ENTREVISTA

A V Conferência e a Evangelização da Cultura

Com Dom Dimas Lara Barbosa

 

Dom Dimas é Bispo Auxiliar no Rio de Janeiro e atualmente ocupa a função de Secretário Geral da CNBB. Foi um dos delegados do episcopado brasileiro na V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e Caribenho em Aparecida (maio de 2007). Nos dias 24 e 25 de agosto esteve em Cuiabá, assessorando a XXI Assembléia Regional de Pastoral e gentilmente nos concedeu esta entrevista.

ÁGORA: Quais foram os principais temas abordados pela V Conferência em Aparecida?

DOM DIMAS: A V Conferência foi bastante rica. Naturalmente o tema que perpassou todos os trabalhos foi a do discípulo-missionário. Os bispos, no final, nos declaramos em estado de missão e convocamos todas as nossas Igrejas para fazerem a mesma coisa, ou seja, queremos estar num dinamismo permanente. Chama atenção, no Documento, a evangelização da cultura e a pastoral urbana, e depois, a formação do discípulo-missionário e os diversos lugares de formação: a família como lugar de formação do discípulo, a paróquia, as comunidades, os seminários e institutos de Filosofia e Teologia e os próprios centros educacionais católicos. Aparecida deu uma ênfase bastante grande à educação católica (a educação superior católica); os centros universitários como lugares de formação do discípulo-missionário, com competência para atuar no que eles chamam de os “novos areópagos”. Existem nos nossos tempos “novos areópagos” que precisam ser evangelizados. E além da grande cidade, com toda a sua complexidade, são citados o mundo da economia, da política, relações internacionais, as questões da ecologia e do meio-ambiente, do desenvolvimento sustentável, o mundo das prisões e, naturalmente, a caridade inteligente e as novas formas de pobreza e exclusão. Nós somos convidados a uma renovada pastoral social, mas que procuremos também as causas da pobreza e da marginalização e procuremos não apenas estar no nível assistencialista, mas no nível sócio-transformador, levando aquelas pessoas a serem agentes do seu próprio desenvolvimento.

Á GORA: Como foi a atuação do senhor na V Conferência ?

DOM DIMAS: Foi o acontecimento eclesial mais importante de que eu já participei até hoje. O clima era muito fraterno, o ambiente muito gostoso e de muita seriedade. Representantes dos 22 países da América Latina e do Caribe e também representantes de outros países e continentes que se fizeram presentes. Também os religiosos e religiosas, leigos e leigas, diáconos e representantes dos movimentos. Tudo isso fez com que o clima fosse muito participativo. Foi uma assembléia muito democrática. Todos tinham igualdade de direitos na hora de expressar o próprio pensamento, embora só os delegados votassem, mas a expressão era dada inclusive para os observadores de outras religiões. E ali eu pude experimentar de perto a catolicidade e a unidade da Igreja muito viva. Pude também verificar como a nossa história latino-americana, de diversos países, tem um substrato comum: um substrato cultural e étnico e também um substrato religioso: a Igreja está presente na origem de todos os nossos países.
A minha atuação particular foi na subcomissão que trabalhava a evangelização da cultura. Eu tive a oportunidade de ir já preparado através de um seminário que organizei no Rio de Janeiro com peritos de São Paulo e do Rio e essas contribuições puderam ser muito úteis na hora da elaboração do texto.

ÁGORA: Quais as contribuições da Conferência de Aparecida para Evangelização da Cultura?

DOM DIMAS: As contribuições que eu trouxe do Rio de Janeiro versavam sobre cinco áreas específicas: a antropologia personalista e questões de bioética, o diálogo fé e razão, a arte como caminho para a evangelização, o diálogo da Igreja com os formadores de opinião e o cyberspace e novas formas de linguagem e socialização. Então, eu tinha um texto preparado que podia ser adaptado e de fato foi ao esquema da V Conferência. E cada uma dessas áreas trazia uma possível análise da realidade e situações concretas também. Por exemplo, no campo da arte, ainda quando nós estávamos lançando a campanha pelo Cristo Redentor do Corcovado, como uma das maravilhas do mundo contemporâneo, eu me lembrava que a fé cristã produziu ou inspirou maravilhosas obras de arte nos mais diversos seguimentos. Pensem nas catedrais góticas, nos nossos vitrais; na música, num Bach, num Beethoven; pensemos na arquitetura num Michelangelo, num Da Vinci, e então, certamente, a arte fez parte dessa história do cristianismo em termos de expressão e comunicação da própria fé.
Com relação ao diálogo fé e razão, basta lembrar a encíclica de João Paulo II Fides et Ratio: fé e razão não se opõem, mas são como que duas asas pelas quais o espírito humano alça vôo na direção da busca da verdade. Nós procuramos também apontar ali uma série de pistas como, por exemplo, a valorização dos nossos centros universitários como lugares privilegiados do diálogo fé e razão, a valorização da pesquisa científica como espaço em que os nossos católicos são chamados a atuar e no debate tentar mostrar que (fé e razão) são de fato instâncias da vida humana que se complementam e que se apelam mutuamente e que se purificam: a fé purifica a razão, a razão purifica a fé.
E nas outras áreas também, no diálogo com os formadores de opinião, nós sentimos que estamos ainda muito ausentes da grande mídia, mesmo que os nossos meios de comunicação social tenham se desenvolvido bastante. Temos já algumas centenas de rádios católicas, temos aí várias TVs, mas é preciso marcar mais presença na grande mídia e com aquelas pessoas que são elas também formadoras de opinião. Então, foi um pouco nessa direção que nossa contribuição pôde estar presente.

ÁGORA: Deixe uma mensagem para os acadêmicos do SEDAC e demais leitores do nosso Jornal.

DOM DIMAS: Existem dois extremos a serem evitados na formação tanto filosófica quanto teológica. Um deles é o do anti-intelectualismo. Nós temos muitos estudantes e, quem sabe, até padres, que acham que a teologia deveria dar algumas receitas de bolo para um sermãozinho de fim semana e está pronto! Então, questionam qualquer tipo de aprofundamento um pouco mais sistemático ou mais sério, e esse anti-intelectualimo naturalmente é danoso, porque o mundo de hoje mais do que nunca exige que nós sejamos competentes ao dar razões da própria fé, como dizia a primeira Carta de São Pedro. Então o intiintelectualismo não leva a nada. Nós nunca vamos perder por estudar e estudar a fundo. Meu pai sempre dizia duas frases aparentemente contraditórias, a primeira era: “Menino, estuda porque o saber não ocupa lugar!”. A outra: “A gente estuda e morre sem saber!”. Podem parecer contraditórias, mas não! Nós estudamos para nos preparar para enfrentar os desafios com que a própria missão vai nos envolvendo, num mundo globalizado, pós-moderno, marcado por toda a tecnologia ou a tecnociência, que já está no dia-a-dia das pessoas.
O outro extremo é o academicismo de achar de repente que as aulas de filosofia e teologia poderão ser transferidas tais quais ao próprio povo em homilias que podem ser extremamente pertinentes, mas que não são relevantes. Falam de abstrações que não serão compreendidas pelo povo que nos é confiado e, as vezes, se forem compreendidas não serão aceitas e assimiladas. Então esses extremos devem ser evitados. Karl Rahner dizia que “Quem compreendeu a teologia deveria ser capaz de explicá-la às crianças”. Se nós formos capazes disso o nosso estudo estará cumprindo a sua missão de nos formar como discípulos e missionários, ou, discípulos-missionários de Jesus Cristo.

 

Por Ronaldo de Oliveira Vicente

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