuladas para se obter apenas dois tipos de respostas como no
exemplo “tal escala musical é maior ou menor”, “tal melodia está subindo ou descendo”. Outro
método usado foi dividir o questionamento em individual e coletivo onde algumas mesma
questões tiveram resultados diferentes.
Uma primeira verificação que foi feita no estágio inicial foi dividida nas seguintes etapas
sendo que em cada etapa foi elaborada uma tabela de resultados mostrando o rendimento de
cada aluno:
1.a) Foi perguntado individualmente para os alunos que se encontravam reunidos na mesma
sala a questão dizendo qual a sensação que eles tiveram sobre uma escala ascendente sendo que
os resultados obtidos foram 73% para a resposta ascendente, 21% descendente, e 6% não
souberam responder.
2.a) A mesma questão foi perguntada para cada aluno sem a presença dos outros e os resultados
obtidos foram 62% ascendente, 30% descendente, 8% não souberam responder.
3.a) Em outra ocasião as etapas 1 e 2 foram realizadas num ambiente ruidoso onde, em suma,
verificou-se uma queda na porcentagem de acertos e aumento na porcentagem de erros e
acertos e várias inversões de respostas de cada aluno.
4.a) As mesmas etapas foram repetidas posteriormente e houve um aumento nas respostas
positivas, ou seja, de acertos.
5.a) No segundo período deste estudo, onde os alunos já possuíam a noção de intervalos de
consonâncias perfeitas (considerando também a 4.a justa) foram feitas questões mais
complexas envolvendo o conjunto de até 5 intervalos sucessivos. Nesta questão houve um
considerável aumento na variação das respostas que desta vez foram anotadas tendo os
seguintes tipos de respostas: em branco, 1, 2, 3, 4 e 5 intervalos sucessivos acertados e toda
análise combinatória entre eles chegando ao resultado de 16 respostas possíveis.
6.a) A reiteração da etapa 5 num ambiente ruidoso modificou a tabela individual dos acertos
desta mesma etapa.
Pelos dados descritos anteriormente usando exemplos bastante simples e desprovidos de
ambigüidade, já podemos inferir que não há nenhum padrão fixo para explicar o processo de
escuta. Se um mesmo aluno sob um mesmo exercício em momentos diferentes tem resultados
diferentes, variados, isso evidencia que sua escuta foi diferente e mesmo o objeto sonoro sendo
idêntico ao anterior. Esta diferenciação na escuta, no caso de expor os alunos em audições
cujos ambientes eram ruidosos, estava relacionada ao grau de atenção que eles tiveram perante
ao objeto musical. A qualidade desta audição foi prejudicada pelos ruídos externos que vinham
de um quadra de esportes. Outro aspecto observado no decorrer das iterações de um mesmo
exercício musical em relação aos ruídos foi que sob os ruídos estáticos (o barulho de um motor
que não se altera, por exemplo) os alunos obtiveram melhores rendimentos. O fato é que tais
ruídos estáticos não trazem novidades e interesses intencionais (no sentido husserliano). Até mesmo
o ruído dinâmico do trânsito da rua tornou-se, possivelmente pelo enorme tempo em que somos
atingidos, tornou-se estático. A atenção é apenas um dos vários fotores envolvidos na escuta.
Mas se olharmos estas análises sob a proposta de escuta sonora dada por Pierre Schaeffer
vemos que a atenção está em constante mudança que que alteram de acordo com nossas
recepções sonoras e quanto mais complexo e denso o objeto sonoro, maior será o grau de
atenção que teremos que dar a ele. Como foi o caso da experiência com os 5 intervalos onde a
concentração teve que ser maior e os resultados foram mais diversos o que significa a variação
de escuta entre os alunos.

Alguns resultados e a proposta de escuta schaefferiana

O modelo de escuta schaefferiano está baseado em 4 tipos de escuta;

Ouvir : um ruído estático desapercebido (como o som de uma geladeira ligada onde não
direcionamos nossa atenção a ela, mas a ouvimos).

Escutar: quando começamos a perceber algo dentro de um objeto sonoro mais ainda não
atentamos o suficiente para ele ( alguém que dialoga próximo a você sobre um assunto que não
lhe trás muito interesse)

Entender : quando você já entrou em contato com o objeto sonoro mas ainda não é capaz de
emitir um juízo sobre tal. (algo como assistir a um filme em outra língua e entendê-lo
genericamente).

Compreender: quando de fato você entra definitivamente em contato com o objeto sonoro
(quando ouvimos e reescrevemos um ditado melódico onde bastante atenção foi direcionada ao
objeto).

Vemos também que esta modelo se encaixa na teoria peirciana da percepção com segue o ex.:

SCHAEFFER

SCHAEFFER

PEIRCE

 

OUVIR

                                                       PRIMEIRIDADE

 

ESCUTAR

 

                                                       SECUNDIDADE

ENTENDER

 

                                                       TERCERIDADE

COMPREENDER

 

Tendo este modelo em mente poderemos ir diretamente aos resultados com os alunos. Vimos
que no teste simples de duas escolhas eles tiveram um positivo resultado pois a maioria chegou
a compreender o exercício. Já no teste mais complexo eles tiveram um maior esforço da
atenção e um número maior de respostas. Mas somente alguns acertaram todos os intervalos.
Tal fato dá-se porque muitos alunos não chegaram ao nível ideal para a compreensão do
fragmento sonoro, para isso, além da atenção, era preciso a formação de um hábito de escuta
para que tal signo sonoro fosse compreendido em terceridade e esse hábito seria um tipo de lei
que governa a organização sonora musical. E se em cada aluno estes hábitos apresentam-se
diferentes níveis, então a percepção dar-se-á também em diferentes níveis.
Em suma a escuta musical está dentro destes fatores que modificam-se dinamicamente, frutos
da interação entre o sujeito e o objeto, das variações da atenção e da aprendizagem dos hábitos
de escuta e que não possibilita um modelo fixo para a escuta. Um modelo mais próximo do que
acontece na audição seria um modelo dialético.
Agradecimentos: À prof. Dra. Marisa Fonterrada, prof. Dra.Yara Caznok, Prof. Dr. Alberto
Ikeda e Prof. da PUC-SP Lúcia Santaella.

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------------ A teoria geral dos signos: semiose e auto geração. São Paulo: ed. Ática, 1995.
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------------ Percepção. Uma teoria semiótica. São Paulo: ed. Experimento, 1993.
SCHAEFFER, P. Tratado dos objetos musicais. Brasília: Edunb, 1993.
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