O clube nasceu da única bola que existia em Porto Alegre. O jogador com verso marcado no hino do clube não é um artilheiro ou um camisa 10, mas um goleiro. O primeiro gol do Olímpico foi arquitetado e marcado por uma dupla de atletas negros, apenas dois anos depois de o clube abolir o preconceito racial. A história mostra, deve haver mais exemplos, que o Grêmio tem a incomum mania de traçar o caminho mais difícil, tortuoso ou inesperado para legitimar as suas façanhas. Não poderia ser diferente no jogo do maior público do estádio que, em dezembro, se despede para dar lugar a Arena. No dia em que o Olímpico lotou como nunca, o time jogou mal, perdeu, não fez gol. Mas, pasmem, a torcida comemorou tudo isso como se fosse um título.
O domingo de 26 de abril de 1981 antecedia o ingresso do Grêmio em uma nova era. Os anos 1970, tão implacáveis, já haviam passado. A série de oito Gauchões perdidos fora sepultada em 1977 com gol e tombo de André Catimba. O Olímpico já virara Monumental, completamente ampliado, reformado, pintado... Passar pela Ponte Preta naquele domingo significava a primeira decisão em caráter nacional do clube. A sua certidão de maioridade. Mais: uma vaga à Libertadores de 1982. A torcida entendeu o recado e superou a expectativa de público estipulada pela direção para a semifinal do Campeonato Brasileiro.
A ideia do presidente Helio Dourado e sua trupe era de 85 mil tricolores. Viram, assombrados, o estádio receber exatamente 98.421 almas - público jamais visto ou superado naquele naco de terreno do bairro Azenha, em Porto Alegre. A senha já havia sido dada na quinta-feira, quando a delegação retornara de Campinas recepcionada por 500 torcedores no aeroporto. Na bagagem, a vitória por 3 a 2, que dava a vantagem até de derrota simples diante de um mar azul.
- Quando entramos no gramado, sentimos a sensação de haver muito mais gente que o normal. A gente sabia da importância. Era a primeira chance concreta de chegar a uma final, algo inédito! Havia uma expectativa muito grande da torcida - relembra o centroavante Baltazar, o Artilheiro de Deus, herói da decisão contra o São Paulo, dias depois.
- Você via a compactação da torcida... uma loucura - conta China, volante naquela partida. - Fizeram o pôster de uma foto depois. O time todo de branco e um fundo maravilhoso das arquibancadas...
Leão salva erro de De León e garante o Grêmio na final do Brasileiro
Mas a festa inicial daria lugar a uma tensão quase que interminável. Começou cedo. Aos 20 minutos, Osvaldo (que jogaria no Grêmio em 1983, sendo campeão da Libertadores e do Mundial) marcou, de cabeça, o gol da Ponte Preta, após cobrança de falta de Serginho, diante de uma defesa inerte. O goleiro Leão, sempre intempestivo, protestou. Não concordara com a falta marcada por Maurílio José Santiago, que originaria o lance. Tudo em vão. O fato era que o 1 a 0 contra não permitia mais erros ao Grêmio. Outro gol paulista e a vaga trocaria de lado.
A expectativa para uma final inédita, o estádio abarrotado de gente e o revés logo no começo da partida enervaram de vez os jogadores. Só dava Ponte Preta. Nem a bronca do técnico Ênio Andrade no intervalo, pedindo um time mais leve e menos nervoso, surtira efeito.
- Foi um jogo de boa concentração defensiva de nossa parte - pondera China. - Só num lance realmente quase nos perdemos...
Foi com Hugo De León, quem diria, zagueiro e capitão, de autoridade indiscutível e qualidade superior. O uruguaio tentou tirar a bola de perto da área, aparar um cruzamento. O chute, traiçoeiro, tomou o efeito contrário, quase decidido a manter o sonho azul de um título nacional confinado nos porões do Olímpico.
Mas Leão saltou como um gato, buscou a bola no ângulo e salvou o gol de uma provável eliminação catastrófica, uma versão oitentista, mas muito fiel, do imortal Maracanazo. O goleiro recebeu o abraço de De León. Um reconhecimento pela defesa, mas também um aliviado e sincero pedido de desculpas.
O que não significou paz para a torcida, incapaz de apoiar plenamente o time. A tensão desgastava, consumia, tolhia. Deixava a garganta seca, gritar era impossível. Entoar cantos, desafio para poucos, num dia em que a mente estava longe, desejando uma final de Brasileiro.
- O pessoal era um pouco mais contido, tinha umas torcidas organizadas, mas muito divididas. Não é como hoje, que tem a Geral cantando o tempo inteiro - contextualiza China, sem saudosismo.
A multidão só conseguia relaxar quando sintonizava o radinho ao pé do ouvido para saber o resultado da outra semifinal. Todos queriam enfrentar o Botafogo em vez do São Paulo. Assim, a decisão do título seria no Olímpico. O gol dos cariocas incendiou o Olímpico. Mas os paulistas viraram e ficaram com vaga. Faltava o Grêmio, no entanto, fazer a sua parte. E fez.
- Estava todo mundo apreensivo, mas conseguimos manter. Nossa equipe era muito experiente - reforça Baltazar.
Ele veste preto e não marca gols. Mas, quando Maurílio José Santiago apitou o fim do jogo, era como se o placar mudasse para 1 a 1. A festa, adiada por mais de 90 minutos, quase estragada por Osvaldo e por pouco dizimada pelo erro da defesa gremista, enfim se consumou. Os jogadores comemoravam e ao mesmo tempo se desculpavam ao torcedor pela partida "ruim", pelo "sufoco" ou pela atuação "presa" da equipe, como confidenciaram ao batalhão de microfones.
Com o fim do jogo, isso pouco importava. O Olímpico poderia, fnalmente, saborear a derrota mais doce de sua vida, diante do maior público de sua história, rumo a uma decisão e a uma Libertadores, ambas inéditas. O caminho pode ter sido, mais uma vez, um tanto torto, sofrido, suado. Mas, como vaticina a história do clube, foi mais um teste, um prelúdio ingrato, um prefácio de fogo. Já que o final da história, gremistas e são-paulinos bem sabem, foi tingido de azul.
GRÊMIO 0X1 PONTE PRETA Grêmio: Leão; Uchôa, Newmar, De León e Casemiro; China, Paulo Isidoro, Vilson Tadei e Renato Sá (Jurandir); Tarciso e Baltazar. Técnico: Ênio Andrade Ponte Preta: Carlos; Edson Boaro, Nenê Santana, Juinho Fonseca e Odirlei; Celso, Humberto, Osvaldo e Zé Mário; Serginho e Lola. Técnico: Lino Fachini Junior Gols: Osvaldo (PP) aos 20 minutos do 1º Tempo. Cartão Amarelo: Ordilei (PP)
Árbitro: Maurílio José Santiago (MG)Data: 26/04/1981
Local: Estádio Olímpico - Semifinal do Campeonato Brasileiro - Jogo de VoltaPúblico Total: 98.421 Pessoas Público Pagante: 85.721 Pagantes Renda: Cr$ 11.142.990,00