Humanidade
       E, de repente, todo aquele sentimento de impot�ncia se esvaiu, murchou.
A mente agora parecia incompleta, como uma garrafa cheia apenas at� a metade.
A vida passa, as coisas mudam, o mundo se renova, em um processo muito r�pido.
O ciclo � intermin�vel: vida e morte, crescimento e velhice, luz e escurid�o.
Concep��es antigas s�o simplesmente deixadas para tr�s.O presente � o futuro de ontem.
A estadia nesse planeta � muito ef�mera.E muito vulner�vel tamb�m.
Sozinho em uma cama humilde, todos esses pensamentos e o cheiro da morte atingiam aquele velho de cabelos inteiramente grisalhos, olhos aparentemente inexpressivos, que na verdade estavam cheios de medo, e de apar�ncia cansada.
Seu sentimento era de que aquele c�ncer, agora espalhado por todo o corpo, funcionava como um elemento maligno, corrosivo, que fazia cada uma de suas c�lulas padecer lentamente.
Vi�vo, sem filhos ou amigos vivos, e tampouco sem esperan�a, ele via seu corpo ceder e se degradar de forma tortuosa: o exterior parecia queimar e morrer aos poucos, mas internamente, sua mente ia se esvaziando r�pido demais.
Lembran�as de uma vida dura de trabalho, de lugares bonitos e pac�ficos, de um casamento sem amor que durara trinta anos, de filhos perdidos, de mulheres de corpos voluptuosos e almas vazias, do gosto do �ltimo cigarro.Tudo indo embora de uma vez s�.Para sempre.
E, algumas horas depois, naquela mesma cama vazia, a garrafa, antes cheia apenas at� a metade, se esvaziou totalmente, de forma silenciosa.Seu corpo cedeu, por fim, ficou gelado e endureceu.Mem�rias como aquelas foram perdidas para sempre.E o mundo parecia nem notar a diferen�a.
O corpo de seu Ant�nio foi encontrado no dia seguinte, acidentalmente.
Ele foi enterrado por meia d�zia de desconhecidos compadecidos, que ap�s o humilde ritual, acenderam uma vela pela sua fr�gil e pobre alma.
N�o se sabe ao certo se ele encontrou a paz verdadeira, se foi para o prometido Nirvana, se viu Deus, se foi acolhido por Maria, se foi tomado por uma forte luz ou mesmo se achou o esp�rito de algu�m.
N�o se sabe se ele foi para outro planeta, se foi morar em um campo verde e tranq�ilo com lagos cristalinos em volta, para o c�u ou simplesmente para o caix�o.
A �nica coisa que se sabe � que, aqui na Terra, ningu�m chorou de verdade por ele.
Van Gogh
In�cio
Fernanda Machado de Souza
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