-Essência da Vida Religiosa-

Gilberto Dutel Machado
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“A vida religiosa: uma forma particular de consagração a Deus”. A consagração é o elemento base e fundamental da vida religiosa. É o resultado de um assentimento dado por alguém de livre consciência e ato a Deus. Deus faz o chamado e dá a graça para que a pessoa chamada tenha a coragem de responder com firmeza à proposta de Deus. Qual é a essência da vida religiosa consagrada?
Tillard, frei dominicano, descobriu que a essência da vida religiosa consagrada encontra-se nos escritos dos Padres do Deserto. Estes queriam somente uma coisa: viver a aliança radical de seu batismo. Isto consistia em amar fervorosamente a Deus e ao próximo como a si mesmo, ao ponto de dar a vida por ele.
Esta vivência radical do batismo vivida hoje, deve levar o consagrado a dirigir todo o seu ser para a glória de Deus como resposta concreta de amor, culto e adoração. Renunciando a toda vivência egoísta e individualista colocando a Pessoa de Jesus Cristo no centro da própria vida. Os consagrados devem transformar-se em profetas do reino na Igreja. Profetas que denunciam as injustiças e anunciam valores alternativos e evangélicos para o mundo.
A consagração religiosa no intuito de viver à maneira de Jesus com seus discípulos, busca a vivência em comunidade. Na comunidade os consagrados assumem a missão de Cristo servindo o Povo de Deus. A comunidade a serviço deste povo e do mundo tem por finalidade amar a Deus e ao próximo. Através do seu jeito de ser, os consagrados são um complemento para a missão da Igreja.
A vida consagrada é uma memória viva de Cristo, por isso pertence indiscutivelmente à vida e à santidade da Igreja. E quando na Igreja um homem ou mulher de qualquer época professa os votos, estão de um modo singular e fecundo aprofundando a consagração batismal. Tudo isto fecundado, auxiliado e movido pelo Espírito Santo.
A comunhão perfeita na Igreja é a Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo. A vida consagrada é sinal de comunhão na Igreja, pois participa da comunhão trinitária, mostrando a possibilidade da vivência fraterna no amor.
A consagração, de um modo simples, mas provocante, reflete o modo de viver de Cristo. Cristo durante a sua vida questionou a sociedade, apontou erros, desafiou ricos e pobres, autoridades e pequenos de coração soberbo. Depois de seu tempo de vida pública terminou sendo crucificado como malfeitor. Ser religioso na atualidade é sofrer como Cristo e com Cristo. Os impactos da realidade sociocultural e religiosa sobre a vida consagrada são muito fortes. Os conflitos do tempo presente são como uma avalanche que desce de uma montanha e vai arrasando tudo.
No contexto atual a vida religiosa sofre muito com a diminuição no número de vocações. Contudo, “a verdadeira derrota da vida consagrada, (...) não está no declínio numérico, mas no desfalecimento da adesão espiritual ao Senhor e à própria vocação e missão” (Exortação Apostólica Vita Consecrata do papa João Paulo II nº62).
A pós-modernidade influencia diretamente na vocação da pessoa e nos já consagrados. Como características da pós-modernidade estão: influência da mídia, sobretudo com as novelas, a busca pela praticidade e facilidade, o uso do que é descartável, a vivência do imediatismo e a renúncia da história, a valorização do poder e do ter, a valorização do exterior como belo e outros aspectos menos importantes. Todos estes conceitos e idéias são introjetados na vida da pessoa desde o seu nascimento. Conseqüentemente, responder a um chamado transcendental fica quase que impossível. Pois a cultura é a cultura do imanente, do material e do visível. A vida consagrada exige renúncia e o tomar a Cruz de Cristo para segui-lo. Numa sociedade que valoriza o prático e o fácil, tomar a cruz é uma ofensa.
A vida consagrada deve ser abraçada para toda a vida, buscando sempre o crescimento na adesão espiritual ao Senhor e à própria vocação e missão, coisa que é feita gradativamente (conversão). Ora, como abraçar isso se na cultura se valoriza o descartável, o uso momentâneo e a vivência do “agora e já”, tudo imediato sem uma preocupação a longo prazo? É remar contra a correnteza.
A vivência da vida religiosa se dá por meio da profissão dos votos pobreza, castidade e obediência. Contudo, na maior parte da sociedade se prioriza a realização por meio do ter riquezas materiais, da vivência desregrada da sexualidade (conseqüência do apego ao material – carnal) e do ter poderes opressores sobre as pessoas. É uma “tsunami” contra a vida religiosa.
Penso que a raiz destes males seja a valorização plena do imanente. Pois as conseqüências são sempre o descarte de Deus, a valorização excessiva e o apego ao material, e a cultura do exterior e do visual. Isto tudo nos influencia, religiosos ou não.
Na Idade Média talvez fosse mais fácil ser cristão ou ser religioso, pois toda a sociedade era considerada cristã. Hoje está muito mais difícil abraçar a vida religiosa ou até mesmo ser cristão. Há, como vimos, um “mundo” de elementos que vem contra a vida religiosa, contra o cristão, contra a fé em Jesus Cristo. Até mesmo na própria Igreja há aqueles que compactuam com ideais não-cristãos, e assim buscam destruir a fé dos cristãos. Sigamos este conselho: “não desanimeis embora venham ventos contrários” (Santa Paulina do coração Agonizante de Jesus).

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