Eu estremeci, quase gritei, mas acabei rindo sozinha. Fora apenas um daqueles momentos de calafrios psicológicos que as pessoas atravessam: Nem mais, nem menos. Uma fuga momentânea da realidade. Eles aconteciam: era tudo. Lembram daquele conto de Natal? O que tio Scrooge dissera ao fantasma de Jacob Marley? `Talvez você não seja mais que um pedaço de carne mal cozido dentro de mim. Antes um problema de digestão do que uma ressurreição`. o escritor Charles Dickens tinha razão: Fantasmas não existem. Que tolinha! Nesta época, eu ainda não sabia que a racionalidade humana não passa de um fino verniz.
Quando abri a janela do quarto, vi uma linha de pegadas na neve, indo até a portinhola externa do porão. As pegadas não eram de homem, nem de mulher. Tinham sido impressas por cascos fendidos - como de uma criatura bestial.
Nesta época, eu ainda não viera ao Brazil (falarei sobre meu exílio voluntário em outra ocasião; por hora, direi que, entre as razões da minha escolha, está ser este um país de população jovem e vigorosa, quente e líquida, ah, cores vivas, sobretudo o vermelho, a nossa cor preferida). Morava em Monsom´s Creek, uma cidadezinha abafada entre morros velhos e cansados da Nova Inglatera, próxima a cidadelas como Alfred, Deadwood, Dodge City, e Woolwich, na orla da Grande Floresta do Big Injun, no extremo norte do Lago Kashwakamak - a área conhecida como Baía Notch. Um dos últimos refúgios dos índios Micmac e antro de famílias milenares como os Kleinwachter, Stormvikings, Aroonstoock, Bryllocream e Arckhimbourghs.
Todos sempre acham que tudo que é relacionado a nosferati, fantasmas, almas penadas, etc; sempre se encontra em lugarejos perdidos no meio do mato, esperando alguém chegar para que se possa atacar. Isso são coisas de filme e imaginação de escritores. Eu, por exemplo, sou uma não-morta totalmente urbana. Nada melhor que se sair pela cidade à noite, se você se encontra em um lugar perdido no meio do nada, onde dê para apreciar a lua. A cidade grande é meu habitat natural, apesar de o medo dominar todo mundo, pois a violência é geral. Mas sair na night, nem que seja só para bater-papo, é muito desestressante. E, nestes momentos, posso, às vezes, colocar minha verdadeira identidade em prática; afinal, ninguém está muito preocupado com nada mesmo: só querem relaxar. Em algumas ocasiões, até consegui me fartar de nosso alimento líquido primodial, vermelho e fresco, embora com um leve teor alcoólico, malditos bebuns! Sempre é bom. O melhor lugar é sempre o centro velho de uma cidade, pois lá estão as grandes aglomerações de gente, principalmente nos encontros noturnos da galera. É ali que, quase sempre, se satisfazem as pretensões de uma não-morta.
Este é 'O Planeta da Keila': De dia: dog-days, canícula, calor intenso. Ao entardecer, ocultos na mata, cantavam os bacuraus. Grilos trilavam por toda parte. As noites eram densas, cegas e malcheirosas. Eu ainda não sabia, mas 'eles' estavam nas ruas: Os mortos ambulantes.
Ah, eu não sabia de nada, quando as coisas realmente começaram a acontecer, como no Dia do Porão.
Inocentemente, eu lia um daqueles velhos livros da biblioteca renegada de meu tataravô Lovecraft Philbrooks. 'Jerusalem´s Lot', daquele sujeito hirsuto lá de Bangor, no Maine. Meus pais não aprovavam estas estórias cheias de monstros de faz-de-conta e uma montoeira de palavras indecentes. Eles diziam que os escritores bebem como gambás e só se interessam em perverter mocinhas (não sei até que ponto me perverteram, mas certamente me influenciaram; perdoem, assim, uma certa pieguice antiquada no meu estilo). Os Antigos diriam que leituras tão horríveis e fantásticas não são saudáveis para antes de dormir. Para dizer o mínimo, não inspiram bons sonhos. Talvez estejam mesmo certos. Quem sabe? Mas eu não me considero especiamente susceptível ou assutadiça. Longe disto. Tanto que logo adormeci e, se acordei, embora abruptamente, com certeza não foram por causa dos sonhos.
No porão, a porta de madeira rangeu, solta como um dente velho numa gengiva podre.
Um dos meus filmes preferidos é Alien3, de David Linch, com sua atmosfera sombria, desesperante. Aqueles tons pesados de sépia, um mundo todo cinzento. Há uma cena em que a protagonista Ripley (uma versão sci-fi de Joana Darc, se querem saber minha opinião) diz sobre o alienígena (comparado, por sua vez, ao Dragão do Apocalipse´): 'Ela está no porão'. Mas o filme passa-se todo numa velha penitenciária, e, de certa forma, todo o local é mesmo um maldito e imundo porão. Assim, ela se refere, de forma, ao nosso subconsciente (uma pitadinha de Freud, para deixare algumas pessoas felizes; mas os Antigos já sabiam que pode haver uma água muito envenenada - ou muito podre - no fundo dos poços de cada umd e nós).
Porão das Raízes. Assim, minha avó HollyKoimbra Yastrisemmisky, uma curandeira velhaca, chamava a antiga adega de meu avõ Jules 'Pink Floyd' LaVerne, um famoso historiador em sua época. Mas os preciosos bourbons e cervejas Pabst a muito haviam explodido ou simplesmente desaparecido, e nos velhos alvéolos só restavam sedosas teias de aranhas e ninhos de outros bichos imundos (assim eu os considerava na época... risos).
O porão cheirava a estuque úmido e papel de parede apodrecido. Provavelmente camundongos andavam dentro. E havia outras coisas vivas no porão, de onde vinha um cheiro amarelo e úmido. Por toda parte, havia montes de tranqueiras da loja 'Junkie-A-Toryum' do meu tio Ozzy. Enormes caixa de farinha de aveia Quaker embolorada. Antigos barris de tripas de porco ainda fedendo. Antigas gravuras e caricaturas de Graham Wilson, em molduras esdrúxulas. Velha cômoda estilo Hepplewhite. Um prendedor de gravatas VFW, dos Veteranos na Guerra no Exterior. Também havia pilhas de revistas The Saturday Evening Post dos anos 30, com suas gravuras de Norman Rockwell e
Keilinha, alguém está enterrado no Porão.
enormes livros velhos e mofados. Provavelmente havia entre eles alfarrábios preciosos, relíquias de sebos, como A Aldeia Sagrada, e outros livros da coleção Taquara Poca, do Frisco Marins, entre exemplares do "Livro de São Cipriano", ou da "Capa Preta". E, segundo uma lenda da familia Bauhütte, uma edição do abominável Necronomikon (Libro de los Muertos), do árabe louco Abdul Al Khayr Strondeiam. Segundo o estudioso Jim Fitzgeraldo/Peladán Qevedo y Saavedras: 'El titulo original, 'Al Azif' es una palabra que designa un ruido nocturno...'
Ainda não acredito no sobrenatural. Sou uma garota intimorata e, de outra forma, não teria descido ao Porão. As tábuas rangeram desagradavelmente sob meus pés descalços e
Alguma coisa parece estar arranhando as paredes do Porão das Raízes, como se te chamasse.
abri a porta. O som de um alçapão de patíbulo se abrindo. O vento encanado causou um arrepio no meu corpo quase nu, mal protegido por uma prosaica camisolinha de seda. O ar estava abafado e
Quero sair. Aqui os fantasmas estão muitos animados e quero sair.
insalubre, seco e acre como um bafo de podridão antiga. Um cheiro doce e enjoativo, um azedo decomposto, loucamente fermentado. Enfim, havia no Porão uma aura de maldade velha. Um sopro psiquíco de túmulos. Eu senti novamente aquela 'coisa-ruim', enquanto respirava o ar viciado de coisas velhas e...
Ele está vivo, está faminto, e quer te comer!
escutava os chiados empestados das ratazanas. Como se, ao abrir aquela porta eu tivesse finalmente libertado alguma coisa que deveria ter ficado presa. - e, ao fazê-lo, me amaldiçoado.
E, então, eu vi a coisa. Uma criatura ignota, saltando e fugindo, desajeitada e arrasada, com se fosse um repelente saco cheio de ossos secos e alvacentos, não-humanos. E ouvi uma risadinha sarcástica, que liquefez as minhas tripas e fez minha pernas bambearem com um tremor gelatinoso. Um singular risinho cacarejado e agudo, doce e perverso. Como se fosse uma criança ensandecida.
E, depois, um sussurrante som......