Álvares de Azevedo > Fortuna Crítica
FORTUNA CRÍTICA
Jaci Monteiro, in Obras de Manuel Antônio Álvares de Azevedo, Garnier, 1862.
Álvares de Azevedo!
Eis aí um nome - que deve ser escrito em caracteres de ouro no mármore
da História da literatura; eis aí um nome que deve de viver,
viver muito, aquecendo a nós outros - mancebos que demandamos a estrada
do progresso, caminheiros que tomamos por norte a palavra de Byron, o labarum
da civilização - Away!; - que procuramos tornar esta terra em
que vimos a luz ao primeiro descerrar dos olhos - invejada das nações
mais cultas da velha e vaidosa Europa!
Álvares de Azevedo!
E no entanto morreu tão moço, tão moço, quando
risonha lhe despontava a manhã, quando sentia a fronte escaldar-lhe
o fogo santo do gênio, quando tinha no vasto crânio em ebulição
um milhão de idéias a criar e desenvolver ainda!
Morreu tão moço! Flor da primavera crestou-a o simoun do destino,
que emurcheceu-lhe as pétalas cor de outro, e sem viço e sem
seiva tombou à beira do regato, que arrastou-a em sua correnteza.
E quão vasta que era aquela fronte, e quão fecunda que era aquela
imaginação! Fadara-o Deus para destinos bem altos; mas, meteoro
brilhante, cortou por um momento as nuvens e esvaeceu-se no nada da morte,
no silêncio da lousa.
E hoje pranteia-o uma família, que vive de sua glória; e hoje
chora-o seu pai, seu pobre pai, de que era o orgulho bem legítimo; e
hoje choram-no as letras de nossa terra, a que tanto e tão vivo impulso
em tão pouco tempo dera.
Fado é das letras entra nós! Junqueira Freire morreu ao despontar-lhe
a primavera da existência; Álvares de Azevedo, também como
ele, foi arrastado no torvelinho da morte, que lhe cortou os vôos.
Resignemo-nos.
Profetas da civilização, apóstolos da luz, lançaram
a semente fecundante em seu perpassar na terra; pois bem, reguemo-la, nós
outros obreiros do progresso, com o suor de nosso rosto, e oxalá que árvores
frondosas e frutos doces e viçosos - venham abençoar nossas noites
de insônia, nossas decepções e amarguras.
Estrelas cintilantes a luzirem no céu - sejam eles nosso norte, e levantemo-lhes
estátuas, e engrinaldemo-lhes as frontes nos traços vivos de
nossos arroubos e inspirações.
II
A terra de Bueno e dos Andrados, e onde pela primeira
vez soara a voz vibrante do príncipe guerreiro
- que nos deu foros de livres - foi o berço de Álvares
de Azevedo.
S. Paulo, a pátria de tantos heróis que a História canta,
iluminou com seu reflexo dourado a fonte infantil do mancebo poeta.
E a criança, que balbuciava apenas, cresceu e tornou-se o arbusto verdejante,
que se foi cobrindo de folhas que o vento agita, de flores que perfumam a brisa.
Rápidos foram seus progressos nos primeiros ramos dos conhecimentos
humanos, o laurel de bacharel em letras pelo imperial Colégio de Pedro
I lhe ornou a fronte, infantil ainda, e os primeiros lampejos do gênio
começaram a sair daquele cérebro inspirado.
E voltou a S. Paulo a conquistar a carta de bacharel em direito.
Foi aí que lhe nasceram a maior parte dessas composições
admiráveis, desses rasgos entrepitosos do gênio; foi aí que
ilustrou o espírito e viu encendida a imaginação da leitura
aturada, constante, refletida e sisuda dos principais clássicos - poetas
e prosadores da literatura francesa, inglesa, alemã e italiana; foi
aí que se inspirou no incessante meditar da Bíblia, de Ossian,
e Lamartine, de Shakesperare, de Tasso, de Goethe, de Uhland, de Chéniere
sobretudo do Byron inimitável, companheiros constante de suas noites
de ardente insônia, de seus dias passados no silêncio do gabinete.
Foi nesses poetas brilhantes ou sombrios, nessas leituras fantásticas
e tristes, no delirar do Dante e nos gritos de desespero de Gilbert, que adquiriu Álvares
de Azevedo essa eloqüência apaixonada, essa linguagem tão
do coração, esse estilo melancólico, impregnado de doce
suavidade, de arrebatamentos delirosos, que tanto impressionam a quem os lê.
Como tanto escreveu e em tão pouco tempo, para nós é um
mistério ainda. Três volumes de belas produções
aí vão publicados e material bastante ainda tinha para mais.
E para escrever tanto e tão bem, e para ostentar essa profusão
imensa de conhecimentos variados, essa erudição profunda da antiga
e moderna literatura, que a cada passo, a cada momento se depara em suas obras,
que de tempo não era preciso, que gastar de horas, que consumir de dias!
E não era só nisto que se empregava Álvares de Azevedo.
Cultivando a literatura amena e fácil, inteligência poética
delirante, e inspirada, - culto também votava às ciências áridas
que formam o objeto do curso que seguia. Primeiro entre os primeiros era ele
nos bancos da Academia de S. Paulo e os compêndios de que servia-se acham-se
cheios de notas extensas, de reflexões tão bem cabidas e profundas,
que fariam honra aos mais abalizados e distintos jurisconsultos. Conhecia perfeitamente
o Direito Mercantil e a obra que folheou, como estudante, acha-se tão
anotada, que só as reflexões aí contidas forneceriam matéria
para um bom volume.
E apesar desse afegar constante de trabalho, desse estudar contínuo,
desse escrever sem interrupções e sem descanso - ainda restava-lhe
tempo para desenvolver na esperançosa mocidade que o rodeava - o gosto
pelas letras, as aspirações da glória.
Mas tanto afã, tanto lidar de noite e dia alquebrava-lhe o corpo delicado,
e o jovem arbusto pendia a haste para a terra, ao sopro violento do furacão.
Muita vez ao trabalho fatigante de um dia e dois ou três, sem trégua,
sem interrupção, vinha-lhe a prostração e o desalento;
- e a palidez das faces e o bater fraco e sumido do pulso indicavam o abatimento
e a diminuição das forças.
E demais à prostração do coro vinha juntar-se o desalento
d'alma. O coração tem pressentimentos, cuja origem ignoramos,
mas que nem por isto deixaram de ser infalíveis - como as sentenças
lavradas no livro misterioso do destino.
Perseguia incessante ao jovem poeta - a idéia de que cedo, muito cedo
seria arrancado da terra que pisava, indo dormir no silêncio lúgubre
da campa o sono de finados.
E tão jovem morrer!... Morrer deixando lágrimas à sua
pobre mãe, que amava-o tanto de dentro d'alma; a seu pai, a seus irmãos,
que lhe admiravam o gênio e se orgulhavam dele!
E perseguia-o essa idéia dia e noite, no silêncio do gabinete,
a sós com suas reflexões, e no ruído das festas, na vertigem
da valsa.
E de sua alma assim padecia, e desse desalento terrível da vida, que
lhe comprimia o peito, tirava essas notas dolentes e sentidas, ou esses gritos
profundos, estridentes, que não podemos ler, sem que horrível
calafrio venha gelar o sangue.
E morreu: o arbusto virente que se debruçava à beira do regato
viu cair uma por uma as folhas que lhe formavam a coma, as folhe que perfumavam
a brisa, e deixando também pender a fronte foi arrebatado pelo impulso
da correnteza.
- Que fatalidade, meu pai!
Foi o último adeus do moribundo, a saudade legada a nós outros,
seus companheiros, soldados de que era o chefe.
E morreu!... E o sol da literatura pátria anuviou o semblante, e o anjo
da glória desdobrando as asas cândidas lhe cobriu o semblante
- que desbotara a morte.
Que importa! Morrerá por ventura o gênio que ilumina a terra? Álvares
de Azevedo pertence a essa raça de homens, que vivem sempre nas páginas
imorredouras da história.
A sua perda [diz o Sr. Lopes de Mendonça] é daquelas que se devem deplorar, como um funesto acontecimento para a situação e o progresso das letras. Era um talento inovador, que não limitaria a sua ambição a percorrer as veredas desconhecida, que alcançaria novos horizontes, impelido pelo fogo da sua inspiração e também pela madureza de seus estudos.
Há vocações que reproduzem os prodígios das sibilas antigas. Profetizam involuntariamente sobre a trípode, e deixam-se arrastar pelo entusiasmo de suas próprias palavras. O jovem poeta não cantava, somente para que as turbas se deixassem comover pela harmonia dos seus contos; cantava porque lhe ardia no peito um fogo devorador, porque a sua alma ébria e palpitante, lhe acendia a imaginação, e como lhe intimava que traduzisse aos outros a magia dos seus sonhos, o fervor dos seus desejos, o esplêndido irradiar da sua esperança.
III
Digamos algumas palavras a respeito do escritos, e
deixando de parte tudo quanto se tem escrito neste tempo,
amos emitir nossas próprias reflexões.
Não é um artigo de crítica o que fazemos aí; não
vamos tão longe, que cansaremos no caminho; o que escrevemos são
puramente nossas impressões e não nos peçam mais que isto.
Álvares de Azevedo pertence a essa escola romântica, em que avultam
as figuras gigantescas de Shakespeare, e Byron e Lamartine.
Estudando-os a todos esses grandes mestres - seu estilo possui essa grandeza
máscula de idéias, essa elevação de pensamentos,
essa beleza de frase, que causam arrebatamento e prazer.
Lendo muito o Byron, demasiado talvez, vemos nele, em seus pensamentos, em
suas imagens, esse delírio febricitante, esse arroubo de idéias,
esses rasgos apaixonados, frenéticos e violentos, que caracterizam o
autor de Don Juan.
Como é belo esse estilo fácil e natural que o caracteriza: e
que grandeza nos pensamentos, que elevação na frase, que de inspirações
brilhantes de sensibilidade e de imaginação! Ora semelha o gemido
dolorido, a explosão da dor nas profundidades do peito, e depois prorrompe
em uma gargalhada estridente, frenética que coalha o sangue e eriça
os cabelos.
O estilo de Álvares de Azevedo, na poesia além de original, é fácil,
natural, ameno, deslizando-se suave, sem afetação e sem esforço.
Nem sempre escoimado de galicismos, ele o é porém desse purismo
ridículo de muitos que querendo à risca seguir os conselhos de
Filinto Elísio caem no excesso contrário. Não há aí esse
estudo forçado de frase, esse estilo imensamente castigado e tão
castigado e tão limado, que à força de escovadelas perde
aquele brilho, aquele colorido, aquele aveludado brilhante, aquele perfume
balsâmico, enfim, - como tantos exemplos e de bem acreditados escritores
poderíamos apresentar.
Defeitos tem-nos ele por certo, mas inteiramente provenientes da sofreguidão
com que escrevia, do pouco tempo que teve para limar e polir o que lhe saíra
da fronte escaldada - nessas noites de delírio e de vigílias.
Há somente a natureza, somente o lampejo fulgurante do gênio;
aquilo que a arte podia fazer, o que competia à reflexão - não
lhe deu tempo a voz do arcanjo ao extermínio.
Mas como belo é mesmo assim em seus defeitos! Como agrada aquele deleixo,
aquele abandono, que as vezes se lhe nota no estilo! Como cala aquela suprema
poesia, que transpira de suas palavras, quando canta - ou a mulher que o inspira,
ou as flores dos campos, o canto das aves, o vento do céu, o ciciar
da brisa, o silêncio da noite e a luz pálida e desmaiada da lua!
Como sabia dizer tão bem as afecções do peito, as emoções
sentidas d'alma!
Cultivando com gosto e felicidade a musa joco-séria, ainda não
pôde até agora ter muitos imitadores.
Muitos tem tentado semelhante tarefa, mas os resultados pálidos e frios
de seus tentamens, têm-nos feito recuar desanimados. Aquele belo espécime,
a que denominou de - "Spleen e charutos" - tem atraído a atenção
de todos e os esforços de muitos, mas até agora ninguém,
que o saibamos, tem chegado à altura a que ele subiu naquelas jocosas
e a espontaneidade, a idéia e a linguagem, o sentimento e o vigor, que
possuía Álvares de Azevedo.
Na prosa é seu estilo pomposo, colorido, cheio de rasgos e de lampejos,
como traços cintilantes de luz no meio do espaço e algumas de
suas produções são verdadeiros poemas - não metrificados.
Imaginação de fogo era às vezes demasiado arrojado em
suas idéias e em suas opiniões. Para prova aí estão
algumas de suas poesias.
Cremos que se o poeta vivesse e tentasse dar-lhes a luz da publicidade, certo
que lhes modificaria, não o estilo, que é belo e grandioso, mas
o arrojo do pensamento, o arrojo das idéias.
Temos terminado esta desalinhada introdução; mas, como dissemos
não foi nosso fim fazer um artigo crítico-literário; escrevemos
o que sentimos e nada mais.
Em nosso coração de moço, que não descrê do
futuro desta terra tão bela, tão bem falada, erguemos culto santo à memória
de Álvares de Azevedo. Sentíamos necessidade de alguma cousa
dizer e escrevemos.
Que nos desculpem, pois, os críticos; quanto aos outros - cremos que
nos compreenderão.
Rio de Janeiro, 12 de março de 1861