cidade

 


I

Pedra, areia, terra, e lodo

em gigantes de metal

de tamanho descomunal

preenchem o espaço todo

 

Infestações, enxames infernais

de espectros mudos, loucos

que num modorrar surdo, rouco

assemelham-se aos animais

 

lamentações, reclamações banais

expelidas de bocas convulsas

encobertas por carapuças

de sensações frias e carnais

 

Ritmo frenético e compulsivo

de estátuas vivas, sem epiderme

vós sois parentes de um verme

de aspecto belo, demoníaco

 

Pensamentos vis e mortais

habitados por pesadelos

vomitados em desespero

por cérebros neandertais

 

Fantasias, negras nevrostenias

fantasmas de uma nação

dizimada pela maldição

da agonia da mentira

 

E eu aqui, pobre ferido

em um terror infernal

emito meu gemido mortal

Por todos os seres perdidos

 

Berro, grito, suplico sem calma

Em meio aquela vastidão

de seres sem comunhão...

Desperdiço minh'alma

 

Porém ,minhas tentativas são futeis:

São surdos por opção.

Cegos para a proteção

de suas miseráveis vidas inuteis

 

Proteção banal e idiota

uma mera fantasia

ilusória utopia...

Digna de um hipócrita !

 

                II

Mas uma vez um estrondo bramia

e em meio a súplicas de agonia

um monstro terrível urrava

com legiões de mensageiros mortais

compostas por animais

dilacerando toda alma

 

Pobres e infelizes condenados

pobres seres desgraçados

vítimas de um sadismo cruel

crianças martirizadas

acometidas por chagas

que jorravam sangue e fel

 

Constrição terrível de átomos

transformados em diabos

terríveis e flamejantes

que em sua dança macabra

latente, amaldiçoada

assassinavam os infantes

 

Os campos, antes alegres

invadidos por bestas agrestes

que de agora em diante

irrompem em pária enterna

com o fedor de um sisterna

tornando-se o inferno de Dante

 

Um caos terrível reinava

e espectros loucos berravam

em meio a escuridão

rodopiavam, e gritavam,

como cães choravam

pedindo perdão 

 

Uma grande massa

tenra, fria, lassa...

acorrentava todos.

E para seu desespero

em meio ao cativeiro

haviam guardiões lobos

 

Fogo e faíscas minavam

do chão, se soltavam

para todos queimar.

E num suplício louco

de vozes e sons roucos

tentavam se libertar

 

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