ATO II
(Quarto de Margarida. Uma porta ao fundo; à direita uma porta disfarçada, coberta por um Quadro; no primeiro plano, sempre do mesmo lado, uma mesa de "toilette", estilo Pompadour; à esquerda uma sacada e no primeiro plano, uma lareira; poltronas e cadeiras).
CENA I
(Margarida, Nanine e Prudência) .
MARGARIDA — O duque?
PRUDÊNCIA — Estive.
MARGARIDA — E êle deu a você?
PRUDÊNCIA — Está aqui. Será que podia me emprestar uns 300 ou 400 francos?
MARGARIDA — Pronto. Disse Com idéia do ir para o campo?
PRUDÊNCIA — Disse.
MARGARIDA — E o que foi que êle achou?
PRUDÊNCIA — Que você tem razão, que só lhe pode fazer bem... Vai mesmo?
MARGARIDA — Espero que sim... Ainda hoje fui ver a casa.
PRUDÊNCIA — Quanto é o aluguel?
MARGARIDA — Dois mil francos.
PRUDÊNCIA — Amor a quanto obrigas!
MARGARIDA — Estou com mêdo, Prudência; quem sabe é uma paixão? Ou será um capricho? O que eu sei é que é alguma coisa...
PRUDÊNCIA — Ele veio ontem?
MARGARIDA — Ainda pergunta?
PRUDÊNCIA — E volta hoje?
MARGARIDA — Deve estar chegando.
PRUDÊNCIA — Eu sei muito bem! Ficou lá em casa umas três ou quatro horas...
MARGARIDA — E falou em mim?
PRUDÊNCIA — Não fêz outra coisa.
MARGARIDA — O que foi que êle disse?
PRUDÊNCIA — Que está louco por você.
MARGARIDA — Faz tempo que o conhece ?
PRUDÊNCIA — Faz.
MARGARIDA — Alguma vez já o viu apaixonado?
PRUDÊNCIA — Não, nunca.
MARGARIDA — Palavra de honra?
PRUDÊNCIA — Palavra !
MARGARIDA — Se soubesse que coração grande êle tem, como fala na mãe e na irmã!
PRUDÊNCIA — É uma pena que os moços como êle não tenham cem mil libras de renda!
MARGARIDA — Pelo contrário, é uma sorte! S° assim podem acreditar que é dêles mesmo que a gente gosta. (Pega na mão de Prudência e a põe sobre o peito). Está vendo?
PRUDÊNCIA — O que?
MARGARIDA — Como está batendo, não vê?
PRUDÊNCIA — E por que é que está batendo?
MARGARIDA — Porque são dez horas e êle vai chegar.
PRUDÊNCIA — Já está nesse estado? Vou me pondo ao fresco. Se isso pega é um perigo.
MARGARIDA — Vai abrir, Nanine.
NANINE — Não bateram.
MARGARIDA — Bateram sim.
CENA II
(Prudência e Margarida).
PRUDÊNCIA — Minha filha, vou rezar por você!
MARGARIDA — Por que?
PRUDÊNCIA — Porque está correndo perigo.
MARGARIDA — Quem sabe?
CENA III
(Os mesmos e Armando).
ARMANDO — Margarida.
MARGARIDA — Eu sabia que êle tinha batido.
PRUDÊNCIA — Não me diz boa noite, ingrato?
ARMANDO — Perdão, Prudência. Como vai ?
PRUDÊNCIA — Bem, meus filhos, já estava de saída. Tenho alguém me esperando, lá fora. Até já. (Sai).
CENA IV
(Armando e Margarida).
MARGARIDA — Vamos! Venha para perto de mim.
ARMANDO — Estou aqui.
MARGARIDA — Gosta de mim do mesmo jeito?
MARGARIDA — Como?
ARMANDO — Gosto mil vêzes mais
MARGARIDA — Hoje, o que foi que você fêz?
ARMANDO — Estive com Prudência, Gustavo e Nichette; estive em tôda a parte em que se podia falar em Margarida.
MARGARIDA — E de noite?
ARMANDO — Meu pai escreveu dizendo que estava me esperando em Tours, — respondi que não valia a pena ficar à minha espera. Será que estou com jeito de quem vai para Tours?
MARGARIDA — No entanto, não deve se indispor com êle .
ARMANDO — Não tem perigo. — E você o que
MARGARIDA — Eu? Pensei em ti.
ARMANDO — De verdade?
MARGARIDA — De verdade. E fiz muitos projetos.
ARMANDO — Fêz mesmo?
MARGARIDA — Fiz.
ARMANDO — Me conte quais.
MARGARIDA — Mais tarde!
ARMANDO — Por que não agora,
MARGARIDA — Porque agora ainda não gosta de mim como é preciso; quando êles se realizarem então eu conto; por enquanto basta saber que é em você que eu andei pensando.
ARMANDO — Em mim ?
MARGARIDA — É, em você, de quem eu gosto tanto.
ARMANDO — Vamos, diga o que?
MARGARIDA — Para que?
ARMANDO — Eu estou pedindo.
MARGARIDA — Acha que posso guardar algum segrêdo de você?
ARMANDO — Então diga.
MARGARIDA — Eu imaginei um plano.
ARMANDO — Que plano?
MARGARIDA — Não posso contar; só posso contar o resultado que êle deve ter.
ARMANDO — E que resultado deve ter?
MARGARIDA — Você gostaria de passar o verão no campo comigo?
ARMANDO — Ainda pergunta ?
MARGARIDA — Bravo! Se o meu plano der certo, e tem que dar, daqui a quinze dias estou livre; não devo mais nada a ninguém e vamos juntos passar o verão no campo.
ARMANDO — E não pode me dizer de que jeito?
MARGARIDA — Não; mas veja se me pode amar como eu te amo que tudo há de dar certo.
ARMANDO — E foi sozinha que descobriu êsse plano, Margarida?
MARGARIDA — Por que está falando assim comigo?
ARMANDO — Responda, Margarida!
MARGARIDA — Foi sozinha... sim.
ARMANDO — E é sozinha que vai executá-lo?
MARGARIDA — (Hesitando). Sòzinha.
ARMANDO — Você já leu "Manon Lescaut", Margarida ?
MARGARIDA — Já, o livro está lá na sala.
ARMANDO — O que acha de Des Grieux?
MARGARIDA — Por que está perguntando?
ARMANDO — Porque uma vez Manon também descobriu um plano, extorquir dinheiro do sr. B. para gastá-lo com Des Grieux. Você tem mais coração do que ela Margarida e eu mais lealdade do que êle.
MARGARIDA — O que quer dizer com isso?
ARMANDO — Que se o seu plano é dêsse gênero, eu não aceito.
MARGARIDA — Está certo, Armando, não falamos mais nisso … Que dia lindo fêz hoje, não fêz 7
ARMANDO — Fêz. Lindo.
MARGARIDA — Havia muita gente nos Campos Elíseos ?
ARMANDO — Muita.
MARGARIDA — Decerto o tempo vai ficar firme até a mudança da lua, não é verdade?
ARMANDO — Que me importa a lua!
MARGARIDA — Então o que quer que eu fale? Quando digo que te amo e te dou prova disso, fica todo empertigado. O melhor mesmo é falar na lua.
ARMANDO — O que você quer, Margarida? Tenho ciúme até de seus pensamentos. O que me propôs ainda há pouco...
MARGARIDA — Oh! Não torne a falar nisso!
ARMANDO — Torno sim, torno a falar… Escute! O que me propôs ainda há pouco ia me deixando louco de alegria; mas o mistério que está envolvendo êsse projeto?
MARGARIDA — Vamos, veja se consegue raciocinar… você gosta de mim e tinha vontade de passar uns dois ou três meses comigo, num canto qualquer, longe de Paris...
ARMANDO — É claro que tinha.
MARGARIDA — Pois eu também gosto de você e não quero outra coisa; mas para isso é preciso o que eu não tenho. Você não sente ciúme do duque, não é mesmo? Sabe como é puro o sentimento que êle tem por mim — então, me deixe fazer o que eu quero.
ARMANDO — É que...
MARGARIDA — Vamos, eu te amo, está combinado?
ARMANDO — Mas...
MARGARIDA — (Interrompendo-o). Está combinado, vamos?
ARMANDO — Ainda não.
MARGARIDA — Então venha me ver amanhã para resolvermos.
ARMANDO — Como, venha me ver amanhã? Está me mandando embora?
MARGARIDA — Ai, ai, ai! Lá vem você de nôvo!
ARMANDO — Margarida, você está me enganando!
MARGARIDA — Há quanto tempo eu te conheço?
ARMANDO — Há quinze dias.
MARGARIDA — O que me obrigava te receber?
ARMANDO — Nada.
MARGARIDA — Se eu não te amasse, tinha o direito de te mandar embora como faço com Varville e os outros, não tinha?
ARMANDO — É claro.
MARGARIDA — Então, querido, deixa-te amar não te queixes!
ARMANDO — Perdão, me perdoe.
MARGARIDA — Dêsse jeito, vou passar a vida te perdoando.
ARMANDO — Não, é a última vez. Pronto! Vou me embora.
MARGARIDA — É está na hora. Volte amanhã ao meio-dia — almoçamos juntos.
ARMANDO — Então, até amanhã.
MARGARIDA — Até amanhã !
ARMANDO — Ao meio-dia !
MARGARIDA — Ao meio-dia.
ARMANDO — Jura?
MARGARIDA — O que ?
ARMANDO — Que não está esperando ninguém.
MARGARIDA — Outra vez! Juro que te amo e a ninguém mais. Não chega?...
ARMANDO — Adeus!
MARGARIDA — Adeus.
(Armando hesita um pouco e sai).
CENA V
MARGARIDA — (Sòzinha). Como é estranha vida! Quem diria há oito dias atrás que êsse homem que eu nem conhecia, ia se apossar tão depressa do meu coração e pensamento? O que irá acontecerá Para mim um amor de verdade pode ser uma desgraça. Será que êle me ama, será que eu o ama? Nunca me apaixonei por ninguém! Por que sacrificar uma alegria? São tão raras! Por que não se abandonar aos caprichos do coração? Quem sou eu? Uma criatura do acaso! Oh! Deixe pois que o acaso faça de mim o que quiser. Que me importa, parece que nunca me senti tão feliz! Quem sabe é um mau agouro? Estamos prevendo sempre que vão se apaixonar por nós, jamais que vamos nos apaixonar por alguém; e, agora, ao primeiro golpe dêste mal imprevisto, não sei o que sou nem onde estou.
CENA VI
(Margarida, Nanine, em seguida, o Conde).
NANINE — (Anunciando). O Sr. conde.
MARGARIDA — Boa noite, conde...
O CONDE — Boa noite, Margarida. Como vai passando ?
MARGARIDA — Muito bem.
O CONDE — Está frio como diabo! Escreveu-me pedindo que viesse às dez e meia... Como está vendo, sou pontual.
MARGARIDA — Temos muito o que conversar, meu amigo.
O CONDE — Já ceou ?
MARGARIDA — Já, por que?
O CONDE — Porque se não podíamos cear juntos, enquanto conversávamos.
MARGARIDA — Está com fome?
O CONDE — Nunca me falta apetite para a ceia. Jantei tão mal no clube!
MARGARIDA — O que faziam por lá?
O CONDE — Quando eu saí, jogavam.
MARGARIDA — Saint-Gandens perdia?
O CONDE — Uns 25 luíses — mas esbravejava como se fôssem 1.000 escudos.
MARGARIDA — Uma dessas noites ceou aqui com Olímpia.
O CONDE — E quem mais?
MARGARIDA — Gastão de Rieux.
O CONDE — Conheço.
MARGARIDA — Armando Duval.
O CONDE — Quem é êsse Armando Duval?
MARGARIDA — Um amigo de Gastão. Prudência e eu — aí estão os convivas... Rimos bastante.
O CONDE — Se soubesse tinha vindo. Por falar nisso, ia saindo alguém daqui, agora, há pouco, antes de eu chegar?
MARGARIDA — Não, ninguém.
O CONDE — É que quando eu ia descendo do carro alguém se aproximou como para ver quem eu era e depois disso afastou-se.
MARGARIDA — (À parte). Armando? (Toca a campainha) .
O CONDE — Está querendo alguma coisa?
MARGARIDA — Preciso falar com Nanine. (A Nanine, baixo). Desça, vá até a rua e, sem que ninguém dê por isso, espie se o sr. Armando Duval está lá e volte me dizer.
NANINE — Sim senhora. (Sai).
O CONDE — Sabe de uma novidade?
MARGARIDA — Não.
O CONDE — Gagouki vai casar.
MARGARIDA — O nosso príncipe.
O CONDE — Em pessoa.
MARGARIDA — Com quem?
O CONDE — Adivinhe.
MARGARIDA — Eu conheço?
O CONDE — Com Adélia.
MARGARIDA — Que bobagem dela!
O CONDE — Dela não, — do príncipe.
MARGARIDA — Meu caro, quando um rapaz de sociedade casa com uma môça como Adélia, não é êle quem faz uma tolice, é ela quem faz um mau negócio. O tal polonês além de arruinado tem uma reputação ] vai casar com Adélia por causa das 15 mil libras de renda que vocês foram lhe dando, uns depois dos outros.
NANINE — (Entrando). Não senhora, não está.
MARGARIDA — E agora, conde vamos falar de coisas sérias...
O CONDE — De coisas sérias? Preferia falar de coisas alegres.
MARGARIDA — Mais tarde, se aceitar a coisa alegremente.
O CONDE — Sou todo ouvidos.
MARGARIDA — Por acaso tem dinheiro disponível?
O CONDE — Para que?
MARGARIDA — Para uma ordem de pagamento.
O CONDE — Anda faltando dinheiro por aqui?
MARGARIDA — Infelizmente! — Preciso de..... 15.000 francos.
O CONDE — Oh diabo! Uma quantia respeitável. E por que precisa de 15.000 francos?
MARGARIDA — Porque estou devendo.
CONDE — E quer pagar os credores?
MARGARIDA — E preciso.
CONDE — É preciso mesmo?
MARGARIDA — É.
O CONDE — Então... está feito.
NANINE — Um mensageiro acaba de entregar esta carta dizendo que é urgente.
MARGARIDA — Quem pode me escrever a esta hora? (Lendo). Armando! O que significa isto? "Não gosto de fazer papel ridículo, mesmo junto da mulher que eu amo… No momento em que eu saía de sua casa, o conde de Giray entrava… Não tenho nem a idade nem o temperamento de Saint
Gauden perdoe-me as culpa que tive, de não ser milionário: e esqueçamos os dois o encontro de um dia e o amor de um instante… Quando receber esta carta já estarei longe de Paris. Armando"!
NANINE — Tem resposta?
MARGARIDA — Não, diga que está entregue. Pronto lá se foi um belo sonho... Que pena!
O CONDE — O que diz a carta?
MARGARIDA — Esta carta o fez ganhar 15.00 francos.
O CONDE — Ora veja! É a primeira carta que me rende tanto.
MARGARIDA — Pois é... não preciso mais ali que estava pedindo.
CONDE — São os credores que lhe estão dando quitação? Que amabilidade!
MARGARIDA — Não, eu é que estava apaixonada.
O CONDE — Margarida Gauthier?
MARGARIDA — Em pessoa.
CONDE — Por quem, Santo Deus?
MARGARIDA — Por um homem que não me queria como acontece às vêzes; por um homem sem dinheiro. como acontece sempre.
CONDE — Ah! É com amôres como êsse que pre tende se reabilitar dos outros?
MARGARIDA — Olhe o que me escreveu. (Dá a carta ao conde).
O CONDE — (Rindo). Ora vejam, é o sr. Duval E ciumento, êsse cavalheiro... Agora estou começando a compreender a utilidade das letras de câmbio! Era muito bonito o que ia fazer!
MARGARIDA — Você tinha me convidado para cear?
O CONDE — Pois o convite está de pé. Você jamais Comerá até 15.000 francos — ainda vou sair economizando.
MARGARIDA — Então vamos. Preciso tomar um pouco de ar.
O CONDE — Parece que a coisa era séria. Está tio agitada!
MARGARIDA — Não é nada! (À Nanine). Vá me buscar um xale e um chapéu.
NANINE — Qual, minha senhora?
MARGARIDA — O chapéu que quiser e um xale leve. (Ao conde). É preciso que nos aceitem como nós somos, meu amigo.
O CONDE — Oh! Já estou acostumado com essas coisas.
NANINE — A senhora vai sentir frio.
MARGARIDA — Não, não vou.
NANINE — A senhora quer que a espere?
MARGARIDA — Não, vá se deitar, decerto vou chegar tarde... Venha, conde.
CENA VII
(Nanine só) .
NANINE — Está acontecendo alguma coisa, a patroa está comovida! Decerto foi a carta que chegou há pouco, que a deixou nesse estado... Ah! Está aqui. ( Lê ). O sr. Armando não manda dizer... Há quatro dias — nomeado, hoje — demitido... Viveu o que vivem as rosa… os políticos. Ora! sra. Duvernoy!
CENA VIII
(Nanine e Prudência ).
PRUDÊNCIA — Margarida saiu ?
NANINE — Saiu agora mesmo.
PRUDÊNCIA — E onde é que foi?
NANINE — Foi cear.
PRUDÊNCIA — Com o conde?
NANINE — É sim senhora.
PRUDÊNCIA — Não sabe se recebeu uma carta, ainda há pouco?
NANINE — Recebeu. Do sr. Armando.
PRUDÊNCIA — E o que foi que disse?
NANINE — Nada.
PRUDÊNCIA — E vai demorar?
NANINE — Vai. Pensei que a senhora já estivesse deitada.
PRUDÊNCIA — Estava, estava dormindo. Mas me acordaram com a campainha e tive que ir abrir. (Batem).
NANINE — Pode entrar.
UM CRIADO — A patroa mandou pedir uma capa. Está com frio.
PRUDÊNCIA — Ela está lá em baixo?
UM CRIADO — Está sim senhora — na carruagem.
PRUDÊNCIA — Peça-lhe o favor de subir, diga-lhe que eu estou chamando.
UM CRIADO — Mas... está acompanhada.
PRUDÊNCIA — Não faz mal, vá depressa!
ARMANDO — (De fora). Prudência!
PRUDÊNCIA — Meu Deus! Agora é o outro que está impaciente! Oh! Namorado ciumento, é tudo a mesma coisa!
ARMANDO — Então?
PRUDÊNCIA — Que diabo, espere um pouco! Já o chamo já.
CENA IX
(Os mesmos, Margarida).
MARGARIDA — O que você quer de mim, Prudência ?
PRUDÊNCIA — Armando está lá em casa.
MARGARIDA — E o que eu tenho com isso?
PRUDÊNCIA — Quer falar com você.
MARGARIDA — Para que? Não o quero receber… e nem que eu quisesse o conde está lá em baixo me esperando.
PRUDÊNCIA — Eu é que não vou dar êsse recado. Não pode imaginar em que estado êle está. Ia desafiar o conde, na mesma hora.
MARGARIDA — Mas o que é que êle quer?
PRUDÊNCIA — Eu sei lá? Êle sabe lá? Nós é que sabemos o que é um homem apaixonado.
NANINE — A senhora quer a capa?
MARGARIDA — Ainda não.
PRUDÊNCIA — Vamos? O que decidiu?
MARGARIDA — Êsse rapaz ainda vai fazer a minha infelicidade.
PRUDÊNCIA — Então não fale mais com êle. E melhor que as coisas fiquem como estão.
MARGARIDA — Você acha?
PRUDÊNCIA — É claro!
MARGARIDA — E o que mais que êle disse?
PRUDÊNCIA — Confesse, está com vontade de vê-lo Vou chamá-lo. E o conde?
MARGARIDA — O conde que espere.
PRUDÊNCIA — Era melhor despedir o conde, já uma vez.
MARGARIDA — Tem razão… Nanine, desça diga ao sr. de Giray que estou me sentindo mal, e que não vou mais cear — êle que me desculpe.
NANINE — Sim, senhora.
PRUDÊNCIA — (Na janela). Armando, pode vir! Ah! Não será preciso dizer duas vêzes...
MARGARIDA — Não vá embora, fique aqui.
PRUDÊNCIA — Eu não... Prefiro ir por mim do que esperar que me mandem...
NANINE — (Entrando). O sr. conde já foi.
MARGARIDA — E não disse nada?
NANINE — Não senhora, mas estava com uma cara!
CENA X
(Margarida e Armando).
ARMANDO — (Indo se ajoelhar aos pés de Margarida). Margarida!
MARGARIDA — O que você quer?
ARMANDO — Quero que me perdoe.
MARGARIDA — Você não merece! (Movimento de Armando). Está certo que tenha ciúme e me escreva uma carta irritada.... mas nunca uma carta ironiza e impertinente... Você me magoou demais, Armando.
ARMANDO — E você, Margarida, pensa que também não me magoou?
MARGARIDA — Mas eu, não foi por mal.
ARMANDO — Quando vi o conde chegar, quando percebi que era por causa dêle que me despedia fiquei como um louco, perdi a cabeça e escrevi aquela carta. E quando, em vez da resposta que eu esperava, em vez de desculpas, você mandou dizer, sêcamente, que a carta estava entregue, e que não tinha resposta, não agüentei mais... Pensei no que seria de mim se nunca mais te visse. E o mundo ficou vazio de repente... porque se eu te conheço há poucos dias, Margarida, há dois anos que eu te amo…
MARGARIDA — Escute! Acho que tomou uma boa resolução, meu amigo.
ARMANDO — Qual?
MARGARIDA — De partir. Não foi o que escreveu?
ARMANDO — Acha que seria possível?
MARGARIDA — É preciso que seja.
ARMANDO — É preciso?
MARGARIDA — É Não só por você como por mim, também. Minha condição me impõe que não o veja e tudo me impede de amá-lo.
ARMANDO — Então gosta um pouco de mim, Margarida ?
MARGARIDA — Gostei.
ARMANDO — E agora?
MARGARIDA — Agora pensei melhor e vi que era impossível o que eu desejava.
ARMANDO — Aliás se gostasse de mim não teria recebido o conde, esta noite.
MARGARIDA — Por tudo isso é que mais vale ficar onde estamos. Sou jovem, sou bonita, sou uma boa môça. Você, um rapaz sensato; devia ter visto em mim o que há de bom, deixar o que não presta e ignorar o resto.
ARMANDO — Não era assim que me falava ainda há pouco, Margarida, fazendo-me entrever os mêses que eu ia passar só com você, longe de Paris, longe do mundo. Eu caí dessa esperança na realidade por isso é que sofri.
MARGARIDA — É verdade... e eu ainda fui mais longe… disse assim comigo: acho que um pouco de descanso me faria bem; êle está preocupado com a minha saúde — se houvesse um jeito de passar com êle um verão tranqüilo, em algum lugar no campo, no meio de algum bosque, ao menos seria uma compensação para os dias ruins... No fim de... três ou quatro meses tínhamos voltado para Paris, dado um bom apêrto de mão e transformado em amizade o restos do nosso amor. Porque o amor que costumam sentir por mim, por mais violento que seja nem sem" pre pode vir a ser uma amizade. Mas você não quis; seu coração é um senhor altivo que nada aceita... não se fala mais nisso... Me conhece há quatro dias, ceou uma noite aqui em casa, me mande uma Jota com o seu cartão — estamos quites.
ARMANDO — Está louca, eu te amo, Margarida! E isso não quer dizer que é bonita e que ia me atrair por uns quatro meses; mas que é tôda a minha esperança, todo o meu pensamento, tôda a minha vida. Eu te amo! Que mais te posso dizer.
MARGARIDA — Então, mais uma razão — é melhor nos separarmos desde já.
ARMANDO — Naturalmente, porque você não gosta de mim.
MARGARIDA — Porque eu… você não sabe o que esta dizendo!
ARMANDO — Por que então ?
MARGARIDA — Por que? Você quer saber? Porque há momentos que eu não quero interromper o sonho começado; porque há dias em que me sinto fatigada dessa vida que levo; porque no meio de nossa existência ruidosa, a cabeça, a vaidade, os sentidos vivem... mas o coração aperta e como não pode se expandir, sufoca. Parece que somos felizes e nos invejam. De fato, temos amantes que se arruinam, não por nossa causa, como dizem, mas por causa de sua vaidade... Somos as primeiras no seu amor próprio e as últimas na sua estima. E temos amigos, como Prudência, cuja amizade vai até o servilismo, jamais até o desinterêsse. Pouco se importam com o que fazemos, contanto que freqüentem o nosso camarote ou se pavoneiem em nossas carruagens. É assim à nossa volta, vaidade, vergonha, mentira... Por isso, às vêzes; eu sonhava, sem dizer nada a ninguém, encontrar um homem que fôsse capaz de não me pedir satisfação e quisesse ser o amante de minhas emoções… Êsse homem, pensei tê-lo encontrado no duque, mas a velhice não é proteção nem é consôlo e meu coração tem outras exigências. Então eu te conheci — môço, ardente, feliz; as lágrimas que te vi derramar por minha causa, o interêsse que te vi demonstrar por minha saúde, as visitas misteriosas enquanto estive doente, a franqueza, o entusiasmo, tudo isso fêz com que eu te tomasse por aquêle a quem vivia chamando, do fundo de minha ruidosa solidão. De repente, desatinada, construi o meu futuro sobre o seu amor e me pus a Sonhar com o campo e as coisas simples, a lembrar de meu tempo de criança — porque aconteça o que acontecer, nada apaga da memória a criança que um dia fomos. Estava querendo o impossível; uma frase sua me fêz cair em mim tudo, agora já sabe!
ARMANDO — E pensa que depois do que me disse. Você quis saber de eu vou deixá-la? Depois de ter ouvido o que eu ouvi?Quando a felicidade me abre os braços, vou lhe voltar as costas? Não, Margarida, nunca; seu sonho vali-se realizar, juro. Não falemos mais nisso, nós somos moços, gostamos um do outro — sigamos o nosso amor.
MARGARIDA — Não me engane, Armando; sabe que uma emoção violenta pode me matar; lembre já de quem eu sou e do que sou.
ARMANDO — É um anjo, eu te amo!
NANINE — (Batendo). Senhora.
MARGARIDA — O que é?
NANINE — Acabam de entregar uma carta.
MARGARIDA — Hoje é a noite das cartas!De quem ?
NANINE — Do sr. conde.
MARGARIDA — Estão esperando a resposta?
NANINE — Estão, sim senhora.
MARGARIDA — Viva! Diga que está entregue.