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Alocução ao Sexto Congresso da
Associação Internacional de Lusitanistas

 
Helder Macedo
Universidade de Londres - King's College

Esta é a primeira vez que a Associação Internacional de Lusitanistas realiza o seu congresso trienal fora da Europa. É também o seu maior congresso. Creio mesmo que é o maior evento inter-universitário alguma vez realizado em língua portuguesa. Cerca de seiscentos participantes vão fazer comunicações, conferências, mesas-redondas. Prevê-se que o público que assistirá às múltiplas sessões de trabalho seja da ordem das mil pessoas.

A Associação foi fundada em Poitiers, em 1984, pelo Professor R. A. Lawton. Era um projecto ambicioso mas precário – que atraiu mais desconfiança do que estímulos – com um destino incerto. Lembro-me de ter estado no 2Ί Congresso, em 1987, também numa cidade europeia de província, Leeds. Éramos ao todo não mais do que uns trinta participantes. Foi agradável, deu para partilhar um bom whisky duty-free e ficarmos mais amigos uns dos outros. Mas não deu para grandes esperanças no futuro. Hoje estamos no Rio de Janeiro e somos muitos.

E muitos houve que não puderam vir. Temos actualmente membros em trinta e cinco países de todos os continentes. Não só, portanto, nos sete países de língua oficial portuguesa mas também em vinte e oito países de outras línguas e culturas onde se estudam as diversas disciplinas relacionadas com as culturas lusófonas. Quere isto igualmente dizer que não representamos qualquer país, mas que somos representantivos de uma multifacetada cultura universal que tem como base a língua portuguesa.

É dentro desse espírito que temos vindo a colaborar com várias instituições nacionais que trabalham para as várias culturas de língua portuguesa, que temos merecido a sua confiança e beneficiado do seu apoio. É o caso do Protocolo que estabelecemos com o Instituto Camões em Portugal, sem dúvida o exemplo mais significativo. Por isso é-me particularmente grato assinalar que o Professor Jorge Couto, Presidente do Instituto Camões, nos quis honrar com a sua presença neste congresso não só enquanto representante do Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal mas também a título próprio.

Em Portugal temos também um Protocolo com a Universidade Aberta e vamos assinar, no decurso deste congresso, um Protocolo com a Biblioteca Nacional de Lisboa. Ambas as iniciativas se devem ao Professor Carlos Reis, a primeira quando Pró-Reitor da Universidade Aberta, a segunda como Director da Biblioteca Nacional. Acresce que Carlos Reis é também um membro do nossa direcção, actualmente o 2Ί Vice-Presidente da Comissão Executiva. Está portanto na posição ideal para avaliar, com conhecimento de causa, as vantagens recíprocas desses protocolos para essas instituições e para a Associação Internacional de Lusitanistas.

Vai ser lançado, no contexto deste congresso, o primeiro volume da revista da Associação, a que demos o nome de Veredas, cujas conotações brasileiras naturalmente não nos escaparam. É um projecto ambicioso e cuja necessidade desde há muito se fazia sentir, mas que só pôde ser realizado graças a um Protocolo estabelecido com a Fundação EngΊ António de Almeida, no Porto, que assumiu todas as despesas de impressão e de distribuição da nossa revista. Veredas não é apenas mais uma revista, uma revista como as outras, melhores ou piores. Pelas suas características internacionais – pelos leitores e colaboradores plurinacionais a que se dirige e que visa publicar –, é uma revista única em língua portuguesa. É, em suma, a plataforma internacional que faltava para os estudos das culturas de língua portuguesa. Muitos dos nossos membros trabalham isolados, quando não submersos em departamentos universitários onde o português tem um estatuto subsidiário de outras disciplinas. A nossa revista permitirá que todos nós, em conjunto, possamos demarcar um amplo território cultural que manifeste a universalidade das nossas culturas nos termos das suas identidades específicas.

Há outras entidades e instituições portuguesas às quais o nosso reconhecimento é devido, e todas elas vêm mencionadas nos programas do Congresso. Mas menção especial deve feita à Fundação Calouste Gulbenkian – e em particular ao Administrador do Serviço Internacional, Dr. José Blanco – que, tal como o Instituto Camões, contribuiu muito substancialmente para a realização deste congresso; e ao Conselheiro Cultural de Portugal no Brasil, Dr. Rui Rasquilho, que desde a primeira hora se manifestou como nosso incondicional aliado. Quanto a instituições brasileiras, sem prejuízo do reconhecimento devido às outras entidades também especificadas nos programas do Congresso – começando por não esquecer que estamos nesta sala graças à boa vontade do Secretário de Cultura do Estado do Rio de Janeiro –,quero mencionar aqui as importantes contribuições que nos foram facultadas pela CAPES, pelo CNPq e pela FAPERJ.

A localização do Congresso fora da Europa e, especificamente, no Brasil visa, por um lado, a assinalar o crescente carácter pluricontinental da Associação e, por outro, a prestar homenagem ao país com o maior número de falantes da língua portuguesa no momento em que este se prepara para comemorar o seu quinto centenário. Pode assim dizer-se que nós é que iniciámos a grande festa brasileira anunciada para o ano 2000.

O Congresso representa um gigantesco esforço conjunto de duas das mais importantes universidades do Brasil, a Universidade Federal do Rio de Janeiro e a Universidade Federal Fluminense às quais testemunho aqui o nosso reconhecimento: à UFF, na pessoa do seu Magnífico-Reitor, Professor Cícero Mauro Fialho Rodrigues, à UFRJ, através do representante do seu Reitor. E a honrosa presença, nesta sessão de abertura, do Ministro da Cultura do Brasil, Dr. Francisco Weffort – em representação do Senhor Presidente da República do Brasil e a título próprio – bem como dos representantes do Monistro da Educação e do Ministro das Relações Exteriores, aliás, desde logo, testemunham, ao mais alto nível, a justa importância que o Brasil está dando a este evento.

Mas o nosso Congresso é também, e sobretudo, um testemunho pessoal da energia, da capacidade e da perene juventude da sua Coordenadora, Professora Cleonice Berardinelli. Quando, em 1993, me foi proposto no Congresso de Hamburgo que aceitasse ser candidato à presidência da AIL, pus como única condição que Cleonice Berardinelli aceitasse o cargo de 1ͺ Vice-Presidente. E quando fui proposto para reeleição, em Oxford, em 1996, aceitei com a mesma condição. Mas fiz pior, para o bem de todos nós: persuadi-a a que coordenasse este Congresso, o último em que ela será a ilustre 1ͺ Vice-Presidente da Associação e eu o seu grato e devedor Presidente, já que nenhum de nós aceitará nova comissão de serviço. O tributo que é devido a Cleonice Berardinelli inclui também, evidentemente, uma justa homenagem às suas colaboradoras na organização do Congresso, professoras Gilda Santos, Laura Cavalcante Padilha e Teresa Cristina Cerdeira. São também queridas amigas minhas. Mas sei que nem por mim, bons amigos como somos – que só por Cleonice –, teriam feito o que fizeram. Ao nome delas acrescento apenas o do nosso incansável Secretário-Geral, Professor Sebastião Tavares de Pinho, que lhes deu imprescindível apoio logístico em Portugal.

Iniciaremos hoje os nossos trabalhos com uma mesa-redonda plenária subordinada ao tema Colonialismo, pós-colonialismo, culturas de periferia. A Associação Internacional de Lusitanistas não pretende ser inócua perante os grandes problemas que confrontam as culturas da lusofonia. A nossa língua é, em termos da sua expansão universal, a terceira língua de origem europeia, vindo só a seguir à inglesa e à castelhana e antes da francesa. Mas as nossas culturas – todas elas, em maior ou menor grau – continuam a poder ser caracterizadas como periféricas.

Essa primeira sessão de trabalho será coordenada pelo primeiro escritor de língua portuguesa que conquistou o reconhecimento universal significado pelo Prémio Nobel de Literatura, José Saramago. Com ele estarão dois outros intelectuais – dois outros cidadãos não menos actuantes – cuja obra e cuja prática têm substantivamente contribuído para o equacionamento desta problemática fundamental: o brasileiro Sebastião Salgado e o português Boaventura de Sousa Santos. Estava previsto haver mais um participante nessa mesa-redonda. Mas a situação do seu país, na mais remota e sacrificada periferia do lusitanismo, impediu à última hora que pudesse realizar o seu desejo de nos vir falar. Refiro-me ao bispo de Timor, D. Ximenes Belo, que partilhou o Prémio Nobel da Paz em 1997 com outro heróico lutador pela causa de Timor, José Ramos Horta. E deste vamos receber uma mensagem que será divulgada antes do encerramento deste Congresso. A nossa mensagem para eles é que a universalidade lusitanista da sua causa é também a nossa.

Entre hoje e o dia de 13 de Agosto teremos a oportunidade de ouvir colegas oriundos de cerca de vinte países. Vários são professores vindos de países cuja língua não é a portuguesa; muitos são os jovens que contribuirão para consolidar o futuro do nosso comum lusitanismo; alguns são mestres consagrados, mestres de todos nós. Por exemplo, a primeira conferência, amanhã, no Forum da Ciência e Cultura da Universidade do Rio de Janeiro, será proferida por Antonio Candido; a última, no dia 13, na Universidade Federal Fluminense, por Eduardo Lourenço.

No congresso realizado em Oxford em 1996 – que havia sido até este o maior, com a presença de quase trezentos lusitanistas – assegurámos a participação de três escritores de língua portuguesa. Houve alguns problemas logísticos, começando com idióticas dificuldades burocráticas na obtenção do visto para entrar em Inglaterra do nosso colega Petetela que, nessas circunstâncias, naturalmente preferiu não ir, mas que está aqui presente. Em suma, não foi o que correu melhor nesse congresso aliás admiravelmente organizado e, em tudo o mais, inesquecível. Essa sessão com os escritores em Oxford acabou no entanto por se salvar graças à contribuição de José Cardoso Pires – do admirável escritor José Cardoso Pires – a quem quero aqui prestar saudoso tributo.

Disse eu por ocasião desse congresso em 1996 – na sessão de abertura correspondente a esta – que "a criatividade cultural – com todos os problemas relacionados ao seu exercício, divulgação e recepção – é afinal a principal razão de ser de associações como a nossa e de congressos como este". Por isso reincidimos – desistir nunca é o melhor modo de resolver os problemas – e reafirmámos o nosso propósito quintuplicando o número de escritores que participam em mesas-redondas plenárias neste nosso 6Ί Congresso: escritores de Angola – país cujo Embaixador no Brasil se fez representar nesta mesa pelo seu Conselheiro Cultural –, do Brasil, de Cabo Verde, de Moçambique e de Portugal. O prestígio dos seus nomes – que incluem alguns dos grandes nomes das nossas literaturas – e a qualidade das suas obras são o melhor testemunho da vitalidade das culturas de língua portuguesa aqui representadas.

Mas nem tudo será apenas sessões de trabalho durante o nosso congresso. Entre as várias actividades sociais programadas, permito-me salientar a recepção que tão generosamente nos será oferecida pelo Cônsul-Geral de Portugal no Rio de Janeiro – nosso generoso amigo hoje aqui presente a título próprio e também em representação do Embaixador de Portugal no Brasil –, o poeta Luís Filipe de Castro Mendes, no seu belo Palácio de São Clemente; e o recital de poesia que será feito por uma nossa convidada especial, a grande actriz portuguesa Maria do Céu Guerra, nesse precioso centro de cooperação cultural luso-brasileira que é o Real Gabinete Português de Leitura.

No contexto dos trabalhos do Congresso e, muito especialmente, após a sessão no Real Gabinete, serão lançados vários livros brasileiros, portugueses e africanos de ensaio, ficção e poesia. Já o disse: a criatividade cultural é a nossa razão de ser. E, também já o disse, será lançado o primeiro número de Veredas, a nova revista da Associação Internacional de Lusitanistas.

Mencionei há pouco que José Saramago coordenará a primeira mesa-redonda do Congresso, a seguir a esta sessão de abertura. E vou terminar com mais duas menções ao nosso prémio Nobel de literatura. Uma, é que as actividades do congresso culminrão, no dia 13, com o Doutoramento Honoris Causa que lhe será concedido pela Universidade Federal Fluminense. A outra inclui também uma homenagem ao Presidente da República de Portugal, Dr. Jorge Sampaio. Pois foi na pessoa de José Saramago – do escritor e do cidadão José Saramago – que Jorge Sampaio escolheu fazer-se representar oficialmente neste Congresso. Não poderia ter havido escolha mais eloquente por parte de quem quis assim simbolizar a universalidade das diversas culturas da nossa língua comum aqui reunidas neste Congresso de convergentes pluralidades. Peço-lhe portanto, José Saramago, que aceite e que transmita ao Senhor Presidente da República de Portugal o nosso profundo reconhecimento.

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