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Texto B
A mulher do Cais
O meu homem fez-se ao mar
ao grande mar oceano
com a promessa de voltar
das rotas do desengano
O meu filho é marinheiro
e anda nas naus do Gama
Não busca o eco sonante
dos nomes que tem a fama
O meu homem é soldado
vai doente num porão
vai doente com a saudade
que leva no coração
Eu sou a mulher do cais
a que espera o navegante
que volta velho e cansado
de uma ilha tão distante
Eu sou a mulher, a mãe
a amiga e a namorada
a que desenha no mapa
uma estrela de alborada
Eu sou esta mãe- coragem
de que a história não falou
e só quem me viu chorar
é que sabe o que me custou
José Jorge Letria
Rua dos Navegantes
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Texto E
Fala do Velho
do Restelo ao Astronauta
Aqui, na Terra, a fome
continua,
A miséria, o luto, e outra vez
a fome.
QAcendemos cigarros em fogos de
napalme
E dizemos amor sem saber o que
seja.
Mas fizemos de ti a prova da
riqueza
Ou talvez da pobreza, e da fome
outra vez,
E pusemos em ti nem eu sei que
desejo
do mais alto que nós, e
melhor, e mais puro.
No jornal soletramos, de olhos
tensos,
Maravilhas de espaço e de
vertigem:
Salgados oceanos que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não
chove.
Mas o mundo, astronauta, é boa
mesa
( E as bombas de napalme
são brinquedos),
Onde come, brincando, só a
fome,
Só a fome, astronauta, só a
fome.
José Saramago
Poemas Possíveis
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Texto F
Um Velho no
Restelo
Irado, e meio de recusa, olhas
gaivotas.
*
É o Homem do Leme?
Não o creio.
*
Dá tudo por tabaco. Um
cigarrinho
apazigua o velho. a sua queixa
( histórica?) é, afinal,
conforme.
*
Vem para terra o velho. Perde
uma alpargata
e apostrofa o mar, que não tem
culpa
do alcatrão fervente.
*
O velho morde um pão
e deixa nele o dente.
*
O velho bebe um copo.
Não deixa nele a sede.
*
O mar é o ladrão,
De pais a filhos o mar é o
ladrão.
O sal das sobrancelhas alveja
em seu olhar.
está por tudo o velho, menos
pelo mar.
Alexandre O'Neill
As Horas Já de Números
Vestidas
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