A Dama das Camélias
Alexandre
Dumas Filho
PERSONAGENS
ARMANDO DUVAL —
JORGE DUVAL — seu pai.
GASTÃO RIEUX —
SAINT-GAUDENS —
GUSTAVO —
CONDE DE GIRAY —
ARTHUR DE VARVILLE —
MÉDICO —
ARTHUR —
MENSAGEIRO —
MARGARIDA GAUTHIER —
NICHETTE —
PRUDÊNCIA —
NANINE —
OLÍMPIA —
ANAIS —
EMPREGA DOS E CONVIVAS —
A ação tem lugar em casa de Margarida; numa casa de campo em Auteuil; em casa de Olímpia e, novamente, em casa de Margarida.
ATO I
("Boudoir" de Margarida. Uma porta ao fundo; à direita, uma lareira, à esquerda, uma porta aberta, deixando à mostra uma mesa e candelabros. Á direita, entre a lareira e a porta do fundo, outra porta. Piano, mesas, poltronas e cadeiras).("Boudoir" de Margarida).
CENA I
(Nanine está trabalhando; Varville está sentado junto à lareira. Ouve-se a campainha).
VARVILLE — Estão batendo.
NANINE — Valentim vai abrir.
VARVILLE — De certo é Margarida.
NANINE — Ainda não. Só deve chegar às dez e meia e ainda são dez horas... Veja! É dona Nichete
CENA II
NICHETTE — (Da soleira, entreabrindo a porta) Margarida não está?
NANINE — Não, senhora. Queria falar com ela?
NICHETTE — Não. Passei por aqui e subi para lhe dar um abraço; mas como não está já vou andando dando.
NANINE — Espere um pouco, ela não deve demorar.
NICHETTE — Não, não tenho tempo; Gustavo está lá embaixo. Ela vai bem?
NANINE — Vai como sempre.
NICHETTE — Diga-lhe que um dia dêsses venho vê-la e que lhe deixei um abraço. Até logo, Nanine. Adeus, meu senhor. (Cumprimenta e sai).
CENA III
(Nanine e Varville)
VARVILLE — Quem é essa môça?
NANINE — É dona Nichette.
VARVILLE — Nichette! Isso é nome de gata, não é nome de gente.
NANINE — É um apelido. Tem os cabelos tão crespos que parece mesmo uma gatinha. Foi colega da patroa na loja onde ela antigamente trabalhava.
VARVILLE — Então Margarida já trabalhou numa loja ?
NANINE — Foi bordadeira.
VARVILLE — Ora vejam!
NANINE — O senhor não sabia? Não é nenhumsegredo.
VARVILLE — É bem bonitinha, essa Nichette!
NANINE — É ajuizada!
VARVILLE — E êsse tal de Gustavo?
NANINE — Que Gustavo?
VARVILLE — O que ela disse que estava esperando lá embaixo?
NANINE — É o marido dela.
VARVILLE — Então é o senhor Nichette?
NANINE — Ainda não é o marido, mas logo vai ser.
VARVILLE — Portanto, é o amante. Muito bem… A mocinha é ajuizada mas já tem o seu amante.
NANINE — Que só gosta dela, como ela só gosta dêle e sempre há de gostar. E com quem vai se casar, ouça o que estou lhe dizendo. Dona Nichette é uma môça direita.
VARVILLE — (Levantando-se e se aproximando de Nanine). Afinal de contas, pouco me importa... Parece que não estou ganhando terreno aqui.
NANINE — Não está mesmo.
VARVILLE — Que idéia de Margarida...
NANINE — O que?
VARVILLE — Sacrificar todo o mundo a êsse tal de Mauriac, que deve ser um bom cacête.
NANINE — Coitado! É a única felicidade que tem... É um pai para ela... mais ou menos.
VARVILLE — Claro! Anda correndo por aí uma estória muito patética. Infelizmente...
NANINE — Infelizmente, o que?
VARVILLE — Eu não acredito nela.
NANINE — (Levantando-se). Ouça, sr. barão, há muito de verdade no que corre sôbre a patroa; razão de sobra para não se dar ouvidos ao que é falso. Mas uma coisa eu lhe digo, porque vi com os meus próprios olhos, e Deus é testemunha de que não estou levando e trazendo pois a patroa não tem o menor interêsse em enganá-lo, nem se preocupa o mínimo em estar bem ou mal com o senhor. ... Mas como eu ia dizendo, há dois anos atrás, depois de uma modéstia grave, a patroa foi para uma estação de águas, convalescer. Eu fui com ela. Entre os doentes que freqüentavam o balneário havia uma môça, mais ou menos da idade dela, e com a mesma moléstia, só que em grau mais adiantado. As duas pareciam gêmeas. Essa môça era a filha do duque de Mauriac.
VARVILLE — E a môça morreu.
NANINE — Pois é.
VARVILLE — E o duque, desesperado, descobrindo nos traços, na idade e até na moléstia de Margarida a imagem da filha, implorou que o recebesse e que o deixasse amá-la como um pai. Então Margarida confessou sua condição...
NANINE — Porque a patroa não mente.
VARVILLE — Justo. Mas como Margarida não se parecia com ela no moral, tanto quanto se parecia no físico, o duque prometeu-lhe tudo, contanto que ela mudasse de vida — com o que Margarida concordou logo. Mas de volta a Paris é claro que se esqueceu de tomar ao pé da letra a palavra dada. E o duque... vendo que só recebia metade da felicidade, cortou-lhe a mesada pela metade. Resultado: Margarida tem hoje 50.000 francos de dívidas.
NANINE — Que o senhor está pronto a pagar. Infelizmente há quem prefira dever dinheiro aos outros, que reconhecimento ao senhor.
VARVILLE — Mesmo porque o conde de Giray está sempre à mão.
NANINE — O senhor é impossível! O que eu posso afirmar é que a estória do duque é verdadeira, dou-lhe a minha palavra. Quanto ao conde não passa de um amigo.
VARVILLE — Pronuncie melhor a palavra.
NANINE — Isso mesmo, um amigo! Que língua o senhor tem, credo! Estão batendo. Deve ser a patroa. Posso contar a ela o que o senhor andou me dizendo ?
VARVILLE — (Dando-lhe a bolsa). Não, Nanine, não conte.
NANINE — (Pegando a bolsa). O senhor merecia que eu contasse.
CENA IV
MARGARIDA — (À Nanine). Mande aprontar a ceia, Nanine. Olímpia e Saint-Gaudens vêm ai... encontrei-os na Ópera. (À Varville). Você por aqui, Varville? (Vai sentar-se junto à lareira).
VARVILLE — O meu destino, senhora, é esperar por vós...
MARGARIDA — Mas o meu destino, senhor, não é vos aturar...
VARVILLE — Enquanto não me fechar a porta, hei de vir.
MARGARIDA — Com efeito, não há uma só vez que eu entre em casa que não o encontre esperando. O que ainda tem para me dizer?
VARVILLE — Você bem sabe.
MARGARIDA — A mesma coisa, sempre! Que monotonia Varville!
VARVILLE — Que culpa eu tenho de gostar de você ?
MARGARIDA — Que bom argumento! Meu caro, se eu fôsse obrigada a ouvir todos os que gostam de mim, não me sobrava mais tempo nem para jantar. Uma vez por tôdas, Varville, está perdendo seu tempo. Deixo você vir quando lhe dá na cabeça entrar quando não estou em casa, me esperar atéminha chegada...nem sei bem porque. Mas pretende continuar falando de seu amor sem me dar trégua, eu o mando embora.
VARVILLE — No entanto, Margarida, o ano passado em Bágnères, você me deu esperanças.
MARGARIDA — Ah! Meu caro, isso foi em Bàgnères, eu estava doente, aborrecida... Aqui é diferente, estou me sentindo bem e não me aborreço mais.
VARVILLE — Compreendo quando se é amada pelo duque de Mauriac...
MARGARIDA — Que idiota!
VARVILLE — E quando se gosta do conde de Giray...
MARGARIDA — Posso gostar de quem quiser, ninguém tem nada com isso e muito menos você; e sé só o que tem a dizer, pode ir embora. (Varville começa a andar pela sala). Não quer ir embora?
VARVILLE — Não.
MARGARIDA — Então sente-se ao piano. É a única coisa que sabe fazer.
VARVILLE — O que quer que eu toque? (Nanine entra durante a música).
MARGARIDA— O que quiser.
CENA V
(Os mesmos, Nanine).
MARGARIDA — Deu ordens para a cela, Nanine.
NANINE — Dei, sim senhora.
MARGARIDA — O que é isso que você está tocando, Varville ?
VARVILLE — Uma "Rêverie" de Rosselen.
MARGARIDA — Que bonito!...
VARVILLE — Escute, Margarida, tenho 80.000 francos de renda.
MARGARIDA — E eu, 100.000. (A Nanine). Você estêve com Prudência?
NANINE — Estive, sim senhora.
MARGARIDA — Ela vem cá, hoje de noite?
NANINE — Vem, sim senhora — assim que chegar. Dona Nichette estêve aqui.
MARGARIDA — E por que não me esperou?
NANINE — O sr. Gustavo estava lá embaixo. Quem também estêve aqui foi o doutor.
MARGARIDA — O que é que êle queria?
NANINE — Recomendar à senhora que não se esquecesse do repouso.
MARGARIDA — Como êle é bom! E que mais?
NANINE — Também trouxeram umas flôres.
VARVILLE — Que eu mandei.
MARGARIDA — (Pegando o ramalhete). Rosas e goivos. Leve essas flôres para o seu quarto, Nanine. (Nanine sai)
VARVILLE — (Parando de tocar). Por que? Não gostou ?
MARGARIDA — Como é que me chamam?
VARVILLE — Margarida Gauthier.
MARGARIDA — Que apelido me deram?
VARVILLE — A dama das camélias.
MARGARIDA — Por que?
VARVILLE — Porque são as únicas flôres que costuma usar.
MARGARIDA — O que quer dizer que são as únicas flores que me agradam, e que é inútil me mandarem outras. Se pensou que lhe ia abrir uma exceção, enganou-se, Varville. O perfume me enerva.
VARVILLE — Não tenho mesmo sorte. Adeus Margarida.
MARGARIDA — Adeus.
CENA VI
( Os mesmos, Olímpia,
Saint-Gaudens, Nanine).
NANINE — (Entrando). Dona Olímpia e o sr. Saint-Gaudens.
MARGARIDA — Até que enfim, Olímpia, pensei que não viesse mais.
OLÍMPIA — A culpa foi de Saint-Gaudens.
SAINT-GAUDENS — A culpa é sempre minha. Boa noite, Varville.
VARVILLE — Boa noite, meu caro.
SAINT-GAUDENS — Vai cear conosco?
MARGARIDA — Não, não vai.
SAINT-GAUDENS — (À Margarida). E você, me. nina, como tem passado?
MARGARIDA — Muito bem.
SAINT-GAUDENS — Ótimo! Então, como é? Vamos nos divertir hoje aqui?
OLÍMPIA — É claro! Você não está presente?
SAINT-GAUDENS — Pestinha! Ah! E Varville que não ceia conosco, não me conformo com isso. (A Margarida ). Quando passei pelo "Galo de Ouro" pedi que me mandassem umas ostras e aquela champanha que só vendem a mim, uma delícia! Uma verdadeira delícia!
OLÍMPIA — É Prudência, não vem?
MARGARIDA — Vem sim.
OLÍMPIA — (Baixo à Margarida). Por que não convidou o Edmundo?
MARGARIDA — E você? Por que não o trouxe?
OLÍMPIA — É Saint-Gaudens?
MARGARIDA — Será que ainda não se habituou?
OLÍMPIA — Ainda não, minha filha. Na idade dêle é difícil pegar um hábito, principalmente um bom hábito.
MARGARIDA — ( Chamando Nanine). E a ceia, Nanine ?
NANINE — Daqui a cinco minutos. Onde quer que a sirva? Na sala de jantar?
MARGARIDA — Não, aqui mesmo, estamos mais à vontade. E então, Varville? Você ainda não foi?
VARVILLE — Já vou indo.
MARGARIDA — (Na janela chamando). Prudência!
OLÍMPIA — Ah, então Prudência mora ao lado ?
MARGARIDA — Em frente. Suas janelas ficam defronte às minhas. Estamos separadas por uma área apenas. É muito cômodo quando preciso dela.
SAINT-GAUDENS — Ah! E o que é que ela faz?
OLÍMPIA — É modista...
MARGARIDA — Mas sou eu a única pessoa no mundo que lhe compra os chapéus.
OLÍMPIA — Que, aliás, não usa.
MARGARIDA — Já faço muito de os comprar, são medonhos! Mas é uma boa pessoa e vive precisando de dinheiro. (Chamando). Prudência!
PRUDÊNCIA — (Do lado de fora). O que é?
MARGARIDA — Se já chegou, por que é que ainda não veio?
PRUDÊNCIA — Não pude.
MARGARIDA — Por que?
PRUDÊNCIA — Estou com visita, dois moços. E me convidaram para cear.
MARGARIDA — Pois traga-os para cá, dá no mesmo . Como é que se chamam?
PRUDÊNCIA — Um, você já conhece, é Gastão Rieux.
MARGARIDA — Oh! Se conheço! E o outro?
PRUDÊNCIA — O outro é um amigo dêle.
MARGARIDA — É o que basta; então venha de. pressa. Está fazendo frio, hoje. (Tosse um pouco — à Olímpia, sentando-se perto dela). E você, como vai?
OLÍMPIA — Bem.
MARGARIDA — Ponha lenha no fogo, Varville, estamos gelados. Ao menos seja útil, já que não pode ser agradável. ( Varville se abaixa diante da chaminé e atiça o fogo).
CENA VII
(Os mesmos, Gastão, Armando, Prudência, um criado).
O CRIADO — (Anunciando). O Sr. Gastão Rieux, o Sr. Armando Duval, a sra. Duvernoy.
OLÍMPIA — Que finura! Quanta etiquêta!
PRUDÊNCIA — Pensei que houvesse gente da alta.
SAINT-GAUDENS — A Sra. Duvernoy já começa com as suas gentilezas.
GASTÃO — Minha senhora, como tem passado?
MARGARIDA — Bem e o senhor?
PRUDÊNCIA — Ah! Que cerimônias são essas?
MARGARIDA — Gastão agora é um môço de salão; depois, se eu falasse com êle de outro jeito, Eugênia me arrancava os olhos.
GASTÃO — As mãos de Eugênia são pequenas demais para tão grandes olhos.
PRUDÊNCIA — Chega de galanteria. Margarida, quero lhe apresentar o Sr. Armando Duval...
MARGARIDA — Preciso me levantar?
ARMANDO — Não minha senhora, não é preciso.
PRUDÊNCIA — … o apaixonado mais fiel que você tem em Paris.
MARGARIDA — (À Prudência). Diga que ponham mais dois talheres; pois acho que essa paixão não o vai impedir de cear. (Estende a mão a Armando, que se inclina e a beija).
SAINT-GAUDENS — (A Gastão que está na sua frente). Que prazer em vê-lo, meu caro!
GASTÃO — Sempre môço, hein meu velho?
SAINT-GAUDENS — Sempre.
GASTÃO — E como vamos de amôres?
SAINT-GAUDENS — (Mostrando Olímpia). Como está vendo.
GASTÃO — Meus parabéns.
SAINT-GAUDENS — Estava morrendo de mêdo de encontrar Amanda por aqui.
GASTÃO — Coitada! Bem que gostava de você.
SAINT-GAUDENS — Até demais. Mas havia um certo jovem de quem não conseguia se desvencilhar: o banqueiro. (Ri). Como é que eu podia fazê-la perder uma posição tão brilhante? Eu era o favorito. Esplêndido. Mas vivia escondido nos armários, rondando as escadas, esperando ao relento.
GASTÃO — O que lhe dava reumatismo.
SAINT-GAUDENS — Não, mas o tempo corre. E a mocidade passa. E Varville, coitado, que não ceia conosco ? Não me conformo.
GASTÃO — (Aproximando se de Margarida). estupendo, êle tem dezoito anos!
MARGARIDA — Só os velhos é que não envelhecem nunca. Ele é estupendo.
SAINT-GAUDENS — (A Armando, que Olímpia está lhe apresentando). Por acaso é parente do sr. Duval, o coletor geral?
ARMANDO — Sou, sim senhor — é meu pai. O senhor o conhece?
SAINT-GAUDENS — Conheci-o há tempos, em casa da baroneza de Nersay. A senhora sua mãe também — por sinal que era muito bonita.
ARMANDO — Morreu há três anos.
SAINT-GAUDENS — Desculpe ter falado nisso.
ARMANDO — Gosto que falem em minha mãe. As grandes afeições têm isso de belo: quando já não temos a felicidade de sentir, resta-nos sempre a felicidade de recordar.
SAINT-GAUDENS — É filho único?
ARMANDO — Não, tenho uma irmã… (Vão avançando para o fundo do palco, sempre conversando).
MARGARIDA — (Baixo, a Gastão). É muito simpático, seu amigo.
GASTÃO — Também acho. E além disso tem uma verdadeira paixão por você, não é mesmo, Prudência?
PRUDÊNCIA — O que?
GASTÃO — Estava dizendo à Margarida que Armando está louco por ela...
PRUDÊNCIA — E verdade; nem pode fazer uma idéia!
GASTÃO — Gosta tanto de você que nem se atreve a confessar.
MARGARIDA — (A Varville, que está tocando piano). Fique quieto, Varville.
VARVILLE — Mas é você que me manda sempre tocar piano.
MARGARIDA — Quando estamos sós; mas não quando tenho visitas.
OLÍMPIA — O que estão cochichando aí?
MARGARIDA — Se quiser saber, preste atenção.
PRUDÊNCIA — (Baixo) E dizer que êsse amor já tem dois anos !
MARGARIDA — Santo Deus! Já é um velho!
PRUDÊNCIA — Armando vive em casa de Gustavo e de Nichette só para ouvir falar em você.
GASTÃO — O ano passado, quando você estêve doente e passou três mêses de cama, não lhe contaram que todos os dias um môço vinha pedir notícias, sem nunca deixar o nome?
MARGARIDA — Estou me lembrando...
GASTÃO — Pois era êle.
MARGARIDA — Que amabilidade! (Chamando). Sr. Duval?
ARMANDO — Minha senhora...
MARGARIDA — Sabe o que estão me dizendo ? Estão me dizendo que quando eu estive doente , senhor vinha saber de mim, todos os dias.
ARMANDO — É verdade, minha senhora.
MARGARIDA — O menos que eu posso fazer, agora, é agradecer-lhe. Está ouvindo, Varville? Você nunca foi capaz de fazer o mesmo.
VARVILLE — Mas se eu só a conheço há um ano!
MARGARIDA — E êste senhor, que só me conhece há cinco minutos?... Você só diz bobagens, Varville. (Entra Nanine, acompanhada dos criados, trazendo a mesa).
PRUDÊNCIA — Para a mesa! Estou morrendo de fome.
VARVILLE — Adeus, Margarida.
MARGARIDA — Adeus, meu amigo, e até quando?
VARVILLE — Você é que sabe ?
MARGARIDA — Então, adeus.
VARVILLE — (Cumprimentando). Meus senhores.
OLÍMPIA — Adeus Varville, adeus meu caro (Enquanto isso os empregados arrumaram a mesa, que a esta pronto — todos se puseram à mesa).
CENA VIII
(Os mesmos, menos Varville) .
PRUDÊNCIA — Como você é áspera com o bar.
MARGARIDA — Êle é um cacête. Vive me oferecendo um pecúlio.
OLÍMPIA — E ainda se queixa! Quem me dera que fizesse o mesmo comigo!
SAINT-GAUDENS — Émuito lisonjeiro para mim, o que você está dizendo.
OLÍMPIA — Não meta na conversa a sua colher torta, meu caro. Não é com você que eu estou falando ....
MARGARIDA — Vamos, sirvam-se! Comam, bebam e discutam — mas só a conta para depois fazerem as pazes.
OLÍMPIA — (À Margarida). Sabe o que êle me deu no dia dos meus anos?
MARGARIDA — Quem?
OLÍMPIA — Saint-Gaudens.
MARGARIDA — Não.
OLÍMPIA — Um cupê.
SAINT-GAUDENS Do Binder.
OLÍMPIA — É, mas não consegui que me desse os cavalos.
PRUDÊNCIA — Enfim, um cupê, é sempre um cupê.
OLÍMPIA — Mas sem a parelha, só se eu mesma o puxasse. Seria muito bonito.
SAINT-GAUDENS — Estou arruinado, goste de mim como eu sou.
OLÍMPIA — Pois sim! Não faltava mais nada!
PRUDÊNCIA — (Apontando um prato). Que bichinhos são êsses?
GASTÃO — Perdizes.
PRUDÊNCIA — Me dê uma.
GASTÃO — Ah! Com ela é uma perdiz de cada vez! Que belo garfo! Será que foi ela que arruinou Saint-Gaudens ?
PRUDÊNCIA — Ela! Ela! Isso são modos de falar a uma senhora? No meu tempo...
GASTÃO — Ah! Vai começar a falar de Luís XV. — Margarida, faça Armando beber; está triste como uma canção.
MARGARIDA — Vamos, senhor Armando, à minha saúde!
TODOS — À saúde de Margarida!
PRUDÊNCIA — Por falar em canção — e se a gente cantasse uma?
GASTÃO — Sempre as velhas tradições... Tenho certeza de que Prudência já se apaixonou por um tenor…
PRUDÊNCIA — Basta, môço.
GASTÃO — Cantar e comer é um absurdo.
PRUDÊNCIA — Pois eu gosto; espairece. Vamos Margarida, cante a Canção de Philogène, um poeta que faz versos.
GASTÃO — O que queria que ele fizesse?
PRUDÊNCIA — Que faz versos a Margarida... a sua especialidade. Vamos, a canção ?
GASTÃO — Em nome de minha geração, eu protesto!
PRUDÊNCIA — Então vamos por votos! ( Todos levantam a mão, menos Gastão). Ganhou a canção. Dê o bom exemplo às minorias, Gastão.
GASTÃO — Vá lá. Mas eu não gosto dos versos de Philogène. Já que me obrigam, prefiro cantar, (Canta).
GASTÃO — (Tornando a se sentar). A verdade é que a vida é boa e Prudência é gorda.
OLÍMPIA — É isso, há trinta anos.
PRUDÊNCIA — Vamos acabar com essa brincadeira... Que idade pensam que eu tenho?
OLÍMPIA — Uns quarenta anos bem batidos.
PRUDÊNCIA — Essa agora é boa! Fiz trinta e cinco o ano passado.
GASTÃO — Portanto, trinta e seis êste ano… Vejam só! Ninguém lhe daria mais que uns quarenta, palavra de honra!
MARGARIDA — A propósito de idade, me diga uma coisa Saint-Gaudens me contaram uma estória a seu respeito …
OLÍMPIA — E a mim também
SAINT-GAUDENS — Que estória?
MARGARIDA — De um fiacre amarelo.
OLÍMPIA — Pois é verdade.
PRUDÊNCIA — Quer me passar a lagosta?
GASTÃO — Credo! Prudência tem um estômago de avestruz.
PRUDÊNCIA — Por acaso, é proibido comer?
GASTÃO — Vamos, a estória do fiacre amarelo.
OLÍMPIA — Fiquem sabendo meus amigos, que êste imprestável que vocês estão vendo, até hoje não me deu um tostão de pecúlio...
SAINT-GAUDENS — Calma. de meu tio.
OLÍMPIA — Seus tio! Essa é boa!... Como se na sua idade ainda se pudesse ser sobrinho de alguém! Que tio é êsse? O judeu errante?
SAINT-GAUDENS — Quem sabe?
GASTÃO — Então, só vai herdar uns cinco tostões... mau negócio.
OLÍMPIA — Afinal, querem ou não querem ouvir a estória do fiacre amarelo?
GASTÃO — Queremos, mas espere um pouco que eu vou sentar perto de Margarida — Prudência está muito cacête.
PRUDÊNCIA — Oh! Que môço, bem educado!
MARGARIDA — Vamos, Gastão, fique quieto.
SAINT-GAUDENS—Que ceia excelente!
OLÍMPIA — (A Saint-Gaudens. Eu te conheço! Está vendo se escapa da estória do fiacre.
MARGARIDA — Amarelo.
SAINT-GAUDENS — Eu? Que me importa!
OLÍMPIA — Pois bem! Imaginem que Saint-Gaudens estava apaixonado por Amanda.
GASTÃO — Já estou ficando comovido, preciso dar um, beijo em Margarida.
OLÍMPIA — Tenha modos, Gastão.
GASTÃO — Olímpia está furiosa porque eu lhe estraguei o efeito.
MARGARIDA — E tem razão. Você hoje está mais cacête do que Varville, por isso vai ficar de castigo como os meninos sem modos.
OLÍMPIA — Isso! Vá já para o canto.
GASTÃO — Com uma condição; no fim, cada um' tem de me dar um beijo.
MAGARIDA — Prudência faz a coleta e depois te beija por nós tôdas.
GASTÃO — Não, assim não! Quero um beijo dei cada uma.
OLÍMPIA — Está bem, vá lá! Agora vá se sentar bem quietinho. Um dia, ou melhor, uma noite.
GASTÃO — (Tocando Malbrough no piano). Está desafinado, êste piano.
MARGARIDA — Não lhe dêem confiança.
GASTÃO — Que estória mais cacête!
SAINT-GAUDENS — Gastão tem razão
GASTÃO — Depois, para que tôda essa estória? Para provar que Amanda enganava Saint-Gaudens. Mas quem é que ainda não foi enganado, Estamos cansados de saber que somos sempre enganados pelos amigos e pelas amantes. Isso é velho como a Sé e... como Prudência.
MARGARIDA — Saint-Gaudens é um herói, um brinde a Saint-Gaudens, (Bebe). Nós tôdas vamos ficar loucas por Saint-Gaudens. Quem não estiver louca por Saint-Gaudens levante a mão… Que unanimidade !... Viva Saint-Gaudens! Gastão, toque qualquer coisa para Saint-Gaudens dançar.
GASTÃO — Só sei uma polca.
MARGARIDA — Pois que venha a polca! Vamos, Saint-Gaudens e Armando, arrastem a mesa.
PRUDÊNCIA — Mas eu ainda não acabei .
OLÍMPIA — Gente! Ela disse "Armando."
GASTÃO — (Tocando). Depressa, que já está chegando o pedaço em que eu me atrapalho.
OLÍMPIA — O que ? Eu é que vou dançar com Saint-Gaudens ?
MARGARIDA — Não, sou eu... Venha meu querido Saint-Gaudens, vamos.
OLÍMPIA — Vamos, Armando, vamos. (Margarida dança um pouco e de repente pára).
SAINT-GAUDENS — O que você tem?
MARGARIDA — Falta de ar.
ARMANDO — (Aproximando-se). A senhora está sentindo-se mal?
MARGARIDA — Oh! Não é nada; vamos.
SAINT-GAUDENS — Então, vamos. (Ela começa e torna a parar).
ARMANDO — Pare, Gastão.
PRUDÊNCIA — Margarida não está bem.
MARGARIDA — Um copo d'água, por favor.
PRUDÊNCIA — O que você tem?
MARGARIDA — A mesma coisa, sempre. Não é nadas estou dizendo. Vão fumar um pouco na outra sala. Eu já vou.
PRUDÊNCIA — Vamos, quando isso acontece ela prefere ficar só, não é nada.
MARGARIDA — Vão, eu não demoro.
PRUDÊNCIA — Venham! (À parte). Não há meio da gente se divertir, nesta casa.
ARMANDO — Pobre môça!
CENA IX
(Margarida só).
MARGARIDA — Ah!... (Olha-se no espelho). Como estou pálida!… Ah! (Esconde o rosto nas mãos e se apóia na lareira, com os cotovelos).
CENA X
(Margarida e Armando).
ARMANDO — Então? Como está se sentido?
MARGARIDA — Ah! É o senhor? Estou melhor, obrigada... Aliás, já me acostumei.
ARMANDO — Está se matando... Quem me dera ser seu amigo, seu parente, para não a deixar fazer o que está fazendo.
MARGARIDA — Não ia conseguir nada. Pronto, vamos!... Mas que é que há?
ARMANDO — Não posso continuar vendo isso.
MARGARIDA — Como o senhor é bom... Veja! Os outros nem se incomodam!
ARMANDO — Os outros não gostam da senhora, como eu gosto.
MARGARIDA — Ah! É verdade, ia me esquecendo dêsse grande amor.
ARMANDO — Está achando graça?
MARGARIDA — Deus me livre! Ouço a mesma coisa todos os dias, já não acho mais graça.
ARMANDO — Pois seja! Mas será que êste amor não merece uma promessa?
MARGARIDA — Que promessa?
ARMANDO — De se tratar.
MARGARIDA — Me tratar… Será que é possível ?
ARMANDO — Por que não?
MARGARIDA — Mas se eu me tratasse, eu morreria, meu amigo. O que ainda me sustenta é a agitação da vida que levo. Me tratar... Isso é bom para as môças de sociedade, as que têm família e amigos: mas nós, quando não servimos mais, nem para o prazer nem para a vaidade de ninguém, somos postas de lado. E às noites sem fim, sucedem os dias sem fim; eu sei disso, estive de cama dois meses, depois de três semanas, ninguém mais vinha me ver.
ARMANDO — Eu sei que não significo nada para a senhora... mas se quisesse, Margarida, eu a tratava como um irmão, ficava sempre ao seu lado e havia de curá-la. Quando as fôrças voltassem, podia, se quisesse, retornar à vida que leva; mas tenho certeza de que então, ia preferir uma existência mais calma.
MARGARIDA — Fica sempre terno, quando bebe?
ARMANDO — Você não tem coração, Margarida?
MARGARIDA — Coração... É a única ameaça de naufrágio na travessia que estou fazendo.
ARMANDO — .Não tem coração, diga?
MARGARIDA — Quem sabe? Tudo é possível. Mas por que está perguntando?
ARMANDO — Porque se tiver coração, ou se fôr compreensiva, não pode rir do que estou falando.
MARGARIDA — Então é sério?
ARMANDO — Muito sério.
MARGARIDA — Quer dizer que Prudência não me enganou, o senhor é mesmo sentimental.
ARMANDO — É ridículo, não é?
MARGARIDA — Depende da pessoa. Então, cuidaria de mim?
ARMANDO — Cuidaria.
MARGARIDA — Ficaria ao meu lado o dia inteiros.
ARMANDO — O dia inteiro, até que me mandasse embora.
MARGARIDA — E chama a isso?
ARMANDO — Dedicação!
MARGARIDA — E donde vem essa dedicação ?
ARMANDO — Da simpatia irresistível que sinta por você.
MARGARIDA — Desde quando ?
ARMANDO — Há dois anos. Desde um dia em que passou por mim, bela, altiva e risonha. Desde êsse dia sigo sua vida de longe, em silêncio.
MARGARIDA — E por que só hoje está me dizendo tudo isso?
ARMANDO — Eu não a conhecia, Margarida
MARGARIDA — Devia ter procurado me conhecer Por que foi que quando estive doente, e veio saber de mim com tanta assiduidade, por que foi que não subiu ?
ARMANDO — Com que direito?
MARGARIDA — Será que uma mulher como eu, pode constranger alguém?
ARMANDO — Uma mulher sempre nos cosntrange... depois...
MARGARIDA — Depois...
ARMANDO — Tinha mêdo de você, da influência que poderia exercer em minha vida. A prova disso e a emoção que senti esta noite, vendo o estado em que se encontra.
MARGARIDA — Então, está apaixonado por mim?
ARMANDO — Hoje não lhe quero dizer.
MARGARIDA — Então não me diga nunca.
ARMANDO — Por que ?
MARGARIDA — Porque só podem resultar duas coisas dessa confissão: ou não a levo a sério e fica-me querendo mal ou a levo a sério e neste caso sairá ganhando a companhia triste de uma mulher nervosa, doente, melancólica — ou alegre, mas de uma alegria ainda mais soturna que a tristeza. Uma mulher que gasta 100.000 francos por ano — isso bom para um velho rico como o duque, não para um môço, como você. Mas isso tudo é bobagem! Me dê a mão e vamos para a sala. Ninguém precisa saber do que estivemos falando.
ARMANDO — Se quiser, vá — mas peço-lhe que me deixe ficar.
MARGARIDA — Por que?
ARMANDO — Porque sua alegria me faz mal.
MARGARIDA — Quer que lhe dê um conselho?
ARMANDO — Pois não.
MARGARIDA — Se é verdade o que me disse, vá-se embora, fuja; ou então goste de mim apenas como amigo. Venha me ver de vez em quando, havemos de rir, de conversar, mas não exagere o que valho, pois não valho grande coisa. Seu coração é bom e você precisa de afeição; é muito môço, e muito sensível para viver no nosso meio. Goste de outra mulher e então se case. Está vendo, sou uma môça sensata e estou sendo franca.
CENA XI
(Os mesmos, Prudência).
PRUDÊNCIA — (Entreabrindo a porta). Ah! Que diabo estão fazendo aí?
MARGARIDA — Raciocinando; um momento ainda, Prudência nós já vamos.
PRUDÊNCIA — Estejam à vontade!
CENA XII
(Margarida e Armando).
MARGARIDA — Então, está combinado, não vai mais gostar de mim.
ARMANDO — Vou viajar, sigo o seu conselho.
MARGARIDA — É a êsse ponto?
ARMANDO — É...
MARGARIDA — Quantos já me disseram o mesmo e não partiram.
ARMANDO — De certo você os prendeu.
MARGARIDA — Palavra, que não.
ARMANDO — Então nunca se apaixonou por ninguém ?
MARGARIDA — Graças a Deus, nunca!
ARMANDO — Obrigado!
MARGARIDA — De que?
ARMANDO — Do que acaba de dizer; nada podia me alegrar tanto.
MARGARIDA — Que homem esquisito!
ARMANDO — E se eu lhe contasse, Margarida, que já passei noites e noites debaixo de sua janela, que há seis meses guardo um botãozinho perdido de sua luva...
MARGARIDA — Eu não acreditava.
ARMANDO — Tem razão, é um disparate... ria de mim, é o melhor que tem a fazer Adeus.
MARGARIDA — Armando!
ARMANDO — Você me chamou?
MARGARIDA — Não quero que se vá embora zangado.
ARMANDO — Zangado com você? É impossível!
MARGARIDA — Diga, há um pouco de verdade em tudo o que me disse?
ARMANDO — Por que está perguntando?
MARGARIDA — Se é assim, aperte minha mão, venha me ver de vez em quando, venha sempre...
para falarmos nisso.
ARMANDO — É demais o que me oferece e ainda não é o bastante.
MARGARIDA — Então meu amigo, faça o seu pedido, peça o que quiser, pois pelo que parece, sou eu que estou lhe devendo alguma coisa.
ARMANDO — Não diga isso. Não quero mais que brinque com coisas sérias.
MARGARIDA — Não estou brincando mais.
ARMANDO — Então, responda...
MARGARIDA — O que?
ARMANDO — Você quer ser amada?
MARGARIDA — Conforme. Por quem ?
ARMANDO — Por mim.
MARGARIDA — E depois?
ARMANDO — Com um amor profundo, eterno?
MARGARIDA — Eterno?
ARMANDO — Eterno.
MARGARIDA — E se de repente eu acreditasse, o que ia dizer de mim?
ARMANDO — Que é um anjo !
MARGARIDA — Não, ia dizer o que todo o mundo diz. Mas que me importa? Como tenho menos tempo de vida que os outros, preciso viver mais depressa. Mas fique tranqüilo — eterno que seja o seu amor e curta que seja a minha vida, será sempre mais longa do que a sua paixão.
ARMANDO — Margarida!
MARGARIDA — Mas neste momento está comovido, sua voz é sincera, acredita no que está dizendo. Tudo isso merece uma recompensa... Tome esta flor…
ARMANDO — Para que?
MARGARIDA — Para que me devolva.
ARMANDO — Quando ?
MARGARIDA — Quando murchar.
ARMANDO — E quanto tempo leva para murchar?
MARGARIDA — O tempo que leva tôda flor: uma] tarde, uma manhã.
ARMANDO — Ah! Margarida! Como sou feliz !
MARGARIDA — Então, diga que gosta de mim, mais uma vez.
ARMANDO — Eu te amo!
MARGARIDA — E agora, adeus.
ARMANDO — (Recuando). Adeus. (Volta, beija-lhe a mão ainda uma vez e sai. Risos nos bastidores).
CENA XIII
(Margarida, Gastão, Saint-Gaudens, Olímpia e Prudência ).
MARGARIDA — (Margarida sòzinha, olhando a porta fechada). Por que não? Para que? E entre essas duas frases minha vida vai e vem.
GASTÃO — (Entreabrindo a porta). Côro dos aldeões (Canta).
SAINT-GAUDENS — Como está divertido (Dança).
(No fim do ato Prudência põe na cabeça um chapéu de homem e Gastão um chapéu de mulher, etc, etc … ) .