Associação dos Geógrafos Brasileiros  Seção, Campina Grande - PB - AGBCG

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Embrapa utiliza rejeito de dessalinizadores para criar peixes e caprinos

Novo sistema de produção reduz risco ambiental de rejeitos e ainda reforça a produção de alimentos na estação seca do sertão nordestino. Unidades demonstrativas serão implantados em todos os estados do semi-árido brasileiro.

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Campinas - Mais de 3 mil dessalinizadores já funcionam hoje, no semi-árido nordestino, tornando potável a água salobra de poços e açudes. Porém, sua operação resulta na produção de um rejeito capaz de contaminar o lençol freático e causar sérios impactos ambientais, sobretudo no solo. Na busca de uma solução adequada para estes rejeitos, pesquisadores da Embrapa Semi-Árido, de Petrolina, Pernambuco, acabaram desenvolvendo um sistema integrado de produção de peixes e caprinos, que pode ajudar a população a conviver com a seca, aumentando a produção de alimentos.

“Além de ter água boa, o produtor do sertão poderá reduzir o impacto ambiental do rejeito, produzir cerca de 600kg de peixe de primeira linha, a cada três meses, e outros 600kg de carne de caprinos por ano”, resume o coordenador da pesquisa, Everaldo da Rocha Porto, da Embrapa. Ele começou a estudar algumas alternativas de solução para o rejeito dos dessalinizadores por osmose reversa em 1996, tendo recebido, ao longo destes anos, recursos da Secretaria de Recursos Hídricos do Ministério do Meio Ambiente (SRH-MMA), da Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia de Pernambuco (Facepe), do Banco do Nordeste e da Fundação Banco do Brasil (FBB).

Em sua equipe trabalham dois engenheiros de pesca, dois engenheiros químicos e dois zootecnistas, que montaram um modelo experimental do sistema, em Petrolina, para visitação dos produtores interessados. Outras 11 unidades demonstrativas serão implantados até o final de 2004, em todos os estados do Nordeste, financiados pela SRH-MMA, a um custo de R$20 mil, cada. Os pesquisadores da Embrapa Semi-Árido acompanharão a implantação e realizarão cursos para treinamento dos técnicos, designados para, futuramente, orientar os produtores rurais.

Segundo descreve Everaldo Porto, a pesquisa inicialmente visava destinar o sal retirado da água pelos dessalinizadores para o gado bovino, como complemento alimentar. Cada litro de água que passa pelo dessalinizador rende meio litro de água boa, sem sal, e meio litro de água muito salgada, que é o rejeito. “Normalmente esse rejeito é dispensado ao ar livre e pode recontaminar o poço, que está sendo dessalinizado, ou ser carreado pela chuva, infiltrando até o lençol freático e causando graves impactos no solo”, alerta o pesquisador. “Fizemos tanques para recolher a solução salgada e favorecer a evaporação, de modo a aproveitar, posteriormente, o sal cristalizado para o gado. Mas descobrimos que o teor de magnésio, sobretudo cloreto e sulfato de magnésio era alto demais”.

Esta linha de pesquisa prossegue, com a tentativa de separar os sais prejudiciais ao gado, mas os pesquisadores descobriram outro destino para o sal, ao tomar conhecimento da técnica usada por criadores de peixes de água doce, que dão um “choque de sal” nos tanques, algum tempo antes de fazer a despesca e comercializar o pescado. “Testamos a criação de tilápias na água de rejeito, inclusive quanto ao sabor da carne, e deu certo: ao invés do ‘choque de sal’ fazemos toda a engorda na água salgada, onde colocamos os alevinos a partir de 10 a 12 g”, conta Porto. Em 5 meses, os peixes chegam a 600g, em tanques com uma densidade de 4 peixes por metro cúbico, produtividade igual à dos sistemas de água doce.

“Mas ainda restava um problema: de 5 a 10% da água dos tanques deve ser reciclada diariamente, para oxigenação, então ainda tínhamos que dar destino a este rejeito”. O problema foi resolvido com a erva sal (Atriplex nummularia), planta originária da Austrália, introduzida no sertão nordestino na década de 30 como forrageira, por sua resistência à seca. “Esta planta é halófita, ou seja, tem a capacidade de retirar sal do solo, e ainda chega a um teor de proteína de até 24%, semelhante à alfafa, uma das melhores forrageiras para o gado”, acrescenta. “Fechamos então o ciclo: o rejeito de um dessalinizador abastece dois tanques de peixes de 330 m3, cada, que irrigam um hectare de erva-sal, que por sua vez alimenta de 60 a 80 caprinos. E a erva-sal ainda pode ser armazenada como feno, alimentando os caprinos em plena época seca”.

A equipe de pesquisadores continua avaliando o desempenho do sistema de produção, com recursos da ordem de R$150 mil da FBB, para dois anos de pesquisa (2002-2004). Vão ajustar as recomendações técnicas para as várias realidades dos produtores rurais do sertão e para o Programa Água Doce, a ser lançado pela SRH-MMA.

 

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