O MESTRE

PARTE 4
Não foi Carlyle quem disse que, se o homem destronar Deus de seu coração, então Satanás assumirá a posição? - dizia Lester SIlvius, com sua ironia costumeira. Para ele, a raça humana era como gado.

Mesmo quando eu ainda estava viva, uma das coisas que eu curtia era sair à noite: A lua me inspira e o escuro me fascina. Como eu disse antes, qualquer lugar é bom para ir quando o sol já se pôs.
E, assim, eu ficava fora de casa até altas horas. Inevitavelmente, associei-me aos poucos a companhias pouco aconselháveis. Conhecem a estórias dos sapos? Um sapo que seja jogado num recipiente com água já fervendo, salta imediatamente para fora, meio chamuscado. No entanto, outro sapo, colocado no mesmo recipiente, com água de sua lagoa, na temperatura ambiente, fica estático durante todo o tempo em que aquecemos a água, mesmo que ela ferva. Ele morre inchado e feliz.
Às vezes, somos sapos fervidos. Não percebemos as mudanças. Achamos que está tudo muito bom, ou que o Mal vai passar - é só questão de tempo. Creio que foi isso que aconteceu comigo. Pois de repente, eu estava levando uma vida dissipada e meus maiores companheiros eram mesmo os vícios e as ações inomináveis.
Assim, eu era uma presa fácil para qualquer Mal maior. Poderia ter sido qualquer um - euzinha era um convite para marinheiros, ladrões, maníacos, estupradores, loucos, cães raivosos, lâmias...
A lâmia, para quem nâo sabe, é uma criatura originária da Roma e Grécia antiga. São exclusivamente fêmeas, sendo geralmente metade humana, metade animal (quase sempre uma cobra, e sempre na parte inferior do corpo). Elas comem a carne de suas vítimas assim como bebem seu sangue. Podem, no entanto, ser atacadas e destruídas com armas normais. Talvez por isso, preferem atacar em bando e, às vezes, são acompanhadas pelos cretas Kathakanos, que só podem ser mortos se forem decaptados e a cabeça fervida em vinagre, ou pelos romanos Strigoiuls, que só podem ser destruídos se for posto alho em sua boca - ou removendo-se o coração.
Como podem ver, o Mal tem muitas formas. A criatura que me atacou não foi uma lâmia. Mas foi a pior de todas. Por ironia, na Grande Noite em que fui convertida, eu não estava farreando como sempre, mas retornando do cinema (sentia que, entre as latas de lixo, olhos me espiavam. Tolice, claro, mas a idéia era poderosíssima). Cinema é outro dos meus interesses inusitados (e que ainda hoje me fazem sentir viva).
O cinema é ótimo não só pelo filme, mas também pelo clima. Há algo de religioso em estar numa sala de projeção silenciosa e escura. Sim, lá estará sempre escuro - como uma noite incubada dentro do dia. Gosto mais do gênero terror e ação com romance. Meus filmes prediletos, entre tantos, são: Pânico, Velocidade Máxima, Missão Impossível, Entrevista com o Nosferatu, A Volta dos Mortos-vivos, Onze homens e um Segredo, Dracula 2000 e Halloween. Destaque para a Halloween e A Volta dos Mortos-Vivos. Aliás, uma cena ótima dos Mortos-Vivos é quando várias pessoas que chegaram no lugarejo (lembro que há um cemitério afastado, de impressionante beleza plástica, onde as pessoas vão velar como se fossem a uma festa) já estão presas no porão, pois o mortos-vivos estão soltos (eles sempre estão soltos). Quando um destes consegue derrubar a porta, é um desespero total, uma suruba do terror. Eu me identifico com esse filme. Mas claro que ainda não saio atacando ninguém por aí. De certa forma, sou uma pessoa comum como outra qualquer. Pelo menos, gosto de acreditar que sim.
Outro filme ótimo e que já teve várias seqüências ótimas, e acho que logo terá mais algumas, é o Halloween. É a estória do terrível e temido Marcos Myer. Ele pretende matar sua irmã (afinal, no passado, ele já matou toda a família e só falta ela). Usa uma máscara engraçada e sempre volta no dia das bruxas.
Mas voltemos à minha estória!
Naquele noite, eu tinha assistido O Pacto dos Lobos. Ainda hoje penso numa floresta misteriosa, úmida e ardente. Aquelas matas eram ermas, e ainda eram consideradas assombradas. Há cerca de cem anos, por ali escondia-se um monstro que mutilava crianças e mocinhas. Era conhecido como A Besta. Um enviando de Paris, junto com seu amigo índio, descobriu que tratava-se apenas de um exótico animal africano, com uma armadura, e treinado por uma seita de fanáticos fundamentalistas cristãos. A Besta era uma mensagem ao Rei, contra os avanços do iluminismo: A Besta era um símbolo da Fé.
Naquela noite chuvosa, após uma primavera quente e radiosa, sem saber eu tinha visto meu último por de sol - antes que as sombras começassem a se espessar e se assenhorar dos becos da cidade como uma oleosa tinta maligna.
Ele me esperou oculto numa moita de eloendros. Lasher 'Slowfoot' Silviusscarborough, Conde de Old Woodsman`s Hill, 'the Saladmaster Yarmyouth'. Ou, simplesmente, Lester Silvius. Era um nosferatu e, há séculos, dedicava-se aos ofícios pervertidos e secretos de Androscoggin, o Criador dos Criadores, auxiliado por Crockette Broo, seu animalesco servo dipsomaníaco (eu nunca gostei do servo, devido àqueles olhos tão esbugalhados que mais pareciam ovos cozidos; parecia um tarado). A possessão de Leste não era cristã, em absoluto. O bem era mais elementar - e menos refinado. Era como um minério lançado na terra crua em pedaços nus. Não havia um nome para aquilo. Era a Força, o Poder. Era o que move as maiores rodas do universo.
Os Nosferati são os reis entre os predadores não-humanos. No civilizado ocidente, há três variedades bem conhecidas no 'nosso meio': Os Krvopijac são nosferati búlgaros e também são conhecidos como Obours. Eles até que parecem normais, até que se repare que têm apenas uma narina e uma língua longa e pontiaguda. Podem ser imobilizados se colocadas rosas em seus sepulcros e podem ser destruídos se conjurada uma palavra mágica numa garrafa (Klaatu barada nictu!!!, acho eu) e a mesma atirada numa fogueira. Os Vlokoslak são nosferati sérvios, também chamados de Mulos. Eles normalmente aparentam-se com janotas trajados de branco; tão diurnos quanto noturnos, podem assumir a forma de um cavalo ou de uma ovelha. Comem suas vítimas assim como bebem seu sangue. Podem ser destruídos se decepados os dedos dos pés, ou com um prego transpassado no pescoço (considero as duas opções bem desagradáveis!). O célebre conde Vladimir, ou Vlad, o Empalador, injustamente mitologizado no romance do senhor Bram Stocker, era um tipo de Vlokoslak. Os Upierczi - raça à qual pertencia meu mestre, Lester Silvius - são nosferati que têm origem na Polônia e na Russia e também são chamados de Viesczy. Ficam ativos a partir da meia noite e só podem ser destruídos por fogo extremo. Quando incendiados, seu corpo irá explodir, dando origem à centenas de pequenos e repugnantes animais (larvas, ratos, ugh!). Se algumas dessas criaturas escapar, então o espírito do Upierczi escapará também, e retornará para reclamar vingança. Os antepassados dos Upierczi são os mitológicos Ekiminu, malígnos espíritos assírios (metade fantasma, metade nosferatu), causados por um sepultamento impróprio. Eles são naturalmente invisíveis e são capazes de possuir humanos. Podem ser destruídos sendo usado armas de madeira, ou por exorcismo. Os Upierczi são também os nosferati mais esnobes, desprezando os africanos Asanbosam, que possuem cascos ao invés de pés e tendem a morder suas vítimas no polegar, os indianos Baital, metade homem, metade morcego, tendo mais ou menos um metro e meio de altura, e os chineses Ch'Iang Shih. Estas criaturas exóticas são criadas se um gato pular sobre o corpo de um cadáver. Eles se levantarão para a vida e podem matar com um bafo venenoso além de poderem drenar o sangue. Se um Ch'Iang Shih encontra uma pilha de arroz, ele tem que contar os grãos antes de passar. Sua forma imaterial é uma esfera de luz.
Como todo Upierczi, Lester possuía um nojento ferrão sob a língua, ao invés das presas tradicionais. Aliás, apesar de todos seus esforçados disfarces, restava pouca coisa de humano em Lester. Os músculos abaixo da pele semitransparente (ele a cobria de pancake) eram longos, encordoados, cinzentos. Os pés eram estreitos, não dispondo precisamente de artelhos. Em vez disto, cada pé encurvava-se numa garra única, espessa e quitinosa, como o esporão de um pássaro. Um pássaro que tivesse o tamanho de um abutre gigantesco. Ou melhor, um carnavalesco urubu-rei (Sarcoramphus papa).
Uma outra palavra sobre meu mestre: Era um velho.
Um velho pedófilo - e boylover empedernido - que fazia dos sonhos dos jovens a sua proteína (Há quanto tempo, a quantos anos, o imoral Lester vinha me observando? Nunca saberei). Um velho, sim, velho, velho como a Macedônia. Mas movia-se com calma desnaturada e glacial, com uma graça e agilidade incomum nos velhos de sua idade grotesca, que parecem costituídos de pelancas e crostas de feridas (Lester dirigia um velho Mercury Colgar 351 rosa e dourado, uma banheira que nunca passava despercebida). Nada disto, Lester era um senhor de aspecto respeitável e efeminado. Os cabelos pesados de laquê, restos de maquilagem barata no rosto, batom nos lábios pálidos, cílios longos, e as mãos...! Tinha mãos pálidas e delicadas, aristocráticas, com dedos extraordinariamente longos. Bem cuidadas, unhas pintadas com base, e descreviam exuberantes arranjos florais enquanto ele falava, com aquela voz que parecia velha e enferrujada em sua garganta. A pele era, como eu disse, clara, quase translúcida, as feições que um dia foram aquilinas, hoje eram quase femininas, como uma velha feiticeira. Impossível não lembrar de um velho álbum de Rock'n' Roll, com a foto de um travesti na capa, o perfil contra um fundo negro ceio de lápides, o rosto dúbio sangrando com ruge e pinturas. E o título: "Eles só saem à noite".
Em suma, Lester Silvius era uma bicha velha, um Lestat dos trópicos, que inspiraria a composição do personagem do professor Molina Troncoso, em 'O Caminhante', de Dédalo Vandalbrain. Ele vestia shorts e lederhosen alpinos, mas parecia uma boneca-dama de Effanbee.
No entanto, embora usasse os mais caros perfumes, seu 'corpo' desprendia um aroma empoeirado e malévolo. E seus olhos pareciam buracos feitos por algum cigano, e preenchidos com toda a crueldade da face da Terra, quando seu sorriso virou uma careta tenebrosa e ele se preparou para fazer uma coisa feia comigo.
Os livros (Teoria Geral da Administração, do Chiavenatto, Administração, Conceitos e Aplicações, de Megginsley, Mosley e Pietri) caíram dos meus braços. Era como ver algo acontecer num filme e, com repugnado horror, aspirei um pó branco e seco como ração de ossos. E, de repente, o suor quente de minhas faces tornou-se gelado. Um terror escuro e entorpecedor pareceu estar invadindo-me as veias geladas, como uma nova substância: um líquido espesso, fétido, orgânico. Líquidos sons envolventes e aquele cheiro... e outro som. Algo vago e gorgolejante uivo de um mondrongo mal alimentado e sem sorte afogando-se.
Ao chegar em casa, no meu estômago havia uma náusea redemoinhante. Minha cabeça doía e latejava. Uma dor imprecisa corroía minhas têmporas. Minha cabeça se dividia, como se alguma costura apodrecida tivesse se rompido.
Eu queria gritar, porém desta vez não havia ar em meus pulmões.



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