Quando o pai precisou morrer

Romilto de Lourenzi Lopes
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Todo pai morre para que seus filhos tenham vida. A dor de perder o pai se torna incomensurável quando, com o passar do tempo, o filho percebe, cai em si, que o maior ensinamento, de fato, o ensinamento fundante de todos, consiste na doação paterna cotidiana, às vezes, imperceptível, porém contínua. Dessa vida doada, o filho é um continuador, ele se descobre nela vivendo. Então, o filho aprende e procura imitar o pai, pois grava dentro de si a essência da paternidade: ser pai é morrer para que o filho viva.
Cristo, no entanto, aprendeu, por meio de sofrimentos, que cumprir a vontade do Pai - que todos se tornassem seus filhos obtendo assim a verdadeira vida – exigiria de si a morte, mas que o próprio Pai morrera em dores na doação do Filho Amado. Cristo sofreu as dores da distância do Pai, por isso suas incessantes orações à noite nos montes. Mas, tais dores não constituíram o fechamento em si, ao contrário, foram tornadas caminho que, passando pela cruz, revelaram ao mundo o infinito amor com que nos amou a todos o Eterno Pai. De onde hauriríamos vida? Quem, então, nos precedera? De onde podemos obter nossa herança? Somos filhos do Eterno!
Em nossas relações somos chamados a revelar nossa verdadeira identidade. Quando a dor nos absorve, quando aquele medo após o amor “perdido” se manifesta, quando nos vemos preenchidos de saudades e um porque sem resposta, nisso tudo temos escrita a mensagem que a paternidade e o Pai de todos nos convida a ler nos fatos da vida: somos morte para gerar mais vida, somos vida mesmo quando nesta vida se manifesta a morte. Diante de tudo isso não há como se manifestar nada além do mais puro amor, visto que ele supera em nós todo drama aterrador, toda tibieza e solidão. Quem perdemos no amor? A quem amamos não perdemos nesta vida, mas entregamos à liberdade absoluta até acontecer o novo encontro, aquele eterno possuidor de toda alegria. O amor nutre a esperança caminhante para o eterno, faz brilhar toda lembrança, fortalece o homem filho na temperança, dar alento na saudade, purifica naquela maldade em condenar por não ter resistido ao curso normal da vida.
Não há dor que sustente calado o coração ardente, não há amargura tão forte que cante ou que mude nossa sorte: há sempre o amor do pai impulsionando o filho à vida. E quem mais nos amaria? O filho não morre com o pai, mas dele continua a vida.

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