ATO V
(Quarto de dormir de Margarida. Leito ao fundo; cortinados entreabertos; diante da lareira, um canapé onde Gastão está deitado. Luz de lamparina. Piano, junto à lareira porta à esquerda).
CENA I
(Margarida dormindo; Gastão) .
GASTÃO — (Levantando a cabeça). Passei pelo sono... será que enquanto isso ela não chamou ninguém? (Ouve). Não. Está dormindo... Que horas são? 7 horas... ainda está escuro... vou acender o fogo. (Atiça o fogo).
MARGARIDA — (Acordando). Nanine.
GASTÃO — Já vai, Margarida.
MARGARIDA — (Levantando a cabeça). Quem está aí?
GASTÃO — (Preparando uma xícara de poção). Sou eu, Gastão... água.
MARGARIDA — O que você está fazendo aqui?
GASTÃO — (Dando-lhe de beber). Beba, primeiro depois eu digo. Está bom de açúcar?
MARGARIDA — (Dando-lhe esta).
GASTÃO — Eu nasci para enfermeiro.
MARGARIDA — Que é de Nanine?
GASTÃO — Está dormindo. Ontem de noite quando vim saber de você, a coitada não se agüentava mais de cansaço; eu, ao contrário, estava lépido. Você já estava dormindo... Então mandei Nanine se deitar. Me recortei perto do fogo e passei muito bem a noite vendo você dormir. O seu sono me fêz bem. Então, como e que está se sentindo hoje?
MARGARIDA — Bem... Mas coitado de você, Gastão... se cansando à toa...
GASTÃO — Coitado nada... Vivo perdendo as noites em bailes, por que não podia perder algumas velando um doente? Depois, eu precisava falar com você.
MARGARIDA — O que tem para me dizer?
GASTÃO — Você está em aparo?
MARGARIDA — Como, em apuro?
GASTÃO — Precisando de dinheiro... Parece que não há muito na casa, e é preciso que haja algum. Eu também, não tenho grande coisa. Não é pouco o que tenho perdido no jôgo e fiz um mundo de compras inúteis, para o primeiro do ano. (Beijando-a). E que êle te traga saúde e felicidade, é o que desejo. Enfim ainda me sobraram uns 400 francos, que vou pôr ali naquela gaveta. Quando não houver mais nada, sempre haverá um pouco.
MARGARIDA — (Comovida). É um anjo! E dizer que é você que está cuidando de mim, se preocupando por minha causa... você um desmiolado, como todos te chamam... você que nunca foi mais do que um amigo...
GASTÃO — É sempre assim... E agora, sabe o que vamos fazer?
MARGARIDA — O que?
GASTÃO — Está fazendo um dia lindo hoje... você dormiu oito horas em seguida e ainda vai dormir um pouco... Da uma às três, quando o sol estiver bem quente, eu venho te buscar, você se agasalha bem e nós vamos dar uma volta de carro. E depois, quem é que vai dormir a noite inteira Margarida? Enquanto isso, vou fazer uma visita à minha mãe, que vai me receber, sabe Deus como! — há mais de quinze dias que não a vejo! Almoço com ela, dou-lhe um beijo e à uma em ponto estou de volta. Está bem?
MARGARIDA — Vou ver se tenho fôrças.
GASTÃO —Tem sim. Está com muito boa aparência (Entra Nanine). Pode entrar Nanine. Margarida já acordou.
CENA II
(Os mesmos, Nanine).
MARGARIDA — Estava muito cansada, Nanine?
NANINE — Um pouco, sim senhora.
MARGARIDA — Abra a janela para entrar um pouco de luz. Quero me levantar.
NANINE — (Abrindo a janela e olhando a rua). O doutor está aí.
MARGARIDA — Coitado!... A primeira visita é sempre minha. Gastão, quando você sair deixe a porta aberta... Nanine, me ajude a levantar.
NANINE — Mas...
MARGARIDA — Eu quero.
GASTÃO — Então, até já, Margarida.
MARGARIDA — Até já, Gastão. (Antes de sair, Gastão ajeita os travesseiros no canapé, para Margarida deitar. Ela tenta se levantar e torna a cair. Enfim, apoiada em Nanine, vai até o canapé; o médico entra a tempo, para ajudá-la a sentar).
CENA III
(Margarida, Nanine, o Médico) .
MARGARIDA — Bom dia, doutor. Como o senhor é bom de estar pensando em mim desde cedo!... Nanine, vá ver se chegou alguma carta.
O MÉDICO — Me dê sua mão. (Pega a mão de Margarida). Como está se sentido?
MARGARIDA — Bem e mal! Bem de espírito, mal de corpo. Ontem de noite tive tanto mêdo de morrer que mandei buscar um padre... Que grande coisa é a religião! Eu estava triste, desesperada, com mêdo da morte... êle entrou, conversou comigo uma hora e carregou tudo, a tristeza, o desespêro, o rêmorso, o pavor. Então eu dormi e estou acordando agora.
O MÉDICO — Tudo vai indo muito bem, minha filha. Prometo que estará convalescendo, assim que a primavera chegar.
MARGARIDA — Obrigada pela promessa, doutor. Quando Deus disse que mentir era pecado, estava abrindo uma exceção para os médicos. É o seu dever mentir! (A Nanine que entra). O que você traz aí Nanine ?
NANINE — Uns presentes.
MARGARIDA — Ah É verdade, hoje é dia de ano bom. Quanta coisa, desde o ano passado! Há um ano atrás, a essa hora, estávamos à mesa, cantando... e saudávamos o ano nôvo com o mesmo sorriso com que nos despedíamos do ano velho. Lá se foi o tempo em que nós ainda sorríamos, doutor... (Abrindo os pacotes). Um anel com o cartão de Saint-Gaudens. Que boa alma! Um bracelete, com um cartão de Londres, do conde de Giray. O que diria se me visse neste estado! Bombons... Então os homens não são tão esquecidos como eu pensava! Tem uma irmãzinha, não tem doutor ?
O MÉDICO — Tenho, sim senhora.
MARGARIDA — Leve êsses bombons para ela... Há tanto tempo que não os provo. (À Nanine). E só isso?
NANINE — E uma carta.
MARGARIDA — De quem será? (Pegando a carta e lendo). "Minha boa Margarida. — Estive em sua casa mais de vinte vêzes, sem conseguir vê-la. No entanto, não quero que falte ao ato mais importante de minha vida: caso-me no dia l.° de janeiro. Era êsse o presente de festas que Gustavo me reservava. Espero vê-la entre os raros convidados à cerimônia... cerimônia muito simples e modesta, que terá lugar às 9 horas da manhã, na capela de Sta. Tereza, na Igreja de Madalena. Beijo
a com tôda a alegria de um coração feliz — Nichette". Então a felicidade existe para todos, menos para mim! Que é isso, eu sou uma ingrata! — Doutor feche a janela que estou sentindo frio. E me dê um papel — quero escrever. Por favor, me deixe gastar com aquêles que eu amo, os poucos momentos que ainda tenho de vida. (Esconde o rosto nas mãos. O médico põe o tinteiro na lareira e lhe da um bloco).
NANINE — (Baixo ao Médico). Então, doutor?
O MÉDICO — (Sacudindo a cabeça). Está muito mal!
MARGARIDA — Doutor, quando sair faça o favor de deixar esta carta na igreja em que Nichette vai se casar; mas recomende que só lhe entreguem depois da cerimônia... (Escreve, dobra a carta e põe no envelope). Pronto; muito obrigada. (Aperta-lhe a mão). Não se esqueça; e se puder... volte logo. (O médico sai).
CENA IV
(Margarida e Nanine).
MARGARIDA — Agora, ponha um pouco de ordem no quarto. (Tocam a campainha). Vá abrir, Nanine, estão tocando. (Nanine sai).
NANINE — (Entrando). É a sra. Duvernoy.
MARGARIDA — Mande-a entrar.
CENA V
(Os mesmos, Prudência).
PRUDÊNCIA — Então, Margarida, como vai passando hoje ?
MARGARIDA — Bem, Prudência — muito obrigada.
PRUDÊNCIA — Mande Nanine sair um instante; preciso falar à sós com você.
MARGARIDA — Nanine, é melhor arrumar primeiro o outro quarto; se precisar de você, eu chamo... (Nanine sai).
PRUDÊNCIA — Quero lhe pedir um favor, Margarida.
MARGARIDA — Que favor?
PRUDÊNCIA — Tem dinheiro à mão?
MARGARIDA — ultimamente ando meio atrapalhada, mas enfim, diga...
PRUDÊNCIA — É que hoje é dia de ano bom e eu queria fazer umas compras... Estou precisando com urgência de uns 200 francos. Será que você podia me emprestar até o fim do mês?
MARGARIDA — Até o fim do mês!
PRUDÊNCIA — Se não puder...
MARGARIDA — Eu ia precisar dêsse dinheiro...
PRUDÊNCIA — Então não faz mal.
MARGARIDA — Que importa! Abra a gaveta... quanto tem aí...
PRUDÊNCIA — 500 francos.
MARGARIDA — Então, tire os 200 francos que está precisando.
PRUDÊNCIA — E você? Não vai lhe fazer falta?
MARGARIDA — Não, eu me arranjo com o resto. Não se preocupe comigo.
PRUDÊNCIA — (Pegando o dinheiro). Ah! Está me prestando um servição.
MARGARIDA — Antes assim, Prudência... Antes assim.
PRUDÊNCIA — Já vou indo... Venho vê-la a qualquer hora... Você está com melhor aspecto.
MARGARIDA — É... estou melhor.
PRUDÊNCIA — Os dias bonitos já estão chegando... o ar do campo vai acabar de curá-la.
MARGARIDA — Isso mesmo.
PRUDÊNCIA — Muito obrigada, outra vez.
MARGARIDA — Me mande Nanine.
PRUDÊNCIA — Sei. ( Sai).
MARGARIDA — Algumas esperanças por 200 francos.
NANINE — (Entrando). Veio pedir dinheiro outra vez ?
MARGARIDA — Veio.
NANINE — E a senhora deu?
MARGARIDA — De que me vale o dinheiro? E ela disse que precisava tanto! De fato, sem êle não podemos viver e hoje ainda temos os presentes de festas... Pegue êsse bracelete que acabam de me mandar. Vá vendê-lo e volte logo.
NANINE — Mas enquanto isso...
MARGARIDA — Eu posso ficar só, não preciso de nada. Depois, você não vai demorar, há três meses que já conhece o caminho do penhor. (Nanine sai).
CENA VI
MARGARIDA — (Lendo uma carta que tira do seio). "Minha senhora. Soube por terceiro do duelo entre Armando e o barão de Varville, pois meu filho partiu sem ao menos vir me pedir a bênção. Confesso que ousei acusá-la dêsse duelo e dessa fuga. Felizmente já estou a par de tudo e Artur de Varville não corre mais perigo. A senhora cumpriu sua promessa além do que permitiam as suas fôrças e todos êsses reveses abalaram a sua saúde. Escrevi a Armando contando-lhe a verdade. Êle está bem longe mas há de voltar para pedir perdão, por êle e por mim, pois quero reparar o dano que fui forçado a lhe causar. Cuide de sua saúde, minha filha, e espere confiante. Sua coragem e sua abnegação tornaram na digna de um futuro melhor que, prometo, ainda há de alcançar. Por enquanto, receba os protestos de grande simpatia, estima e consideração, de Jorge Duval". Há 6 semanas que êle me escreveu e que eu leio esta carta, sem parar, para ver se me encorajo um pouco. Se ao menos Armando me escrevesse. Se eu pudesse esperar a primavera! (Ela se levanta e olha no espelho). Como estou mudada! No entanto, o médico prometeu que vai me curar. É preciso paciência. Mas ainda há pouco, falando com Nanine, não me condenou ? Disse que estou mal, eu ouvi. Muito mal! Ainda é uma esperança, ainda são alguns meses de vida, e se enquanto isso Armando chegasse, eu estaria salva. É o mínimo que se pode esperar no primeiro dia do ano. Depois, estou em meu juízo perfeito. Se eu estivesse em perigo de vida, Gastão não teria coragem de rir, como ainda a pouco à minha cabeceira. O médico não me deixaria. (Na janela). Quanta alegria pelas casas! Olhe aquêle menino rindo e cambaleando ao pêso dos brinquedos; se pudesse eu o beijava.
NANINE — (Entra, deixa o dinheiro em cima da lareira e vem até Margarida). A senhora...
MARGARIDA — O que é, Nanine?
NANINE — Está se sentido melhor, hoje?
MARGARIDA — Estou, por que?
NANINE — Então, prometa que vai ficar calma.
MARGARIDA — Mas o que foi?
NANINE — Quis primeiro prevenir a senhora... quando a gente não espera é difícil suportar uma alegria!
MARGARIDA — Você disse uma alegria? — Armando! Você viu Armando? Armando veio me ver! (Nanine faz que sim com a cabeça. Margarida corre até a porta). Armando! (Êle aparece, muito pálido. Ela se atira ao seu pescoço, se aperta contra ele). Não é você! Não é possível que Deus seja tão bom, tão misericordioso.
ARMANDO — Sou eu, Margarida, eu mesmo, tão arrependido, tão culpado, que nem tinha coragem de cruzar a sua porta. Se não tivesse encontrado Nanine teria ficado na rua. Margarida, não me amaldiçoe! Meu pai me escreveu. Eu estava bem longe, sem saber para onde ir, fugindo do meu amor e do meu remorso... Parti como um louco, viajando noite e dia, sem trégua, sem sono, sem repouso, perseguido por pressentimentos sinistros... vendo de longe a casa coberta de lato... Se eu não tivesse te encontrado eu morreria, pois teria sido o culpado de sua morte... Ainda não estive com meu pai. Diga que nos perdoa, Margarida, a nós dois. Como é bom te ver de nôvo.
MARGARIDA — Te perdoar, querido ? Fui eu a culpada... Mas não podia ter feito outra coisa. Queria a sua felicidade, mesmo a custa da minha... Agora seu pai não vai mais nos separar... Não é a mesma Margarida que você está encontrando, mas ainda sou môça e voltarei a ser bonita, pois sou tão feliz! Vamos esquecer tudo... De hoje em diante, começaremos a viver...
ARMANDO — Nunca mais hei de te deixar... Nunca mais havemos de voltar a Paris... Agora meu pai já sabe o quanto você vale... Vai te amar como o anjo bom de seu filho. Minha irmã está casada. O futuro nos pertence...
MARGARIDA — Fale... fale... Suas palavras me dão outra vida, seu amor me devolve as fôrças... Eu estava dizendo, hoje cedo, que só uma coisa! podia me salvar... Mas não pensei que pudesse acontecer! Não devemos perder mais tempo e como a vida me escapa entre os dedos, vou prendê-la na mão... Sabe? Nichette vai casar... com Gustavo, agora cedo... Vamos vê-la... Vai ser bom entrar na igreja, fazer uma oração e assistir à felicidade dos outros... Que surprêsa que estava me reservando a Providência para o dia de ano bom! Diga que me ama ainda uma vez.
ARMANDO — Eu te amo, querida, e hei de te amar a vida inteira.
MARGARIDA — Nanine, eu quero me aprontar para sair.
ARMANDO — Você tomou bem conta dela Nanine! Obrigado.
MARGARIDA — Falávamos em você todos os dias — só nós duas; pois ninguém mais tinha coragem de pronunciar o seu nome. Ela me consolava, dizendo que você ia voltar... E não mentia... Você andou correndo o mundo... Agora partiremos juntos...
ARMANDO — Que é isso, Margarida, está tão pálida!...
MARGARIDA — Não é nada querido. É a felicidade que não pode entrar de repente num coração desolado... sem sufocar um pouco... As vêzes a alegria dói tanto como a dor. (Senta-se e atira a cabeça para trás).
ARMANDO — Meu Deus! Por favor, Margarida! Fale!
MARGARIDA — Não se assuste, querido; sempre fui sujeita a essas vertigens. Passam depressa: olhe estou sorrindo. Pronto já passou! É a alegria de viver que me embriaga!
ARMANDO — Está tremendo!
MARGARIDA — Não é nada, não! Me dê um xale, Nanine, um chapéu...
ARMANDO — (Assustado). Meu Deus! Meu Deus!
MARGARIDA — ( Tirando o xale, com desespêro depois de ter experimentado sair). Oh! Não posso! (Cai sôbre o canapé).
ARMANDO — Corra buscar o médico, Nanine.
MARGARIDA — Isso, depressa! Diga-lhe que Armando voltou e que eu quero viver, que eu preciso viver... (Nanine sai). Se sua volta não me salvou, o que irá me salvar? Mais cedo ou mais tarde aquilo que foi a nossa vida acaba nos matando. Eu vivi de amor — estou morrendo de amor.
ARMANDO — Não foi para te perder de nôvo que Deus quis que eu te encontrasse, Margarida... Você vai viver, é preciso.
MARGARIDA — Sente aqui, perto de mim... o mais perto que puder e preste atenção... Ainda há pouco tive um momento de raiva contra a morte. Estou arrependida, ela é necessária. E generosa pois esperou a sua chegada para me levar. Se minha morte não fôsse certa, seu pai não teria pedido a sua volta.
ARMANDO — Não fale mais assim, Margarida, eu acabo enlouquecendo... Não diga mais que vai morrer, diga que você não acredita... que não pode ser... que você não quer morrer!
MARGARIDA — Mesmo que eu não quisesse, teria de me conformar, querido, é a vontade de Deus. Se eu fôsse uma môça direita, se em mim tudo fosse puro, talvez ainda chorasse à idéia de te deixar neste mundo. Se eu morrer, a imagem que você guardar de mim será pura; se eu viver sempre haverá manchas em nosso amor... Creia, tudo que Deus faz é bem feito.
ARMANDO — (Levantando-se). Ah! E demais!
MARGARIDA — (Detendo-o). Que é isso? Sou eu que tenho de te dar coragem ? Escute, abra essa gaveta e pegue um medalhão... é o meu retrato, no tempo em que eu era bonita! Mandei fazer para você... é seu, quero que te ajude a recordar. Mas se algum dia uma môça bonita se apaixonar por você, se você casar com ela, como deve ser... como eu quero que seja... e se ela encontrar êsse retrato.. . diga que é de uma velha amiga que morreu... Mas se ela tiver ciúmes do passado, como nós mulheres costumamos ter, se te pedir o sacrifício desta lembrança, faça-o sem mêdo e sem remorsos; será muito justo e, desde já, eu te perdôo... A mulher apaixonada sofre demais não se sentindo querida... Está ouvindo, Armando compreendeu bem?
CENA VII
(Os mesmos, Nanine, depois Nichette, Gustavo e Gastão. Nichette entra assustada mas se acalma à medida que vê Margarida sorrindo e Armando a seus pés).
NICHETTE — Ah! Margarida! Você me escreveu que estava morrendo e eu a encontro feliz e com Armando...
ARMANDO — (Baixo). Oh! Gustavo, como sou infeliz!
MARGARIDA — Eu estou morrendo, mas estou feliz também e minha felicidade esconde minha morte... Então estão casados... Como é estranha esta primeira vida e como deve ser estranha a outra. Agora vão ser ainda mais felizes do que antes. Falem de mim, às vêzes... Armando, me dê a mão... Juro que quando a gente é feliz. não é difícil morrer... (Entra Gastão) F. Gastão que veio me buscar... Que bom... assim ainda o vejo... Como a felicidade é ingrata! Eu tinha me esquecido de você... (A Armando). Êle foi tão bom para mim... Ah! É estranho! Levanta-se).
ARMANDO — O que?
MARGARIDA — Não estou sofrendo mais. Parece que a vida está voltando... um bem estar, como nunca senti... Eu vou viver! Ah! Como estou me sentindo bem! (Senta-se e parece adormecer)
GASTÃO — Está dormindo!
ARMANDO — (Inquieto e depois, aterrado). Margarida! Margarida! Margarida. (Dá um grito, é obrigado a fazer um esfôrco para retirar sua mão da de Margarida). Ah! (Recua, horrorizado). Morta! (Correndo para Gustavo). Meu Deus! Meu Deus! O que vai ser de mim?...
GUSTAVO — Pobrezinha, como gostava de você!
NICHETTE — (Que se ajoelhara). Durma em paz, Margarida! Muito lhe será perdoado pelo muito que amou !
F I M
A dama das camélias, nesta tradução de Gilda de Mello e Souza, foi representada pela primeira vez no Teatro Municipal de São Paulo, a 6 de novembro de 1961, pelo Teatro Brasileiro de Comédia, achando-se os papéis assim distribuídos:
Armando Duval ...... Mauricio Barroso
Jorge Duval, seu pai .. Paulo Autran
Gastão Rieux ........ Carlos Vergueiro
Saint-Gaudens ....... José Scatena
Gustavo ............. Fredi Kleemann
O Conde de Giray ... Isidoro Lopes
Arthur de Varville ... Ruy Affonso
O médico ............ Leo Vilar
Arthur .............. Rubens de Falco
Um mensageiro ...... Ruy Cerqueira
Margarida Gauthier .. Cacilda Becker
Nichette ............... Elizabeth Henreid
Prudência ............. Labiby Mady
Nanine .............. Maria Lúcia
Olímpia ............. Cleyde Yaconis
Anais .............. Wanda Primo
Empregados e convivas — Máximo Rocha, Luiz Antônio, Pedro Petersen, Victor Merinov, José Herculano, Jacintho Mosca, Edgard Gatcke, Sérgio Franco, Maria Luiza Splendore, Suzana Petersen, Dulce Amaral, Maria Nazareth e Onéia Siqueira.
Direção ............. Luciano Salce
Cenários e figurinos .. Aldo Calvo
Música .............. Enrico Simonetti
Coreografia ......... Marília Franco
Assistente de direão ... Carlos Vergueiro
Orquestra e Corpo de Baile do Teatro Municipal de São Paulo
1.° Bailarino ..... Michele Barbano
1.ª Bailarina .... Lia Marques