E O "PADRE DA MÁQUINA"FOI ESQUECIDO

Reportagem publicada pelo jornal "O Estado de São Paulo" de 27 de julho de 1980
Reportagem de Pedro Zan, Paulo Morais e Raimundo Aquino

 Esta reportagem me foi enviada pela Sra.Leonor Zulmira de Azevedo Pires, uma pessoa inconformada
com as injustiças que têm sofrido os nossos inventores brasileiros, como este notável sábio e sacerdote
católico o padre paraibano FRANCISCO JOÃO DE AZEVEDO.
Luiz Netto



 

E O "PADRE DA MÁQUINA" FOI ESQUECIDO

  O padre paraibano Francisco João de Azevedo morreu há 100 anos sem realizar seu maior sonho: Conseguir a patente de uma máquina de escrever de madeira feita à mão, com auxilio de lixa e canivete. Doze anos depois, em 1873, três americanos receberam autorização para produzir em escala industrial uma máquina quase igual à do brasileiro João de Azevedo. O modelo americano era uma cópia do brasileiro que continou a ser apenas uma peça de artesanato.

Escritores, jornalistas e historiadores garantem que o modelo da máquina de escrever brasileira foi transferida para os Estados Unidos ou Inglaterra por um estrangeiro, com autorização do padre Azevedo.
Hoje, o Brasil - que não se interessou pelo invento do padre brasileiro - é o maior produtor mundial de máquinas de escrever, com seis fábricas, das quais cinco são multinacionais, instaladas no País. Seu inventor, porém, continua esquecido pela maioria dos brasileiros.



COM LIXA E CANIVETE

 No início. sua utilização foi muito restrita. Apenas os cegos, os que escreviam mal e os que sofriam das mãos deveriam adquiri-la.Os demais teriam de continuar redigindo documentos com suas longas penas de ganso. Logo, porém, elas foram substituídas pelas máquinas de escrever que se espalharam por quase todos os locais de trabalho.

Atualmente, o Brasil é o maior fabricante mundial de máquinas de escrever, com uma produçao anual de 7oo mil unidades. Ontem comeremorou se o centenário da morte de seu inventor, o padre Francisco João de Azevedo. Italianos, americanos e ingleses reivindicam a autoria do invento, mas o padre José de Azevedo foi o único que, em 1861, concluiu um modelo de máquina funcional e em condições de ser produzido em escala industrial.

Houve outros modêlos de máquinas de escrever que se antecederam ao do inventor paraibano - diz o professor  Ataliba Nogueira, um especialista no assunto, mas nenhum pôde ser industrializado "pois para tanto não se prestavam". Com seus óculos de aros de ferro presos por um cordão, padre Francisco trabalhou com canivete e lixa durante meses, recortando letras de jornais, para colocá-las sobre as teclas, e tirando as arestas dos tipos de madeira. Antes da conclusão do projeto, o inventor fez importantes revelaçõeses a Aloisio de Carvalho, médico e antigo presidente da Intendência do Rio de Janeiro:

"Resolvido esse problema, não é uma grande revolução que faço no mundo, a de escrever por máquina? Mas que quer meu amigo , nao terei esse gosto. Nao tenho dinheiro, nem quem me queira emprestar para levar meu invento à Europa, e fundí- lo em aço." Mesmo com toda as dificuldades, essa "revolução"se concretizou. Hoje, só na cidade de São Paulo, há mais de 8o mil secretárias, além de datilógrafas e auxliares de escritório.

As máquinas de escrever, porém quase provocaram a extinção das escolas de caligrafia. Edison D. Franco, professor há 40 anos,é o responsável pela única escola de caligrafia existente no País. "Com o surgimento das máquinas, as escolas foram sendo abandonadas. As pessoas, entao passaram a achar que fazer curso de caligrafia é coisa supérflua. Mas no passado, escrever com clareza era uma necessidade". Franco acha, porém, que "mecanizar o ato de escrever" facilitando a reproduçao gráfica, nao significa a extinçao das escolas de caligafia".

A máquina fotográfica não acabou com a pintura, nem os equipamentos de modelagem industrial eliminaram os escultores O invento da máquina de escrever veio facilitar tarefas humanas, permitindo a execuçãao mais rápida e uniforme ds trabalhos, que se conservarãoo sempre, impessoais". Quando a máquina de escrever foi inventada, muitos a consideraram desnecessária.
Estevão Pinto ironizou o invento, lembrando que ele poderia ser criticado por alguma beata: "Ora essa, então por que foi que Nosso Senhor deu os dedos à gente, senão para escrever com eles mesmos?"

Outros comentavam que "ninguém deixaria de lado uma bela caligrafia manual que custva poucas patacas semanais, por uma máquina que deveria custar muito diheiro a um empregado melhor aquinhoado. As críticas porém, tiveram curta duraçao. O padre Francisco João de Azevedo apresentou sua máquina de escrever na Exposicao Nacional que, em dezembro de 1861, reuniou os melhores trabalhos de todos os Estados.

Ela foi premiada com a medalha de ouro, entregue por D.Pedro II, ao padre paraibano, e deveria ser exibida em Londres na Exposicão Internacional, o que nao ocorreu "por falta de espaço para acomadar os originais no local destinado aos produtos do Brasil". A máquina de escrever do padre Azevedo - afirma o livro de ATALIBA NOGUEIRA - precedeu de 12 anos, o primeiro engenho industrializado, a máquina norte americana.O próprio autor revela que a máquina pode ter sido transferida para o Exterior contra a vontade de seu inventor, ou alguém ter se apropriado de seus segredos, transferindo- os para outro país.

Outro escritor, Miguel Milano, responsável pela biografia do inventor, diz que "o simples confronto entre as duas máquinas ( a brasileira e a americana de Cristóvão Sholes), não deixou a menor dúvida de que se tratava da mesma máquina. Nem o pedal lhe foi suprimido, apesar de perfeitamente disponível". Os artigos de escritores e jornalistas americanos não fazem sequer comentários sobre a vida e obra do padre João de Azevedo.

O Inventor brasileiro não estimulou a discussão. A contrário, esperou até 1872, 11 anos depois da Exposição Nacional, para que a Assembléia Provincial autorizasse um empréstimo, que nao chegou a ser concedido, para "aperfeiçoamento e construção das máquinas de sua invenção" Tarde demais. Os modelos de máquinas americanas foram patenteados e colocados pela primeira vez no mercado em 1873".

Três anos depois, o jornal  A PROVÍNCIA DE SÃO PAULO, publicava a seguinte notícia:
"Lemos em uma folha da Capital do reino A Companhia Alliança de Crédito e Auxílio das Artes Portuguezas, estabelecida no Porto, mandou vir da Inglaterra uma machina de escrever tão engenhosa quanto simples e perfeita". E os anúncios publicitários davam ênfase à importância da máquina de escrever, ao contrário do que acontecia no passado: "Contra a preguiça de escrever, a perda da vista e os desvios da espinha, use a máquina de escrever".

HOJE SÓ RESTOU O NOME DE RUA

Francisco João de Azevedo, o inventor da máquina de escrever, é hoje apenas nome de rua, de loja maçonica e de uma escola de datilografia na cidade onde nasceu, Joao Pessôa.No Recife, onde viveu a maior parte de sua vida e se ordenou padre, nao há referências ao inventor nos museus do Estado. Nem mesmo sua sepultura foi localizada, na Paraíba, mas o historiador Desdedith Leitao tem uma explicação para o mistério: "Naquela época, costumavam enterrar as pessoas  em valas comuns, de dífil identificação posterior".

Na Paraíba e no Recife são poucos os que se lembram do padre Frnacisco Joao de Azevedo. A maioria das citações sobre o inventor pode ser encontrada em livros, como o de um de seus biógrafos, o escritor Sebastiao de Azevedo Bastos : "A glória não lhe veio em vida, mas muito tempo depois de sua morte. Vivo, tudo conspirava contra ele" .Alguns paraibanos o vêem como uma pessôa de espírito engenhoso, nao obstante injustiçado pelos poderosos do antigo Império".

Sebastião Bastos resume a vida do padre inventor: "Um singular e modesto paraibano, pacífico sacerdote, porém grande professor de matemática, maçon convicto". Além da máquina Francisco João de Azevedo desenvolveu outros inventos: Um veículo para o mar, acionado pela força das ondas, e outro para a terra, movido pelas correntes aéreas". Mas as dificuldades foram as mesmas.

Em carta a jornais de Recife, em seis de outubro de 1875, o padre fazia uma confissão: " O acanhamento, a timidez de minha índole, a falta de meios e o retiro em que vivo nao me facilitam o acesso aos gabinetes, onde se fabricam reputacões e se dá diploma de suficiência. Dai vem que minhas pobres invenções definhem, morram crestadas pela indiferença e minha falta de jeito". Francisco João de Azevedo deixou ainda um repertório de músicas sacras que até recentemente eram executadas em festas religiosas.

Depois que os americanos passaram a produzir as máquinas de escrever em escala industrial, muitos escritores e publicações se preocuparam em defender o padre João de Azevedo. Um deles, o escritor SILVIO ROMERO, enviou uma carta ao jornal GAZETA DE NOTÍCIAS, esclarecendo que "vi a cançar a máchina de escrever admiravelmente feita de madeira, capaz de reproduzir qualquer trecho falado ou escripto".

O jornal "A Paraíba", de 31 de julho de 1880,diz que "o padre Azevedo inventara uma máquina de escrever", enquanto o Diário de Pernambuco explica que "ele inventou uma máquina taquigráfica e outra de escrever, que encheu de pasmo e admiraçao a Europa civilizada". A Revista Ilustrada, do Rio de Janeiro, foi mais objetiva, reivindicando ao padre brasileiro os direitos e a prioridade à invenção.

O artigo publicado em 1876 comenta que "as primeiras máquinas americanas começam a entrar no mercado europeu, chegando até aqui os ecos de seu sucesso, através da apreciação das folhas". O professor Ataliba Nogueira completa: "Tanto mais valor tem esse brado de alarma (da revista Ilustrada) quanto considerarmos que o padre Azevedo estava vivo, entregue às suas ocupações docentes". Era uma crônico irônica, Angelo Agostini, revela sua revolta com o abandono do invento do padre João Azevedo. "O brasileiro não tem o direito de inventar, de descobrir, de empreender uma idéia engenhosa, profícuo, útil, de realizar um melhoramento do qual se aproveita o País ou o mundo".

"Crie a sua imaginação um invento, gaste seus dias em estudá-lo, coordená-lo, realizá-lo e apresentá-lo, porque encontrará três antagonistas desapiedados: a indiferença, a incredulidade e a inveja que o aniquilam, nulificam e estraçam-lhe as suas esperanças mais bem fundadas, fazendo-lhes perder o fruto de longas vigílias e, quem sabe, de enormes dispêndios". Miguel Milano, o biógrafo do inventor fez um comentário após sua morte: "Digno por todos os títulos de ser apontado ao reconhecimento da humanidade em geral e dos brasileiros em particular, nada se fez até hoje, que se perpetue a memória do grande paraibano".

E Ataliba Nogueira, no seu livro "A máquina de escrever, invento brasileiro" confirma as afirmações de Miguel Milano: "Em vão se procurará o nome de Francisco João de Azevedo na história da máquina de escrever escrito por estrangeiros. Se o inventor brasileiro é desconhecido na sua pátria,onde apenas vagamente existe a memória do seu feito na consciência popular, não é sem razão que o ignore completamente o historiador peregrino, mais preocupado com as glórias de sua nação".

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