ATO IV

 

(Um "bondoir" em casa de Olímpia. Ao fundo, porta comunicando com um salão profusamente iluminado. Porta à direita e à esquerda. Mesa de jogo e jogadores, à esquerda, pessoas sentadas num canapé. Empregados oferecendo refrescos. Ao fundo, pessoas passeando. Ruído de orquestra; dança, movimento) .

CENA I

(Gastão, Artur, o médico, Prudência, Saint-Gaudens, Olímpia, Anais e convidados) .

GASTÃO — (Fazendo banca no "baccarat"). Façam seu jôgo, cavalheiros, façam seu jôgo...

ARTUR — Qual é a banca?

GASTÃO — Cem luíses.

ARTUR — Cinco francos no ponto.

GASTÃO — Ora, ora... perguntar qual era a banca, para jogar cinco francos...

ARTUR—Se prefere posso jogar dez luíses a crédito . . .

GASTÃO — Não, não, não. (Ao Médico). E o senhor, doutor, não joga?

O MÉDICO — Não.

GASTÃO — E o que está fazendo aí?

O MÉDICO — Conversando com as senhoras... me fazendo conhecer...

GASTÃO — Ganha mesmo muito em ser conhecido!

O MÉDICO — É só no que ganho.

GASTÃO — Se é assim que jogam, eu largo a banca.

PRUDÊNCIA — Espere! Eu jogo 10 francos.

GASTÃO — Onde estão?

PRUDÊNCIA — Aqui no bôlso.

GASTÃO — (Rindo). Dava 15 francos para ver os seus 10.

PRUDÊNCIA — Gente! Esqueci minha bôlsa.

GASTÃO — Isso é que se chama uma bôlsa bem mandada. Tome 20 francos

PRUDÊNCIA — Depois eu pago.

GASTÃO — Ora, deixe disso. (Dando as cartas) Nove! (Recolhe o dinheiro).

PRUDÊNCIA — Ele ganha sempre.

ARTUR — Já estou perdendo 50 luíses.

ANAIS — Doutor, veja se pode curar o Artur do mal da pretensão.

O MÉDICO — É uma doença de môço, passa com a idade.

ANAIS — Está dizendo que perdeu 1.000 francos — quando chegou tinha dois luíses no bôlso.

ARTUR — Como é que você sabe?

ANAIS — Porque à fôrça de olhar para um bôlso, a gente fica sabendo o que tem dentro.

ARTUR — E isso prova o que? Prova que estou devendo 960 francos.

ANAIS — Que é infeliz.

ARTUR — Infeliz por que? Fique sabendo que eu pago as minhas dívidas.

ANAIS — Não é o que dizem os credores.

GASTÃO — Façam seu jôgo cavalheiros, façam seu jôgo! Não estamos aqui para perder tempo.

OLÍMPIA — (Entrando com Saint-Gandens). Ainda estão jogando?

ARTUR —Ainda.

OLÍMPIA — Me dê 10 luíses, Saint-Gaudens, eu quero jogar.

GASTÃO — Olímpia, sua festa está magnífica.

ARTUR — Saint-Gaudens sabe quanto lhe custa.

OLÍMPIA — Não é êle quem sabe — é a mulher.

SAINT-GAUDENS — Teve graça! Ah! O senhor está aí! Preciso consultá-lo doutor, ando tendo umas tonturas...

O MÉDICO — Não diga!

OLÍMPIA — O que é que êle quer?

O MÉDICO — Acha que tem qualquer coisa na cabeça.

OLÍMPIA — Que convencimento! Saint-Gaudens perdi, tudo. Vamos, jogue por mim e trate de ganhar.

PRUDÊNCIA — Saint-Gaudens, quer me emprestar 3 luíses? (Êle dá o dinheiro).

ANAIS — Saint-Gaudens, — vá me buscar um sorvete!

SAINT-GAUDENS — Neste instante.

ANAIS — Então conte a estória do fiacre amarelo.

GAUDENS — Já vou indo! Já vou indo!

PRUDÊNCIA — (A Gastão). Lembra-se da estória do fiacre amarelo?

GASTÃO — Se me lembro! É claro! Foi em casa de Margarida que Olímpia nos quis contar. E Margarida, está aqui?

OLÍMPIA — Deve vir.

GASTÃO — E Armando?

PRUDÊNCIA — Armando não está em Paris Então não sabe o que aconteceu?

GASTÃO — Não.

PRUDÊNCIA — Estão separados. Margarida o abandonou.

GASTÃO — Quando isso?

ANAIS — Há um mês, e fêz muito bem.

GASTÃO — Muito bem, por que?

ANAIS — A gente deve sempre abandonar os homens, antes que êles abandonem a gente.

ARTUR — Então, senhores, joga-se ou não?

GASTÃO — Credo! Como você é cacête! Pensa que vou gastar os dedos nas cartas por causa de suas apostinhas de 5 francos? Todo Artur é igual. Felizmente você é o último dêles.

SAINT-GAUDENS — (Entrando). Anais, está aqui o sorvete.

ANAIS — Coitado, como demorou! Também na sua idade...

GASTÃO — (Levantando-se). Senhores, a banca estourou. Se alguém me dissesse: Gastão, você vai ganhar 50 francos, para passar a noite inteira dando cartas, é claro que eu não aceitava... Pois bem! Estou dando cartas há duas horas para sair perdendo 2.000 francos! Bela profissão é o jôgo! (Um outro toma a banca).

CENA II

(Os mesmos, Armando).

SAINT-GAUDENS — Não está mais jogando?

GASTÃO — Não.

SAINT-GAUDENS — (Mostrando, ao fundo, dois jogadores de "écarte"). Vamos apostar no jôgo daqueles cavalheiros?

GASTÃO — Não me arrisco. São seus convidados.

SAINT-GAUDENS — Não. São convidados de Olímpia. Ela os conheceu no estrangeiro.

GASTÃO — Que caras, hein?

PRUDÊNCIA — Vejam! Olha o Armando!

GASTÃO — (A Armando). Ainda há pouco falamos de você.

ARMANDO — E o que foi que disseram?

PRUDÊNCIA — Dissemos que você estava em Tours e por isso não podia vir.

ARMANDO — Pois se enganaram, meus amigos!

GASTÃO — Faz tempo que chegou?

ARMANDO — Há uma hora, mais ou menos.

PRUDÊNCIA — E então, Armando — o que conta de nôvo?

ARMANDO — Nada, Prudência, e você?

PRUDÊNCIA — Tem visto Margarida?

ARMANDO — Não.

PRUDÊNCIA — Ela deve vir.

ARMANDO — Muito bem! Então vou ter o prazer de vê-la.

PRUDÊNCIA — Que modo de falar!

ARMANDO — Como que você quer que eu fale?

PRUDÊNCIA — E o coração, está curado?

ARMANDO — Completamente! Se não, acha que eu estaria aqui?

PRUDÊNCIA — E não pensa mais nela?

ARMANDO — Se dissesse que não — estaria mentindo; mas felizmente sou dêsses homens que dançam conforme a música... Margarida me despediu de uma tal maneira, que percebi que fui um idiota me apaixonando daquele jeito. Pois gostei muito dela, mesmo.

PRUDÊNCIA — Ela também gostou muito de você — e ainda gosta um pouco — mas o que você quer? Já estava a ponto de vender o que tinha!

ARMANDO — E agora, está tudo pagos?

PRUDÊNCIA — Integralmente.

ARMANDO — E foi Varville quem pagou as dívidas ?

PRUDÊNCIA — Foi.

ARMANDO — Então, está tudo bem.

PRUDÊNCIA — Há homens que nasceram para isso. Enfim — êle chegou onde queria. Resgatou os cavalos, as jóias e devolveu-lhe todo o luxo de antes... Que ela tem sorte, isso tem!

ARMANDO — E agora está de nôvo em Paris?

PRUDÊNCIA — Claro... Depois que você partiu não quis mais voltar a Auteuil. Eu é que fui buscar as coisas dela, e as suas também. Por falar nisso. está tudo lá em casa, à sua disposição. Quando quiser pode mandar buscar. Está faltando apenas uma carteirinha com as suas iniciais, que ficou com Margarida; mas querendo, posso pedir.

ARMANDO — (Comovido). Que fique com ela!

PRUDÊNCIA — Aliás, nunca a vi assim nesse estado — quase não dorme, vive pelos bailes, passa as noites em claro. ultimamente, depois de uma cela, ficou três dias de cama e assim que o médico lhe deu licença para se levantar, recomeçou tudo, com risco de vida. Se continuar dêsse jeito, não vai muito longe. Pretende visitá-la ?

ARMANDO — Não. Pretendo evitar qualquer explicação. O passado morreu. — Que Deus tenha a sua alma.

PRUDÊNCIA — Sim senhor! Que bons propósitos! Antes assim!

ARMANDO — (Avistando Gustavo). Ah! Aí vem um dos meus amigos, com quem preciso falar, com licença, Prudência.

PRUDÊNCIA — Esteja à vontade ! ( Vai à mesa de jogo). Jogo 10 francos!

CENA III

(Os mesmos, Gustavo).

ARMANDO — Afinal, recebeu minha carta?

GUSTAVO — Recebi e aqui estou.

ARMANDO — Decerto ficou intrigado com o meu pedido — estas festas não estão nos seus hábitos.

GUSTAVO — De fato.

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ARMANDO — Faz muito tempo que não vê Margarida ?

GUSTAVO — Faz; desde aquêle dia em que almoçamos todos juntos.

ARMANDO — Então, não sabe de nada?

GUSTAVO — Não, o que houve?

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ARMANDO — Você pensava que Margarida gostava de mim, não é mesmo?

GUSTAVO — E ainda penso.

ARMANDO — (Dando-lhe a carta de Margarida) Leia!

GUSTAVO — Foi Margarida quem escreveu isso?

ARMANDO — Foi.

GUSTAVO — Quando?

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ARMANDO — Há um mês.

GUSTAVO — E você, o que respondeu?

ARMANDO — O que queria que eu respondesse? O golpe foi tão inesperado que pensei enlouquecer... Ela, me enganar! Margarida me enganar! A mim, que a adorava! E assim, de repente... Essas mulheres não têm alma! Depois do que aconteceu, precisava de um apoio para continuar a viver. Por isso me deixei conduzir por meu pai, como uma coisa inerte. Fomos para Tours. Pensei que lá eu pudesse ficar, mas não foi possível, não conseguia dormir, o ar me faltava. Tinha gostado demais dessa mulher para esquecê-la, assim de repente. Ela só podia me inspirar amor ou ódio; afinal não resisti mais, parecia que eu ia morrer se não tornasse a vê-la, se não ouvisse de sua bôca o que me havia escrito... Queria me libertar do amor, pelo desprêzo, afogar o passado no ódio. Se estou aqui é porque desejo encontrá-la. Não sei o que vai acontecer — mas sei que vai acontecer alguma coisa, e talvez precise de um amigo.

GUSTAVO — Estou às suas ordens, Armando, mas pelo amor de Deus reflita um pouco. Lembre

se que se trata de uma mulher — e a ofensa que se faz a uma mulher se aparenta muito à covardia.

ARMANDO — Não importa! Ela tem um amante — êle me pedirá satisfações. Se eu cometer uma covardia tenho bastante sangue para pagá-la.

UM CRIADO — (Anunciando). Sra. Margarida de Gauthier! Sr. Barão de Varville.

ARMANDO — É ela!

OLÍMPIA — (Indo ao encontro de Margarida). Por que veio tão tarde?

VARVILLE — Estamos chegando da ópera. (Varville cumprimenta os presentes).

PRUDÊNCIA — (À Margarida). Então, como vai?

MARGARIDA — Muito bem!

PRUDÊNCIA — Armando está aqui.

MARGARIDA — Armando!

PRUDÊNCIA — É.

(Neste momento, Armando que está junto à mesa de jôgo, vê Margarida. Ela sorri, timidamente. Êle cumprimenta-a secamente).

MARGARIDA — Eu não devia ter vindo a êste baile.

PRUDÊNCIA — Por que?

MARGARIDA — Ainda pergunta?

PRUDÊNCIA — Pelo contrário. Mais dia, menos dia, você, tinha mesmo de se encontrar com Armando pois então que seja hoje.

MARGARIDA — Ele falou com você?

PRUDÊNCIA — Falou.

MARGARIDA — De mim?

PRUDÊNCIA — É claro.

MARGARIDA — E o que foi que disse?

PRUDÊNCIA — Que não lhe queria mal, que você tinha feito bem.

MARGARIDA — Antes fôsse; mas não é possível que seja — mal me cumprimentou e está muito.

VARVILLE — (À Margarida). Armando Duval está aqui, Margarida.

MARGARIDA — Eu sei

VARVILLE — Jura que não imaginava encontrá-lo?

MARGARIDA — Juro

VARVILLE — Então prometa não lhe dirigir a palavra.

MARGARIDA — Prometo. Mas não prometo negar -lhe respostas, se dirigir-se a mim. Não me largue

O MÉDICO — (À Margarida). Doa noite, minha senhora.

MARGARIDA — Ah! É o senhor? Por que está me olhando tanto?

O MÉDICO — Porque é o melhor que tenho a fazer, quando a tenho diante dos olhos.

MARGARIDA — Está me achando mudada, não e mesmo?

O MÉDICO — Cuide-se, minha, senhora, cuide-se por favor. Amanhã irei à sua casa repreendê-la, à vontade.

MARGARIDA — Isso! Ralhe comigo, que eu gosto... Mas já está de saída?

O MÉDICO — Ainda não, mas não demoro. — Tenho que ver um doente; há seis meses que o vejo, diària mente, à mesma hora.

MARGARIDA — Que fidelidade! (Êle aperta-lhe a mão e se afasta).

GUSTAVO — Boa noite, Margarida.

MARGARIDA — Oh! Que prazer, Gustavo! Nichette está aqui?

GUSTAVO — Não.

MARGARIDA — Desculpe! Isso não é meio para Nichette. Goste bem dela, Gustavo — é tão bom ser amada! (Enxuga uma lágrima).

GUSTAVO — O que você tem, Margarida?

MARGARIDA — Sou tão infeliz, Gustavo!

GUSTAVO — Que é isso, não chore! Por que foi que veio?

MARGARIDA — Por acaso sou dona de mim? Depois, preciso me atordoar.

GUSTAVO — Quer um conselho? Saia dêste baile o quanto antes.

MARGARIDA — Por que?

GUSTAVO — Porque nem sei o que poderá acontecer... Armando...

MARGARIDA — Armando me odeia e despreza, não é?

GUSTAVO — Não, Armando gosta de você. Veja como está pálido — já não está mais se dominando. Antes que haja um incidente entre êle e Varville, invente uma indisposição e vá embora.

MARGARIDA — Um duelo entre Armando e Varville, por minha causa! Não é possível! Tem razão, Gustavo, vou-me embora. (Levanta-se).

VARVILLE — (Aproximando-se). Onde vai, Margarida ?

MARGARIDA — Não estou me sentido bem, Varville. — Quero ir embora.

VARVILLE — Não, não é verdade, Margarida. Você quer ir embora porque Armando Duval está aqui e não lhe está dando a menor importância; mas você deve compreender que eu não posso nem quero fazer papel ridículo, fugindo do lugar em que êle se encontra. Foi você quem quis vir, — pois agora, fique.

OLÍMPIA — (À Margarida). O que foi que levaram hoje na ópera?

VARVILLE — "A Favorita."

ARMANDO — A estória de uma mulher que enganava o amante.

PRUDÊNCIA — Ora! Que novidade!

ANAIS — Então era mentira; não há mulher nenhuma que engane o amante.

ARMANDO — Pois digo que há.

ANAIS — Onde isso?

ARMANDO — Em tôda a parte.

OLÍMPIA — Sim, mas há amantes e amantes.

ARMANDO — Como há mulheres e mulheres.

GASTÃO — Armando! Você está se excedendo no jôgo!

ARMANDO — É para me certificar se é verdadeiro o provérbio: "Infeliz no amor, feliz no jôgo."

GASTÃO — Neste caso deve ser muito infeliz no amor, porque é feliz demais no jôgo.

ARMANDO — Meu caro, esta noite pretendo ganhar uma fortuna e, se juntar bastante dinheiro, vou passar uns tempos no campo.

OLÍMPIA — Sòzinho?

ARMANDO — Não, com alguém que uma vez já foi comigo e depois me abandonou. Quem sabe, quando eu fôr mais rico..

GUSTAVO — Fique quieto, Armando! Veja em que estado está essa pobre môça.

ARMANDO — É uma estória divertida — merece ser contada. Há um sujeito que aparece no fim, uma espécie de providência de última hora, que e um tipo inesquecível.

VARVILLE — (Avançando). Cavalheiro!

MARGARIDA — Varville, se provocar Armando Duval, nunca mais na vida há de me ver.

ARMANDO — (A Varville). É comigo que o senhor está falando?

VARVILLE — Justamente. Sua sorte no jôgo está me tentando... Além disso, compreendo tão bem o emprêgo que pretende dar ao seu lucro, que, na esperança de vê-lo dobrar, proponho-lhe uma partida.

ARMANDO — Que aceito, com o maior prazer.

VARVILLE — Jogo cem luíses.

ARMANDO — Feito. De que lado?

VARVILLE — Do lado que não escolher.

ARMANDO — Cem luíses na banca.

VARVILLE — Cem lumes no ponto.

ARMANDO — Dê as cartas.

GASTÃO — Ponto, quatro — banca, nove. Armando ganhou.

VARVILLE — Então, duzentos luíses.

ARMANDO — Feito! Mas tome cuidado, pois se o provérbio diz: "Infeliz no amor, feliz no jôgo", diz também, "Feliz no amor, infeliz no jôgo".

GASTÃO — Ponto, seis! Banca, oito! Ainda é Armando quem ganha.

OLÍMPIA — Ora vejam! É o barão quem vai pagar a vilegiatura de Armando.

MARGARIDA — Meu Deus, meu Deus! O que vai acontecer!

OLÍMPIA — Para a mesa, meus senhores. Vamos, a ceia está servida.

ARMANDO — Continuamos a partida?

VARVILLE — Por enquanto, não.

ARMANDO — Fico lhe devendo uma desforradou-lhe a liberdade de escolher o jôgo.

VARVILLE — Fique tranquilo, não dispenso a gentileza.

OLÍMPIA — (Dando o braço a Armando). Você tem uma sorte!

ARMANDO — E você uma solicitude quando eu ganho!

VARVILLE — Não vem, Margarida?

MARGARIDA — Daqui a pouco. Preciso dizer uma coisa à Prudência.

VARVILLE — Se dentro de dez minutos não vier, eu venho buscá-la. Ou a o que estou dizendo

MARGARIDA — Está bem, pode ir.

CENA IV

(Prudência e Margarida).

MARGARIDA — Procure Armando e peça-lhe para vir falar comigo, em nome do que êle tem de mais caro.

PRUDÊNCIA — E se êle recusar?

MARGARIDA — Não tem perigo. Não vai perder esta oportunidade de dizer que me odeia.

CENA V

(Margarida só).

MARGARIDA — Vamos, um pouco de calma! É preciso que êle continue a pensar o que está pensando... Será que vou ter fôrças de cumprir a minha promessa? Meu Deus! Fazei com que êle me odeie e me despreze pois é o único meio de impedir uma desgraça...

CENA VI

(Margarida e Armando) .

ARMANDO — A senhora mandou me chamar?

MARGARIDA — Mandei, Armando — preciso falar com você.

ARMANDO — Fale, estou ouvindo. Vai pedir desculpas ?

MARGARIDA — Não, Armando, não se trata disso, peço-lhe mesmo que não toque no passado.

ARMANDO — Tem razão, é vergonhoso demais para a senhora.

MARGARIDA — Tenha piedade, Armando! Veja como estou pálida e desfeita! Não posso me defender contra você, e mesmo que pudesse, não o faria... Me escute, sem ódio, sem rancor e sem desprêzo. Vamos, Armando, me dê sua mão.

ARMANDO — Não, isso nunca! E se é tudo o que me tinha a dizer... (Faz menção de se retirar).

MARGARIDA — Nunca pensei que fôsse um dia repelir a minha mão. Mas não é disso que se trata, você precisa sair de Paris, Armando.

ARMANDO — Sair de Paris?

MARGARIDA — Sim. Volte para junto de seu pai o mais depressa possível.

ARMANDO — E por que?

MARGARIDA — Porque Varville vai provocá-lo e eu não quero que aconteça uma desgraça por minha causa. Quero sofrer sòzinha.

ARMANDO — Então, está me aconselhando a fugir a uma provocação ? Isso é uma covardia ! Mas de uma mulher como a senhora, eu não podia esperar outra conselho.

MARGARIDA —Juro, Armando, que de um mês para cá tenho sofrido tanto, que quase não me sobram fôrças para dizê-lo. Sinto que o mal aumenta me consome. Em nome do nosso antigo amor, em nome do que ainda vou sofrer, em nome de sua mãe e de sua irmã, fuja de mim, volte para junto de seu pai, e esqueça até o meu nome, se puder.

ARMANDO — Compreendo que esteja apreensiva. Seu amante representa a sua fortuna. E eu posso destruí-la com um tiro ou um golpe de espada. Seria uma desgraça, tem razão.

MARGARIDA — Você pode ser morto, Armando, isso é que seria uma desgraça.

ARMANDO — Que importa que eu viva, ou que eu morra? Por acaso, pensou em minha vida quando me escreveu: "Armando, esqueça de mim, sou amante de outro homem?" Pouco se lhe dava então que eu morresse dêsse amor! Se não morri, foi porque precisava vingar-me. Pensou que isso ficaria assim? Que iria me despedaçar o coração e eu não iria pedir satisfações, nem à senhora, nem ao seu cúmplice? Isso nunca! Estou de volta a Paris — entre mim e Varville a questão é de vida ou de morte. Juro que hei de matá-lo, ainda que isso possa matá-la.

MARGARIDA — Varville não tem culpa de nada.

ARMANDO — A senhora o ama! É o bastante para que eu o odeie.

MARGARIDA — Você bem sabe que eu não gosto... não posso gostar dêsse homem!

ARMANDO — Então, por que se entregou a êle?

MARGARIDA — Pelo amor de Deus, não me pergunte, Armando. Não lhe posso responder

ARMANDO — Pois bem! Sou eu quem lhe vou dizer! Entregou-se a êle, porque é uma mulher sem lealdade e sem coração, porque o seu amor pertence a quem paga melhor. Porque, diante do sacrifício que ia fazer, faltou-lhe coragem e deixou-se vencer pelos instintos. Enfim, porque êste homem que lhe dedicava a própria vida, que lhe confiara a própria honra, valia menos, aos seus olhos, que os cavalos de sua carruagem, ou as jóias do seu colo.

MARGARIDA — Fiz tudo isso, está certo. Sou uma criatura infame, desprezível, que não o amava e que o enganou. Mas quanto mais infame eu seja menos se deve lembrar de mim, expondo por mim a sua vida e a vida daqueles que o amam. Armando, é de joelhos que eu estou pedindo. Vá-se embora, saia de Paris e não olhe para trás.

ARMANDO — Está bem, mas com uma condição.

MARGARIDA — Diga depressa, eu a aceito, seja qual fôr.

ARMANDO — Você vem comigo.

MARGARIDA — (Recuando). Nunca!

ARMANDO — Nunca?

MARGARIDA — Daí-me coragem, meu Deus!

ARMANDO — Escute, Margarida — parece que vou enlouquecer, sinto a cabeça girando; no estado em que estou um homem é capaz de tudo, mesmo de uma infâmia. Por um momento pensei que fôsse o ódio que me impelia — era o amor, o amor invencível, rancoroso, machucado, acrescido de remorso, do desprêzo e da vergonha. Porque, depois do que aconteceu tenho vergonha do que sinto. Mas diga uma única palavra de arrependimento, atire a culpa no acaso, na fatalidade, na fraqueza, que eu esqueço de tudo. Que me importa êsse homem? Só o odeio porque você o ama. Se disser que ainda me ama, eu te perdôo, Margarida. Fugiremos de Paris e do passado, iremos até o fim do mundo se fôr preciso' até onde não exista mais ninguém, só nós e o nosso amor.

MARGARIDA — Daria tôda a minha vida por um só dia dessa felicidade, Armando, mas essa felicidade é impossível.

ARMANDO — Por que?

MARGARIDA — Seríamos muito infelizes — um abismo nos separa. Entre nós dois o amor não é mais possível, vá embora e me esqueça; é preciso, eu prometi.

ARMANDO — A quem?

MARGARIDA — A quem tinha o direito de exigir de mim essa promessa.

ARMANDO — Varville, não foi?

MARGARIDA — Foi.

ARMANDO — A Varville, de quem você gosta!

MARGARIDA — Gosto! Gosto de Varville.

ARMANDO — (Correndo ao fundo e abrindo, violentamente a porta). Entrem, entrem todos.

MARGARIDA — O que está fazendo ?

ARMANDO — Você vai ver. (Aos convidados). Estão vendo essa mulher?

TODOS — Margarida Gauthier...

ARMANDO — Isso! Margarida Gauthier. Sabem o que ela fêz?

ALGUMAS VOZES — Não.

ARMANDO — Vendeu os cavalos, as carruagens. as jóias, para ir viver comigo — tão grande era o seu amor... Lindo gesto, não acham? Pois bem! Sabem o que eu fiz? Me portei como um canalha. Aceitei o sacrifício sem lhe dar nada em troca. Todos aqui são testemunhas de que paguei esta mulher, de que não lhe devo mais nada. (Atira as notas e as moedas em Margarida).

(Margarida dá um grito e cai desmaiada).

VARVILLE — (A Armando). O sr. não passa de um covarde!


Quinto Ato