Máscaras
(Antônio Cândido, in Formação da Literatura Brasileira)

Quando se fala em Romantismo, pensamos automaticamente nos poetas que Ronald de Carvalho chamou "da dúvida" e pertencem quase todos à segunda geração romântica. A Noite na Taverna e os desvairos da Sociedade Epicuréia; Laurindo Rabêlo, bêbado rindo e chorando; o claustro de Junqueira Freira; o brando Casimiro e as borboletas de sua infância - eis algumas imagens que constituem o que vagamente se concebe sob a palavra romântico. Românticos ficaram sendo os rapazes que morrem cedo; imaginamos ao mesmo tempo castos nos suspiros e terrivelmente carnais nos desregramento; capazes de que a lenda se apossou, deformando-os sob um jogo às vezes admirável de máscaras contraditórias.
Para os compreendermos, é na verdade através de máscaras que os devemos imaginar, mudando-as ao sabor das sugestões que deles vêm: a máscara de devasso no moço bom que foi Álvares de Azevedo, cedendo lugar a outras, de melancolia negra ou inesperada molecagem; máscaras de loucura, embriaguez, perversidade, substituídas pela de bonomia, ingenuidade e saudável galhofa no misterioso Bernardo Guimarães. Em poucas gerações literárias, como nessa, parece tão legítima a representação do poeta mascarado, cuja personalidade, para se realizar e impor, precisa multiplicar-se em manifestações por vezes incoerentes. Noutros, apreciamos o esforço da unificação espiritual, a superação das contradições; neles, queremos precisamente a multiplicação destas e o rumor com que se chocam umas às outras na sua obra e na sua vida.
Por isso, parece-nos definitiva e irremediavelmente românticos, pois vivem no espírito e na carne um dos postulados fundamentais do movimento - a volúpia dos opostos, a filosofia do belo-horrível. E os mais característicos dentre eles - Junqueira Freira, Álvares de Azevedo, Varela - vivem perenemente do contraste e dele morrem. "Cuidado, leitor, ao voltar esta página!": na sua existência, como na sua arte, esse perigoso quebrar de esquinas faz lei. Daí a dialética das máscaras, surgindo de repente para assustar o leitor incauto, que, em vez da fronte pálida, anunciada pela "lembrança de morrer", dá de chofre com Macário, soluçando e praguejando nas alturas do Ipiranga; ou escuta um brado dramaticamente carnal da cela de Frei Luís de Santa Escolástica Junqueira Freira:

Ao gozo, ao gozo, amiga. O chão que pisas
A cada instante te oferece a cova.

 

A tela A morte de Chatterton (1856), de Henry Wallès, retrata romanticamente o suicídio do poeta Chatterton, personagem de um romance francês. Chatterton, como Álvares de Azevedo, sentia-se impotente diante da "sociedade materialista", tendo verdadeira fixação pela idéia da morte.

Não é estranho, pois, que morram cedo. Deles, apenas um, que se fez romancista - Bernardo Guimarães - viveu além do Romantismo. Ao contrário dos predecessores, como Gonçalves Dias ou Magalhães, que partem do Arcadismo moribundo, vivem e morrem no período romântico; são bem os "filhos do século", mais voltados para o próprio coração (segundo o conselho de Musset) do que para a Pátria, Deus ou o Povo, como os da primeira e terceira geração. Por isso, já no seu tempo havia quem os reputasse menos brasileiros e, portanto, (segundo os cânones do nacionalismo literário), menos originais. "Manuel Antônio Álvares de Azevedo pouco e muito pouco tem de brasileiro: apontaremos só a canção do sertanejo", escrevem dois estudantes de São Paulo, em 1857. Alguns anos mais tarde, sentenciava outro estudante: "As suas poesias, embelezadas nos perfumes da escola byroniana, não foram inspiradas ao fogo de nossos lares. As harmonias do nosso céu, os perfumes da nossa terra não ofereciam àquela alma ardente senão um espetáculo quase sem vida; eram maravilhas por assim dizer murchas, ante as quais o poeta não se inclinara." Como poderia, de fato, ser brasileiro - isto é, cantar índios, flechadas, montanhas e cachoeiras, o mundo exterior, enfim - aquele para o qual a vida toda se identificava à própria dor, era a "dor vivente" da imagem belíssima, em que o corpo se dilacera ao pesa da fatalidade:

Quando em meu peito rebentar-se a fibra
Que o espírito enlaça à dor vivente...

Neste verso, justamente famoso, o mal do século encontra no Brasil uma das expressões mais pungentes e, ao mesmo tempo, raras, pelo arrojo do pessimismo que transfigura a própria matéria.
Pessimismo, "humor negro", perversidade, de mãos dadas com ternura, singeleza, doçura, nestes poetas é que os devemos procurar. Considerados em bloco, formam um conjunto em que se manifestam as características mais peculiares do espírito romântico. Inclusive a atração pela morte, a autodestruição dos que não se sentem ajustados ao mundo. Todos eles sentiram de modo profundo a vocação da poesia; vocação exigente, que incompatibilizava com as carreiras abertas pela sociedade do Império e nas quais se acomodaram eficazmente, na geração anterior, Magalhães, Porto Alegre, Norberto, o próprio Gonçalves Dias: advocacia, magistério, comércio, clero, armas, agricultura, burocracia. Por isso Junqueira Freire falhou como frade, Casimiro como caixeiro, Laurindo como médico, Varela como tudo. Por isso o advogado Aureliano Lessa caía de bêbado na rua e o juiz fez Catalão, Bernardo Guimarães, era demitido a bem do serviço. Por isso, o melhor estudante da Academia de São Paulo, Álvares de Azevedo, morreu antes de obter o canudo de bacharel. Todos eles escolhem as veredas mais perigosas, como quem experimenta com o próprio ser; um verdadeiro complexo de Chapeuzinho Vermelho, que leva a tomar o pior caminho para cair na boca do lobo, com um arrepio fascinado de masoquismo. São como a Zoluchka de um poeta russo moderno, Simeão Kirsanov, aflitos por se entregarem à "consoladora inviolável":

Meu lobinho pardo, pede ela: devora-me!

Mas enquanto não morriam a viviam na "lembrança de morrer", davam aos seus sentimentos expressões que iam da poesia obscena (cultivada por quase todos) ao mais lânguido quebranto; do devaneio balbuciantes, ao mais puro sarcasmo. Um largo movimento pendular, que oscila entre "Poesia e Amor", de Casimiro, e a apoteose fálica d'"O Elixir do Pajé", de Bernardo Guimarães; entre a "Saudade Branca", de Laurindo, e o "Poema do Frade", de Álvares de Azevedo.
Aliás, havia no tempo várias formas de sociabilidade poética que favoreciam muitas dessas tendências. É o caso das rodas boêmias improvisadas, no Rio e na Bahia, que tanto solicitaram a muda de Laurindo, o Poeta Lagartixa. É sobretudo o caso famoso das agremiações estudantis de São Paulo, não apenas as oficiais, como o Ensaio Filosófico, ou a Sociedade Dramática, mas as semi-secretas, como a Epicuréia - esta, propiciando, com os olhos fitos em Byron e Musset (ou melhor, nos heróis destes poetas: Don Juan, Jacques Rolla e Hassan) aquele desregramento das atitudes e das idéias, tão peculiar aos aspectos noturno e satânicos do Romantismo.

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