ATO III

 

(Auteuil, um quarto ao rés do chão. No fundo, diante do espectador, uma lareira. De cada lado uma porta envidraçada, dando para um jardim. À direita, no primeiro plano, uma porta Mesas e cadeira).

CENA I

(Nanine, levando uma bandeja de chá, depois do almoço, Prudência).

 

PRUDÊNCIA — Que é de Margarida?

NANINE — Está no jardim com dona Nichette e o sr. Gustavo que vieram passar o dia aqui. Acabaram de almoçar.

PRUDÊNCIA — Então vou até lá.

ARMANDO — (Entrando, enquanto Nanine sai). Ah ! E você Prudência ? Tenho uma coisa muito séria para lhe falar. Há quinze dias você saiu daqui no carro de Margarida, não foi?

PRUDÊNCIA — Foi !

ARMANDO — Desde então nem o carro, nem os cavalos tornaram a aparecer. Há oito dias, na hora da despedida, você se queixou de frio e Margarida lhe emprestou uma capa, que você não devolveu Ontem, afinal, entregou-lhe uns braceletes e uns diamantes, diz ela que para o consêrto. Onde estão os cavalos, a carruagem, a capa, os diamantes?

PRUDÊNCIA — Quer que eu seja franca?

ARMANDO — É um favor.

PRUDÊNCIA — Os cavalos foram devolvidos ao negociante, pois foram comprados a crédito.

ARMANDO — A capa?

PRUDÊNCIA — Vendida.

ARMANDO — Os diamante?

PRUDÊNCIA — Empenhados. Estou com as cautelas aqui.

ARMANDO — E por que não me disse nada?

PRUDÊNCIA — Porque Margarida não quis.

ARMANDO — E por que essas vendas e êsses penhôres ?

PRUDÊNCIA — Para as despesas! Pensa, meu caro, que basta amar para ir viver fora de Paris, uma vida pastoril e etérea ? Está muito enganado ! Ao lado da poesia existe a triste realidade. As melhores resoluções estão prêsas à terra por laços ridículos' mas de ferro e que não rompemos assim fácilmente. Acabo de estar com o duque, pois queria ver se era possível evitar tantos sacrifícios, mas o duque não quer fazer mais nada por Margarida, a menos que ela abandone você, e sabemos muito bem que disso ela neo tem vontade.

ARMANDO — Como ela é boa!

PRUDÊNCIA — Boa, mesmo, boa demais, pois sabe Deus como vai acabar tudo isso? E não pense que vai ficar só nisso, não. Quer vender tudo, tudo, para pagar o que ainda está devendo. Tenho aqui no bôlso um projeto de venda, que o corretor me acaba de entregar.

ARMANDO — Quanto será preciso?

PRUDÊNCIA — Trinta mil francos, no mínimo.

ARMANDO — Peça um prazo de quinze dias aos credores. Em quinze dias eu pagarei tudo.

PRUDÊNCIA — Vai pedir emprestado?

ARMANDO — Vou.

PRUDÊNCIA — Muito bonito! É o mesmo que brigar com seu pai e ficar sem um vintém.

ARMANDO — Estava prevendo isso; escrevi a meu tabelião, dizendo que pretendia doar a alguém o que herdei de minha mãe e acabo de receber a resposta; o documento já está pronto, só falta preencher algumas formalidades — ainda hoje devo ir a Paris assinar os papéis. Enquanto isso, não deixe que Margarida faça o que está querendo fazer.

PRUDÊNCIA — Mas e os papéis que estão aqui comigo ?

ARMANDO — Quando eu tiver saído, entregue tudo a ela, como se eu não soubesse de nada. É preciso que ignore nossa conversa. Aí vem ela.

CENA II

(Margarida, Nichette, Gustavo, Armando e Prudência).

MARGARIDA — (Entrando põe um dedo nos lábios, fazendo sinal à Prudência para se calar).

ARMANDO — (À Margarida). Querida, ralhe, com Prudência!

MARGARIDA — Por que?

ARMANDO — Ontem pedi a ela que passasse lá em casa para trazer as cartas que encontrasse, pois há quinze dias que o vou a Paris. A primeira coisa que ela fêz foi se esquecer. E agora sou obrigado a te deixar por uma ou duas horas. Faz um mês que não escrevo a meu pai, ninguém sabe onde estou, nem mesmo meu criado, pois eu queria evitar os importunos. O dia está bonito, Nichette e Gustavo estão aqui te fazendo companhia; vou pegar um carro e dar um pulo até lá em casa. Não demoro.

MARGARIDA — Vá, querido, vá; mas se não escreveu a seu pai não foi por minha culpa — quantas vêzes te disse para escrever. Volte depressa. Vamos esperá-lo aqui proseando e passeando — Gustavo, Nichette e eu.

ARMANDO — Em uma hora estou de volta. (Mar. garida o acompanha até a porta; voltando diz a Prudência).

MARGARIDA — Está tudo arranjado?

PRUDÊNCIA — Está.

MARGARIDA — E os papéis?

PRUDÊNCIA — Estão aqui. O corretor deve vir falar com você hoje, sem falta. Eu vou almoçar, que estou morrendo de fome.

MARGARIDA — Vá. Nanine arranja tudo o que você quiser.

CENA III

(Os mesmos, menos Armando e Prudência) .

MARGARIDA — (À Nichette). Estão vendo, é assim que nós vivemos há três meses.

NICHETTE — E você é feliz?

MARGARIDA — Se sou!

NICHETTE — Bem que eu dizia, Margarida, que a verdadeira felicidade está no sossêgo e na paz do coração. Quantas vêzes; eu e Gustavo comentamos —"Quando será que Margarida vai gostar de alguém e levar uma vida mais tranqüila!"

MARGARIDA — Pois é! O seu desejo se realizou, estou apaixonada e estou feliz; fiquei com inveja do amor de vocês dois.

GUSTAVO — O fato é que nós somos felizes, não já mesmo Nichette?

NICHETTE — Acho que somos e não fica assim tão caro. Você é uma grande dama, Margarida e nunca foi nos visitar; mas se fôsse também havia de querer viver como nós dois. Está pensando que a vida que leva aqui é simples — imagine se visse os nossos dois quartinhos no 5.° andar... As janelas dão para um jardim onde os donos nem aparecem! Como pode haver gente que não aproveita o seu jardim?

GUSTAVO — Parecemos um romance alemão — ou um idílio de Goethe, com música de Schubert.

NICHETTE — Não comece com brincadeira, só porque Margarida está presente. Quando estamos sós você não brinca, é meigo como um cordeiro e terno como um pombionho. Imagine, queria que nos mudássemos! Acha que nossa vida é modesta demais.

GUSTAVO — Não, acho que nossa casa é que é alta demais.

NICHETTE — Pois, não saia na rua, assim nem se lembra em que andar ela fica.

MARGARIDA — Vocês dois são uns encantos.

NICHETTE — Com o pretexto de ter 6.000 libras de renda, não quer mais que eu trabalhe. Um dêsse dias vai querer me comprar uma carruagem...

GUSTAVO — Mais dia menos dia, quem sabe?

NICHETTE — Tem tempo. Primeiro é preciso que seu tio me olhe com outros olhos. E que faça de você — seu herdeiro e de mim sua sobrinha.

GUSTAVO — Êle já está começando a voltar atrás.

MARGARIDA — Então é porque não conhece Nichette! Se a conhecesse ficaria louco por ela.

NICHETTE — Não, o senhor seu tio nunca me quis ver. Ainda é daquele gênero de tios que pensam que as "grisettes" foram feitas para arruinar os sobrinhos; queria que Gustavo se casasse com uma môça de sociedade. E eu, o que sou, então? Será que eu não sou da sociedade?

GUSTAVO — Êle ainda vai se humanizar… Aliás, desde que me formei está mais indulgente.

NICHETTE — Pois é! Tinha me esquecido de contar — Gustavo já é advogado, minha cara.

MARGARIDA — Vou-lhe confiar a minha própria causa.

NICHETTE — Já fêz uma defesa, eu estava na audiência.

MARGARIDA — E ganhou?

GUSTAVO — Perdi em cheio, meu cliente foi condenado a 10 anos de trabalhos forçados.

NICHETTE — Felizmente.

MARGARIDA — Por que felizmente?

NICHETTE — Porque o homem era um refinado tratante! Que profissão engraçada é a advocacia! O advogado é um grande homem na medida em que pode dizer: Eu tinha em minhas mãos um celerado, que havia morto o pai, a mãe e os filhos. Pois bem! Tenho tanto talento que consegui absolvê-lo e devolver à sociedade êsse belo ornamento.

MARGARIDA — Então, agora que é advogado. logo iremos à boda...

GUSTAVO — Se eu me casar.

NICHETTE — Como, se o senhor se casar? Pois espero que se case, e comigo, ainda! Onde iria arranjar uma espôsa melhor e que o quisesse mais?

MARGARIDA — Então, para quando é?

NICHETTE — Para logo.

MARGARIDA — Você tem sorte, Nichette.

NICHETTE — Será que você também não vai acabar como nós?

MARGARIDA — Me casando? Com quem?

NICHETTE — Com Armando.

MARGARIDA — Armando! Ele deve gostar de mim, mas não se casará comigo. Quero tomar

lhe o coração, nunca hei de lhe tomar o nome. Há coisas que uma mulher não apaga de sua vida, Nichette, e que dariam ao marido o direito de censurá-la. Se eu quisesse casar com Armando, amanhã mesmo êle se casava comigo. Mas eu gosto demais dêle, para o obrigar a tanto. Pergunte a Gustavo se eu não tenho razão.

GUSTAVO — Você é uma môça de bem, Margarida.

MARGARIDA — Não; mas penso como um homem de bem. Nunca imaginei que pudesse ser tão feliz. Agradeço a Deus por isso e não quero tentar a Previdência.

NICHETTE — Gustavo está dizendo isso, mas apósto que se estivesse no lugar de Armando casava com você, não é mesmo, Gustavo?

GUSTAVO — E bem possível. Aliás, a inocência das mulheres pertence ao primeiro amor e não ao primeiro amante.

NICHETTE — A não ser que o primeiro amante seja, ao mesmo tempo, o primeiro amor. Eu sei de um exemplo.

GUSTAVO — E bem perto, não é mesmo?

NICHETTE — Enfim, se você é feliz, o resto não importa.

MARGARIDA — Sou sim. E no entanto, quem diria que Margarida Gauthier ainda iria viver absorvida no amor de um homem, sentada ao seu lado hora a fio, trabalhando, lendo e escutando?

NICHETTE — Como nós.

MARGARIDA — A vocês dois eu posso falar francamente. Sei que acreditam em mim porque é com o coração que me ouvem. Há momentos em que me esqueço do que fui; em que a mulher de outros tem pos se destaca de tal forma da mulher de hoje, que são duas pessoas que eu vejo e a segunda, apenas 8 custo se lembra da primeira. Estranha aos maus próprios olhos, estranha aos olhos dos outros! Quando vestida de branco, um grande chapéu de palha na cabeça, a peliça no braço por causa da frescura da água, subo com Armando no barco, deixando-o ir ao sabor da corrente e parar, sòzinho, sob os salgueiros da ilha mais próxima, quem diria que essa sombra branca é Margarida Gauthier? Já fiz gastarem em flôres mais dinheiro do que seria preciso para sustentar uma família durante um ano — agora uma só flor que Armando me deu esta manhã, basta para perfumar todo o meu dia. Vocês sabem o que é o amor, como as horas correm ligeiras, levando nos sem atropêlo e sem fadiga, ao fim das semanas e dos meses. Oh! Como eu sou feliz Mas ainda quero ser mais... pois não lhes contei tudo...

NICHETTE — O que?

MARGARIDA — Ainda há pouco estavam dizendo que eu não vivia como vocês — logo não dirão mais isso.

NICHETTE — Como?

MARGARIDA — Sem que Armando perceba vou vender tudo o que tenho em minha casa em Paris. Não quero mais voltar para lá. Vou lá. Vou pagar tôdas as dívidas, alugar um apartamento perto de vocês, mobiliá-lo modestamente, viveremos assim, esquecendo e esquecidos. No verão havemos de voltar para o campo, mas para uma casinha modesta. Há quem pergunte o que é a felicidade — vocês me ensinaram e agora eu também posso ensinar aos outros.

NANINE — Está aí um senhor perguntando pela patroa.

MARGARIDA — (À Nichette). Decerto é o corretor. Vão me esperar no jardim, — eu não demoro. Volto com vocês para Paris, assim liquidamos tudo juntos. (À Nanine). Faça-o entrar. (Faz um último sinal à Nichette e a Gustavo que saem; dirigir-se à porta pela qual entra o personagem anunciado).

CENA IV

DUVAL — (Da soleira da porta). Sra. Margarida Gauthier ?

MARGARIDA — Sou eu, meu senhor. A quem tenho a honra de falar?

DUVAL —A Jorge Duval.

MARGARIDA — Ao sr. Duval!

DUVAL — Sim, minha senhora, ao pai de Armando.

MARGARIDA — Mas Armando não está aqui, meu senhor.

DUVAL — Eu sei, é com a senhora mesmo que desejo ter uma explicação... queira ter a bondade de ouvir

me. — Meu filho está se comprometendo e se arruinando por sua causa...

MARGARIDA — Está enganado, meu senhor. Graças a Deus ninguém mais fala de mim e eu não aceito nada de Armando.

DUVAL — Quer dizer que — pois o seu luxo e as suas despesas são bem conhecidos — quer dizer que meu filho é tão indigno a ponto de esbanjar com a senhora o que a senhora aceita dos outros?

MARGARIDA — Perdão, mas sou uma senhora e estou em minha casa — duas razões que deveriam interceder em meu favor junto à sua cortesia; o tom em que está me falando não é o que eu podia esperar de um cavalheiro, que tenho a honra de ver pela primeira vez, e...

DUVAL — E...

MARGARIDA — Peço licença para me retirar, não tanto por mim como pelo senhor.

DUVAL — É verdade, quando nos defrontamos com a senhora e com suas maneiras, custamos a crer que tôdas essas coisas sejam postiças e essas maneiras dissimuladas. Bem me tinham dito que era uma pessoa perigosa.

MARGARIDA — Perigosa, é verdade. Mas para mim e não para os outros.

DUVAL — Perigosa ou não, a verdade, é que Armando está se arruinando por sua causa, minha senhora.

MARGARIDA — Com todo o respeito que devo ao pai de Armando, repito-lhe que está enganado.

DUVAL — Então o que significa esta carta de meu tabelião me prevenindo que Armando quer lhe fazer doação de um pecúlio?

MARGARIDA — Eu lhe asseguro, que se Armando, fêz isso, fêz a minha revelia, pois sabia perfeitamente que se me tivesse oferecido eu o teria recusado.

DUVAL — No entanto, nem sempre agiu assim.

MARGARIDA — É verdade, meu senhor, mas então eu não estava apaixonada.

DUVAL — E agora?

MARGARIDA — Agora é diferente! — Amo com tôda a pureza que uma mulher pode encontrar no fundo do coração, quando Deus, tendo piedade dela, manda o arrependimento.

DUVAL — Pronto! Já começaram as frases de efeito!

MARGARIDA — Ouça-me, por favor. — Meu Deus! Sei que ninguém acredita no juramento de uma mulher como eu — mas pelo que tenho de mais caro no mundo, pelo amor que tenho a seu filho, juro que ignorava essa doação.

DUVAL— Mas de alguma coisa é preciso que a senhora viva...

MARGARIDA — O senhor vai me obrigar a dizer o que eu desejava calar. Se falo é porque prezo acima de tudo a estima do pai de Armando. Desde que Conheci seu filho, quis que o meu amor nada tivesse com os sentimentos que até então me atribuíam; empenhei, vendi grande parte dos meus bens; capas, diamantes, jóias, carruagens. E quando ainda há pouco me disseram que havia alguém à minha pro. cura, pensei que fôsse o corretor que está negociando meus móveis, meus quadros, meus tapêtes, vendendo enfim, todo o luxo de que o senhor me recrimina. E se ainda duvida de mim — pense um pouco, eu não o estava esperando, como é que êste documento podia ter sido preparado para o senhor? — Se duvida de mim, leia isto. (Entrega-lhe o documento).

DUVAL — Mas é a venda dos móveis, obrigando-se o comprador a pagar os credores e devolver-lhe a diferença! (Olhando-a com emoção). Meu Deus! Será que me enganei?

MARGARIDA — Enganou-se, sim senhor, ou antes foi enganado! Sei que fui uma doida; sei que tenho um triste passado; mas desde que me apaixonei daria até a última gôta de meu sangue para apagá-lo. Pois apesar de tudo o que lhe disseram, eu tenho coração. Sou boa, acredite, o senhor mesmo há de ver, quando me conhecer melhor… Foi Armando que me transformou assim; gostou de mim, ainda gosta. E um pouco de amor devolve a tôda mulher a inocência perdida. De três meses para cá sou tão feliz! O senhor que é pai dêle, também deve ser bom; por favor, não lhe fale mal de mim; êle gosta tanto do senhor que seria capaz de acreditar; e eu, o respeito e estimo porque é o pai de Armando.

DUVAL — Perdão, minha senhora, pela maneira com que ainda há pouco me apresentei. Não podia prever que tivesse sentimentos tão nobres, — não a conhecia... Cheguei irritado com o silêncio e a ingratidão de meu filho, e atirei-lhe a culpa no rosto. Me perdoe.

MARGARIDA — Obrigada pelas suas palavras.

DUVAL — Por isso, é em nome de sentimentos tão nobres que lhe vou pedir, para a felicidade de meu filho, um sacrifício ainda maior do que aquêle que já fêz.

MARGARIDA — Cale-se, por favor! Sei que vai me pedir uma coisa terrível, tão terrível que nunca deixei de esperá-la; eu já sabia — era feliz demais.

DUVAL — Não pense que ainda estou irritado, estamos conversando como dois bons amigos; trazemos no coração o mesmo afeto e temos na mente um só propósito: a felicidade de Armando.

MARGARIDA — Pode falar, estou ouvindo.

DUVAL — A senhora é mais generosa que as outras mulheres, por isso é como um pai que eu lhe falo, como um pai que lhe vem pedir a felicidade de seus dois filhos.

MARGARIDA — De seus dois filhos?

DUVAL — É, Margarida, de meus dois filhos. Ouça o que me trouxe à sua presença. Tenho uma filha, bonita, môça, pura como um anjo. Gosta de um rapaz e fêz dêsse amor o sonho de sua vida. Creio que também tem direito ao amor. Pretendo casá-la; escrevi a Armando, contando-lhe tudo, mas êle, absorvido pela senhora, nem sequer recebeu minhas cartas — mesmo que eu tivesse morrido não teria ficado sabendo. Pois bem! Minha filha vai se casar com um homem direito, entrar numa família honrada, que espera da nossa a mesma honradês. Mas a sociedade tem exigências, Margarida, principalmente a sociedade de província; e se seu amor por Armando pode purificá-la aos olhos dêle e também aos meus, não a purifica aos olhos de uma sociedade que só há de ver na senhora o seu passado e que vai lhe fechar as portas, sem piedade. A família de meu futuro genro soube da vida de Armando, e me declarou que retiraria a palavra dada se êle prosseguisse na vida que leva... Está em suas mãos o destino de uma môça que não lhe fêz nenhum mal. Em nome de seu amor, Margarida, conceda-me a felicidade de minha.

MARGARIDA — Quanta bondade em suas palavras… Diante do seu pedido o que posso fazer? Eu o compreendo, sei que o senhor tem razão. Vou sair de Paris, vou me afastar de Armando por algum tempo. Vai ser doloroso, mas faço êsse sacrifício, para que o senhor nada tenha a me censurar.., Aliás, a alegria da volta me fará esquecer a tristeza da separação. O senhor dará licença para êle me escrever de vez em quando e depois do casamento...

DUVAL — Obrigado, Margarida, obrigado pela sua compreensão... mas o que estou pedindo é outra coisa.

MARGARIDA — Outra coisa? Mas o que mais podia me pedir, meu Deus?

DUVAL — Ouça, Margarida; vou lhe falar com franqueza: uma separação provisória, não basta.

MARGARIDA — Então quer que eu deixe Armando para sempre?

DUVAL — É preciso!

MARGARIDA — Isso nunca! Me separar de Ar. mando, agora, não seria apenas, uma injustiça, mal um crime. Então não sabe o que somos um para o outro? Não sabe que não tenho amigos, nem parentes? Que me perdoando êle jurou ser tudo para mim, e que fiz de sua vida a minha vida? Não sabe então que eu sofro de uma moléstia incurável, que tenho pouco tempo para viver e que fiz de meu amor, esperança dos meus dias? Deixar Armando, Antes me matar de uma vez.

DUVAL — Vamos, minha filha, calma e nada de exagêro; a senhora é bonita, môça, e está tomando por uma moléstia o cansaço de uma vida um pouco agitada; não tem perigo, não vai morrer antes do tempo em que a morte é uma felicidade. Sei que lhe peço um sacrifício enorme, mas a senhora tem, fatalmente, que ceder. Ouça, há três meses que conhece Armando e que se apaixonou por êle! Será que uma paixão tão nova tem o direito de destruir o futuro? Pois se ficar ao lado dêle, é o futuro de meu filho que a senhora está destruindo. Tem certeza da eternidade dêsse amor? Já não se enganou de outras vezes? E se percebesse de repente, que não gosta de meu filho, que está apaixonada por outro homem, não seria tarde demais? Me perdoe, Margarida, mas o seu passado me dá o direito de tais suposições.

MARGARIDA — Nunca amei, nem nunca hei de amar como estou amando!

DUVAL — Seja! Mas se a senhora não se engana, quem diz que êle não está enganado? Pode o coração, nessa idade, assumir um compromisso definitivo ? Não está sempre mudando de afeições? É o mesmo coração que no filho, ama os pais acima de tudo, que no marido ama a mulher mais do que os pais e que mais tarde no pai, ama os filhos acima dos pais da mulher e das amantes. A natureza é exigente, porque é pródiga. É bem possível que vocês dois estejam enganados. E agora, está disposta a encarar a realidade? Está me ouvindo, não está?

MARGARIDA — Se estou, meu Deus!

DUVAL — Está pronta a tudo sacrificar por meu filho; mas se Armando aceitar, o seu sacrifício que Sacrifício poderá oferecer-lhe em troca? Irá desfrutar a sua mocidade e depois, o que acontecerá quando vier o fastio? — Porque o fastio há de vir… Se fôr um homem como os outros, há de abandoná-la, atirando-lhe o passado no rosto e dizendo que todos fazem o mesmo; se fôr um homem de bem casa-se com a senhora, ou pelo menos, fica ao seu lado. E esta ligação, ou êste casamento, que não teve a castidade por base, a religião por apoio, nem a família por resultado? Seria desculpável no rapaz, mas nunca no homem maduro… Que aspirações poderia ter que carreira poderia seguir? E eu, que recompensa iria receber do filho por quem me sacrifiquei durante vinte anos? Este amor não é o fruto de duas simpatias puras, a união de duas afeições castas; é a paixão, no que ela tem de mais terrestre e de mais humano; nasceu do capricho de um e da fantasia de outro; em resumo — não é uma causa, é um resultado. E com o correr dos anos, o que ficará de tudo isso? Quem lhe diz que as rugas do seu rosto não vão fazer cair o véu dos olhos de meu filho? Quem lhe diz que o amor de Armando não vai morrer com a sua mocidade?

MARGARIDA — Ah! A realidade!

DUVAL — Não está vendo daqui a sua dupla velhice, duplamente deserta, duplamente isolada, duplamente inútil ? Que lembrança vai deixar ? Que bem terá praticado? Não, Margarida, a vida é feita de necessidades cruéis. A senhora e meu filho têm pela frente, dois caminhos diversos, que o acaso reu niu por um momento, mas que a razão separa para sempre. Quando, por livre vontade escolheu a vida que hoje leva, não previu o que podia acontecer. Foi feliz três meses, não manche uma felicidade, que já não pode durar — guarde apenas no coração a sua lembrança. Que esta lhe dê fôrças, é tudo o que tem direito de pedir. É duro o que estou pedindo, é cruel o que exijo, mas a estima em que a tenho é que me Obriga a falar assim. Quero dever ao seu bom senso, ao seu coração, ao seu amor por meu filho, o sacrifício que podia ter pedido à fôrça e à lei. Um dia ainda vai se orgulhar do que fêz e a vida inteira terá o respeito de si própria. É um homem que conhece a vida quem lhe fala. É um pai quem lhe implora. Vamos, Margarida! Vamos, minha filha, prove que gosta de meu filho, coragem!

MARGARIDA — (Consigo mesma). Então, por mais que se esforce, a criatura caída, jamais se levanta? Deus talvez lhe perdoe, a sociedade, nunca! De fato, com que direito irá ocupar no seio da família, um lugar reservado à virtude? Que importa se está apaixonada! Pode dar a prova que quiser dessa paixão, ninguém acredita, e é muito justo. Por que, coração, por que futuro? Que quer dizer com essas palavras? Olhe um pouco a lama do passado! Que homem lhe chamaria espôsa, que criança lhe chamaria mãe? — O sr. tem razão: quantas vêzes, cheia de terror, eu me dizia tudo o que acabo de ouvir! Mas como falava comigo mesma não me escutava até o fim... Agora vejo que era verdade, porque é o senhor quem me está dizendo! É preciso obedecer. Falou em nome de seu filho, em nome de sua filha — foi muita generosidade invocar êsses nomes. Pois bem... um dia o senhor dirá à essa môça, tão linda e tão pura — pois é a ela que estou sacrificando a minha felicidade, — o senhor dirá a essa môça que havia uma vez, em algum lugar, uma mulher que só tinha uma esperança, um pensamento, uma alegria, que à invocação do seu nome renunciou a tudo e esmagou o coração com as próprias mãos até morrer. Porque eu vou morrer talvez então, Deus me perdoe.

DUVAL — Pobre môça!

MARGARIDA — O senhor está chorando, está pouco. pena de mim! Obrigada por essas lágrimas — vão me dar fôrças... Quer que eu me separe de seu filho, pelo sossêgo, pela honra, pelo futuro dêle — o que é preciso que eu faça, diga!

DUVAL — É preciso dizer que neo gosta dêle.

MARGARIDA — Ele não vai acreditar

DUVAL — É preciso ir embora.

MARGARIDA — Ele irá à minha procura.

DUVAL — Então…

MARGARIDA — Escute: o senhor acredita que eu gosto de Armando, que eu gosto dêle sem nenhum interêsse ?

DUVAL — Acredito, Margarida.

MARGARIDA — Acredita que tenha feito dêsse amor o sonho, a esperança, o perdão de minha vida ?

DUVAL — Acredito, sim, Margarida.

MARGARIDA — Então, me beije uma vez, como se beijasse sua própria filha... Juro que êsse beijo, o único realmente puro que já recebi, me fará vencer o amor! Juro que dentro de oito dias, Armando estará em sua casa — talvez infeliz por algum tem po, mas curado para sempre. E juro, também, que nunca há de saber o que acaba de se passar entre nós dois.

DUVAL — Margarida, a sua alma é muito nobre, mas tenho mêdo que...

MARGARIDA — Não tenha mêdo de nada, êle vai me detestar. (A campainha toca; Nanine aparece) Vá chamar a sra. Duvernoy.

NANINE — Sim, senhora.

MARGARIDA — (A Duval). Um último favor.

DUVAL — Diga, minha senhora, diga.

MARGARIDA — Daqui a pouco Armando vai ter um dos maiores desgostos que já teve e que talvez terá, em tôda vida... Vai precisar de afeição perto dêle — fique ao seu lado. E agora, vamos nos despedir... êle pode chegar de um momento para outro e se visse o senhor, tudo estaria perdido…

DUVAL — E a senhora, o que vai fazer?

MARGARIDA — Se eu lhe contasse, o senhor não consentiria.

DUVAL — Então, o que posso fazer pela senhora, em troca de um favor tão grande?

MARGARIDA — Quando eu já estiver morta e Armando amaldiçoar a minha memória, conte lhe como eu o amava e como dei provas dêsse amor. Estou ouvindo vozes, adeus, meu senhor, decerto nunca mais vamos nos encontrar. Seja feliz. (Êle sai).

CENA V

(Margarida e Prudência).

MARGARIDA — Meu Deus! Daí-me fôrças! (Escreve uma carta).

PRUDÊNCIA — Mandou me chamar, Margarida?

MARGARIDA — Mandei. Quero encarregá-la de uma coisa.

PRUDÊNCIA — Do que?

MARGARIDA — Desta carta.

PRUDÊNCIA — Para quem é?

MARGARIDA — Veja! (Movimento de espanto de Prudência). Silêncio! Vá depressa.

CENA VI

(Margarida e Armando ).

MARGARIDA — (Só). E agora, uma carta para Armando. O que vou lhe dizer? Meu Deus! Perdoai o mal que lhe estou fazendo e perdoai-lhe o mal que me vai fazer! Estou enlouquecendo, estou sonhando?... Não é possível... falta-me coragem. Não se tem o direito de exigir de alguém o que está acima de suas fôrças...

ARMANDO — (Que enquanto isso entrou e se aproximou). O que está fazendo, Margarida?

MARGARIDA — (Levantando-se). Armando!… Nada, querido.

ARMANDO — Estava escrevendo?

MARGARIDA — Não… estava sim.

ARMANDO — Que confusão é essa? Que palidez? Para quem você estava escrevendo, Margarida? Me dê essa carta.

MARGARIDA — Era para você, Armando, mas pelo amor de Deus, não me peça.

ARMANDO — Pensei que entre nós já não houvesse segredos, nem mistérios…

MARGARIDA — Nem suspeitas, Armando!

ARMANDO — Perdão, Margarida, mas estou muito preocupado.

MARGARIDA — Por que?

ARMANDO — Meu pai chegou.

MARGARIDA — Você estêve com êle?

ARMANDO — Não, mas deixou lá em casa uma carta severa. Já está a par de minha estadia aqui, de minha vida com você. Deve vir cá esta noite. Vamos ter um entendimento difícil; sabe Deus o que lhe disseram e o que vou ter de desmentir. Mas êle vai te ver — bastará isso para te querer bem. E depois, é verdade que eu dependo dêle, mas eu posso trabalhar, se fôr preciso. Não há trabalho penoso com o teu amor no fim do dia...

MARGARIDA — Não; evite brigar com seu pai, Armando. Escute, você disse que êle vinha cá, não foi? Então eu vou me embora, para que êle não me veja logo, na chegada; depois eu volto e fico perto de você. Vou me atirar aos pés dêle, implorando tanto, que não terá coragem de nos separar.

ARMANDO — O que é isso, Margarida ? Alguma coisa está acontecendo! Essa agitação não é só por causa da notícia que eu dei... você mal se tem em pé!… Aconteceu alguma coisa … Essa carta… (Estende a mão).

MARGARIDA — Esta carta contém uma coisa que eu não te posso contar. Há certas coisas, Armando, que não podemos confessar a nós mesmas, nem deixar que outros leiam em nossa frente. É uma prova de amor que eu estou te dando, juro pelo nosso amor, — e não me pergunte mais nada.

ARMANDO — Guarde essa carta, Margarida, eu sei de tudo; Prudência me contou tudo esta manhã — foi por isso que eu fui a Paris. Sei do sacrifício que ia fazer por minha causa. Mas eu também estava trabalhando pela nossa felicidade; agora já está tudo arranjado. É êsse o segrêdo que você não me queria confiar? Como poderei algum dia agradecer tanto amor, Margarida?

MARGARIDA — Então, agora que já sabe de tudo, me deixe ir embora.

ARMANDO — Ir embora!

MARGARIDA — Me afastar, pelo menos. Seu pai pode chegar de um momento para outro. Eu estou aí mesmo no jardim, com Gustavo e Nichette, a dois passos de você, — basta me chamar, que eu venho Como podia me separar de você? Acalme seu pai se êle estiver irritado, e depois, vamos realizar o nosso projeto, não é mesmo? Vamos viver juntos como dantes, felizes, como somos há três meses. Pois você é feliz, não é mesmo? E não tem nada a me censurar? Diga… eu gostaria de ouvir. Mas se te magoei, perdoe, foi sem querer, pois te amo mais do que tudo no mundo. E você também, não é mesmo? Você também me ama. E fôsse qual fôsse a prova de amor que eu te desse, não ia me desprezar, nem amaldiçoar ?

ARMANDO — Mas por que essas lágrimas?

MARGARIDA — Precisava chorar um pouco. Está vendo? Agora já estou calma. Vou procurar Nichette e Gustavo. Estou aqui mesmo, sempre tua, sempre te amando, sempre pronta a ir ao teu encontro. Viu, já estou sorrindo, até já, para sempre. ( Sai ).

CENA VII

( Armando só, depois Nanine ).

ARMANDO — ( À Nanine que ateia o fogo ). Pobre Margarida! Como fica assustada à idéia de uma separação! Nanine, de vier um senhor me procurar, faça-o entrar — é meu pari! Se perguntar por Margarida, diga-lhe que está em Paris.

NANINE — Sim senhor.

ARMANDO — Estou me preocupando atoa. Meu pai vai me compreender. O passado está morto. Depois, que diferença entre Margarida e as outras mulheres! Veja Olímpia, sempre às voltas com as festas e os divertimentos… Quem não ama, precisa encher de ruídos a solidão. Vai dar um baile; convidou-nos, a mim e a Margarida, como se pudéssemos voltar a êsse meio… Já sete horas! De certo meu pai não vem mais! Nanine! Traga o candieiro e dê ordens para jantar. Como o tempo custa a passar, quando ela não está ao meu lado. Que livro é êste? "Manon Lescaut"! Oh! A mulher apaixonada não faz o que você fazia, Manon!… Por que êste livro estará aqui? (Nanine estra com a lâmpada e sai. Lendo, ao acaso). "Juro-te meu cavaleiro, que és o ídolo do meu coração, que só a ti, em todo o mundo eu poderia amar como te amo! Mas não vês, pobre alma querida, que no estado a que estamos reduzidos, a felicidade e uma virtude bem tôla? Acaso é possível a ternura quando nos falta o pão? A fome vai me levar a algum fatal engano e exalarei qualquer dia o último suspiro, supondo que seja um suspiro de amor. Eu te adoro, esteja certo, mas confia-me por algum tempo a direção de nossa sorte; desgraçado daquele que cair em meus laços! Trabalho para tornar rico e feliz meu cavaleiro. Meu irmão dar-te-á notícias de tua Manon e dir-te-á como chorou vendo que precisava deixar-te". (Armando põe o livro no lugar com tristeza e fica algum tempo inquieto). Essa leitura me fêz mal, êsse livro é falso… (Toca a campainha, Nanine aparece ). Meu pai não vem mais hoje — diga à Margarida para voltar.

NANINE — A patroa não está em casa.

ARMANDO — Como? Então onde está?

NANINE — Saiu… Pediu para dizer ao senhor que volta logo.

ARMANDO — A sra. Durnevoy saiu com ela?

NANINE — Não a sra. Durnevoy saiu um pouco antes.

ARMANDO — Está bem… ( Só ) . É capaz de Ter ido antes a Paris, tratar de venda que estava projetando. Felizmente Prudência está prevenida e arranjará um meio de impedi-la… ( Olha pela janela ). Parece que estou vendo uma sombra no jardim… ( Chama ). Margarida! Margarida! Ninguém!… Nanine! Nanine!… ( Toca a campainha ). Não responde. O que quer dizer com isso? Êste vazio me arrepia. Êste silêncio encobre uma desgraça. Por que deixei Margarida sair? Ela me escondia alguma coisa. Estava chorando! Será que me enganava? Ela, me enganar? Impossível! Logo quando pensava sacrificar tudo por mim… Mas quem sabe aconteceu alguma coisa? Quem sabe está ferida?… Quem sabe, morta? Preciso saber o que…

UM MENSAGEIRO — ( Entrando ). Sr. Armando Duval?

ARMANDO — Sou eu.

MENSAGEIRO — Uma carta para o senhor.

ARMANDO — De onde?

MENSAGEIRO — De Paris.

ARMANDO — Quem mandou?

MENSAGEIRO — Uma senhora.

ARMANDO — E como foi que conseguiu chegar até aqui?

MENSAGEIRO — O portão do jardim estava abertos não encontrei ninguém, vi luz aqui, pensei...

ARMANDO — Está bem, pode ir... (Mensageiro se retira).

ARMANDO — É de Margarida... De onde me vem essa emoção... Com certeza está me esperando em algum lugar e me pede para ir ao seu encontro! (Vai abrir a carta). Estou tremendo. Ora, que bobagem! (Durante esse tempo, Jorge Duval entrou e ficou de pé atrás do filho. Armando lê). "Quando você receber esta carta, Armando! (Dá um grito). Ah! (Volta-se e vê o pai). Meu pai! (Atira-se no seus braços, soluçando. Duval pega a carta e lê).


Quarto Ato