Os judeus, sobretudo os da Espanha, sefaradis, guardam
muitas histórias e tradições relativas a Jesus. O escritor Scholem
Asch [Xóleme Axe] consolidou a maioria delas em O Nazareno.
Por exemplo, tanto os judeus quanto os evangelhos acentuam que Jesus
menino recebeu elogios de Simeão, o maior rabino entre todos, que
assinalou com clareza a sua missão profética (''despede agora o teu
servo, porque meus olhos viram a salvação'').
E tem histórias no Talmude: uma dessas do Talmude repreende um famoso
rabino, Jesus de Perachia, por não aceitar Jesus de Nazaré, ''que
estava próximo do Reino'' (do mesmo modo que Jesus elogia um rabino
porque ''não estás longe do Reino'').
Uma história que minha avó gostava de me contar: uma mãe, com o filho
doente, saiu em busca de Jesus, mas ele visitou o menino antes que
ela o encontrasse (do folclore judaico).
Outra, no mercado (bazar) de Jerusalém os moradores aglomeravam-se em
torno de um cão morto (era proibido haver cadáveres na cidade),
comentando o mau-cheiro, o mau-aspecto; passou Jesus e disse, que
belos dentes ele tem! Reluzentes como pérolas! E alguém
disse, ''somente Jesus acharia beleza num cão morto'' (do folclore
judaico).
Contudo os judeus atribuem perfeição unicamente ao Eterno Deus,
portanto são eminentemente críticos em relação aos homens e acham
defeitos em todos os seus profetas: Moisés era coxo e gago, Jeremias
tinha depressão, Isaías era medroso, Daniel colaborava com os persas,
Abraão era fanático e quase matou o filho, etc., etc. tudo isso
perfeitamente registrado no mesmo Livro que acentua as suas
qualidades. Isso é feito para evitar o culto de santos ou qqer tipo
de idolatria ou culto à personalidade.
Nos evangelhos, por exemplo, Jesus elogia o escriba zeloso que retira
sabedoria do Livro (parábola da rede), e ao mesmo tempo desanca os
fariseus hipócritas; elogia Helil (amar ao próximo, é o maior
mandamenteo: uma frase de Helil) mas rejeita a sua tese sobre o
divórcio: ''o que o D/us juntou o homem não separe'': Helil ao oposto
permitia o divórcio; e rejeitando o divórcio, Jesus aproxima-se dos
saduceus, que proibiam divorciar-se; mas em outra hora, Jesus critica
os saduceus, que rejeitavam a imortalidade, e ensina a imortalidade;
tudo isso devidamente explicado tintim por tintim no evangelho de
Mateus.
Esse permanente exame das ideias é característico da cultura judaica.
Muitos rabis antigos dizem de si mesmos, ''eu e o PaI SOMOS UM'', por
exemplo, o Baal Shem cujo nome significa ''o nome de D/us''. Por usar
esse nome, devemos crer que ela tenha sido um deus encarnado? No
judaísmo, esta frase tem um sentido eminentemente simbólico,
reflexivo e crítico.
E' essa atitude crítica que, para os cristãos, faz pensar em que os
judeus rejeitam Jesus. Duas histórias críticas: no Talmude, se diz
que Jesus era ''mago''. Outra, do folclore: havia um mendigo em
Jerusalém, a polícia o prendeu (era proibido mendigar na cidade) e
ele disse, ''até ontem eu era um pacato vendedor de quinquilharias no
templo, mas veio um peregrino e expulsou todos os vendedores,
reduzindo-me a mendigar''. No mesmo trecho do Talmude, fica dito que
a família de Jesus tinha a tarefa anual de lavar o Templo e oferecer
as primícias, portanto, Jesus estava apenas cumprindo o seu dever ao
impedir que os vendedores comerciassem, como relatado pelos
evangelhos.
Para cada história a favor de cada profeta, vc vai encontrar uma
história contra, seja no Folclore, na Bíblia ou no Talmude. Não é
diferente para Jesus: cada frase que o elogia tem sua contrapartida
em outra frase, que critica.
Nenhuma culpa temos se o cristianismo se desenvolveu no sentido de
fazer culto à personalidade deste rabi. Até porque, *messias* é antes
de tudo uma época, um tempo de paz universal que vem com o Reino de D-
us; messias nunca foi um homem, embora, foi predito que um profeta
traria esta épooca. Contudo, até onde podemos ver, não existe ainda a
paz universal, portanto, o messias ainda não veio.
Portanto, os judeus aceitam a profecia de Jesus e rejeitam o dogma de
sua divindade. Nenhum deus existe além do D-us Uno. Os profetas são
homens, com os defeitos e qualidades dos homens, numa palavra, almas
em progresso, embora santas almas: pois o progresso é infinito, o que
parece aos homens o último passo é apenas um comecinho.
Um autor interessante seria Pinchas Lapide, ''Jesus; filho de José?''
onde ele examina o olhar judaico sobre Jesus ao longo do tempo.