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1. Mensagem do Excelentíssimo Senhor Fernando Henrique Cardoso, Presidente do Brasil, para os Congressistas do 6º Congresso da AIL, lida pelo Exmo. Sr. Francisco Weffort, Ministro da Cultura

2. Mensagem do Excelentíssimo Senhor Jorge Sampaio, Presidente de Portugal, para os Congressistas do 6º Congresso da AIL, lida por seu representante, o escritor José Saramago

3. Alocução do Professor Doutor Helder Macedo, Presidente da AIL

4. Alocução da Professora Doutora Cleonice Berardinelli, Coordenadora do 6º Congresso da AIL

5. Mensagem do Exmo. Sr. José Ramos Horta, Vice-Presidente do Conselho Nacional de Resistência Timorense e Prêmio Nobel da Paz de 1996, aos Congressistas do 6º Congresso da AIL
 


 

 
 
 
 

 
 
 
 
Mensagem do Excelentíssimo Senhor Fernando Henrique Cardoso,
Presidente do Brasil, para os Congressistas do 6º Congresso da AIL,
lida pelo Exmo. Sr. Francisco Weffort, Ministro da Cultura

 

É com especial satisfação que saúdo a realização no Rio de Janeiro do VI Congresso da Associação Internacional de Lusitanistas. Congratulo-me com a Universidade Federal do Rio de Janeiro e a Universidade Federal Fluminense pela contribuição prestada na organização do encontro.

Estou ciente de que a escolha de uma cidade brasileira para sediar este importante congresso é uma homenagem ao transcurso dos 500 Anos da História do Brasil, gesto muito bem-vindo e de grande significado.

Tenho insistido sobre a importância de que os 500 Anos constituam um marco nas relações do Brasil com os demais países lusófonos. Minha expectativa é de que a data contribua não apenas para o resgate de nossa história comum, mas sobretudo para a valorização das afinidades que continuam a existir entre nossos povos. As comemorações terão êxito na medida em que permitam a brasileiros, portugueses e a nossos irmãos africanos e asiáticos uma atuação mais coesa na defesa da lusofonia, em suas diferentes manifestações.

Isto passa pelo reforço do conhecimento mútuo daquilo que está sendo produzido nas várias partes do mundo lusófono. Daí a importância da Associação Internacional de Lusitanistas, do diálogo que ela tem permitido sobre as culturas de língua portuguesa. Diálogo que se estende além das fronteiras dos países lusófonos, com a participação de intelectuais do mundo hispânico, do Norte da Europa e dos Estados Unidos.

A vitalidade das culturas lusófonas parece-me inconteste, inclusive no campo da literatura, como bem demonstra a agenda deste encontro. Estou certo de que os literatos e críticos que aqui se reúnem saberão valorizar com seus textos e apresentações o tributo que justificadamente se presta a Almeida Garrett, Machado de Assis e Castro Soromenho.

Desejo associar-me, também, à merecida homenagem que se fará nos próximos dias ao escritor José Saramago, que tanto tem contribuído para a afirmação internacional da língua portuguesa.

Recebam os organizadores e participantes do VI Congresso da Associação Internacional de Lusitanistas meus votos de um amplo e profícuo debate. O mundo lusófono será credor de seus resultados.

Brasília, julho de 1999
Fernando Henrique Cardoso

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Mensagem do Excelentíssimo Senhor Jorge Sampaio,
Presidente de Portugal, para os Congressistas do 6° Congresso da AIL,
lida por seu representante, o escritor José Saramago

O VI Congresso da Associação Internacional de Lusitanistas constitui um grande acontecimento da lusofonia e é um importante fator de reforço dos laços entre todos os que falam, estudam e cultivam a língua portuguesa, as culturas e as literaturas que nela se expressam.

Realizado neste tempo de passagem para o novo século, é ainda uma boa ocasião para se proceder a um balanço crítico e prospectivo sobre o que se fez e o que não se fez, sobre o que falta fazer e tem de ser feito.

Como tenho dito, uma política de língua, activa e de largo alcance, é hoje um instrumento fundamental de afirmação e de projecção no Mundo, em todos os planos, dos nossos países, povos e comunidades.

A globalização não pode significar uniformização lingüística e hegemonia cultural. Temos de saber preservar a diversidade, o pluralismo, a variedade como uma riqueza insubstituível e uma marca da condição humana.

A língua portuguesa é um património de todos os que a falam e que a enriquecem, diariamente, com a diferença das suas histórias, situações geográficas, visões do Mundo, experiências, características próprias.

Ao realizar-se este Congresso no Brasil sublinhamos a relevância, em peso demográfico e em vitalidade cultural, deste grande país, na altura em que vamos comemorar os 500 anos da chegada dos portugueses, esse acontecimento único das nossas histórias, que hoje analisamos, preferindo o rigor à retórica, o que em nada diminui, antes a lança em bases mais sólidas, a sua projecção nos nossos futuros.

Seja-me permitido lembrar, neste momento, o Povo de Timor Leste que faz parte da nossa comunidade lingüística e que espera agora poder, em condições de tranquilidade, segurança, liberdade e paz escolher o seu destino.

Quero manifestar a todos vós, reunidos em nome da língua que falamos, a nossa vontade de aprofundarmos os vínculos que fortalecem uma comunidade lingüística viva e forte.

Aos que, em Universidades de todos os continentes, fazem do português o objecto do seu trabalho e da sua actividade pedagógica, por vezes, com dificuldades e carências que são conhecidas, testemunho o meu reconhecimento afectuoso.

Com uma história riquíssima, falada por duzentos milhões de seres humanos, a nossa língua viu, este ano, um escritor que tanto a tem prestigiado ser distinguido com o Prémio Nobel da Literatura.

Ao solicitar a José Saramago que me represente neste Congresso, renovo-lhe a homenagem que sei também ser a vossa e peço-lhe que vos leve a minha calorosa mensagem de saudação a todos os presentes, de felicitações aos organizadores e de confiança no futuro da língua portuguesa como instrumento de comunicação e de criação, como projecto e como comunidade.

Lisboa, 30 de julho de 1999
Jorge Sampaio

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

("Esse texto também aparece na Revista Veredas N° 3")

Helder Macedo
Universidade de Londres - King's College

Esta é a primeira vez que a Associação Internacional de Lusitanistas realiza o seu congresso trienal fora da Europa. É também o seu maior congresso. Creio mesmo que é o maior evento inter-universitário alguma vez realizado em língua portuguesa. Cerca de seiscentos participantes vão fazer comunicações, conferências, mesas-redondas. Prevê-se que o público que assistirá às múltiplas sessões de trabalho seja da ordem das mil pessoas.

A Associação foi fundada em Poitiers, em 1984, pelo Professor R. A. Lawton. Era um projecto ambicioso mas precário – que atraiu mais desconfiança do que estímulos – com um destino incerto. Lembro-me de ter estado no 2º Congresso, em 1987, também numa cidade europeia de província, Leeds. Éramos ao todo não mais do que uns trinta participantes. Foi agradável, deu para partilhar um bom whisky duty-free e ficarmos mais amigos uns dos outros. Mas não deu para grandes esperanças no futuro. Hoje estamos no Rio de Janeiro e somos muitos.

E muitos houve que não puderam vir. Temos actualmente membros em trinta e cinco países de todos os continentes. Não só, portanto, nos sete países de língua oficial portuguesa mas também em vinte e oito países de outras línguas e culturas onde se estudam as diversas disciplinas relacionadas com as culturas lusófonas. Quere isto igualmente dizer que não representamos qualquer país, mas que somos representantivos de uma multifacetada cultura universal que tem como base a língua portuguesa.

É dentro desse espírito que temos vindo a colaborar com várias instituições nacionais que trabalham para as várias culturas de língua portuguesa, que temos merecido a sua confiança e beneficiado do seu apoio. É o caso do Protocolo que estabelecemos com o Instituto Camões em Portugal, sem dúvida o exemplo mais significativo. Por isso é-me particularmente grato assinalar que o Professor Jorge Couto, Presidente do Instituto Camões, nos quis honrar com a sua presença neste congresso não só enquanto representante do Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal mas também a título próprio.

Em Portugal temos também um Protocolo com a Universidade Aberta e vamos assinar, no decurso deste congresso, um Protocolo com a Biblioteca Nacional de Lisboa. Ambas as iniciativas se devem ao Professor Carlos Reis, a primeira quando Pró-Reitor da Universidade Aberta, a segunda como Director da Biblioteca Nacional. Acresce que Carlos Reis é também um membro do nossa direcção, actualmente o 2º Vice-Presidente da Comissão Executiva. Está portanto na posição ideal para avaliar, com conhecimento de causa, as vantagens recíprocas desses protocolos para essas instituições e para a Associação Internacional de Lusitanistas.

Vai ser lançado, no contexto deste congresso, o primeiro volume da revista da Associação, a que demos o nome de Veredas, cujas conotações brasileiras naturalmente não nos escaparam. É um projecto ambicioso e cuja necessidade desde há muito se fazia sentir, mas que só pôde ser realizado graças a um Protocolo estabelecido com a Fundação Engº António de Almeida, no Porto, que assumiu todas as despesas de impressão e de distribuição da nossa revista. Veredas não é apenas mais uma revista, uma revista como as outras, melhores ou piores. Pelas suas características internacionais – pelos leitores e colaboradores plurinacionais a que se dirige e que visa publicar –, é uma revista única em língua portuguesa. É, em suma, a plataforma internacional que faltava para os estudos das culturas de língua portuguesa. Muitos dos nossos membros trabalham isolados, quando não submersos em departamentos universitários onde o português tem um estatuto subsidiário de outras disciplinas. A nossa revista permitirá que todos nós, em conjunto, possamos demarcar um amplo território cultural que manifeste a universalidade das nossas culturas nos termos das suas identidades específicas.

Há outras entidades e instituições portuguesas às quais o nosso reconhecimento é devido, e todas elas vêm mencionadas nos programas do Congresso. Mas menção especial deve feita à Fundação Calouste Gulbenkian – e em particular ao Administrador do Serviço Internacional, Dr. José Blanco – que, tal como o Instituto Camões, contribuiu muito substancialmente para a realização deste congresso; e ao Conselheiro Cultural de Portugal no Brasil, Dr. Rui Rasquilho, que desde a primeira hora se manifestou como nosso incondicional aliado. Quanto a instituições brasileiras, sem prejuízo do reconhecimento devido às outras entidades também especificadas nos programas do Congresso – começando por não esquecer que estamos nesta sala graças à boa vontade do Secretário de Cultura do Estado do Rio de Janeiro –,quero mencionar aqui as importantes contribuições que nos foram facultadas pela CAPES, pelo CNPq e pela FAPERJ.

A localização do Congresso fora da Europa e, especificamente, no Brasil visa, por um lado, a assinalar o crescente carácter pluricontinental da Associação e, por outro, a prestar homenagem ao país com o maior número de falantes da língua portuguesa no momento em que este se prepara para comemorar o seu quinto centenário. Pode assim dizer-se que nós é que iniciámos a grande festa brasileira anunciada para o ano 2000.

O Congresso representa um gigantesco esforço conjunto de duas das mais importantes universidades do Brasil, a Universidade Federal do Rio de Janeiro e a Universidade Federal Fluminense às quais testemunho aqui o nosso reconhecimento: à UFF, na pessoa do seu Magnífico-Reitor, Professor Cícero Mauro Fialho Rodrigues, à UFRJ, através do representante do seu Reitor. E a honrosa presença, nesta sessão de abertura, do Ministro da Cultura do Brasil, Dr. Francisco Weffort – em representação do Senhor Presidente da República do Brasil e a título próprio – bem como dos representantes do Monistro da Educação e do Ministro das Relações Exteriores, aliás, desde logo, testemunham, ao mais alto nível, a justa importância que o Brasil está dando a este evento.

Mas o nosso Congresso é também, e sobretudo, um testemunho pessoal da energia, da capacidade e da perene juventude da sua Coordenadora, Professora Cleonice Berardinelli. Quando, em 1993, me foi proposto no Congresso de Hamburgo que aceitasse ser candidato à presidência da AIL, pus como única condição que Cleonice Berardinelli aceitasse o cargo de 1ª Vice-Presidente. E quando fui proposto para reeleição, em Oxford, em 1996, aceitei com a mesma condição. Mas fiz pior, para o bem de todos nós: persuadi-a a que coordenasse este Congresso, o último em que ela será a ilustre 1ª Vice-Presidente da Associação e eu o seu grato e devedor Presidente, já que nenhum de nós aceitará nova comissão de serviço. O tributo que é devido a Cleonice Berardinelli inclui também, evidentemente, uma justa homenagem às suas colaboradoras na organização do Congresso, professoras Gilda Santos, Laura Cavalcante Padilha e Teresa Cristina Cerdeira. São também queridas amigas minhas. Mas sei que nem por mim, bons amigos como somos – que só por Cleonice –, teriam feito o que fizeram. Ao nome delas acrescento apenas o do nosso incansável Secretário-Geral, Professor Sebastião Tavares de Pinho, que lhes deu imprescindível apoio logístico em Portugal.

Iniciaremos hoje os nossos trabalhos com uma mesa-redonda plenária subordinada ao tema Colonialismo, pós-colonialismo, culturas de periferia. A Associação Internacional de Lusitanistas não pretende ser inócua perante os grandes problemas que confrontam as culturas da lusofonia. A nossa língua é, em termos da sua expansão universal, a terceira língua de origem europeia, vindo só a seguir à inglesa e à castelhana e antes da francesa. Mas as nossas culturas – todas elas, em maior ou menor grau – continuam a poder ser caracterizadas como periféricas.

Essa primeira sessão de trabalho será coordenada pelo primeiro escritor de língua portuguesa que conquistou o reconhecimento universal significado pelo Prémio Nobel de Literatura, José Saramago. Com ele estarão dois outros intelectuais – dois outros cidadãos não menos actuantes – cuja obra e cuja prática têm substantivamente contribuído para o equacionamento desta problemática fundamental: o brasileiro Sebastião Salgado e o português Boaventura de Sousa Santos. Estava previsto haver mais um participante nessa mesa-redonda. Mas a situação do seu país, na mais remota e sacrificada periferia do lusitanismo, impediu à última hora que pudesse realizar o seu desejo de nos vir falar. Refiro-me ao bispo de Timor, D. Ximenes Belo, que partilhou o Prémio Nobel da Paz em 1997 com outro heróico lutador pela causa de Timor, José Ramos Horta. E deste vamos receber uma mensagem que será divulgada antes do encerramento deste Congresso. A nossa mensagem para eles é que a universalidade lusitanista da sua causa é também a nossa.

Entre hoje e o dia de 13 de Agosto teremos a oportunidade de ouvir colegas oriundos de cerca de vinte países. Vários são professores vindos de países cuja língua não é a portuguesa; muitos são os jovens que contribuirão para consolidar o futuro do nosso comum lusitanismo; alguns são mestres consagrados, mestres de todos nós. Por exemplo, a primeira conferência, amanhã, no Forum da Ciência e Cultura da Universidade do Rio de Janeiro, será proferida por Antonio Candido; a última, no dia 13, na Universidade Federal Fluminense, por Eduardo Lourenço.

No congresso realizado em Oxford em 1996 – que havia sido até este o maior, com a presença de quase trezentos lusitanistas – assegurámos a participação de três escritores de língua portuguesa. Houve alguns problemas logísticos, começando com idióticas dificuldades burocráticas na obtenção do visto para entrar em Inglaterra do nosso colega Petetela que, nessas circunstâncias, naturalmente preferiu não ir, mas que está aqui presente. Em suma, não foi o que correu melhor nesse congresso aliás admiravelmente organizado e, em tudo o mais, inesquecível. Essa sessão com os escritores em Oxford acabou no entanto por se salvar graças à contribuição de José Cardoso Pires – do admirável escritor José Cardoso Pires – a quem quero aqui prestar saudoso tributo.

Disse eu por ocasião desse congresso em 1996 – na sessão de abertura correspondente a esta – que "a criatividade cultural – com todos os problemas relacionados ao seu exercício, divulgação e recepção – é afinal a principal razão de ser de associações como a nossa e de congressos como este". Por isso reincidimos – desistir nunca é o melhor modo de resolver os problemas – e reafirmámos o nosso propósito quintuplicando o número de escritores que participam em mesas-redondas plenárias neste nosso 6º Congresso: escritores de Angola – país cujo Embaixador no Brasil se fez representar nesta mesa pelo seu Conselheiro Cultural –, do Brasil, de Cabo Verde, de Moçambique e de Portugal. O prestígio dos seus nomes – que incluem alguns dos grandes nomes das nossas literaturas – e a qualidade das suas obras são o melhor testemunho da vitalidade das culturas de língua portuguesa aqui representadas.

Mas nem tudo será apenas sessões de trabalho durante o nosso congresso. Entre as várias actividades sociais programadas, permito-me salientar a recepção que tão generosamente nos será oferecida pelo Cônsul-Geral de Portugal no Rio de Janeiro – nosso generoso amigo hoje aqui presente a título próprio e também em representação do Embaixador de Portugal no Brasil –, o poeta Luís Filipe de Castro Mendes, no seu belo Palácio de São Clemente; e o recital de poesia que será feito por uma nossa convidada especial, a grande actriz portuguesa Maria do Céu Guerra, nesse precioso centro de cooperação cultural luso-brasileira que é o Real Gabinete Português de Leitura.

No contexto dos trabalhos do Congresso e, muito especialmente, após a sessão no Real Gabinete, serão lançados vários livros brasileiros, portugueses e africanos de ensaio, ficção e poesia. Já o disse: a criatividade cultural é a nossa razão de ser. E, também já o disse, será lançado o primeiro número de Veredas, a nova revista da Associação Internacional de Lusitanistas.

Mencionei há pouco que José Saramago coordenará a primeira mesa-redonda do Congresso, a seguir a esta sessão de abertura. E vou terminar com mais duas menções ao nosso prémio Nobel de literatura. Uma, é que as actividades do congresso culminrão, no dia 13, com o Doutoramento Honoris Causa que lhe será concedido pela Universidade Federal Fluminense. A outra inclui também uma homenagem ao Presidente da República de Portugal, Dr. Jorge Sampaio. Pois foi na pessoa de José Saramago – do escritor e do cidadão José Saramago – que Jorge Sampaio escolheu fazer-se representar oficialmente neste Congresso. Não poderia ter havido escolha mais eloquente por parte de quem quis assim simbolizar a universalidade das diversas culturas da nossa língua comum aqui reunidas neste Congresso de convergentes pluralidades. Peço-lhe portanto, José Saramago, que aceite e que transmita ao Senhor Presidente da República de Portugal o nosso profundo reconhecimento.

Professor Doutor Helder Macedo

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 



Alocução da Professora Doutora Cleonice Berardinelli,
Coordenadora do 6° Congresso da AIL

Completam-se, neste ano de 1999, nove anos de um outro colóquio, o 13o. Encontro de Professores Universitários Brasileiros de Literatura Portuguesa, organizado pelas mesmas duas universidades brasileiras, pela mesma equipe de docentes de Letras, constituída por duas professoras da UFRJ – Gilda Santos e Teresa Cristina Cerdeira da Silva – e uma da UFF – Laura Padilha – e coordenada por mim, que comecei por ser professora das três, passei a orientadora de suas teses e sou, há já bastante tempo, a colega e admiradora incondicional. Por sobre essa excelente relação intelectual há um envolvimento afetivo recíproco e marcado pela sinceridade, que facilita vivamente o trabalho em equipe, mesmo quando árduo, como aconteceu na realização dos dois encontros, neste muito mais do que naquele.

Em verdade, o número de inscrições que foram, em ritmo crescente, chegando-nos por correio, por fax, por e-mail, encantou-nos até que começou também a assustar-nos. Não porque não nos alegrasse saber que tantos eram os interessados em vir participar do debate de assuntos relativos às culturas lusófonas, mas porque uma das propriedades da matéria, como aprendemos na infância, é a impenetrabilidade, pela qual dois corpos não podem ocupar ao mesmo tempo o mesmo lugar no espaço. Ora, os locais condizentes com a importância do evento e capazes de dar aos participantes o conforto que merecem não sobejam em nossas instalações, quando o número dos mesmos se eleva a cerca de seiscentos. Fizemos o possível para abrigá-los razoavelmente bem; se nem sempre o conseguimos, começo por pedir que nos relevem as falhas.

Nos salões do Forum de Ciência e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro e nas salas de aula da Faculdade de Educação, situada no mesmo prédio, pudemos localizar as sessões de trabalho, com a aquiescência amiga dos colegas Afonso Carlos Marques dos Santos, diretor do Forum, e Francisco Cordeiro, diretor da Faculdade de Educação. Nosso maior problema era o espaço onde acolhê-los, prezados congressistas, no primeiro momento, isto é, na Sessão Inaugural. Vários problemas foram surgindo, até que, pela intermediação do Senhor Cônsul Geral de Portugal, Dr. Luís Filipe Castro Mendes, cujo apoio inestimável não nos faltou em nenhum momento, obtivemos do Senhor Secretário de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, que aqui se faz representar, esta excelente sala Cecília Meireles, à qual foi dado o nome da maior poetisa brasileira, que está, sem dúvida, entre os maiores poetas da língua portuguesa. É-me grato agradecer publicamente, Senhor Doutor Adriano de Aquino – em nome da Diretoria da AIL e da Comissão Organizadora – a oportunidade que nos dá de estarmos aqui neste espaço cultural da nossa cidade, dos mais categorizados que temos.

Tenho alternado – e continuarei a fazê-lo – o eu e o nós: o nós é a Comissão que coordeno; ao eu é dada a palavra para, em nome dela, falar, mas também em nome meu. Em nosso nome fiz o primeiro agradecimento. Agora sou eu a que deve agradecer e faço-o, comovida, às outras três componentes desta Comissão, por todo o esforço feito durante mais de um ano, em que, sobrecarregadas de tarefas que se sobrepunham às responsabilidades de rotina, procuraram sempre poupar-me das mais pesadas. Não quero dizer que não assumi múltiplos e alguns bastante dificeis encargos, mas que, ao longo destes mais de quatrocentos dias, fui, certamente, alvo de uma espécie de proteção por parte das queridas amigas. Declaro-lhes, aqui, minha gratidão pelo que fizeram e pelo que não me deixaram fazer.

Foram cerca de dois anos de planejamento e execução, em que as fases de trabalho se sucediam, quase sempre em acréscimos, mas também em substituições e até cancelamentos, quando nos parecia termos errado. Durante todo esse tempo, tivemos um apoio e uma colaboração contínuos, eficientes, uma atenção solícita e generosa que se estendia pelo dia afora e continuava pela noite, manifestando-se através de telefonemas e fax transoceânicos que nos traziam a voz sempre serena ou a letra caligráfica de nosso colega da Universidade de Coimbra Prof. Sebastião Tavares de Pinho, o incansável secretário da Associação Internacional de Lusitanistas. Para expressar-lhe o agradecimento a que faz jus, falo por nós. É claro que nossas decisões mais difíceis eram discutidas e decididas com o Prof. Helder Macedo, nosso colega da Universidade de Londres e Presidente da Comissão Executiva da AIL, afastado de nós espacialmente, como o colega de Coimbra, mas sempre atento e pronto a dar-nos a assistência e o conselho necessários, a traçar caminhos, a obter, com o prestígio de seu nome, os apoios indispensáveis à realização de um evento de tal monta. A ele também somos nós que agradecemos.

Como presidente da nossa Associação e em seu próprio nome, Helder Macedo manifestou o reconhecimento às instituições e personalidades que nos possibilitaram estar hoje aqui reunidos. Permitam que una a minha à sua voz, em nome da Comissão Organizadora deste 6o. Congresso. Permitam ainda que estenda a nossa mostra de gratidão às autoridades brasileiras, federais, estaduais, municipais e universitárias que comparecem a esta nossa Sessão Inaugural ou que nela se fazem representar e aos nossos convidados especiais que acederam a nosso apelo, vindo abrilhantar as nossas sessões de trabalho. Devo também transmirir-lhes, agradecendo-a, a mensagem do Prefeito da Cidade, Eng. Luís Paulo Conde, que, não podendo comparecer, deseja-nos sucesso no 6o. Congresso e pede-nos "o grande favor de tornar públicas, nesta sessão, suas boas-vindas aos congressistas e seus melhores votos de êxito em seus trabalhos." Outra mensagem nos chega, esta de Portugal, da Fundação Calouste Gulbenkian, da qual a Associação de Lusitanistas tem recebido generoso apoio desde o seu início. Lembrando-o, escreve-nos o Dr. José Blanco, membro do Conselho de Administração da Fundação, em nome desta e no seu próprio, palavras de apoio, das quais citamos: "A Fundação Calouste Gulbenkian apoiou agora o 6o. Congresso, certa como está que ele vai ser, como os que o precederam, extremamente frutuoso para o reforço e desenvolvimento dessa verdadeira identidade colectiva que une tantas pessoas de tão diversas origens e formações em volta do ideal comum do Lusitanismo."

Uma menção não quero deixar de fazer: é aos que aceitaram prazerosamente o nosso convite e não puderam vir por motivos inteiramente alheios à sua vontade, abrindo claros em nosso encontro. Cito, por exemplo, o grande mestre Óscar Lopes, dos maiores da cultura portuguesa, único remanescente de sua geração, em Portugal; Eduardo Prado Coelho, ensaísta dos mais agudos e sensíveis, da geração em plena maturidade; os escritores Mia Couto e Germano de Almeida, e um grande cidadão já citado por Helder Macedo: D. Ximenes, bispo de Timor Leste, a quem a Universidade Federal do Rio de Janeiro iria conferir o título de doutor honoris causa, cuja candidatura foi lançada pelo Setor de Literatura Portuguesa da Faculdade de Letras dessa Universidade e aprovada por unanimidade em todas as instâncias. Exprimo aqui, nesta ocasião, o desejo da Comissão Organizadora – que será, creio, o de todos os colegas – de que muito breve o Prêmio Nobel da Paz de 1996 possa vir ao Rio de Janeiro para receber a homenagem mais que merecida que lhe queremos prestar.

Sem querer alongar-me, quero apenas acrescentar algumas palavras, lembrando as que dirigi aos que estavam presentes na Sessão de Abertura daquele Encontro de que lhes falei ao princípio desta breve fala. Lá começava eu por dizer que estávamos num encontro de colegas e punha-me a decompor a palavra em seus elementos: o verbo lego, polissêmico; o prefixo-preposição cum(com), acentuando neste o sentido de aproximação. Aqui, hoje, estamos iniciando um congresso – cá está o mesmo prefixo, com o mesmo sentido, a iniciar uma outra palavra, já existente no latim como substantivo oriundo do particípio passado congressus, de congredi, de gradus, passo. No Dicionário Etimológico de Antenor Nascentes, alem das definições "encontro, entrevista", há esta que prefiro: "convergência de passos". Prefiro-a para definir este nosso encontro que hoje se inicia: não apenas estamos reunidos, mas caminhamos para reunir-nos, uns de mais longe, outros de mais perto. Os passos são a expressão dinâmica da nossa vontade de vir e – quem sabe? – na nossa avaliação, como dizia o Padre António Vieira em seu luminoso Sermão da Sexagésima, hão-nos de contar os passos? Não passos divergentes, mas convergentes, concertantes.

E vem-me à memória o poeta máximo da língua, sempre à busca do concerto das coisas, das gentes, da vida. Onde buscá-lo neste fim de século em que parece reinar o desconcerto? Tentemos, de nossa parte, encontrá-lo no convívio deste congresso, onde se debaterão temas, onde se apresentarão posições consoantes ou dissonantes, sempre dentro de um clima de coleguismo, respeito mútuo e compreensão. Assim, começaremos por uma sessão em que, guardadas as diferenças pessoais e, possivelmente, os diversos pontos de vista dos seus três participantes, haverá, grosso modo, concerto de vozes. Logo após, satisfeitas nossas inteligências, calar-se-ão as vozes nesta sala feita especialmente para se escutar música, a fim de que se ouçam os instrumentos do quarteto de cordas, completado pelo cravo eximiamente dedilhado por Marcelo Fagerlande, diretor do grupo, que nos irá oferecer um concerto de música portuguesa do século XVIII. Com um concerto, pois, na sua mais plena significação, encerraremos esta sessão de abertura do 6o. Congresso da Associação Internacionl de Lusitanistas. Sejam benvindos à nossa cidade.
 

Cleonice Berardinelli

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Mensagem do Excelentíssimo Senhor José Ramos Horta,
Vice-Presidente do Conselho Nacional de Resistência Timorense
e Prêmio Nobel da Paz de 1996, aos Congressistas do 6º Congresso da AIL

Caros Congressistas,

Desejo, em nome do Conselho Nacional da Resistência Timorense e em meu próprio, saudar os ilustres congressistas da Associação Nacional de Lusitanistas.

Em 1964, na França, esta Associação Internacional foi fundada, tendo como objectivos o reforço da língua e da cooperação entre os seus falantes. Hoje somos duzentos milhões. Nós somos uma Pátria que compartilha convosco quinhentos anos de História e brevemente celebraremos juntos os quinhentos anos do primeiro contacto entre Portugal e o Brasil.

Caros Congressistas,

Colocado entre dois gigantes, a Austrália e a Indonésia, Timor-Leste é um pequeno território onde a cultura e a língua portuguesas ganharam raízes e contribuíram decisivamente para a construção de uma Identidade Nacional.

Durante os vinte e três anos de ocupação por um poderoso inimigo, a Indonésia, a religião católica e a língua portuguesa ajudaram a moldar a resistência tenaz que o meu Povo moveu contra o agressor e ocupante. Ao longo destas décadas de ocupação em que um autêntico genocídio teve lugar – mais de duzentos mil filhos de Timor-Leste foram barbaramente mortos – os resistentes exprimiram-se em português. É oportuno salientar que as primeiras manifestações de Solidariedade para com Timor-Leste falavam em português, abraçavam-nos em português.

Permitam-me, ainda, que vos recorde o massacre de Santa Cruz, em que quase três centenas de jovens doaram as suas vidas e o facto de, naquela hora de extrema aflição, murmurarem preces em português. Santa Cruz revelou o carácter irreversível da dinâmica libertadora timorense e foi um verdadeiro ponto de viragem no comportamento da comunidade internacional para com a causa do Povo de Timor-Leste.

Foi esta resistência que tornou possível o Acordo de 5 de Maio, em Nova Iorque, no qual, pela primeira vez, a Indonésia reconhece ao Povo de Timor-Leste o direito a escolher o seu próprio futuro.

Assim, no dia 30 de Agosto, irá ter lugar a consulta popular e nela teremos a oportunidade de tornarmo-nos no oitavo país de língua portuguesa. Hoje, o Conselho Nacional de Resistência Timorense já tem o estatuto de observador na Comunidade de Países de Língua Portuguesa.

Caros Congressistas,

Nestes momentos exaltantes que vivemos, estou convencido que a comunidade lusófono partilhará os múltiplos desafios que o futuro nos coloca.

Em primeiro lugar, a reintrodução da língua portuguesa como instrumento de afirmação da nossa identidade e de consolidação do nosso sentimento de pertença a uma comunidade vasta que é aquela que se exprime em português.

Nós temos todas as condições para erradicar a pobreza e o subdesenvolvimento. No entanto, o desenvolvimento só será possível numa cultura de paz. Porque entendemos a Paz como o bem mais precioso, encetamos uma política de reconciliação que se alicerça no diálogo e, em particular, com aqueles que colaboraram activamente com o ocupante. Estamos decididamente empenhados em contribuir para a paz e estabilidade na região.

Caros Congressistas,

Quero terminar destacando o homem de paz e o arquitecto da política de reconciliação que é Xanana Gusmão, o Presidente do Conselho Nacional de Resistência Timorense. Este homem que é também um poeta da língua portuguesa ainda está preso. Conto com a Vossa solidariedade na indispensável libertação de Xanana Gusmão, de modo a que a sua contribuição a causa da paz e da liberdade seja ainda mais vigorosa.

Desejo-vos, prezados Congressistas, sucessos neste Congresso.

Timor Leste, julho de 1999
José Ramos Horta

 

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